O homem que chegou aos quarenta anos imaginou loucamente o umbigo a dilatar. Imaginou que o umbigo abria muito e que a barriga toda se começara a levantar e a revolver. Tombou sobre si mesmo e achou que sentia o corpo como dividindo-se. Achou que talvez dividisse o corpo por ter dentro de si uma vontade múltipla, um desejo de ser mais do que um só. A solidão podia transformar os homens em seres quase de fantasia por lhes mexer na cabeça e obrigar o coração a legitimar como verdadeira a mais pura ilusão. Os filhos, pensava ele, são modos de estender o corpo e aquilo a que se vai chamando alma. São como continuarmos por onde já não estamos e estarmos, passarmos a estar verdadeiramente, porque ansiamos e sofremos mais pelos filhos do que por nós próprios, assim como nos reconfortam mais as alegrias deles do que a satisfação que directamente auferimos. Por isso temos gula pelos filhos, uma gula do tamanho dos absurdos, sempre começada, sempre incontrolável. E queremos tudo dos filhos como se nunca nos bastassem, nunca nos cansassem porque, ainda que nos cansemos, estamos incondicionalmente dispostos a continuar, uma e outra vez até que seja o corpo extenuado a desistir, mas nunca o nosso ímpeto, nunca o nosso espírito. Até porque desistir de um filho seria como desistir do melhor de nós próprios. Cada filho somos nós no melhor que temos para dar. No melhor que temos para ser. O homem que chegou aos quarenta anos deitava-se como louco a pensar que falhar nos amores não podia impedir a divisão, porque vivia dividido. Havia dentro de si, maduro, um amor pronto para entrega, um tesouro pertença de alguém que já não ele, e alguém teria de vir para o tomar. Chamava-se Crisóstomo.

O Crisóstomo pensava que o corpo dos homens estava condenado a uma tristeza maior, como se fosse o corpo fraco da humanidade, o corpo menor. O corpo triste. Pensava que a pele deveria ser mais terra, e sonhava com fazer nascer árvores no peito e flores pelos braços e ter rios a correr por sob as pernas e entornar nas coxas giestas fartas e um milheiral inteiro. Sonhava que atirava sementes de girassol sobre si e que se pacientava durante uma estação até ver como todo ele procurava o sol, florescendo como um lugar onde a vida se vinha fazer nascer. Sonhava que haviam de ser perfeitas as mulheres por serem escolhidas para a maternidade, a construírem pessoas dentro de si. As mulheres construíam as pessoas meticulosamente, sem sequer olharem ou se preocuparem demasiado com isso. Construíam-lhes cada osso, cada veia e cada fio de cabelo. E depois abanavam-se e provocavam o embalo das águas interiores que suavemente desenhavam os dedos das pessoas a construir. O Crisóstomo pensava que as mulheres assinavam cada filho. Assinavam na pele de cada filho, nunca repetindo entre elas os códigos com que para sempre distinguiam, uma a uma, as pessoas que construíam. O Crisóstomo pensava que a construção acontecia como no mar profundo e que as mulheres eram profundas e os filhos seres de água. Ele sonhava que sob o barco vogavam na água escura da noite milhões de filhos enroscados sobre si mesmos à espera do milagre do chamamento das mulheres. Sonhava que os peixes passavam pelos filhos e os adoravam como deuses, não entendendo que eram apenas gente. Os peixes, como os pais, nunca entenderiam que os filhos eram apenas gente. Pescar deuses, pensava. O Crisóstomo sonhava que deitava a rede e que ao subi-la poderia trazer um filho para dentro da sua barriga. Como se um deus ali aparecesse por eterna generosidade. Imaginava que teria de fazer a rede afundar muito, passar bem para longe das primeiras camadas do mar para chegar depois ao recôndito secreto onde vogavam. E afundava mais e mais as redes, pesando-as com chumbos e dando-lhes corda e mais corda, até que lhe parecesse abraçarem o impossível. Que bom seria se uma rede laçasse ao menos um, apenas um desses nascituros deuses.

Aos quarenta anos, o Crisóstomo deitou-se sobre a areia e inventou que estava ligado a todas as pequenas e grandes coisas do mundo, como se lhes pertencesse por igual e cada pedaço de matéria fosse uma extensão longínqua de si. Ia do centro do seu peito aos pinheiros ao fundo, ia do centro do seu peito à rocha despontando no meio do mar, ia do centro do seu peito até ao telhado de cada casa. Se pensasse em mexer um dedo, pensando maior como se fosse também muito maior, tinha a sensação de estremecer os ramos todos dos pinheiros. Se pensasse em bulir os pés, pensando maior como se fosse também muito maior, agitaria o rochedo no meio do mar. Se pensasse em abanar com a cabeça, pensando maior como se fosse também muito maior, poderia levantar os telhados às casas como chapéus num cumprimento qualquer. O Crisóstomo, fantasiando como sabia, sabia tudo.

Depois, imaginou que, de tão levantada, a barriga deixava que o umbigo se abrisse, e que o mar inteiro se punha a voar por sobre a sua cabeça entornando deuses nos seus braços e, quanto mais os estendesse e maiores eles se tornassem, mais deuses ali pousariam até que o Crisóstomo, como por boca de ouro, pronunciasse sonoramente a mais absoluta felicidade.

Um a um, abria-lhes a caixa do peito e ajeitava lá dentro um coração. Tinha dito ao coração as palavras mais importantes de não esquecer. Ao fechar-lhes a caixa do peito, sossegados, os deuses adormeciam e sonhavam também com o Crisóstomo e assim estariam para sempre num sentimento recíproco, fundador. Todos os filhos aprendiam por natureza o amor.

Não era por isso nada louco que fosse de rua em rua à procura de uma criança que estivesse perdida ou invisível aos olhos dos outros. Para um homem com tão grande vontade, ou corpo ampliado, perguntar por uma criança abandonada não era nada, não era sequer estranho, inusitado, disparatado. Pensava que o estranho seria que as crianças pudessem ser deuses e que os adultos as desperdiçassem como se um deus verdadeiro pudesse ser de desperdiçar. Aos quarenta anos, nunca o permitiria. Era tarde de mais para o permitir outra vez. Disse-o a tanta gente que talvez tenha ensinado muita gente a imaginar. A perscrutar as águas. A pressentir como tudo se cerca de milagres. Como podem os mares sobrevoar num sonho.

Em poucos dias, todos o conheciam na vila. Era o pescador de filhos. Diziam que andava pelas casas à pesca de filhos e alguns, para brincarem com ele ou para o magoarem, mandavam-no ao mar, que um pescador era bicho para a água e lá era que havia peixe. Passava com um sorriso ansioso e nada haveria de o demover. Talvez fosse que o Crisóstomo tivesse lucidamente descortinado o seu destino, talvez fosse que não admitisse sequer dúvidas acerca disso e estivesse a caminho, como por passo agreste, sem hesitar, convicto de que apenas um poderia ser o resultado. Por outro lado, algumas pessoas apiedavam-se dele e quase lhe punham amor. Enternecidas com o seu carinho, uma generosidade toda exposta, diziam-lhe as mais belas palavras, abraçavam-no, ofereciam-lhe chá e perguntavam-lhe o nome e de que casa era e juravam que lá bateriam à porta se soubessem de alguém. Uma mulher disse-lhe, por elogio, que ele vinha de um conto de fadas, era como um príncipe pescador que imperava sobre os mares e que não tinha descendência a quem os deixar. E ele riu-se muito, porque o mar era para toda a gente e ninguém haveria de o guardar só para si, e ele não imperava sobre coisa nenhuma e não daria de herança mais do que uma casa pintada de azul. E ela serviu um pouco mais de chá e achou o Crisóstomo delicado, feito de uma virilidade equilibrada pelos sentimentos mais humanos. A mulher disse: quem tanto pede o que lhe pertence assim o mundo convence. Ele saiu, voltou ao seu canto e esperou. Alguma melhor ideia teria de surgir. Algum sinal de que o seu instinto sabia o que estava a fazer. Aos quarenta anos, o Crisóstomo, com o seu inusitado entusiasmo, mudou o mundo.