Imre Kertész (1929-), Prêmio Nobel de Literatura em 2002, mergulhou pela primeira vez no submundo de horror dos regimes totalitários quando tinha apenas 14 anos. Procedente de uma família burguesa assimilada à cultura húngara, em 1944 foi aprisionado pelos nazistas por causa de sua origem judaica, na Budapeste natal. Deportado para o campo de concentração, trabalhos forçados e extermínio de Auschwitz, e de lá para Buchenwald, conheceu em sua primeira juventude o horror em grau absoluto, testemunhando o suplício de milhares de seus companheiros de infortúnio e chegando, ele mesmo, muito perto da morte. Salvou-se graças a um acaso, quando já perdera todo o desejo de viver. Liberto por soldados soviéticos, retornou à sua cidade para descobrir que o pai fora morto durante a guerra e que muitos de seus parentes haviam desaparecido sem deixar rastros.
Do conjunto de sua obra literária, as produções mais conhecidas são os romances parcialmente autobiográficos Sem destino, O fiasco e Kadish por uma criança não nascida¸ todos publicados no Brasil. Neles, Kertész percorre diferentes sendas em um grande trajeto reflexivo ao redor da tirania, da vida sob os totalitarismos do século xx e da desumanização e absoluta alienação do ser humano sob os regimes ditatoriais.
A transformação do ser humano em coisa, as aberrações psíquicas e mentais dos tiranos, a destruição espiritual e física causada pelo uso indiscriminado da violência são, portanto, pontos fulcrais da obra de Kertész. Essa temática resulta menos de uma eleição do que de uma compulsão em narrar o inenarrável, desde que estes temas o enredaram na juventude, e pela vida afora.
Se a matéria da literatura de Kertész são as aberrações construídas sobre o avesso dos valores cultivados pelo humanismo europeu, sobre o desvirtuamento dos valores do Iluminismo e sobre a corrupção de uma cultura fundada no respeito às liberdades e aos direitos individuais no século xx e em todos os continentes, ele apenas pôde libertar-se dessa temática quando, já no limiar da velhice, sua obra recebeu o devido reconhecimento no Ocidente, ao mesmo tempo em que o regime tirânico que governava sua Hungria natal, instaurado por Stálin no imediato pós-guerra, era deposto – sem que com isso fossem, porém, abolidas suas desastrosas decorrências de longo prazo.
A longa vivência sob o totalitarismo comunista, assim, somou-se à sua impronunciável experiência de sobreviver a um campo de concentração nazista. Como resultado, moldou as particularidades de um interesse literário que se volta (na mesma tradição centro-europeia inaugurada por Kafka) acerca do absurdo das sociedades modernas surgidas na esteira da Primeira Guerra Mundial.
Como ele mesmo afirma em seu prefácio à primeira edição estrangeira de História policial, a localização da narrativa no continente latino-americano serviu ao propósito de contornar as restrições da censura a que estavam sujeitas todas as publicações na Hungria comunista dos anos 1970. No entanto, ao leitor mais atento não escapará o fato de que tudo o que dizia respeito às arbitrariedades cometidas pelos poderes constituídos no país imaginário concebido por Kertész, subjugado a uma ditadura de direita, poderia aplicar-se também, consideradas as diferenças, às realidades das ditaduras comunistas da Europa Central e do Leste. Prisões arbitrárias, tortura, desaparecimentos, a necessidade de o aparelho repressivo produzir seguidamente novos acusados e novas vítimas – tudo isso é parte integrante do cotidiano nas ditaduras de todos os matizes, e em todas as partes do mundo. Daí a existência de um trágico universalismo neste e em outros romances de Kertész: há continuidade lógica entre os diversos territórios onde foram instauradas ditaduras, de esquerda ou de direita, de tal maneira que o Leste Europeu, a América Latina, a Ásia e a África se tornam diferentes faces de uma mesma continuidade, aquela do totalitarismo, que Kertész propõe-se a descrever.
Sob tais circunstâncias, a única filosofia de vida possível, conforme nos mostra Kertész nesta narrativa emblemática, é a do “não existencialismo”, isto é, a de conformar-se com uma vida inexistente, de maneira a sobreviver. Ainda que em grau evidentemente menor, isso representa a mesma estratégia de sobrevivência adotada pelo protagonista de Sem destino, o livro parcialmente autobiográfico de Kertész que trata da experiência dos que foram deportados, sob o nazismo, para os campos de concentração, trabalhos forçados e extermínio. Ao se conformarem às condições subumanas, mas não se identificarem com elas, restava-lhes alguma chance de preservar resquícios de sua identidade humana.
É a esse mesmo expediente que recorre Kertész para sobreviver e preservar de alguma maneira a sua integridade sob os meandros da opressão de um regime que o perseguia, em sua terra natal, por motivos raciais e políticos, depois de sua sobrevivência e de seu retorno, quando se tornou desafeto do regime comunista. É através do “não existir”, por assim dizer, que ele continuou existindo, assim como os personagens anônimos de que fala Enrique, o personagem de História policial, ao referir-se àqueles que “se acostumaram” a viver sob a ditadura, transformando-se num “museu de cera de pequenos-burgueses” (p. 39). “A vida”, diz ele, expressando uma ideia que talvez represente o pensamento do autor, “também é uma forma de suicídio: a desvantagem é que demora demais” (p. 43).
História policial transforma-se num suspense que conduz a profundezas cada vez mais abissais, onde a corrupção e o cinismo corrosivo contaminaram, como uma metástase, todo o corpo social, e onde já não se vislumbra mais qualquer possibilidade de redenção. Aproximamo-nos dos personagens desta narrativa através de um labiríntico jogo de espelhos que se refletem mutuamente e que aos poucos nos conduzem a um lugar de onde não se pode mais sair ileso: todos estão envolvidos no ciclo infernal da violência, em que não há mais leis, em que cada um pode apenas confiar em si mesmo. E a essa “engrenagem insaciável, ávida e eternamente faminta” (p. 104) dá-se um nome: destino.
O destino é esta mesma entidade que Kertész menciona nas páginas finais de Sem destino: “Se existe um destino, a liberdade não é possível, porém, se existe liberdade, não há destino – ou seja, nós mesmos somos o destino.”[2] “Continuo a viver minha vida impossível”, diz o protagonista do livro, “porque não há absurdo com o qual não seja possível viver com total naturalidade.”
Conforme o parecer da comissão julgadora do Prêmio Nobel, Kertész foi laureado por retratar “a frágil experiência do indivíduo contra a bárbara arbitrariedade da história”, enquanto sua mensagem é de que “viver é conformar-se. A capacidade dos cativos de lidar com Auschwitz é um dos resultados do mesmo princípio que se expressa na existência humana cotidiana”.
O “não existencialismo”, a cultura da resignação, reafirma-se em História policial como a única postura viável diante das arbitrariedades, sejam estas as da história construída pelos homens, sejam estas as de um destino impessoal e inexorável. Do existir sem existir, do ser sem ser, dessas questões basilares do homem em tempos de genocídios e de totalitarismo é que trata, em toda a sua extensão, a obra incisiva e lúcida deste que é um dos grandes narradores dos subterrâneos do século xx.