AMY ELLIOTT DUNNE

12 DE JULHO DE 2011

 

— ENTRADA DE DIÁRIO —

 

 

Sou tão idiota! Às vezes, olho para mim e penso: Não admira que Nick me ache ridícula, frívola, mimada, em comparação com a mãe dele. Maureen está a morrer. Esconde a doença atrás de grandes sorrisos e camisolas bordadas largas, respondendo a todas as perguntas acerca da sua saúde com: «Oh, estou bem, e tu como é que vais, querida?» Está a morrer, mas não vai admiti-lo, pelo menos para já. Por isso, ontem de manhã telefonou-me, a perguntar se eu queria ir numa excursão com ela e as amigas — está a ter um dia bom e quer sair de casa o mais possível — e eu concordei de imediato, embora soubesse que não iam fazer nada que me interessasse particularmente: pinocle, bridge, alguma atividade na igreja que, normalmente, requer a separação de coisas.

«Estamos aí dentro de quinze minutos», disse ela. «Vem de manga curta.»

Limpezas. Só podia ser isso. Alguma coisa que implicasse gordura até aos cotovelos. Visto uma camisa de manga curta e, dentro de exatamente quinze minutos, estou a abrir a porta a Maureen, de calva tapada por um gorro de lã, às risadinhas com as duas amigas. Todas trazem t-shirts idênticas, com aplicações, cheias de sinos e fitas, com as palavras The PlasMamas impressas no peito.

Fico a pensar que formaram um grupo de música popular. Mas, depois, entramos todas para o velho Chrysler de Rose — velho, mas velho, um daqueles em que o lugar da frente vai de um lado ao outro, um carro de avó que cheira a cigarros de senhora — e lá vamos alegremente para o centro de doação de plasma.

— Nós vamos às segundas e quintas — explica Rose, olhando-me pelo retrovisor.

— Oh — replico. Que resposta podia dar? Oh, esses dias são ótimos para o plasma!

— Podemos dar duas vezes por semana — diz Maureen, com os sininhos da sua camisola a tocarem. — Da primeira vez, recebemos vinte dólares, da segunda trinta. É por isso que hoje toda a gente está tão bem-disposta.

— Vais adorar — diz Vicky. — Toda a gente se senta a conversar, como num salão de beleza.

Maureen aperta-me o braço e diz baixinho:

— Eu já não posso dar, mas pensei que podias ser a minha representante. Pode ser uma maneira simpática de juntares dinheiro para os teus alfinetes — é bom uma rapariga ter algum dinheirinho seu.

Reprimo um rápido acesso de raiva: Eu costumava ter mais do que algum dinheirinho, mas dei-o ao seu filho.

Um homem escanzelado, com um blusão de ganga demasiado pequeno para ele, anda pelo parque de estacionamento como um cão perdido. Porém, lá dentro, o local é limpo. Bem iluminado, a cheirar a pinho, com pósteres cristãos pendurados na parede, cheios de pombas e bruma. Mas eu sei que não posso fazer aquilo. Agulhas. Sangue. Nenhuma das duas coisas. Não tenho outras fobias, mas estas duas são persistentes — sou aquela rapariga que desmaia com um corte de papel. Tem qualquer coisa a ver com abrir a pele: esfolar, cortar, perfurar. Durante as sessões de quimioterapia com Maureen, nunca olhava quando espetavam a agulha.

— Olá, Cayleese! — diz Maureen quando entramos, e uma mulher negra e pesada com um uniforme vagamente médico replica:

— Olá, Maureen! Como é que te sentes?

— Oh, bem, eu estou bem, mas... e tu?

— Há quanto tempo é que fazem isto? — pergunto.

— Já há algum tempo — diz Maureen. — Cayleese é a preferida de toda a gente, espeta a agulha com muita suavidade. O que sempre foi bom para mim, pois tenho veias difíceis. — Mostra-me o antebraço com as veias azuis fugidias. Quando conheci a Mo, ela era gorda, mas já não é. É estranho, mas fica com melhor aspeto quando está gorda. — Estás a ver? Experimenta pôr o dedo em cima de uma.

Olho à minha volta, na esperança de que Cayleese nos vá mandar entrar.

— Vá lá, experimenta.

Toco numa veia com a ponta do dedo e sinto-a a fugir debaixo dele. Sou tomada por uma onda de calor.

— Então é esta a nossa nova recruta? — pergunta Cayleese, que apareceu de repente ao meu lado. — A Maureen está sempre a gabá-la. Bem, precisamos que preencha alguma papelada...

— Lamento, mas não sou capaz. Não suporto agulhas, nem sangue. Tenho uma fobia grave. Não sou literalmente capaz de o fazer.

Dou-me conta que ainda não comi desde que me levantei e começo a sentir tonturas. Sinto o pescoço fraco.

— Isto aqui é tudo muito higiénico, está em boas mãos — diz Cayleese.

— Mas não é por isso, a sério! Eu nunca dei sangue. O meu médico zanga-se comigo porque nem sequer sou capaz de fazer uma análise anual ao sangue, para controlar o colesterol, por exemplo.

Assim, ficamos à espera. Vicky e Rose levam duas horas ligadas às máquinas, como se estivessem em plena época de colheitas. Até lhes puseram uma marca nos dedos, para não poderem dar mais de duas vezes por semana onde quer que seja — as marcas aparecem quando são submetidas a uma luz roxa.

— Essa é a parte James Bond — diz Vicky, e todas riem. Maureen trauteia o tema dos filmes de Bond (acho eu) e Rose imita uma arma com os dedos.

— Será que são capazes de não fazer tanto alarido, por uma vez que seja, suas galinhas velhas? — grita uma mulher de cabelos brancos quatro cadeiras mais abaixo. Inclina-se sobre os corpos reclinados de três homens untuosos — com tatuagens azul-esverdeadas nos braços, a barba por fazer, o tipo de homens que eu imaginava a doar plasma — e faz um aceno com o braço livre.

— Mary! Pensava que vinhas amanhã!

— E vinha, mas estou à espera do subsídio de desemprego há uma semana, e estava reduzida a uma caixa de cereais e a uma lata de milho cremoso!

Riem-se todas, como se o facto de estar à beira da inanição fosse divertido — esta cidade, por vezes, é demais, tão desesperada e tão em negação. Começo a sentir-me doente, com o som do sangue nas máquinas, as longas fitas de sangue em plástico que vão dos corpos até às máquinas, as pessoas a serem... como dizer? A serem arrendadas. Sangue em toda a parte para onde olho, à vista desarmada, onde não devia haver sangue. Profundo e escuro, quase roxo.

Levanto-me para ir à casa de banho, atiro água fria para o rosto. Dou dois passos e os meus ouvidos fecham-se, a minha visão estreita-se, sinto o bater do meu próprio coração, o meu próprio sangue, e ao cair digo:

— Oh, desculpem.

Pouco me lembro do percurso até casa. Maureen aconchega-me na cama, e deixa um copo de sumo de maçã e uma tigela de sopa ao lado da cama. Tentamos contactar Nick. Go diz que ele não está no Bar, e ele não atende o telemóvel.

O homem evaporou-se.

— Ele já era assim em miúdo, é um cavaleiro andante — diz Maureen. — A pior coisa que se podia fazer era fechá-lo de castigo no quarto. — Ela coloca uma toalhinha fresca na minha testa; o seu hálito tem um forte cheiro a aspirina. — O teu trabalho é descansar, está bem? Eu continuo a telefonar até conseguir trazer aquele rapaz para casa.

Quando Nick chega a casa, já estou a dormir. Acordo com ele a tomar um duche e olho para as horas: 11h04 da noite. Afinal, sempre devia ter ido para o Bar — ele gosta de tomar duche quando termina o turno, para tirar o cheiro a cerveja e a pipocas salgadas da pele. (É o que ele diz.)

Enfia-se na cama e quando me viro para ele com os olhos abertos, parece consternado por eu estar acordada.

— Andamos há horas a tentar encontrar-te — digo.

— O meu telefone ficou sem bateria. Desmaiaste?

— Pensava que tinhas dito que o telefone estava sem bateria...

Ele faz uma pausa, e eu sei que está prestes a mentir. A pior das sensações: quando temos de esperar e prepararmo-nos para a mentira. Nick é um homem à moda antiga, que precisa da sua liberdade e não gosta de dar explicações. É capaz de saber há uma semana que tem coisas combinadas com os amigos, e mesmo assim esperar até uma hora antes do jogo de póquer para me dizer descontraidamente: «Olha, estava a pensar ir jogar póquer com os rapazes esta noite, se não te importares», e deixar-me ser a má da fita, se eu tivesse feito outros planos. Nunca queremos ser o tipo de mulher que priva o marido de jogar póquer — não queremos ser a megera de rolos no cabelo e rolo da massa na mão. Por isso, engolimos o nosso desapontamento e dizemos que não há problema. Não creio que ele faça isto para ser mau, é só a maneira como foi educado. O pai dele levava sempre a sua avante e a mãe aturava-lhe tudo. Até se ter divorciado dele.

Ele começa com a sua mentira. Nem sequer o ouço.