Nova Iorque
30 de julho de 2014
Addie está rodeada de árvores.
O aroma a musgo do verão nos bosques.
O medo percorre-a, a certeza súbita, terrível, de que Luc quebrou as duas regras em vez de apenas uma, de que a arrastou pela escuridão, de que a arrebatou de Nova Iorque, de que a abandonou algures, longe, longe de casa.
Mas depois os olhos adaptam-se à escuridão e ela vira-se e vê o horizonte erguer-se acima das árvores e percebe que deve estar em Central Park.
É acometida por uma sensação de alívio.
E então a voz de Luc varre as trevas.
— Adeline, Adeline... — diz, e ela não consegue perceber o que é eco e o que é simplesmente ele, liberto de carne e osso e formas mortais.
— Prometeste — grita ela.
— Prometi?
Luc sai da escuridão, como naquela noite, moldando-se em fumo e sombra. Uma tempestade, engarrafada sob pele.
Sou o diabo ou as trevas?, perguntou-lhe uma vez. Sou um monstro ou um deus?
Já não traz o fato preto lustroso, mas apresenta-se como estava quando o invocou pela primeira vez, um estranho vestido com umas calças, uma túnica clara aberta no peito, o cabelo negro a formar caracóis junto às têmporas.
O sonho invocado tantos anos antes.
Mas uma coisa mudou. Não há triunfo nos seus olhos. A cor desapareceu deles, tão clara que ficaram quase cinzentos. E, embora nunca tenha visto aquele tom, imagina que seja de tristeza.
— Dar-te-ei o que desejas — diz ele. — Se fizeres uma coisa.
— O quê? — pergunta ela.
Luc estende a mão.
— Dança comigo — diz.
Há desejo na sua voz e perda, e ela pensa que talvez seja o fim, daquilo, deles. Um jogo que finalmente se desenrola até ao fim. Uma guerra sem vencedores.
E por isso aceita dançar.
Não há música, mas não importa.
Quando pega na mão dele, ouve a melodia, suave e relaxante, na cabeça. Não é propriamente uma canção, mas o som da floresta no verão, o restolhar firme do vento pelos campos. E ele puxa-a para mais perto, ouve um violino, baixo e lamentoso, ao longo do Sena. A mão dele desliza pela dela, e há o murmúrio regular da beira-mar. A sinfonia a retumbar por Munique. Addie encosta a cabeça no ombro dele e ouve a chuva a cair em Villon, a banda de metais a tocar no bar de Los Angeles e a reverberação do saxofone através das janelas abertas, em Bourbon Street.
A dança interrompe-se.
A música esmorece.
Uma lágrima desliza-lhe pelo rosto.
— Bastava libertares-me.
Luc suspira e levanta-lhe o queixo.
— Não podia.
— Por causa do pacto.
— Porque és minha.
Addie contorce-se, tentando libertar-se.
— Nunca fui tua, Luc — diz, virando-lhe costas. — Nem no bosque, naquela noite. Nem quando me levaste para a cama. Foste tu que disseste que era apenas um jogo.
— Menti. — As palavras como uma faca. — Tu amavas-me — diz ele. — E eu amava-te.
— E, no entanto — diz ela —, só vieste à minha procura quando encontrei outra pessoa.
Addie vira-se para ele, esperando ver os olhos ficar amarelos de inveja. Mas, em vez disso, assumiram uma tonalidade verde-relva, arrogante, refletido pela expressão do seu rosto, o arquear ligeiro de uma só sobrancelha, do canto da boca.
— Oh, Adeline — diz. — Achas mesmo que se encontraram um ao outro?
As palavras são como um degrau falhado.
Uma queda súbita.
— Achas mesmo que eu iria deixar que isso acontecesse?
O solo vacila sob os seus pés.
— Achas que, com todos os pactos que faço, uma coisa como essa alguma vez poderia passar despercebida?
Addie fecha os olhos com força e está deitada ao lado de Henry, os dedos enlaçados, na relva. Está a olhar para o céu noturno. Está a rir da ideia de que Luc finalmente cometeu um erro.
— Devem ter-se achado muito espertos — diz agora. — Amantes amaldiçoados, reunidos pelo destino. Que probabilidade haveria de se conhecerem, de ambos estarem ligados a mim, de ambos terem vendido as almas em troca de algo que apenas o outro lhes poderia dar? Quando a verdade é muito mais fácil do que isso: eu pus o Henry no teu caminho. Ofereci-to, envolvido em papel de embrulho e com um laço, como um presente.
— Porquê? — pergunta ela, com a garganta a fechar-se à volta da palavra. — Porque haverias de o fazer?
— Porque era o que querias. Estavas tão concentrada na tua necessidade de amor que não conseguias ver para lá dela. Dei-te isto, deito, para poderes ver que o amor não merecia o espaço que reservavas para ele. O espaço que guardaste para mim.
— Mas merecia. Merece.
Luc estende uma mão para lhe aflorar o rosto.
— Vai deixar de merecer, quando ele tiver desaparecido.
Addie afasta-se. Das suas palavras, do seu toque.
— Isto é cruel, Luc. Até para ti.
— Não — rosna ele. — Crueldade seria dez anos em vez de um. Crueldade seria deixar-te ter uma vida inteira com ele e teres de sofrer mais com a perda.
— Mesmo assim, escolhê-lo-ia! — abana a cabeça. — Nunca fizeste tenção de o deixar viver, pois não?
Luc inclina a cabeça.
— Um pacto é um pacto, Adeline. E os pactos são um compromisso.
— Fizeste tudo isto para me atormentar...
— Não — explode ele. — Fi-lo para te mostrar. Para te fazer compreender. Puseste-os num pedestal, mas os seres humanos são breves e insípidos, e o seu amor também. É superficial, não dura. Anseias por amor humano, mas não és humana, Adeline. Não és humana há séculos. Não tens lugar entre eles. Pertences-me.
Addie recua, com a raiva a endurecer sob a forma de gelo, dentro de si.
— Que difícil lição deve ser para ti — diz ela. — O facto de não conseguires ter tudo o que queres.
— O quê? — diz sorrindo de forma escarninha. — Querer é coisa de crianças. Se isto fosse querer, já me teria descartado de ti. Ter-te-ia esquecido há séculos — diz, com um ódio amargo na voz. — Isto é precisar. E precisar é algo doloroso, mas paciente. Estás a ouvir-me, Adeline? Preciso de ti. Tal como tu precisas de mim. Amo-te, tal como tu me amas.
Addie capta sofrimento na sua voz.
Talvez seja por isso que o quer magoar ainda mais.
Ele ensinou-a bem, a descobrir a vulnerabilidade na armadura.
— Mas o problema é esse, Luc — diz ela. — Eu não te amo, de todo.
As palavras são ditas em voz baixa, firme, e, no entanto, ribombam pelas trevas. As árvores sussurram, as sombras adensam-se, e os olhos de Luc ardem num tom que ela nunca viu. Uma cor venenosa. E, pela primeira vez em séculos, tem medo.
— Ele significa assim tanto para ti? — pergunta, com uma voz monocórdica e dura como seixos de rio. — Então vai. Fica com o teu amor humano. Enterra-o e chora-o e planta uma árvore por cima da sua sepultura. — Os seus contornos começam a esbater-se no escuro. — Eu continuarei por aqui — diz ele. — E tu também.
Luc vira costas e desaparece.
Addie cai de joelhos na relva.
Fica ali até os primeiros fios de luz atravessarem o céu e depois, finalmente, obriga-se a levantar-se, caminha até ao metro, desconcertada, com as palavras de Luc a andarem-lhe às voltas na cabeça.
Não és humana, Adeline.
Achaste mesmo que se tinham encontrado um ao outro?
Devem ter-se achado muito espertos.
Fica com o teu amor.
Eu continuarei por aqui.
E tu também.
O sol está a nascer quando chega a Brooklyn.
Detém-se para ir buscar o pequeno-almoço, uma concessão, um pedido de desculpas, por ter estado longe toda a noite. E é então que vê os jornais empilhados contra a banca do quiosque. É então que vê a data impressa no canto superior.
6 de agosto de 2014.
Saiu do apartamento a 30 de julho.
Fica com o teu amor, disse ele.
Mas Luc apoderara-se desse tempo. Não roubara apenas uma noite. Arrebatara uma semana inteira. Sete dias preciosos, eliminados da sua vida... e da de Henry.
Addie corre.
Entra de rompante pela porta, sobe as escadas, vira a mala ao contrário, mas a chave desapareceu, e bate com os punhos na porta, o terror a irromper através dela perante a ideia de que o mundo possa ter mudado, de que Luc de alguma forma possa ter reescrito mais do que o tempo, de que de alguma forma tenha levado mais, tenha levado tudo.
Mas depois o trinco desliza e a porta abre-se, e ali está Henry, exausto, desgrenhado, e Addie sabe, pelo seu olhar, que não estava à espera de que ela voltasse. De que, a dado momento, entre a primeira manhã e a seguinte e a outra, pensou que ela tinha desaparecido.
Addie lança-lhe então os braços ao pescoço.
— Lamento imenso — diz, e não é apenas pela semana roubada.
É pelo pacto, pela maldição, pelo facto de a culpa ser dela.
— Desculpa — diz, repetidamente, e Henry não grita, não se enfurece, nem sequer diz Eu avisei. Limita-se a apertá-la com força e diz:
— Chega — diz. — Promete-me — diz. — Fica.
E nenhuma destas palavras é uma pergunta, mas ela sabe que Henry está a perguntar, a pedir-lhe que deixe andar, que pare de se debater, que pare de tentar mudar os seus destinos e se limite a estar com ele até ao fim.
E Addie não consegue suportar a ideia de desistir, de ceder, de ser vencida sem dar luta.
Mas Henry está a perder as forças, e a culpa é dela, e por isso acaba por concordar.