Nova Iorque
5 de setembro de 2013
Às vezes Henry desejava ter um gato.
Talvez pudesse simplesmente adotar Book, mas o gato malhado parece indivisível de The Last Word, e não consegue afugentar a crença supersticiosa de que, se tentasse retirar o velho felino da livraria em segunda mão, ele se transformaria em pó antes de chegar a casa.
O que é, sabe-o perfeitamente, uma forma mórbida de pensar sobre as pessoas e os lugares, ou, neste caso, os animais de estimação e os lugares, mas o dia está a terminar, e bebeu um pouco de uísque a mais, e Bea teve de ir dar uma aula, e Robbie tinha um espetáculo de um amigo, por isso está sozinho, de regresso a um apartamento vazio, a desejar ter um gato ou algo à sua espera no regresso a casa.
Experimenta a frase enquanto entra.
— Olá, gatinho, cheguei — diz, antes de se aperceber de que isso faz dele um solteirão de 28 anos a falar com um animal de estimação imaginário e que parece infinitamente pior.
Tira uma cerveja do frigorífico, fica a olhar para o saca-rolhas e dá-se conta de que pertence a Tabitha. Uma coisa rosa e verde com a forma de uma lucha libre de uma viagem que fez à Cidade do México, no mês anterior. Atira-o para o lado, abre uma gaveta da cozinha, à procura de outro, e descobre uma colher de pau, um magneto de uma companhia de dança, uma mão-cheia de palhinhas ridiculamente listadas. Olha em volta e vê então mais uma série de coisas espalhadas pelo apartamento, todas dela. Pega numa caixa com livros e vira-a, despejando-os no chão e começando a enchê-la de novo com fotografias, postais, livros, um par de sapatilhas de ballet, uma caneca, uma pulseira, uma escova, uma fotografia.
Termina a primeira cerveja, abre uma segunda usando a aresta do balcão e continua, andando de divisão em divisão, menos uma procissão metódica do que uma deambulação vaga. Uma hora mais tarde, a caixa ainda só vai a meio, mas Henry começa a perder a energia. Já não quer fazer aquilo, nem sequer quer estar ali, num apartamento que, de certa forma, parece simultaneamente vazio e atravancado. Há demasiado espaço para pensar. Não há suficiente para respirar.
Henry senta-se entre as garrafas de cerveja vazias e a caixa meio cheia por vários minutos, a abanar os joelhos, e então põe-se de pé num rompante e sai.
O Merchant está cheio.
Está sempre — é um daqueles bares de bairro cujo sucesso se deve mais à mera proximidade do que à qualidade das bebidas. Uma instituição local. A maior parte das pessoas que frequenta o Merchant refere-se a ele simplesmente como «o bar».
Henry serpenteia por entre a multidão, apropria-se de um banco na extremidade do balcão, esperando que o ruído ambiente do local o faça sentir-se menos só.
Esta noite, Mark está a trabalhar, um homem na casa dos 50 com patilhas grisalhas e um sorriso de catálogo. Normalmente demora uns bons dez minutos a reparar em Henry, mas hoje, o empregado de bar vai direito a ele, ignorando a fila. Henry pede tequila, e Mark regressa com uma garrafa e dois copos de shot.
— Oferta da casa — diz, servindo-se também de um copo. Henry consegue esboçar um sorriso.
— Pareço assim tão mal?
Mas não há sinal de comiseração no olhar de Mark, apenas uma luz estranha e subtil.
— Estás com ótimo aspeto — diz, tal como Muriel, e é a primeira vez que diz mais do que uma única frase, com as suas respostas a limitarem-se normalmente às bebidas pedidas e a acenos de cabeça. Os copos entrechocam, e Henry pede um segundo e um terceiro. Sabe que está a beber demasiado, demasiado depressa, a acrescentar mais a bebida às cervejas tomadas em casa, ao uísque vertido nas horas de expediente.
Uma rapariga aproxima-se do balcão e olha para Henry.
Desvia o olhar e volta a fitá-lo, como se o visse pela primeira vez. E ali está de novo, aquele brilho, uma camada de luz sobre os olhos enquanto se reclina para ele, e Henry não consegue fixar o nome dela, mas não faz mal.
Fazem os possíveis para conversar por cima do ruído de fundo, a mão dela pousada primeiro no seu antebraço, depois no ombro, antes de lhe deslizar pelo cabelo.
— Vem até minha casa — diz ela, e Henry fica preso no desejo na voz dela, na ânsia evidente. Mas depois os amigos da rapariga aparecem e arrastam-na, os olhos também a brilhar quando dizem Desculpa, quando dizem És mesmo fixe, quando dizem Uma noite excelente para ti.
Henry escorrega do banco, dirige-se à casa de banho e, desta vez, sente o efeito, as cabeças virarem-se na sua direção.
Um tipo agarra-lhe no braço e diz qualquer coisa sobre um projeto fotográfico, que ele seria perfeito, antes de lhe passar o seu cartão.
Duas mulheres tentam arrastá-lo para o círculo da sua conversa.
— Gostava de ter um filho como tu — diz uma delas.
— Filho? — diz a outra, com uma gargalhada rouca, enquanto ele se solta, se esgueira pelo corredor, até à casa de banho.
Prepara-se, encostando-se ao lavatório.
Não faz ideia do que está a acontecer.
Volta a pensar no café, nessa manhã, no número de Vanessa na base do copo. Nos clientes, na loja, todos sedentos da sua ajuda. Em Muriel, que lhe disse que estava com bom aspeto. Na névoa clara, como fumo de uma vela, nos olhos de todos.
Olha para baixo, para o relógio, no pulso, a cintilar sob a luz da casa de banho, e, pela primeira vez, tem a certeza de que é real.
De que o homem à chuva foi real.
De que o pacto foi real.
— Ei.
Olha para cima e vê um tipo, de olhos vítreos e a sorrir para Henry como se fossem os melhores amigos.
— Estás com ar de quem está a precisar de um coice.
Estende-lhe um pequeno recipiente de vidro, e Henry fica a olhar para a minúscula coluna de pó dentro dele.
Tinha 12 anos da primeira vez que ficou pedrado.
Alguém lhe passou um charro atrás dos pavilhões, e o fumo queimou-lhe os pulmões, e quase vomitou, mas depois ficou tudo um pouco... suave. A erva criou espaço no crânio, aliviou-lhe o terror nervoso no coração. Mas não conseguia controlar os lugares a que conduzia a sua mente. O Valium e o Xanax eram melhores, entorpecendo tudo ao mesmo tempo, mas sempre se manteve afastado das drogas mais duras, por medo — não por medo de algo poder correr mal. Precisamente o contrário: medo de poder parecer a coisa certa. Medo de escorregar, de resvalar, de saber que não teria força suficiente para parar.
Nunca ansiou propriamente pela sensação de perda de controlo.
Apenas pela calma.
Pelo efeito secundário da felicidade.
Tentou ser melhor, por Tabitha.
Mas Tabitha partiu, e agora, seja como for, não importa.
Já não importa.
Agora Henry só se quer sentir bem.
Despeja o pó sobre o polegar, não faz ideia se está a fazer aquilo bem, mas inala, e é acometido por um frio súbito e brusco, e depois... o mundo abre-se. Os pormenores avivam-se, as cores intensificam-se, e, de certa forma, tudo ganha forma e se esbate ao mesmo tempo.
Henry deve ter dito alguma coisa, porque o tipo ri-se. E depois estende o braço e limpa um vestígio da face de Henry, e o contacto é como um choque elétrico, uma faúlha de energia no ponto em que pele aflora pele.
— És perfeito — diz o estranho, com os dedos a deslizarem-lhe pelo maxilar, e Henry cora com um calor vertiginoso que o faz sentir a necessidade de se mexer.
— Desculpa — diz, saindo para o corredor.
Deixa-se cair contra a parede encardida, espera que o mundo estabilize.
— Ei.
Olha para cima e vê um tipo com um braço a envolver os ombros de uma rapariga, ambos altos e esbeltos e selvagens.
— Como te chamas? — pergunta o tipo.
— Henry.
— Henry — repete a rapariga com um sorriso felino.
Olha para ele com um desejo tão óbvio que Henry acaba por voltar a tombar para trás. Nunca ninguém olhou para ele assim. Nem Tabitha. Nem Robbie. Ninguém — nem no primeiro encontro ou a meio do sexo ou quando se ajoelhou...
— Eu sou a Lucia — diz ela. — Este é o Benji. Temos andado à tua procura.
— O que é que eu fiz? — pergunta ele.
O sorriso dela contorce-se.
— Nada, ainda.
Lucia morde o lábio, e o tipo olha para Henry, o rosto extático de desejo, e primeiro não percebe do que estão a falar.
Mas depois entende.
O riso arrebata-o, um acesso estranho, desenfreado.
Nunca participou numa ménage à trois, sem contar com aquela vez na escola em que ele e o Robbie e um dos seus amigos ficaram terrivelmente embriagados e ainda não sabe bem até que ponto as coisas foram.
— Vem connosco — diz ela, estendendo-lhe a mão.
E uma série de desculpas passam-lhe pela cabeça e voltam a sair enquanto Henry os segue até casa.