Nova Iorque

23 de março de 2014

cap4

Addie encontra-se sentada numa cadeira de couro, no canto de The Last Word, aninhada, com o ronronar suave do gato a emanar das prateleiras, algures atrás da sua cabeça, enquanto vê os clientes inclinarem-se para Henry como flores em direção ao sol.

Quando se sabe uma coisa, começamos a vê-la por todo o lado.

Alguém diz as palavras elefante roxo, e de repente avistamo-lo em montras de lojas e T-shirts, bonecos de peluche e cartazes e perguntamo-nos como nunca tínhamos reparado.

Acontece o mesmo com Henry e com o pacto que fez.

Um homem, a rir-se de tudo o que ele diz.

Uma mulher, a irradiar, iluminada pela alegria.

Uma adolescente arrisca tocar-lhe no ombro, no braço, corando, numa atração flagrante.

Apesar de tudo, Addie não tem ciúmes.

Viveu demasiado e perdeu demasiado, e o pouco que teve foi-lhe arrebatado ou roubado, nunca ficou para si. Aprendeu a partilhar — e, no entanto, sempre que Henry olha na sua direção, sente uma onda de calor agradável, tão bem-vinda como o aparecimento súbito do sol por entre as nuvens.

Addie soergue as pernas na cadeira, com um livro de poemas no colo. Trocou a roupa manchada de tinta por um novo par de calças de ganga pretas e uma camisola demasiado grande, arrebatada de uma loja de artigos usados, enquanto Henry estava a trabalhar. Mas ficou com as botas, com as pintinhas de amarelo e azul, como recordação da noite anterior, a coisa mais próxima que tem de uma fotografia, de uma memória material.

— Pronta?

Olha para cima, vê o letreiro da loja já voltado para fechado e Henry de pé, junto à porta, com o casaco no braço. Estende-lhe a mão, ajuda-a a sair da cadeira de couro, que, explica, tem a particularidade de engolir pessoas.

Saem e sobem os quatro degraus que conduzem à rua.

— Onde vamos? — pergunta Addie.

É cedo, e Henry está carregado de uma energia inquieta. Parece piorar por volta do crepúsculo, sendo o pôr do sol um indicador inequívoco da passagem de um dia, do tempo a decorrer com o desaparecimento da luz.

— Já foste à Ice Cream Factory?

— Parece divertido.

O rosto dele desanima.

— Já lá foste.

— Não me importo de ir outra vez.

Mas Henry abana a cabeça e diz:

— Quero mostrar-te algo novo. Há algum sítio onde não tenhas estado? — pergunta, e, passado um longo instante, Addie encolhe os ombros.

— Tenho a certeza de que deve haver — diz ela. — Mas ainda não o encontrei.

Queria que soasse divertido, leve, mas Henry franze o sobrolho, absorto em pensamentos, e olha em volta.

— Muito bem — diz, agarrando-lhe na mão. — Vem comigo.

Uma hora mais tarde, encontram-se na Grand Central.

— Detesto ter de to dizer — diz ela, olhando em volta para a estação concorrida —, mas já aqui estive. Como a maior parte das pessoas.

Mas Henry lança-lhe um sorriso que é marotice pura.

— Por aqui.

Segue-o pelas escadas rolantes até ao nível inferior da estação. Serpenteiam, de mãos dadas, por entre um mar consistente de viajantes noturnos, em direção ao animado átrio da zona da restauração, mas Henry para abruptamente, sob uma interseção de arcos de tijolo, com os corredores a ramificarem-se em todas as direções. Puxa-a para um dos cantos rodeados por pilares, onde as arcadas se dividem, curvando-se lá em cima e de través, e volta-a para a parede de tijolo.

— Fica aqui — diz e começa a afastar-se.

— Onde vais? — pergunta ela, já a virar-se para o seguir.

Mas Henry regressa, encostando-lhe os ombros ao arco.

— Fica aqui, assim — diz ele. — E escuta.

Addie vira a orelha para a parede de tijolo, mas não consegue ouvir nada além do som do arrastar de passos, da algazarra e da barulheira da multidão da noite. Olha por cima do ombro.

— Henry, eu não...

Mas Henry desapareceu. Percorreu o átrio a correr até à extremidade oposta do arco, talvez a uns trinta passos de distância. Olha para trás, para ela, e depois volta-se e enterra o rosto no canto, olhando para o mundo inteiro como uma espécie de jogo de escondidas, contando até dez.

Addie sente-se ridícula, mas inclina-se para junto da parede de tijolo e espera e escuta.

E então, como algo impossível, ouve a voz dele.

— Addie.

Fica estupefacta. A palavra soa baixo, mas de forma nítida, como se ele estivesse mesmo ao seu lado.

— Como consegues fazer isto? — pergunta ao arco. E consegue ouvir o sorriso na voz dele quando responde.

— O som acompanha a curva do arco. Um fenómeno que acontece quando os espaços se inclinam na perfeição. Chama-se galeria sussurrante.

Addie está maravilhada. Trezentos anos, e ainda há coisas novas a aprender.

— Fala comigo — diz de novo a voz contra a fiada de tijolos.

— O que poderei dizer? — sussurra ela contra a parede.

— Ora... — diz Henry, baixinho, ao ouvido dela. — Porque não me contas uma história?