Veneza
29 de julho de 1806
Addie acorda para a luz solar, envolta em lençóis de seda.
Sente os membros de chumbo, a cabeça cheia de musselina. O tipo de peso que resulta de demasiado sol e demasiado sono.
Está um calor terrível em Veneza, muito mais do que alguma vez em Paris.
A janela está aberta, mas nem a brisa leve nem as cobertas de seda são suficientes para dissipar a temperatura sufocante. É apenas manhã, e o suor já se lhe acumula na pele nua. Apavora-a a ideia de chegar ao meio-dia enquanto se arrasta para fora do sono e vê Matteo empoleirado à beira da cama.
É igualmente belo à luz do dia, beijado pelo sol e forte, mas sente -se menos perturbada pelos seus traços adoráveis do que pela estranha calma do momento.
As manhãs são normalmente perturbadas por pedidos de desculpa, confusão, o dia a seguir ao esquecimento. Por vezes são dolorosas e sempre estranhas.
Mas Matteo parece absolutamente imperturbado.
Não se lembra dela, claro, essa parte é evidente — mas a sua presença ali, aquela estranha na sua cama, não o parece nem assustar nem incomodar. Está apenas concentrado no bloco de desenho, que equilibra no joelho, o carvão a deslizar graciosamente pelo papel. É apenas quando o seu olhar se vira para ela e depois de novo para baixo que se apercebe de que a está a desenhar.
Não faz qualquer gesto para se tapar, para alcançar a combinação lançada sobre a cadeira ou o roupão fino aos pés da cama. Há muito tempo que Addie não sente vergonha do seu corpo. Na verdade, acabou por apreciar ser admirada. Talvez seja o abandono natural que vem com o tempo ou a permanência da sua forma ou a libertação que decorre de saber que os seus observadores não se irão lembrar.
Afinal, existe liberdade em ser esquecida.
E, no entanto, Matteo continua a desenhar, com movimentos rápidos e fáceis.
— O que estás a fazer? — pergunta delicadamente, e ele afasta o olhar do papel.
— Desculpa — diz. — A tua imagem. Tive de a captar.
Addie franze o sobrolho, começa a levantar-se, mas ele emite um som abafado e diz:
— Ainda não — e ela precisa de toda a sua força para ficar ali, na cama, as mãos enredadas nos lençóis até ele suspirar e pôr a obra de lado, os olhos iluminados com o brilho único dos artistas.
— Posso ver? — pergunta no italiano melódico que aprendeu.
— Ainda não está acabado — diz ele, mas, ainda assim, entrega-lhe o bloco.
Addie fica a olhar para o desenho. Os traços são fáceis, imprecisos, um estudo rápido por uma mão talentosa.
O seu rosto mal está desenhado, quase abstrato nos gestos de luz e sombra.
É ela — e não é ela.
Uma imagem, distorcida pelo filtro do estilo de alguém. Mas consegue ver-se nela. Da curva da face à forma dos ombros, o cabelo desalinhado pelo sono e as pintas a carvão espalhadas pelo rosto. Sete sardas dispersas, como estrelas.
Aflora o carvão espalhado ao fundo da página, onde os membros se dissolvem nos lençóis da cama, sente-o manchar-lhe a pele.
Mas, quando afasta a mão do bloco, o polegar está sujo, mas a linha nítida. Não deixou qualquer marca. E, no entanto, deixou. Deixou uma impressão em Matteo, e ele deixou-a impressa no papel.
— Gostas? — pergunta ele.
— Sim — murmura, resistindo ao impulso de rasgar o desenho do bloco e de o levar consigo. Todos os centímetros do seu corpo querem conservá-lo, guardá-lo, olhar para a imagem como Narciso no lago. Mas, se o levar agora, acabará por desaparecer ou pertencer-lhe-á a ela, e a ela apenas, e então será o mesmo que ter-se perdido, desaparecido.
Se Matteo guardar o desenho, esquecerá a fonte, mas não o esboço em si. Talvez regresse a ele quando ela tiver desaparecido e se pergunte quem é a mulher deitada nos seus lençóis e, mesmo que pense que é produto de uma folia ébria, de algum sonho febril, a sua imagem continuará a estar ali, em carvão sobre papel, um palimpsesto sob uma obra terminada.
Será real, e ela também.
Por isso Addie estuda o desenho, grata pelo prisma da memória, e devolve-o ao artista. Levanta-se, procurando a roupa.
— Passámos um bom bocado? — pergunta Matteo. — Confesso que não me consigo lembrar.
— Eu também não — mente ela.
— Bom — diz ele com um sorriso dissoluto —, então devemos ter passado um excelente bocado.
Beija-lhe o ombro nu, e o coração dela agita-se, com o corpo a aquecer com a recordação da noite anterior. Agora é uma estranha para ele, mas Matteo tem a paixão fácil de um artista apaixonado pelo seu novo tema. Seria bastante simples ficar, recomeçar, apreciar a sua companhia por mais um dia — mas os seus pensamentos ainda estão no desenho, no significado daquelas linhas, no seu peso.
— Tenho de ir — diz, inclinando-se para o beijar uma última vez. — Tenta lembrar-te de mim.
Ele ri-se, um som arejado e leve, enquanto a puxa para si, deixando dedadas fantasmagóricas de carvão na sua pele.
— Como poderia esquecer?
Nessa noite, o pôr do sol transforma os canais em ouro.
Addie encontra-se numa ponte sobre a água, esfrega o carvão que lhe ficou no polegar e pensa no desenho, na representação de um artista, como um eco da verdade, pensa nas próprias palavras de Luc, há tanto tempo, quando a expulsou do salão de Geoffrin.
As ideias são mais bravias do que as memórias.
Disse-o como uma estocada, sem dúvida, mas devia tê-lo encarado como uma pista, uma chave. As memórias são rígidas, mas os pensamentos são mais livres do que as coisas. Lançam raízes, disseminam-se e enredam-se e saem livres da sua fonte. São inteligentes e teimosas e talvez — talvez — estejam ao alcance.
Porque, a dois quarteirões de distância, naquele pequeno estúdio por cima do café, encontra-se um artista, e, numa das suas páginas, encontra-se um desenho, que é dela. E agora Addie fecha os olhos e inclina a cabeça para trás e sorri, com a esperança a encher-lhe o peito. Uma fissura no muro da sua maldição inflexível. Pensou ter estudado cada centímetro, mas há ali uma porta, entreaberta para uma divisão nova e por descobrir. O ar muda atrás dela, com o aroma fresco de árvores, impossível e deslocado sob o calor exuberante de Veneza.
Os seus olhos abrem-se.
— Boa noite, Luc.
— Adeline.
Vira-se para o enfrentar, este homem que tornou real, esta escuridão, este demónio trazido à vida. E, quando lhe pergunta se já teve o suficiente, se já está farta, se cederá a ele essa noite, ela sorri e diz:
— Esta noite não.
Esfrega de novo o dedo contra o polegar, sente o carvão ali e pensa contar-lhe a sua descoberta, só para poder saborear a sua surpresa.
Descobri uma maneira de deixar uma marca, quer dizer-lhe. Pensei que me podias apagar deste mundo, mas não podes. Continuo aqui. Estarei sempre aqui.
O sabor das palavras — aquele triunfo — é doce como açúcar na sua língua. Mas há um tom de alerta no olhar dele esta noite, e, conhecendo Luc como conhece, sabe que arranjaria maneira de o virar contra ela, de lhe roubar aquele pequeno consolo antes de Addie descobrir uma forma de o usar.
Por isso não diz nada.