8

Acordo em sobressalto. «Mamã», sussurro a dormitar, depois estendo a mão e toco nela. Viro-me e observo-a enquanto dorme ao meu lado na cama. Parece minúscula. No meio do quarto, a mesa está aberta, a toalha bordada posta, como acontecia quando dantes recebíamos visitas, e debaixo da janela, no lugar do tear, do qual a mamã se desfez há já algum tempo, está a cama articulada onde o papá dorme. Sob o cobertor entreveem-se apenas as pequenas proeminências dos joelhos. Consigo ouvir a sua respiração ofegante, e fico contente que neste momento ele se encontre num outro lugar. Fui acordada por um tiquetaque regular. Chove. Não me estou a afogar. É só a chuva. Estava a sonhar com Giacomo. Eu e ele que nadávamos no pedaço de mar frente a San Giovanni. A água estava incrivelmente quente e calma. Afastáramo-nos consideravelmente da costa, mas tínhamos ainda pé. De quando em quando Giacomo detinha-se, punha-se na vertical e acariciava com as mãos a superfície da água. Eu, ao invés, olhava para o horizonte. No sonho, acreditava que não seria muito difícil alcançá-lo e que, se continuássemos a caminhar, conseguiríamos atingir a outra margem do mar. Deste modo, caminhávamos afundando cada vez mais os pés na areia e, quanto mais caminhava, mais o fundo do mar amolecia e se abatia sob o peso das minhas pernas. «Giacomo! Giacomo, agarra-me que vou ao fundo.» Ele corria e nadava na minha direção, movendo os braços com toda a força que possuía, enquanto eu me distanciava cada vez mais. Até quando a água cobriu a minha cabeça. Nesse momento, porém, não senti medo, parei de gritar, à minha volta era só paz. Angelina debaixo de água. Angelina.

Sento-me na cama e o som que se intrometeu no sonho cadenciando a minha morte ainda se ouve, como se uma parte do pesadelo se tivesse tornado real. Procuro uma posição cómoda para voltar a dormir, mas acabo por ficar deitada de costas a fixar o teto. O tiquetaque acelera o seu ritmo, unindo-se agora a ele um barulho de fundo mais ruidoso, semelhante à torrente de um rio. Levanto-me de repente então e alcanço a janela. Chove a cântaros e a chuva goteja ruidosamente da caleira. Ao longo da viela um rio de água escorre em direção à praça porque as tampas do esgoto saltaram. Acontece com frequência quando a chuva é torrencial. No tumulto da água, pedaços de cartão, restos de legumes, sacos de plástico, toda a podridão da viela liberta-se numa enchente purificadora que no final limpará tudo.

«Limpa-me também a mim», sussurro. «Limpa esta casa.»

*

Tinha começado uma nova fase para a minha família, caracterizada pelos silêncios do papá, as fugas da mamã, que ia a correr espiá-la sempre que podia, as palavras das comadres, desejosas de saber como era ter uma filha baronesa.

Como era?

Também eu espiava a minha mãe, tal como fazia em criança. Quando mexia a comida na panela e levantava o olhar fixando-o na parede em frente, quando saía e eu a via desaparecer, com passo rápido, na curva da viela. Caminhava com os olhos no chão, enquanto ladeava as carroças e os passeios.

Tinha passado um ano desde o casamento de Angelina. Durante esse período, quando vinha visitar-nos – duas vezes ao mês –, já não era ela. Por vezes, parecia-me vislumbrar apenas um pequeno clarão que refulgia no centro daquela aparência de cinzas.

– Angeli’, estás bem?

– Sim, mamã.

– És feliz? O barão trata-te bem?

– Sim, trata. E o papá, como está?

– Também está bem.

Desconhecia a vida que levava, mas sabia que era muito diferente daquela que levava a Angelina que conhecíamos, tal como estava convencida de que naquela grande casa branca o tempo decorresse num ritmo diferente, que os dias pertencessem a um mundo paralelo, inconciliável, com regras próprias, perversas e incompatíveis com a minha realidade. A mamã havia renunciado a explorar aquele mundo, e entre nós e Angelina tinha-se erguido um muro de coisas não ditas que, como uma terra de ninguém, nos poupava da verdade.

Acordava frequentemente de madrugada. Por vezes, era Angelina que me visitava nos sonhos, outras vezes, Giacomo. Ambos faziam-me perder o sono. Giacomo já não vinha à nossa casa. Via-o apenas de quando em vez na rua, o seu rosto tempestuoso fixava-me diretamente nos olhos, depois prosseguia sem abrir a boca. Não sabia bem o que lhe diria caso nos encontrássemos frente a frente, mas sentia que entre nós existia algo em suspenso ao qual queria pôr um ponto final; deste modo, uma manhã, enquanto percorria a viela para ir a Mezza Pete, desviei rumo a casa dele.

Estávamos novamente no verão e o ar da manhã refrescava-me o rosto. Não me preocupei em pôr-me bonita antes de ir ter com ele. Eram coisas que naquele momento já não me interessavam. Vestia um vestido carcomido pelo sol, sandálias com a sola gasta. Os meus cabelos tinham um corte muito curto, porque durante a primavera apanhara piolhos e tinha sido obrigada a rapá-los quase à máquina zero.

Quando lá cheguei, Giacomo estava na copa e tinha acabado de degolar uma galinha. O sangue do pescoço escorria para um alguidar de alumínio. O ar em redor fedia a ferro e açúcar. Permaneci muda a fixá-lo, com o coração que parecia querer saltar-me do peito e fugir. A sua camisola esburacada em vários pontos revelava dois braços torneados, com as veias salientes e os músculos bem delineados. Distraiu-me um gato malhado que surgiu entre as suas pernas.

– Que fazes tu aqui?

Fiquei com a impressão de que fosse um homem afastado da terra, alguém que já cortara os laços com todos, inclusivamente consigo próprio. Esquadrinhou-me sem deixar de agarrar a galinha pelas patas, concentrando-se em registar na sua mente todos os pormenores: olhos claros, rosto oval, oliváceo, cabelo curto, maçãs do rosto salientes.

– Que fazes tu aqui? – insistiu.

Pensei em como ele tinha mudado desde que chegara à nossa terra. Não sendo particularmente belo ou esperto, nem forte nem brilhante; provavelmente, de início, apenas pretendia ser igual a todos os outros, porém, dia após dia, dentro dele prevaleceu um segundo Giacomo que, ao contrário do primeiro, com o passar do tempo descobriu não querer absolutamente ser igual aos demais, e que, aliás, esses outros provocavam-lhe raiva, tornavam-no carrancudo, rancoroso, causando-lhe uma fúria permanente que lhe transfigurou o rosto, transformando o rapaz de outrora no homem rude que tinha diante de mim.

– Vim ver como estavas a passar – consegui responder-lhe, embora desanimada pelo seu olhar distante.

Deixou cair a galinha no alguidar cheio de água e lavou as mãos.

– Eu estou bem, não deves ficar preocupada por minha causa, percebeste?

Fitou-me, esperando uma resposta, que não fui capaz de lhe dar, e depois prosseguiu, virando-se para outro lado, como se estivesse a refletir em voz alta:

– Quando ouvi pela primeira vez, não quis acreditar. A Angelina e o barão? Como é que a filha de Nardo Sozzu pôde apaixonar-se pelo filho do barão? Esses estão habituados a ter tudo aquilo que querem, nós para eles não valemos nada. Vai usá-la e depois descartá-la.

– Sinto saudades dela, sabes?

Não sei por que razão lhe disse isso, talvez me iludisse de que ali, no bosque, era eu e não ele quem sofria mais pela escolha da minha irmã, enquanto que entre as paredes da nossa casa não tinha nenhum direito de exteriorizar a minha dor, porque a da minha mãe e a do meu pai ocupavam todo e qualquer espaço.

– És tão diferente da tua irmã.

Era um homem solitário, rude, grosseiro, colérico e taciturno, e contudo a sua natureza imperfeita provocava dentro de mim um enigma incompreensível.

– Salva-te, Tere’, ao menos tu, porque a tua irmã está perdida. Não podes ficar neste lugar. Foge.

Era-me difícil perceber como tinha ele visto em mim o que mais ninguém conseguia ver, e perguntei-me a mim própria se Giacomo Pisanu não teria interpretado também algo mais, lendo os sinais físicos que o meu amor fictício tinha feito aflorar ao meu rosto e ao meu corpo.

O corpo de Angelina pertencia agora aos muros cândidos da grande herdade, aos seus móveis antigos, ao jardim ameado e ao lago dos patos que eu tinha visto em criança, pontilhado por nenúfares.

– Como está a Angelina? – perguntou-me Giacomo. Deu três passos para trás, como se a excessiva proximidade pudesse interferir com o seu próprio espaço. – Está bem?

Fiz sinal que sim.

– É feliz?

Seria feliz? Quantas vezes me fizera a mim mesma essa pergunta, mas nunca tivera coragem de a dirigir a ela.

– Não sei, mas acho que sim.

Giacomo sopesou aquela notícia e virou-se para o outro lado. Eu estendi uma mão, impelida por uma força melancólica, toquei-lhe com o pensamento, desenhando os contornos das suas costas, da sua cintura larga, dos seus quadris. De olhos fechados, imaginei-me a seu lado, numa dia de sol, com o céu limpo e algumas nuvens dispersas aqui e ali como lanugens suspensas. Vestia um vestido leve, de um azul intenso a condizer com a cor dos meus olhos, e ele uma camisa branca, branquíssima, como a que tinha vestido no dia em que havia pedido em casamento a minha irmã. Cada uma destas visões encastrou-se no meu peito, como os estilhaços de uma bomba depois de explodir. Uma vez um amigo disse-me que os momentos mais belos da nossa vida são aqueles que terminam prematuramente. Talvez seja por isso que eu nunca mais me esqueci daquele nosso adeus mudo. No fundo, eu e Giacomo assemelhávamo-nos: ambos detestávamos as palavras inúteis. Nunca soube se sentia por ele amor verdadeiro; um sentimento incompreensível, isso sim; contudo, tranquiliza-me a ideia de que há muitas coisas incompreensíveis na nossa vida: os medos, os pesadelos, as fobias, a dor e o prazer, sensações capazes de nascer e morrer sem uma verdadeira razão e, contudo, extraordinariamente autênticas.

Aquela foi a última vez em que falei com Giacomo. Mais tarde, aliviar-me-ia a ideia de que também eu e ele, tal como os Sozzu e os Personè, pertencíamos a dois mundos inconciliáveis, tornados distantes não pelo sangue ou pela estirpe, mas pelo nosso próprio espírito.

Nunca mais o revi. Duas semanas depois partiu para Turim. O papá contou-nos que ele tinha encontrado trabalho como operário numa fábrica. Comentou-o enquanto passava a palma da mão pelos olhos. Nem sequer veio despedir-se de mim ou dar uma palavra que fosse à mamã. Tinha partido tal como havia chegado, solitário, intolerante a qualquer relação, rude, também ele magghiatu, como o marido assassinado da parteira.

Ainda hoje recordo dele o cheiro a tabaco, as maçãs velhas, o depósito ácido, forte e único que fica nos sacos usados para a apanha da azeitona, a pele aquecida pelo sol.