31.

Falácias — 3 a 6 de julho

Voltei para Haia na quinta-feira. Na sexta de manhã, ao me aproximar da entrada do tribunal, fiquei pasmo ao ver Roger, em seu terno de vinte anos e um chapéu de aba estreita para protegê-lo do sol. Fui abraçá-lo.

— O que diabos trouxe você até aqui? — perguntei.

— Você, na verdade. Passei a noite inteira num avião. Podemos tomar um café?

Era mais fácil percorrer a passagem de concreto entre a Sprinter e a Voorburg que tentar fazer Roger entrar no tribunal, onde a segurança exigia pelo menos um dia de antecedência para aprovar visitantes. Enquanto caminhávamos, trocamos informações sobre as famílias. Rog reuniria todo mundo em Eastern Shore para o 4 de Julho. Sorri ao imaginá-lo num traje totalmente WASP: pernas magrelas em shorts esverdeados, camisa de manga comprida branca e sapatos sem meias.

Quando estávamos em velhas cadeiras de madeira dobráveis do lado de fora de um café, Roger passou aos negócios.

— Você interrompeu os meus planos para o feriado — disse ele. Lembrei que era feriado nacional nos Estados Unidos.

— Eu?

O vento agitou a pena vermelha de seu chapéu, e ele teve que manter os dedos na aba para evitar que fosse soprado para longe.

— Tem uma história circulando por aí, dizendo que você não encontrou nenhum corpo na Bósnia.

Eu o encarei por um momento.

— Rog, vocês não ficam constrangidos de me seguir? Vão proteger a embaixada de Bengasi ou algo assim. Eu não mereço tanto trabalho.

— Existem pessoas no Pentágono que acham que você dá muito trabalho. Aquele artigo do Times sobre o massacre ainda faz com que cuspam toda vez que ouvem seu nome.

— Eu disse a você...

— Certo, não foi você. Me poupe. De qualquer modo, muita gente acha que seria justo retribuir. Querem vazar para o Times que você não encontrou nenhum corpo.

Dei de ombros.

— Eles merecem que o caso seja atualizado. A escavação foi um evento público.

— Mas eles querem apagar o artigo original. Desmenti-lo. A narrativa que estão montando é a de um promotor ávido para retornar aos holofotes que começa a dormir com a advogada de uma testemunha, deixa o bom senso na porta e faz todas as suas vontades, em vez de usar o senso crítico. Eu queria que você ouvisse essa história.

As pontas dos meus dedos estavam congeladas. Não havia por que perguntar de onde o pessoal do Pentágono havia tirado essa história. Eu tinha acabado de censurar Roger pela maneira como seus espiões mantinham o olho em mim. Fora ele quem começara a se referir a Esma como minha namorada alguns meses antes.

— Quando trepadas entram num artigo, Boom, não sobra muito espaço para nuances. Você sabe disso. Imagino que eles vão deixar você pagar o pato aqui no tribunal. E mandá-lo embora. Sei que fui eu que o meti nessa. E você queria fazer a coisa certa. Em vez disso, vai voltar para casa em desgraça. Realmente sinto muito, Boom. De verdade.

Esma tinha feito o papel da serpente, e eu mordera a maçã. Ficaria pior quando os repórteres descobrissem que ela estava inventando tudo. Eles me dariam o troféu de Maior Idiota do Mundo.

Você sempre acha que não se importa com o que as pessoas dizem ao seu respeito, até que algo assim acontece. Attila tinha me dito isso sobre Merriwell. Por fim, dei um suspiro profundo.

— Não parece que existe muito que eu possa fazer, exceto avisar ao pessoal de imprensa do tribunal e então entregar minha demissão a Badu.

Roger deixou os dedos se soltarem do chapéu.

— Espera. Só espera. Quais as chances de eu procurar esses caras e dizer “Vocês não precisam fazer nada. O tribunal vai anunciar, ainda essa semana, que a investigação foi encerrada e não houve massacre”? Quais as chances de isso acontecer?

Pensei por um momento.

— Não podemos dizer que não houve massacre.

Ele fez uma careta.

— Você sabe que não houve massacre. Eu disse a você, desde o início, que não houve massacre.

— Ainda não sei com certeza se não houve massacre. Tudo o que sei é que a alegação de que quatrocentas pessoas foram enterradas naquela mina de carvão é completamente infundada.

— E não existe evidência de massacre.

Avaliei essa afirmação. O desaparecimento de quatrocentas pessoas da noite para o dia que foram vistas pela última vez em caminhões do Exército americano na minha cabeça não se qualificava como “não existir evidência”.

— Vamos ter que recriar um pouquinho essa história.

— Bem, a gente pode até colocar uns duendes, uma princesinha indefesa, um dragão e fazer com que ela tenha um lindo final feliz. Eu preciso voltar para casa com algo convincente. Ou eles vão deixar você pelado em público, Boom, e rir do seu pinto.

Fiz uma careta, mas consegui rir. Roger era sempre exuberante em suas descrições. Tentei evocar meu kit de ferramentas de advogado para pensar em como poderíamos usar nosso bisturi nas palavras. Roger esperou de lábios comprimidos. Olhando para ele, não muito mudado, apesar dos anos, me lembrei da nossa última conversa, durante a qual ele estivera furioso comigo e eu havia reconhecido que nossa amizade, por mais durável que fosse, ficaria estacionada em terreno neutro enquanto ambos fazíamos nosso trabalho.

Mas, com essa lembrança, tive uma espécie de epifania, acompanhada por um súbito aumento da minha pressão sanguínea, como se a revelação tivesse passado por algum tipo de parto para chegar a uma forma sólida. E então percebi, como quando se vê um vulto no escuro: Roger não estava ali para me proteger, não importando quão esperta fosse a encenação ou quão direto fosse o apelo aos meus próprios interesses. Ele estava ali para acabar com o caso.

Mas o que isso significava? Os roma estariam num buraco em algum lugar, com balas americanas na cabeça? Ou havia outro segredo que meu governo queria manter? Segui meus instintos.

— Então nosso comunicado à imprensa não vai dizer nada sobre as armas que encontramos?

Ainda não tínhamos dito uma palavra sobre as armas. Eu queria ver se ele se daria ao trabalho de fingir surpresa.

— Não sei exatamente o que você encontrou, mas não importa, importa? O fato é que não havia corpos.

— Sem corpos — concordei. — Mas quem quer que esteja nos vigiando, Rog — e percebi que sua fonte quase certamente era da OTAN —, deve ter dito que encontramos um grande esconderijo de armas.

— Que diferença isso faz, Boom?

— Bem, Rog, todas as armas encontradas tinham identificação da OTAN. Isso foi uma surpresa para você? O fato de termos encontrado armas na caverna?

— Foi uma grande surpresa.

— E você não tem nenhuma ideia de por que elas estavam lá?

— Nada definitivo. E, a essa altura, não dou a mínima. Só quero o Departamento de Defesa fora do meu pé.

Compreendi por fim. Era como Kajevic tinha dito. De todas as pessoas do mundo, havíamos conseguido a verdade de um filho da puta como Laza Kajevic.

— O problema é esse, Rog: eu estou com a impressão de que aquelas armas representam uma grande preocupação para você. E, se não é como elas chegaram lá que o incomoda, então tem que ser de onde vieram. Fico imaginando... Na verdade, eu tenho certeza: elas faziam parte das quinhentas mil armas que deveriam ter sido enviadas da Bósnia para o Iraque em abril de 2004.

Meu amigo Roger sempre havia tido pavio curto. Suas narinas se dilataram, e sua cor mudou.

— Onde você ouviu isso? Foi Attila, aquela fofoqueira? Porque eu vou dizer uma coisa: no fim do dia de hoje, ela não vai ter mais nenhuma habilitação de segurança. — Ele disse uma palavra feia a respeito dela.

— Não foi Attila — avisei. — Eu não consegui obter nada dela além do discurso oficial.

— Então quem?

— Então por quê? Qual é o grande problema a respeito das quinhentas mil armas, Rog, para que elas tenham permanecido como um assunto confidencial mesmo onze anos depois? Para que você tenha se disposto a passar a noite voando para me impedir de descobrir?

Roger me encarou com aquela expressão intensa e toda retorcida que Merry havia imitado no dia em que tínhamos nos conhecido.

— Você está cutucando a onça com uma vara muito curta — comentou ele.

— Qualquer comunicado de imprensa sobre o que não encontramos na caverna que também inclua o que encontramos, aquelas armas leves, vai ser um desastre para você, não vai? Porque algum intrépido repórter vai perguntar como aquelas armas caíram nas mãos dos roma e então, e essa é a grande questão, vai querer saber o que aconteceu com as quinhentas mil enviadas para o Iraque. A investigação que você não quer que façamos vai ser feita pelo New York Times. E estou bastante curioso para saber as respostas. — Encarei-o do outro lado da mesa. — Você está blefando, Rog.

— Porra nenhuma.

— Você está blefando. E está muito perto de mentir. Deixe-me pensar. — E fiz exatamente isso, bem na frente dele, enquanto outra lufada de vento derrubava uma colherinha de inox da mesa. Eu me abaixei para pegá-la. — Foi sempre a respeito das armas, não foi? Vocês sempre souberam que Kajevic matou aqueles soldados americanos com armas roubadas que os roma venderam para ele. Mas era sobre as armas que não foram roubadas que vocês realmente não queriam falar. Certo? Foi por isso que você, Merry, Attila e o Exército ficaram tentando me vencer pelo cansaço: queriam que eu os acusasse de um crime que não cometeram, o massacre de quatrocentos roma na caverna em Barupra. Talvez até mesmo tenham me dado algumas evidências que pudessem apoiar essa acusação. Porque isso ajudou a esconder o verdadeiro crime.

— Um crime? — Roger se recostou na cadeira outra vez. Estava tentando parecer ultrajado, mas claramente havia ficado alarmado. — Que crime?

— Ainda não sei dizer, Rog. Mas, generalizando, as pessoas não toleram ser acusadas de atrocidades na frente do mundo inteiro a menos que estejam escondendo alguma coisa. E o segredo que estão mantendo não deve ser algo como não ter boas maneiras à mesa. É algo que poderia arrumar grandes problemas para todos vocês.

— Ninguém cometeu nenhum crime — declarou Roger. — E, a menos que você tenha sido renomeado procurador federal dos Estados Unidos, isso não é da sua conta.

— Ok, diga isso ao Times. Mas é uma enrascada, não é, Rog? As armas realmente chegaram ao Iraque? Você fez parte disso tudo, não fez? Você foi a ligação de inteligência da transação, qualquer que tenha sido. Você está por um fio. E Merry também. Acho que vocês dois são os caras que vão ficar pelados em público, vocês e seus pintos, quando as pessoas começarem a fazer perguntas sobre as armas.

Ele não falou nada, apenas me encarou. Roger precisava cortar o cabelo. O vento bagunçava os tufos grisalhos que haviam crescido acima das suas orelhas.

— Você usou a abordagem errada, Rog. Devia ter dito que precisava de um grande favor.

Seus olhos claros assumiram um ar calculista agora que ele tinha sido exposto.

— Eu preciso de um grande favor — disse ele.

— Tarde demais — falei. — Não importa quem se incomode, lembra? Você pode me queimar, se quiser. Mas eu vou contar aos repórteres toda a história se você fizer isso. Sua melhor opção é deixar que terminemos a investigação sobre o que aconteceu com aquelas pessoas, dizer o que quer que precisemos dizer em público e deixarmos o restante dos detalhes arquivados. Se eu tiver qualquer poder de decisão, Rog, vou usá-lo como você tinha certeza de que eu usaria quando me recrutou para essa tarefa. Você sabia que, se tivesse opção, eu protegeria você. E, acredite ou não, ainda vou fazer isso. Porque um dia você foi realmente um bom amigo.

Eu me afastei da mesa, mas me virei para ele de novo com uma última observação:

— Aproveite o feriado.

Enquanto eu estava na Bósnia, Nara tinha ido para Belgrado se encontrar com Bozic. Ela só voltou na sexta à noite. Eu me acendi como um foguete quando a vi, e estávamos na cama segundos depois de ela fechar a porta. Choveu no sábado, mas ficamos felizes em casa.

Frequentemente, enquanto Nara cochilava ao meu lado durante o fim de semana, eu pensava sobre o caso. Eu tinha ficado surpreso muitas vezes nos últimos meses, mas, se terminássemos por encerrar a investigação, tinha que decidir o que viria em seguida, em termos profissionais. Meu cargo no tribunal era nominalmente permanente, mas a atitude elegante a se tomar seria oferecer minha demissão, uma vez que eu não imaginava que alguém fosse querer minha permanência caso a situação em Barupra não culminasse em acusações. Eu achava ter causado boa impressão no tribunal e provavelmente poderia participar de uma das comissões de julgamento, se realmente quisesse. Por outro lado, eu poderia retornar aos Estados Unidos, o que não parecia certo no momento, ou iniciar minhas férias de verão infinitas. Mas, depois de avaliar meus sentimentos, nenhuma dessas ideias parecia atraente por uma única razão: Narawanda não poderia ir comigo, dado seu envolvimento no caso Kajevic. Isso significava que eu permaneceria em Haia, no tribunal ou em outra organização.

Se eu tivesse listado, quatro ou cinco anos antes, as qualidades da pessoa com quem achava que ficaria, Nara jamais seria uma combinação. Eu me via, por exemplo, com alguém mais socialmente gracioso e com mais calor humano do que eu era capaz de transmitir, alguém que pudesse suplementar as falhas que eu lamentava em mim mesmo. Mas eu havia aceitado a glória do futuro, que é o fato de ele ser desconhecido, e jamais me preocupara em fazer uma lista. A verdade era que, por razões que escapavam ao meu entendimento, eu me sentia à vontade com Nara; não apenas apaixonado mas também em paz. Só Deus sabia se isso iria durar. Mas eu não podia partir até descobrir a resposta.

No domingo, o tempo estava bom outra vez, e passamos o dia à beira-mar. Voltando ao apartamento no fim da tarde, estávamos cheios de ardor do verão, a sensação de que o sol havia deixado todos os nossos nervos à flor da pele e o desejo se tornava mais urgente após os demorados toques do vento leve. Terminamos na cama de Nara pela primeira vez, uma localização que parecia de certo modo simbólica.

Depois de fazermos amor, enquanto a luz deixava o quarto, fiz uma pergunta que esperava havia muito para ser feita.

— Você quer ter filhos? — Meu tom era neutro e curioso, como se fosse apenas mais uma coisa que eu precisava saber para conhecê-la melhor.

— Lewis é contra. Ele diz que o mundo anda sombrio demais para crianças.

— E de onde vai vir a luz?

— Eu sei que é uma desculpa. Ele não quer perder o foco na carreira e no que é importante para ele.

Notei que Lew ainda ocupava o tempo presente.

— E você está disposta a aceitar isso?

— Não sei. Ainda não cheguei ao momento de não aceitar. Mas nunca concordei. Foi algo, como tantas outras coisas, que deixamos de lado. Minha mãe, naturalmente, não para de fazer insinuações.

Por fim, perguntei sua idade, e ela se tornou adoravelmente evasiva.

— Adivinha — disse ela.

— Cuidado, chérie — falei, uma frase dita várias vezes por semana nas transmissões de rádio dos Trappers quando eu era menino, em momentos nos quais o time adversário ameaçava marcar.

Ela deu uma risadinha.

— Pela sua aparência? Você poderia passar por 23.

— Brilhante — comentou ela, embora eu estivesse dizendo a verdade.

— Mas, fazendo a conta da sua formação profissional e carreira, eu acho que você tem uns 38.

— Trinta e sete. Entrei mais cedo no colégio.

Repeti o número.

— Talvez seja a hora de pensar no assunto.

— Sobre ter filhos?

— Sim.

— Sempre achei que queria, quando era mais jovem. A maior parte de mim provavelmente ainda se sente assim. O que você acha?

— Sobre você ter filhos ou não? Acho que não devo opinar. Mas, se você me perguntasse sobre minha própria vida, ela seria inimaginável sem meus filhos. Ser pai transformou completamente minha noção sobre o que significa caminhar pelo mundo. A maioria das pessoas vai dizer a mesma coisa. É como se o mundo passasse de plano para 3-D.

— Então você diria que devo ter filhos.

— O que você deve é decidir o que é melhor para você. Mas, como alguém que se importa profundamente com você, eu desejaria que conhecesse a mesma profunda conexão que meus filhos trouxeram para minha vida. Eu nem mesmo percebi que meu casamento ia mal até os dois saírem de casa, porque estava feliz demais com a presença deles.

— E você teria mais filhos? — Ela fez a pergunta com tanta leveza quanto eu tinha indagado sobre seu desejo de ter filhos.

Eu nunca havia pensado profundamente a esse respeito. Em vez disso, meio que respondera através das minhas ações. Não me sentira atraído por mulheres com filhos pequenos ou por aquelas cujo relógio biológico começara a soar.

Ali, na cama dela, com Nara colada ao meu corpo por causa do nosso suor, lancei luz sobre mim mesmo: eu poderia ser pai novamente, aos 54 anos? Não parecia tarde demais para astros do cinema e CEOs. Eu conhecia ao menos um homem no condado de Kindle, o promotor-geral, Tommy Molto, que havia se casado aos 52 anos e iniciara uma família, e ele parecia uma tulipa florescendo numa estufa no meio do inverno, embora uma vez tivesse me dito que, com a sua aparência, era frequentemente confundido como avô dos próprios filhos.

Mas Tommy não tinha filhos anteriores que ficariam desorientados com essa decisão, especialmente Pete, que não estava muito longe de iniciar a própria família. E Tommy tampouco havia passado por tudo isso. De imediato, a ideia de ter filhos na minha idade parecia um daqueles atos como o de Ícaro voando perto demais do sol. Eu me sentiria como se estivesse tentando viver duas vezes.

— Preciso pensar a respeito — respondi. — Nós dois precisamos.

— Precisamos mesmo — concordou Nara, se aproximando ainda mais de mim.

Na manhã de segunda-feira, Goos e eu trabalhamos juntos num relatório sobre a escavação. Na Bósnia, havíamos ficado confusos, porque ainda não tínhamos ideia de para onde haviam ido as pessoas que viviam em Barupra. Mas, ali, tínhamos que enfrentar nossas responsabilidades institucionais. O fato era que havíamos consumido um monte de recursos do tribunal por causa de alegações infundadas. Naquele estágio, era uma bênção que o depoimento de Ferko tivesse sido apresentado em público e que três juízes tivessem autorizado a investigação. Mas e agora? Nossa conclusão, após discutirmos por algum tempo, foi de que, como ainda não sabíamos se um crime de guerra tinha sido perpetrado, éramos obrigados a dar algum limitado seguimento, mesmo que continuar significasse conduzir o que se reduzia a uma investigação sobre o desaparecimento de quatrocentas pessoas.

Algumas horas depois, no fim da tarde, Goos entrou no meu escritório e fechou a porta, o sinal-padrão de que havia acontecido alguma coisa. Seu ar normalmente alegre, e que estivera muito mais evidente durante a manhã, após trazer Fien de volta a Haia, tinha desaparecido. Ele parecia aborrecido.

Meu primeiro pensamento foi que Roger cumprira sua ameaça.

— Meu nome está nos jornais? — Eu ainda não tinha contado sobre o encontro com Roger, que me parecera constrangedor por muitas razões, particularmente porque Goos sabia que ele era meu amigo.

— Como assim?

— Eu não contei a você que quase pedi demissão na sexta.

Enquanto eu relatava os eventos, Goos inclinou a cabeça para o lado como o cão da RCA olhando para o gramofone. Ele não estava entendendo.

— Eu provavelmente preciso pensar sobre a demissão, de qualquer maneira. Mais cedo ou mais tarde, a história sobre Esma vai chegar até aqui. E as pessoas vão dizer que foi por isso que acreditamos em Ferko e iniciamos a investigação. Eu vou ser o bode expiatório.

— Não, não vai ser. O Juízo de Instrução aprovou a investigação. E a história sobre Esma? Ninguém vai se interessar.

Ele se sentou na cadeira diante da minha mesa e contemplou as paredes nuas como se houvesse algo lá. Seus lábios estavam comprimidos, e ele mexeu a boca algumas vezes, parecendo prestes a falar.

— Diz logo, Goos.

— Bom, se acreditarmos nas fofocas, você não foi a primeira pessoa do tribunal a ser fisgado por ela.

Àquela altura, em se tratando de Esma, nada mais me surpreendia.

— E quem me antecedeu?

— Akemi. No outono passado. A suspeita é que a investigação foi aprovada por causa disso, mesmo com os americanos reclamando.

— Akemi?

— É o que dizem. Não tenho provas fotográficas. É só um rumor, mas nunca se sabe. Isso nunca me incomodou. A investigação deveria ter sido aprovada há muito tempo.

Mesmo que Esma negasse, eu podia apostar que tinha sido um de muitos — e o fato de que mulheres também faziam parte desse grupo fora relatado quando li sobre seu divórcio. O que me incomodava era compreender com ainda mais clareza que eu — assim como a pobre Akemi — havia sido apenas usado.

— E o que houve com o feliz casal? — quis saber.

— Dizem que Esma terminou tudo e deixou Akemi arrasada. Suspeito que seja seu modus operandi.

Isso explicaria por que Esma tinha ficado tão angustiada quando eu terminara tudo. Ela via como seu direito imperial a opção de sair primeiro do palco.

Goos ainda estava encolhido na cadeira, me observando com evidente desconforto. Meu instinto era perguntar por que ele não tinha me dito algo, mas reconheci que isso seria idiotice. Metade das pessoas do mundo provavelmente já havia dito “Esse relacionamento não é bom para você” a alguém com quem se importava, e o número de vezes em que o aviso não se voltara contra elas era muito, muito menor.

— E seu amigo não disse nada sobre o que aconteceu com aquelas quinhentas mil armas? — perguntou Goos, referindo-se a Roger.

— Nem uma palavra. Eu adoraria descobrir.

— Mas não é nosso papel investigar, é?

— Não. Nosso papel é investigar o massacre de quatrocentas pessoas que supostamente foram enterradas na caverna e agora estão desaparecidas.

— Verdade. Mas eu tenho algumas boas notícias. Foi sobre isso que vim conversar.

Ele colocou várias capturas de tela do Facebook sobre a minha mesa.

— Você quer que eu leia isso? — perguntei.

— Sei que não é muito divertido.

— Goos, isso aqui está em servo-croata.

— Ah, certo. Certo, certo — disse ele, batendo na testa com a mão espalmada. — Quer que eu traduza?

— Faça um resumo.

— Você se lembra da nossa base improvisada de DNA?

— Aquela para identificar os parentes de todas as pessoas que achávamos que encontraríamos na caverna?

— Essa mesmo. Eu fiz um post no Facebook dizendo que estava procurando familiares consanguíneos das pessoas que viveram em Barupra de 1999 a 2004. Encontrei duas meninas, ambas novas no Facebook, que afirmam ter nascido em Barupra.

— Nascido lá? E onde moram agora?

— Mitrovica, Kosovo. Foi de onde veio todo o pessoal de Barupra, parceiro. Uma delas, a de 15 anos, respondeu a duas mensagens minhas hoje. Ela disse que os seus pais e os pais dos seus amigos sequer dizem a palavra “Barupra” em voz alta. Ninguém, em todo o campo onde estão, fala esse nome. Muitos dos amigos dela sequer sabem que nasceram lá. Boom, eu já procurei “Barupra” na internet. YouTube. Facebook. Crime Stoppers. E muitos outros sites. E nunca ouvi uma palavra de alguém dizendo que viveu lá.

— E o que mudou?

— É melhor eu ir até lá e descobrir, não acha?

— Mas as meninas estão dizendo que os pais também viveram em Barupra? E as outras pessoas que estão no acampamento agora também? É isso, não é? É isso que estão insinuando?

— É isso que estão insinuando. Parece que, no fim das contas, os roma simplesmente voltaram para casa.

Falácia investigativa é o ato de presumir coisas nas quais você quer acreditar. Eu e Goos havíamos sido treinados para não tomar nada como verdade absoluta. Mas o inquestionável desaparecimento de quatrocentas pessoas, assim como o depoimento de Ferko, de algum modo havia nos impedido de considerar a alternativa de que elas simplesmente se mudaram. Havia razões para acreditarmos no que acreditávamos. Os roma partiram sem dizer uma palavra aos seus poucos amigos e parentes na área, e permaneciam em silêncio mesmo onze anos depois. Além disso, não dispunham de meios na época para transportar quatrocentas pessoas. A não ser, percebi subitamente, que o Exército americano tivesse chegado no meio da noite com dezenas de caminhões para levá-los para casa.