G. parte da dialética quantidade-qualidade de Hegel e de Engels, mas a repropõe de modo diferente e com algumas limitações. Ele acredita ter de distinguir a história humana da evolução dos outros seres vivos, nos quais essa dialética não se verifica: “Na evolução do homem, juntaram-se muitas condições favoráveis no sentido de ajudá-lo a se tornar o que era, mesmo antes de se desenvolverem a vontade definida para um fim e a inteligência suficiente para organizar os meios necessários para alcançar o próprio fim. Ao que parece, a quantidade se torna qualidade para o homem e não para os outros seres vivos” (LC, 802, a Delio, s.d. [Cartas, II, 423]). Por isso G. recusa – por considerar naturalista e, portanto, reducionista – qualquer abordagem sociológica da economia e, em geral, da história humana: “A sociologia é, portanto, uma tentativa de extrair ‘experimentalmente’ as leis de evolução da sociedade humana, de maneira a ‘prever’ o futuro com a mesma certeza com que se prevê que de uma semente nascerá uma árvore. O evolucionismo vulgar está na base da sociologia, que não pode conhecer o princípio dialético da passagem da quantidade à qualidade, passagem que perturba toda evolução e toda lei de uniformidade entendida em sentido vulgarmente evolucionista” (Q 11, 26, 1.432 [CC, 1, 150]). Para o estudo dos processos econômicos e, sobretudo, do entrelaçamento dos processos históricos, a pesquisa quantitativa visa captar os momentos qualitativos e a tornar real a dialética quantidade-qualidade na dialética necessidade-liberdade. As leis econômicas de tendência, de fato, “são leis não no sentido naturalista e determinista especulativo, mas em sentido ‘historicista’, isto é, na medida em que exista o ‘mercado determinado’, ou seja, um ambiente organicamente vivo e articulado em seus movimentos de evolução. (A economia estuda essas leis de tendência enquanto expressões quantitativas dos fenômenos; na passagem da economia à história geral, o conceito de quantidade é complementado pelo de qualidade e pela dialética da quantidade que se transforma em qualidade [quantidade = necessidade; qualidade = liberdade. A dialética quantidade-qualidade é idêntica à dialética necessidade-liberdade])” (Q 10 II, 9, 1.248 [CC, 1, 318]).
Num trecho bastante elaborado, G. recusa qualquer concepção dicotômica dos dois conceitos, quase como se fossem uma contraposição entre entidades externas uma à outra. A passagem é sempre de uma dada quantidade-qualidade a uma diferente quantidade-qualidade. Aliás, no título do trecho seguinte talvez esteja implícita a identificação dos dois termos: “II. Quantidade e qualidade. Dado que não pode existir quantidade sem qualidade e qualidade sem quantidade (economia sem cultura, atividade prática sem inteligência, e vice-versa), toda contraposição dos dois termos é, racionalmente, um contrassenso. E, de fato, quando se contrapõe a qualidade à quantidade com todas as néscias variações no estilo de Guglielmo Ferrero & Cia., contrapõe-se, na realidade, uma certa qualidade a outra qualidade, uma certa quantidade a outra quantidade, isto é, faz-se uma determinada política e não uma afirmação filosófica. Se o nexo quantidade-qualidade é inseparável, coloca-se a questão: onde é mais útil aplicar a própria força de vontade, em desenvolver a quantidade ou a qualidade? Qual dos dois aspectos é mais controlável? Qual é mais facilmente mensurável? Sobre qual dos dois é possível fazer previsões, construir planos de trabalho? A resposta parece indubitável: sobre o aspecto quantitativo. Afirmar, portanto, que se quer trabalhar sobre a quantidade, que se quer desenvolver o aspecto ‘corpóreo’ do real, não significa que se pretenda esquecer a ‘qualidade’, mas, ao contrário, que se deseja colocar o problema qualitativo do modo mais concreto e realista, isto é, deseja-se desenvolver a qualidade pelo único modo no qual tal desenvolvimento é controlável e mensurável. A questão está relacionada com outra, expressa no provérbio: ‘Primum vivere, deinde philosophari’. Na realidade, não é possível destacar o viver do filosofar. Todavia, o provérbio tem um significado prático: viver significa ocupar-se principalmente com a atividade prática econômica; filosofar, ocupar-se com atividades intelectuais, de otium litteratum. Todavia, há os que apenas ‘vivem’, obrigados a um trabalho servil e extenuante etc., sem os quais determinadas pessoas não poderiam ter a possibilidade de se exonerarem da atividade econômica para filosofar. Sustentar a ‘qualidade’ contra a quantidade significa, precisamente, apenas isto: manter intactas determinadas condições de vida social nas quais alguns são pura quantidade, outros, qualidade. E como é agradável considerar-se representantes patenteados da qualidade, da beleza, do pensamento etc.! Não existe madame do ‘grande mundo’ que não acredite cumprir esta função de conservar sobre a terra a qualidade e a beleza!” (Q 10 II, 50, 1.340-1 [CC, 1, 408-9]).
Os dois termos são encontrados nas reflexões sobre a cultura e a escola: “O mesmo ocorre na preparação dos intelectuais e nas escolas destinadas a tal preparação: escolas e instituições de alta cultura são similares [...]. (Também nesse campo a quantidade não pode ser destacada da qualidade. À mais refinada especialização técnico-cultural, não pode deixar de corresponder a maior ampliação possível da difusão da instrução primária e o maior empenho no favorecimento do acesso aos graus intermediários do maior número. Naturalmente, esta necessidade de criar a mais ampla base possível para a seleção e elaboração das mais altas qualificações intelectuais – ou seja, de dar à alta cultura e à técnica superior uma estrutura democrática – não deixa de ter inconvenientes: cria-se assim a possibilidade de amplas crises de desemprego nas camadas médias intelectuais, como ocorre efetivamente em todas as sociedades modernas)” (Q 12, 1, 1.517-8 [CC, 2, 19-20]). Se na nota citada anteriormente se sugere identificar quantidade e qualidade, num outro contexto em que é proposto novamente o problema da escola e dos estudos, G. estabelece na passagem do quantitativo ao qualitativo uma menor descontinuidade em relação àquela sugerida pelo conceito de um “salto” (que também estava presente na fórmula “salto de qualidade”, familiar à tradição marxista): “Entre a escola média e a universidade, há um salto, uma verdadeira solução de continuidade, não uma passagem normal da quantidade (idade) para a qualidade (maturidade intelectual e moral). Do ensino quase puramente receptivo se passa à escola criativa; da escola com a disciplina de estudo imposta e controlada de fora se passa à escola em que a autodisciplina [intelectual] e a autonomia moral são teoricamente ilimitadas” (Q 4, 50, 486).
Giuseppe Prestipino
Ver: liberdade; necessidade.
G. se indaga sobre o “nexo histórico 1848-1849” (Q 2, 62, 218 [CC, 4,179] e Q 19, 51, 2.070 [CC, 5, 120]), sobre a relação entre revolução e contrarrevolução. O Quarantotto foi o “período democrático da revolução italiana” (Q 9, 102, 1.165), um dos “momentos de vida intensamente coletiva e unitária no desenvolvimento nacional do povo italiano” (Q 19, 19, 2.004-5 [CC, 5, 56]). Mas “um profundo movimento popular, uma intervenção de massas plebeias” foi bem raro, salvo exceções, como em Livorno (Q 19, 9, 1.997 [CC, 5, 50]), e, aliás, frequentemente os camponeses – croatas, lombardo-vênetos – combateram contra os liberais (Q 10 I, 13, 1.236 [CC, 1, 306]). O movimento de Quarantotto caracteriza-se muito mais pela “espontaneidade” (Q 8, 11, 944 [CC, 5, 280]) e “violência desorganizada”, como na região de Avellino (Q 7, 108, 931 [CC, 5, 277]). A “onda popular-mazziniana-democrática” foi “caótica, desorganizada, ‘extemporânea’”, ainda que generosa, e capaz de obter, em Veneza e Roma, “seguindo líderes improvisados ou quase [...] sucessos indubitavelmente maiores do que aqueles obtidos pelos moderados” (Q 15, 15, 1.772 [CC, 5, 319]) e pelo exército regular piemontês. A derrota de Novara foi determinada pela “crise política” do Estado dos Saboia, que deixou faltar “uma orientação unitária política bem estabelecida e resoluta” (Q 19, 51, 2.070 [CC, 5, 120]). “A insurreição de 1848 faliu devido às intrigas maliciosamente mesquinhas dos direitistas, que foram os moderados do período sucessivo” (Q 19, 38, 2.062 [CC, 5, 112]). Mas não se tratou apenas de intrigas e pequenez política. Como no jacobinismo burguês de 1791 e 1793, e ainda mais do que então, “a revolução havia encontrado os limites mais amplos da classe” (Q 19, 24, 2.030 [CC, 5, 62]): o governo piemontês, obcecado como os outros velhos governos e o papa pelo “espectro” do comunismo (Q 1, 44, 53), cuja “filosofia da práxis” é “elaborada justamente na véspera de 1848” (Q 16, 9, 1.863 [CC, 4, 31]), preferiu “a derrota a uma insurreição geral italiana” (Q 19, 29, 2.055 [CC, 5, 105]). Com o ano de 1848, abandona-se o período revolução-restauração aberto em 1789 e se anuncia a mudança de fase, mais evidente depois de 1871 (derrota da Comuna de Paris e estabilização da burguesia francesa), que vê a “passagem da luta política da ‘guerra manobrada’ à ‘guerra de posição’, que Mazzini e os mazzinianos não souberam compreender (Q 15, 11, 1.768 [CC, 5, 316]).
Andrea Catone
Ver: Cavour; guerra de movimento; Mazzini; Piemonte; Risorgimento.
A expressão aparece pela primeira vez em Q 1, 63, no contexto de uma discussão – inspirada por uma observação crítica formulada por Benedetto Croce (“Recenti interpretazioni della teoria marxistica del valore e polemiche intorno ad esse” [Recentes interpretações da teoria marxista do valor e polêmicas sobre ela], em Croce, 1986a, nota 136) – sobre o “lorianismo” do economista marxista Antonio Graziadei. Diante da “subterrânea corrente de romantismo popular criada pelo ‘culto à ciência’, pela ‘religião do progresso’ e pelo otimismo geral do século XIX”, “deve-se ver”, anota G., “se não foi legítima a reação de Marx, que com a ‘lei tendencial da queda da taxa de lucro’ e com o ‘catastrofismo’ jogava muita água no fogo: deve-se ver também o quanto essas correntes otimistas impediram uma análise mais acurada das proposições de Marx” (ibidem, 74). O texto, de fevereiro-março de 1930, é retomado em 1935 com algumas variações substitutivas: “Deve-se observar se não foi legítima e de amplo alcance a reação de Marx, que, com a lei tendencial da queda da taxa de lucro e com o chamado catastrofismo, jogava muita água no fogo; deve-se ver também em que medida a ‘opiomania’ impediu uma análise mais cuidadosa das proposições de Marx” (Q 28, 11, 2.330 [CC, 2, 265-6]). A alusão (já presente na primeira redação), ao fato de que o marxismo fora presa da mesma fé no progresso que caracterizava as correntes burguesas aparece explicitada na segunda redação com a remissão ao efeito “narcótico”, derivado do “método político de forçar arbitrariamente uma tese científica para dela extrair um mito popular estimulante e propulsor: o método poderia ser comparado ao uso dos narcóticos, que criam um instante de exaltação das forças físicas e psíquicas, mas enfraquecem permanentemente o organismo” (Q 10 II, 36, 1.284 [CC, 1, 353]: essa observação se refere justamente ao forçar arbitrariamente a lei da queda da taxa de lucro). Da mesma forma, a leitura, já presente no Q 1, da lei tendencial formulada por Marx como algo compreensível apenas como reação ao triunfalismo progressista do século XIX (leitura paralela àquela das principais teses do Prefácio de 59 como “metáforas”, legíveis apenas à luz do tecido de referências linguísticas em que nascem) aparece no Q 28 enriquecida com a passagem relativa ao “longo alcance” dessa lei tendencial. De fato, a leitura que nos Q se desenvolve gradualmente se desdobra ao longo de duas direções principais, ambas as quais tornam compreensível essa última variável. A primeira delas, anunciada no Q 7, 34 (fevereiro-novembro de 1931) e retomada em segunda redação no Q 10 II, 41.VII [CC, 1, 361] (agosto-dezembro de 1932), se refere à possibilidade de ler a dinâmica em curso de maior importância do mundo contemporâneo – a combinação de taylorismo e fordismo que se consolida nos Estados Unidos – como “a tentativa de superar essa primeira aproximação” à qual a “lei” formulada por Marx na realidade se reduz (Q 7, 34, 882). Na segunda redação, a expressão “teorema de primeira aproximação” não é retomada e toda a passagem é reformulada e esclarecida: “Essa lei deveria ser estudada com base no taylorismo e fordismo. Não são estes dois métodos de produção e de trabalho tentativas progressivas para superar a lei tendencial, eludindo-a com a multiplicação das variáveis nas condições do aumento progressivo do capital constante?” (Q 10 II, 41.VII, 1.312 [CC, 1, 380-1]). O acréscimo de “progressivos” se vê à luz do desenvolvimento da análise do americanismo, culminante no Q 22, em cujo início se retoma a referência à “lei”: “O fordismo como ponto extremo do processo de sucessivas tentativas da indústria no sentido de superar a lei tendencial da queda da taxa de lucro” (Q 22, 1, 2.140 [CC, 4, 242]).
Paralelamente à convicção do caráter progressivo do americanismo, cresce assim em G. a consciência analítica com relação ao estatuto da lei tendencial da queda da taxa de lucro. Pouco antes do Q 7, 34 ele havia comparado a “teoria dos custos comparativos [e decrescentes]” e a teoria “do equilíbrio estático e dinâmico” à “teoria marxista do valor [e da queda da taxa de lucro]”, Q 7, 22, 870 [CC, 1, 441]), acrescentando que as duas primeiras talvez devessem ser consideradas “o equivalente científico” da segunda “em linguagem oficial e ‘pura’ (despojada de toda política enérgica em favor das classes produtoras subalternas)” (idem). Essa avaliação, que retoma o aceno do Q 1 ao caráter “reativo” da lei tendencial e da qual se encontram traços na definição desta como “teorema de primeira aproximação”, é modificada já no curso do Q 7, 34 e mais tarde, no momento em que a leitura do fordismo revela a potencialidade heurística da lei, bem além de seu caráter “energético”: de fato, à altura do Q 22 o inteiro desenvolvimento capitalista é lido como “processo de tentativas sucessivas” (Q 22, 1, 2.140 [CC, 4, 241]) de reagir a crises “cíclicas” (Q 7, 34, 883) ou, se se preferir, como um suceder-se de impulsos ao decréscimo dos custos graças ao crescimento da produtividade. Nesse caso, adquire sempre maior peso a específica qualificação da lei como “tendencial”. A necessidade de refletir sobre isso é suscitada em G. por Croce, como de Croce, como se viu, deriva também a primeira referência crítica a Graziadei no Q 1, 63. Com efeito, a coletânea crociana dos ensaios datados do fim do século XIX, intitulada Materialismo histórico e economia marxista, é utilizada por G. até 1932, seja como reação a qualquer leitura reducionista e economicista do materialismo histórico e da teoria econômica marxista, seja como testemunho da mudança de posição do próprio Croce, que daquela fase inicial de respeito e escrúpulo científico passa, a partir do pós-guerra, a exibir ante Marx e o marxismo uma atitude liquidacionista e desdenhosa.
No Q 10 pode-se testemunhar um forte crescimento da atenção dada à teoria econômica, acompanhado de atenta releitura da supramencionada obra de Croce. A primeira evidência disso se encontra em Q 10 II, 31 [CC, 1, 345], numa variante instauradora no final de um desafiante texto dedicado ao conceito de filosofia. A essas reflexões G. acrescenta a observação geral de “que as afirmações de Croce foram muito menos axiomáticas e formalmente decisivas do que hoje ele quer fazer crer. A teoria do valor não é de modo algum negada intrinsecamente em seu ensaio principal”, isto é, no livro citado. Croce “afirma que a única ‘teoria do valor’ científica é a do grau final de utilidade, e que a teoria marxista do valor é ‘outra coisa’, mas como ‘outra coisa’ ele reconhece sua solidez e eficácia e pede aos economistas para refutá-la com argumentos diversos dos costumeiramente empregados por Böhm-Bawerk e Cia. [...]. A mesma prudência formal revela-se no escrito sobre a queda da taxa de lucro: o que quis dizer o autor da teoria? Se quis dizer isso, não é exato. Mas quis mesmo dizer isso? Consequentemente, deve-se ainda examinar o assunto etc. Aliás, deve-se sublinhar como esta atitude prudente modificou-se completamente nos últimos anos e tudo se tornou peremptório e definitivo, ao mesmo tempo em que se faz mais acrítico e injustificado” (ibidem, 1.275-6 [CC, 1, 345-6]; v. um desenvolvimento dessa crítica em Q 10 II, 34 [CC, 1, 349]).
A ideia é retomada e radicalizada em Q 10 II, 33 [CC, 1, 348], em que se observa que também naquele escrito de fim de século há “um erro fundamental”, o de não haver levado em conta a relação entre primeiro e terceiro livros d’O capital. Se a lei é enunciada no terceiro livro, no primeiro Marx “já tinha apresentado” o problema, introduzindo o conceito “de mais-valor relativo e do progresso técnico precisamente como causa de mais-valor relativo”. E acrescenta: “No mesmo local, observa-se como, nesse processo, manifesta-se uma contradição, ou seja: enquanto, por um lado, o progresso técnico permite um crescimento do mais-valor, determina, por outro, em função da modificação que introduz na composição do capital, a queda tendencial da taxa de lucro, o que é demonstrado no Livro III da Crítica da economia política”. Portanto, “Croce apresenta como objeção à teoria exposta no Livro III aquela parte do desenvolvimento teórico contida no Livro I, ou seja, expõe como objeção à lei tendencial da queda da taxa de lucro a demonstração da existência de um mais-valor relativo causado pelo progresso técnico, mas sem jamais se referir, uma única vez, ao Livro I, como se a objeção tivesse sido extraída de sua cabeça ou mesmo como se fosse um produto do bom senso” (ibidem, 1.278 [CC, 1, 348]). O que interessa a G. afirmar nesse caso, para além de suas compreensíveis cautelas (“todas essas notas [...] foram escritas em grandíssima parte com base na memória”, ibidem, 1.278-9 [CC, 1, 348]), é o fato de que a interação entre ampliação do mais-valor e mudança da composição orgânica do capital dá lugar a um movimento real, histórico, que atribui um significado particular ao adjetivo “tendencial”. De fato, desde o início, como se viu, G. prefere falar de “lei tendencial”, isto é, que adquire progressivamente significado em relação à análise do americanismo. Mas é no Q 10 que tal escolha aparece em argumentos: “Por outro lado, talvez se deva determinar melhor o significado de lei ‘tendencial’ [...] enquanto, costumeiramente, o adjetivo ‘tendencial’ está subentendido como óbvio, insiste-se em seu uso, ao contrário, quando a tendencialidade se torna uma característica organicamente importante, como neste caso, em que a queda da taxa de lucro é apresentada como o aspecto contraditório de uma outra lei [...] em que uma tende a elidir a outra, com a previsão de que a queda da taxa de lucro prevalecerá” (idem). “Tendencial” não quer dizer, portanto, apenas que a lei não é determinista (isto é, que se baseia em um “suposto que”), mas que duas tendências realmente se opõem e se contrastam, se anulando parcialmente. Escreve G. em um texto imediatamente posterior: “É necessário desenvolver a referência sobre a significação de ‘tendencial’ com relação à lei da queda do lucro. É evidente que, nesse caso, a tendencialidade não pode referir-se somente às forças contraoperantes na realidade todas as vezes que se abstraem dela alguns elementos isolados a fim de construir uma hipótese lógica. Já que a lei é o aspecto contraditório de uma outra lei – a do mais-valor relativo, que determina a expansão molecular do sistema fabril, isto é, o próprio desenvolvimento do modo capitalista de produção – é impossível que estas forças contraoperantes sejam as mesmas das hipóteses econômicas comuns. Nesse caso, a força contraoperante é ela mesma organicamente estudada, dando lugar a uma outra lei tão orgânica quanto a da queda. A significação de ‘tendencial’, portanto, ao que parece, deve ser de caráter ‘histórico’ real e não metodológico: o termo serve, precisamente, para indicar este processo dialético pelo qual o impulso molecular progressivo conduz a um resultado tendencialmente catastrófico no conjunto social, resultado de onde partem outros impulsos singulares progressivos, em um processo de contínua superação, o qual, contudo, não se pode prever como infinito, ainda que se desagregue em um número muito grande de fases intermediárias de diversa medida e importância” (Q 10 II, 36, 1.282-3 [CC, 1, 352]).
No mesmo texto é também aprofundada a crítica ao ensaio crociano, com a dupla observação de que “Croce, em sua análise, esquece um elemento fundamental na formação do valor e do lucro, a saber, o ‘trabalho socialmente necessário’, cuja formação não pode ser estudada e descoberta em uma única fábrica ou empresa”, e que ele erroneamente “parte do pressuposto de que todo progresso técnico determina imediatamente, como tal, uma queda da taxa de lucro” (ibidem, 1.281-2 [CC, 1, 351]). O fato de que o trabalho socialmente necessário se constitua como equalização entre os trabalhos mediada pela concorrência também faz que o progresso técnico (ou seja, os sucessivos aprofundamentos na extração de mais-valor relativo) se generalize apenas de modo gradual, e justamente graças a isso, torne inicialmente possível um aumento e não diminuição na taxa de lucro. Não por acaso, reaparece aqui a referência a Ford: “Toda a atividade industrial de Henry Ford pode ser estudada deste ponto de vista: uma luta contínua e incessante para fugir da lei da queda da taxa de lucro, pela manutenção de uma posição de superioridade sobre os concorrentes” (idem).
Bibliografia: Barbagallo, 2003; Potier, 1990.
Fabio Frosini
Ver: catástrofe/catastrófico; Croce; economia; fordismo; lei de tendência; mercado determinado.
O conceito de “questão agrária” em G. se articula em “questão camponesa”, “questão meridional” e “questão vaticana”, como consta seja da Questão meridional quanto dos Cadernos. Nesses textos, G. adapta as teses leninistas sobre a questão agrária às diferenças territoriais e sociais próprias dos campos italianos e expressa a necessidade de uma ampliação da missão revolucionária do partido em direção a outras áreas políticas portadoras de consenso nos campos, como os católicos do Partido Popular, guiados por Miglioli, o Partido dos Camponeses, sediado no Piemonte, as formações do movimento combatentista, o Partido Sardo da Ação. Nessa ótica, G. promove em 1924 a formação de uma associação de pequenos agricultores, obtendo a anuência da Internacional Camponesa em Moscou (Krestintern).
A incapacidade das classes dirigentes do Risorgimento em se aproximar das massas camponesas com uma radical redistribuição das terras, a reforma agrária, é uma das causas, segundo G., da incompletude do processo de unificação política e econômica nacional (Q 1, 44, 44). Entretanto, a questão agrária não se esgota no problema político-social do regime fundiário e da reforma agrária, mas tem uma dimensão técnica e um significado político mais geral dentro da divisão internacional do trabalho. No cárcere, G. delineia um amplo projeto de pesquisa e de estudo para identificar novos vínculos entre cidade e campo (entre Norte e Sul), para dirigir a emigração rural, identificar empresas e empresas agrícolas, conhecer os camponeses sob o aspecto da mentalidade, da religião, da alimentação, da economia, da propriedade e dos contratos agrários, para reorganizar o aparato produtivo e racionalizá-lo integralmente: “Seria necessário, por isso, promover uma reforma agrária (com a abolição da renda da terra como renda de uma classe não trabalhadora e sua incorporação ao organismo produtivo, como poupança coletiva destinada à reconstrução e a ulteriores progressos) e uma reforma industrial que fizesse todas as rendas decorrerem de necessidades funcionais técnico-industriais e não mais serem consequências jurídicas do puro direito de propriedade” (Q 22, 14, 2.177 [CC, 4, 278]).
Emanuele Bernardi
Ver: camponeses; questão meridional; questão vaticana; Risorgimento.
Escrevendo à mulher Giulia, em 16 de janeiro de 1933, a propósito do filho maior, Giuliano, G. demonstra compartilhar pelo menos uma das teses de Cesare Lombroso, acerca de duas fases diferentes da vida juvenil: “Lombroso distingue, em sua vida juvenil, a época em que se deu conta de sua existência como pessoa física e aquela em que se deu conta de sua pessoa psíquica (aos dezesseis anos), e me parece que a distinção é correta e tem sua importância” (LC, 668 [Cartas, II, 292]). Ele já havia abordado, três anos antes, numa carta ao irmão Carlo (a carta é de 25 de agosto de 1930), no que se refere ao aspecto educativo e da formação do caráter e da disciplina psicofísica, o problema da divisão da juventude em dois momentos, “antes e depois da puberdade”: “Antes da puberdade, a personalidade da criança ainda não se formou e é mais fácil guiar sua vida e fazê-la adquirir determinados hábitos de ordem, de disciplina, de trabalho. Depois da puberdade, a personalidade se forma de modo impetuoso e toda intervenção alheia se torna odiosa, tirânica, insuportável” (LC, 351 [Cartas, I, 439]). É no primeiro período, para G., que o educador deve intervir, ao contrário do que geralmente acontece: “Por que não se ocupar da criança no primeiro período? Parece pouco, mas o hábito de ficar sentado junto a uma mesinha de cinco a oito horas por dia é uma coisa importante, que pode ser inculcado até os quatorze anos sem sofrimento, mas em seguida não mais. Para as mulheres, me parece que é a mesma coisa, ou talvez pior, porque a puberdade é uma crise muito mais grave e complexa do que nos homens. Com a vida moderna e a relativa liberdade das moças, a questão se agrava ainda mais” (ibidem, 352 [Cartas, I, 440]). Sobre as dificuldades maiores criadas pela organização escolar para as meninas, ele observa: “Hoje, em nosso país, as atividades femininas enfrentam condições muito desfavoráveis desde os primeiros anos de escola, por exemplo, a exclusão das jovens de muitas bolsas de estudo etc., de modo que é necessário, na concorrência, que as mulheres tenham qualidades superiores àquelas requeridas dos homens, e uma dose maior de tenacidade e perseverança (LC, 418, a Teresina, 4 de maio de 1931 [Cartas, II, 43]).
Por outro lado, não podem ser ignoradas as mudanças dos modelos (ou das modas) que atuam em razão de certo espírito de imitação característico de uma considerável fatia do mundo juvenil: “Ora, é impossível imaginar que a repetição contínua dos gestos físicos que, dançando, os negros fazem em torno de seus fetiches, e ter sempre no ouvido o ritmo sincopado das jazz-bands, fiquem sem resultados ideológicos”. E G. observa a respeito: “Trata-se de um fenômeno amplamente difundido, que atinge milhões e milhões de pessoas, especialmente jovens” (LC, 162, a Tânia, 27 de fevereiro de 1928 [Cartas, I, 239]). Coloca-se, assim, implicitamente, o tema de uma “questão jovem”, que nos Q é tratada explicitamente. No Q 1, 127, 115-6 [CC, 2, 63], sob o título “A questão dos jovens”, G. considera particularmente importantes, entre as “muitas ‘questões’ dos jovens”, as seguintes: “1) A geração ‘antiga’ realiza sempre a educação dos ‘jovens’; haverá conflito, discórdia etc., mas se trata de fenômenos superficiais, inerentes a toda obra educativa e de refreamento, a menos que estejam em jogo interferências de classe, isto é, os ‘jovens’ (ou uma substancial parcela deles) da classe dirigente (entendida no mais amplo sentido, não só econômico, mas também político-moral) se rebelam e passam para a classe progressista, que se tornou historicamente capaz de tomar o poder: mas, neste caso, trata-se de ‘jovens’ que deixam de ser dirigidos pelos ‘velhos’ de uma classe para serem dirigidos pelos ‘velhos’ de uma outra classe; de qualquer modo, permanece a subordinação real dos ‘jovens’ aos ‘velhos’ como geração, mesmo com as diferenças de temperamento e vivacidade acima recordadas. 2) Quando o fenômeno assume um caráter dito ‘nacional’, isto é, quando não se revela abertamente a interferência de classe, então a questão se complica e torna-se caótica. Os ‘jovens’ estão em estado de rebelião permanente, já que persistem suas causas profundas, sem que eles possam analisá-las, criticá-las e superá-las (não de modo conceitual e abstrato, mas histórico e real); os ‘velhos’ dominam de fato, mas... après moi le déluge, não conseguem educar os jovens e prepará-los para a sucessão. Por quê? Isto significa que existem todas as condições para que os ‘velhos’ de uma outra classe devam dirigir estes jovens, sem que possam fazê-lo”.
Nessa passagem, em que os termos “jovens” e “velhos” ocorrem quase sempre entre aspas, a “questão dos jovens” refere-se ao tema da relação entre as classes e a eficácia da transmissão do consenso. G. faz referência explícita à mesma passagem e, mais ainda, a algumas considerações exatamente sobre a crise de consenso, que se agrava quando “o velho morre e o novo não pode nascer”, no momento (Q 3, 34, 311 [CC, 3, 184]) em que acena mais uma vez à “assim chamada ‘questão dos jovens’ determinada pela ‘crise de autoridade’ das velhas gerações dirigentes e pelo impedimento mecânico a quem poderia desenvolver sua missão” (“mecânico” aqui significa “coercitivo”); mas “uma ruptura tão grave entre massas populares e ideologias dominantes, como aquela que se verificou no pós-guerra, pode ser ‘curada’ com o puro exercício da força que impede que novas ideologias se imponham?”.
Giuseppe Prestipino
Ver: classe/classes; consenso; educação; escola; feminismo; ideologia; jazz.
Depois das formulações iniciais do problema, que já a partir de 1916 introduziam elementos novos na base salveminiana da reflexão, G. delineia, desde 1920, os traços de uma “questão meridional” como determinação específica do capitalismo e avança na direção de uma proposta que elege a ação dos “operários urbanos da Itália setentrional” como a “solução do problema agrícola” (“Operai e contadini” [Operários e camponeses], 3 de janeiro de 1920, em ON, 377). Nessa fase, é ainda forte a influência da experiência bolchevique, que leva G. a afirmar que “os problemas atuais da economia industrial e agrícola podem ser resolvidos apenas fora do Parlamento, contra o Parlamento, pelo Estado operário” (ibidem, 378). Em poucos anos, porém, a questão vai assumindo, em G., traços mais decisivamente políticos e mais fortemente ancorados na realidade italiana. Por ocasião da proposta de dar o título de L’Unità ao jornal do partido, G. aponta a necessidade de “dar importância especialmente à questão meridional, isto é, à questão em que o problema das relações entre operários e camponeses se coloca não apenas como um problema de relação de classe, mas também, e especialmente, como um problema territorial, isto é, como um dos aspectos da questão nacional” (L, 130). O III Congresso do Partido Comunista da Itália trata amplamente da questão meridional como o aspecto principal, com a questão vaticana, da mais ampla questão agrária, que é, pois, o modo de analisar o caso específico da formação histórica e da composição do Estado italiano. O partido deve se mover em duas frentes: de fato, é necessário que ele “destrua no operário industrial o preconceito inculcado pela propaganda burguesa de que o Mezzogiorno é uma bola de chumbo que se opõe aos grandes desenvolvimentos da economia nacional, e que destrua no camponês meridional o preconceito, ainda mais perigoso, por meio do qual ele vê no norte da Itália um só bloco de inimigos de classe” (“Cinque anni di vita del partito” [Cinco anos de vida do partido], 20-26 de janeiro de 1926, em CPC, 108, itálico da autora do verbete).
Na verdade, a ruptura do bloco histórico tradicional e a construção de um novo bloco social anticapitalista, constituído por operários e camponeses, é para G., em Alguns temas da questão meridional, o caminho a ser seguido para enfrentar a questão meridional associando sua qualidade nacional àquela de classe: o duplo e ambicioso objetivo que G. coloca aos companheiros de partido, pouco antes de sua prisão, é de superar a forma da unidade nacional típica do Risorgimento, baseada na anexação das regiões do Sul, para desenvolver um sentimento real de nação, por meio do protagonismo das massas camponesas meridionais no processo histórico (“depois dos operários, os camponeses são a parte mais revolucionária da sociedade italiana”), bem como, contemporaneamente, construir “uma aliança política entre operários do Norte e camponeses do Sul para afastar a burguesia do poder de Estado” (QM, 139 [EP, 2, 407]). Se até aquele momento o grande pensamento liberal – de que Giustino Fortunato e Benedetto Croce eram os mais respeitados expoentes no front meridionalista, mas reunindo também outros nomes de relevo, como o de Gaetano Salvemini – havia permitido aos governos de Crispi e Giolitti uma política de contínua exploração e marginalização das massas meridionais, por meio de capciosas propostas de divisão da terra que não resolviam as questões mais amplas postas pelo Mezzogiorno, mas o isolavam cada vez mais como um “grande campo” diante da “grande cidade” que é o Norte, para G. era hora de que “o operário revolucionário de Turim e de Milão se torne o protagonista da questão meridional” (idem), e não mais os grandes intelectuais liberais. “O Mezzogiorno pode ser definido como uma grande desagregação social [...]. A sociedade meridional é um grande bloco agrário constituído por três estratos sociais: a grande massa camponesa amorfa e desagregada, os intelectuais da pequena e média burguesia rural, os grandes proprietários fundiários e os grandes intelectuais” (ibidem, 150 [EP, 2, 423]). Justamente o último estrato é aquele que caracteriza e domina “todo esse complexo de manifestações” da vida social, por meio da mediação que, em vários níveis, os intelectuais garantem, e de cuja casta também faz parte o clero. Romper o laço entre a massa camponesa e a camada dominante é fundamental, “porque esse monstruoso bloco agrário [...] em seu conjunto atua como intermediário e controlador a serviço do capitalismo setentrional e dos grandes bancos” (ibidem, 153 [EP, 2, 428]); isso permite conservar o status quo, tanto meridional quanto setentrional, representando um elemento regressivo de dimensão nacional. G. reivindica a intuição da formação de um bloco alternativo para o bloco agrário como um fato que já preocupava os comunistas de Turim em 1914, quando propuseram a Gaetano Salvemini que se candidatasse em um colégio eleitoral turinês para representar os camponeses do Sul no parlamento. Entretanto, tratava-se de um estágio ainda não maduro da elaboração do novo bloco, um estágio em que ainda se acreditava possível que os intelectuais democráticos meridionais atuassem como interlocutores do movimento revolucionário. O consenso que os camponeses haviam atribuído a Salvemini na Puglia, nas eleições de 1913, levou a crer que esse intelectual fosse o deputado mais digno a ser proposto, mas, naturalmente, em 1926, G. reconhece os limites dessa decisão. Apesar de a questão meridional ser tratada por G. como um fato homogêneo, ele não hesita em ressaltar as diferenças entre a composição social e a posição relativa das várias regiões diante do problema da modernização. A Sardenha é diferente da Puglia, assim como a Sicília apresenta características específicas.
Já na abertura dos Q, no índice dos assuntos principais, G. cita “a ‘questão meridional’ e a questão das ilhas”. As aspas esclarecem que se trata de um tema já canônico e que G. o enfrentará em sua vertente política, bem como em sua vertente cultural, no seio da “questão política dos intelectuais”. Mas de particular interesse é a sucessão dos assuntos no índice. Depois da questão meridional, encontramos: “10) Observações sobre a população italiana: sua composição, função da emigração. 11) Americanismo e fordismo” (Q 1, p. 5 [CC, 1, 79]). Enquanto no Q, G. retoma, em alguns casos textualmente, a reflexão de QM, a articulação com “Americanismo e fordismo” torna-se programática e predominante, o que move toda a perspectiva da pesquisa numa direção diferente, mais analítica, de longo período e mais ampla. Não é casual que a retomada C dos Textos A relativos ao problema, se em parte aparece no Q 19 como contribuição para a definição histórica do Risorgimento, no que se refere ao papel passivo e subalterno das massas meridionais, apareça de maneira decisiva no Q 22, funcional para a polarização de dois modelos opostos: o modelo meridional italiano, caracterizado por uma composição demográfica patológica, de modo que a população produtiva é representada por uma parte minoritária do conjunto demográfico, com a consequência de fenômenos patológicos no plano da economia, e o modelo estadunidense, demograficamente saudável e, como consequência, voltado para a racionalização da produção e dos processos econômicos.
Lea Durante
Ver: americanismo; bloco histórico; camponeses; Croce; emigração; fordismo; Fortunato; intelectuais; Mezzogiorno; questão agrária; Risorgimento; Salvemini.
No artigo “Neutralidade ativa e operante”, uma contribuição para o debate sobre a intervenção na Grande Guerra publicada no Grido del Popolo de 31 de outubro de 1914, um jovem G. associa ao marxismo tradicional o conceito de nação e a questão nacional, como problemas intrínsecos aos partidos e aos movimentos da classe operária. “O Partido Socialista, no qual atuamos, é também italiano, ou seja, é aquela seção da Internacional Socialista que assumiu a tarefa de conquistar para a Internacional a nação italiana. Esta sua tarefa imediata, sempre atual, lhe confere características especiais, nacionais, que o obrigam a assumir na vida italiana uma função específica, uma responsabilidade própria”. Portanto, bem antes do internacionalismo, a tarefa preponderante e necessária do partido consiste em dar vida a uma luta nacional “diuturna” contra o Estado burguês, finalizada na criação dos órgãos capazes de superá-lo e absorvê-lo. “E no desenvolvimento desta sua função” o partido deve agir com plena autonomia, “dependendo da Internacional tão-somente no que se refere ao fim supremo a alcançar e ao caráter que essa luta deve sempre apresentar, ou seja, de uma luta de classe” (CT, 10-1 [EP, 1, 47]). É um conceito reafirmado por G. em numerosos escritos, entre os quais aquele intitulado “A unidade nacional” – em L’Ordine Nuovo de 4 de outubro de 1919 –, em que justamente “a classe ‘nacional’” é identificada no proletariado, isto é, na “multidão dos operários e camponeses, dos trabalhadores italianos, que não podem permitir a destruição da nação, porque a unidade do Estado é a forma do organismo de produção e de troca construído pelo trabalho italiano, é o patrimônio de riqueza social que os proletários querem levar à Internacional Comunista” (ON, 233). E na QM, G. acaba por rejeitar tanto o positivismo dos socialistas quanto o meridionalismo de Salvemini: ambos parecem, a seus olhos, unidos pela tendência a uma naturalização das diferenças sociais e de classe, acabando por dividir a Itália em “nordici e sudici”, ou seja, “nortistas e sujos”[a] (CPC, 149) e por tornar impossível a unidade do bloco social popular e a unidade da nação, em outras palavras, a união entre operári os e camponeses, Norte e Sul. Do mesmo modo, G. recusa o falso internacionalismo da Entente, verdadeira forma de imperialismo mascarado de intervencionismo democrático, e se mostra consciente da centralidade da questão nacional, seja em relação às colônias (de que apoia as aspirações à independência), seja em relação à Europa (“Viltà e leggerezza” [Covardia e superficialidade], 8 de outubro de 1920, em ON, 699-702).
Existe uma indubitável consonância entre esse aspecto do pensamento de G. e as propostas formuladas por Lenin em Sobre o direito à autodeterminação das nações, entre outros textos, em que, partindo da situação concreta da Rússia czarista, ele reconhece nas lutas de libertação e de independência das pequenas nações uma formidável arma contra o imperialismo. Não por acaso, no Q 7, 16, 866 [CC, 3, 262], o comunista sardo, refletindo sobre as categorias de “guerra de posição” e de “hegemonia”, escreve: “Parece-me que Ilich havia compreendido a necessidade de uma mudança da guerra manobrada, aplicada vitoriosamente no Oriente em 1917, para a guerra de posição, que era a única possível no Ocidente [...]. Parece-me este o significado da fórmula da ‘frente única’ [...]. Só que Ilich não teve tempo de aprofundar sua fórmula, mesmo considerando que ele só podia aprofundá-la teoricamente, quando, ao contrário, a tarefa fundamental era nacional, isto é, exigia um reconhecimento do terreno e uma fixação dos elementos de trincheira e de fortaleza representados pelos elementos da sociedade civil”. G. se mostra também particularmente atento às propostas de política linguística de Lenin; exemplo disso é o artigo “Vecchiume imbellettato” [Velharia maquiada], publicado em L’Unità de 22 de setembro de 1926, em que recorda o “projeto de modificação do programa” apresentado por Lenin à “Conferência pan-russa do partido bolchevique realizada no final de abril de 1917”, citando, entre as propostas desse último, “a supressão da língua de Estado” (CPC, 333), ou a publicação em L’Ordine Nuovo de maio de 1920 de algumas intervenções de Lenin no VIII Congresso do Partido Comunista Russo (março de 1919), focadas no tema da questão nacional, com particular atenção às passagens relativas à “política das nacionalidades”, entre as quais uma que condenava o uso exclusivo do russo na escola.
Na nota do Q 2, 48, 201 [CC, 3, 152], G. refere-se à posição de Lenin sobre a possibilidade de “que as questões nacionais tenham uma solução pacífica também no regime burguês: exemplo clássico, a separação pacífica da Noruega da Suécia”. Esse último exemplo aparece em dois escritos do comunista russo que contêm observações sobre as línguas: trata-se de Sobre o direito à autodeterminação das nações, no qual uma seção se intitula justamente “A separação da Noruega da Suécia”, e de Sobre a questão da política nacional. Se, no primeiro texto, as propostas linguísticas de Lenin não constituem um tema central, no segundo, são expressas explicitamente: “O Estado democrático deve reconhecer incondicionalmente a completa liberdade das diversas línguas e abolir qualquer privilégio de uma dessas línguas [...]. Os operários de todas as nações têm uma só linha política para a escola: liberdade para a língua materna, escola democrática e laica” (Lenin, 1966, p. 205-12).
De resto, justamente abordando o problema da “questão nacional” de uma perspectiva linguística, G. nota que “na Itália o termo ‘nacional’ tem um significado ideologicamente muito restrito e, de qualquer modo, não coincide com ‘popular’, já que na Itália os intelectuais estão afastados do povo, isto é, da ‘nação’, e estão ligados a uma tradição de casta, que jamais foi quebrada por um forte movimento político popular ou nacional vindo de baixo” (Q 21, 5, 2.116 [CC, 6, 39-40]). E exatamente o fato que tal questão tenha sido elaborada num estilo refinadamente retórico marca a fragilidade do movimento do Risorgimento: “O termo corrente ‘nacional’, na Itália, é ligado a essa tradição intelectual e livresca, daí a facilidade estúpida e, no fundo, perigosa, de chamar ‘antinacional’ qualquer um que não tenha essa concepção arqueológica e empoeirada dos interesses do país” (idem). Nesse sentido, Gioberti e Mazzini representam dois modos antitéticos de colocar a questão nacional por parte dos intelectuais: “Gioberti oferecia aos intelectuais uma filosofia que parecia original e, ao mesmo tempo, nacional, capaz de situar a Itália pelo menos no mesmo nível das nações mais avançadas e dar uma nova dignidade ao pensamento italiano. Mazzini, ao contrário, só oferecia afirmações nebulosas e referências filosóficas que, para muitos intelectuais, especialmente napolitanos, deviam parecer palavreado vazio” (Q 19, 27, 2.146-7 [CC, 5, 98]).
Disso originaria, segundo G., a natureza particular do Partido da Ação, ou seja, a de ser “um organismo de agitação e propaganda ao serviço dos moderados”, totalmente destituído de um “programa concreto de governo” (Q 19, 24, 2.014 [CC, 5, 62]). “O Partido da Ação” – escreve – “estava encharcado da tradição retórica da literatura italiana: confundia a unidade cultural existente na península – limitada, porém, a um estrato muito reduzido da população e maculada pelo cosmopolitismo vaticano – com a unidade política e territorial das grandes massas populares, que eram alheias àquela tradição cultural e dela não faziam caso, admitindo-se que conhecessem sua própria existência” (idem). É essa uma das causas que impediram a burguesia italiana do Risorgimento de estender sua hegemonia sobre grandes faixas da população. Assim, as guerras de independência de 1864, de 1866 e de 1870, resolveram “a questão nacional e a questão de classe de um tipo intermediário” (Q 1, 44, 54). Enquanto a burguesia obtinha o governo econômico-industrial, as velhas e parasitárias classes feudais conservaram todo o seu poder, com amplos privilégios de casta no exército, na administração estatal e na grande propriedade fundiária.
Vito Santoro
Ver: Gioberti; guerras de independência; jacobinismo; Lenin; língua; Mazzini; nação; nacional-popular; Risorgimento.
v. intelectuais.
A questão é abordada por G. de um ponto de vista articulado e complexo na nota Q 22, 3, 2.147-9 [CC, 4, 249], intitulada “Alguns aspectos da questão sexual”, cujos elementos são retomados em outras notas, essencialmente no mesmo Q 22 em “Americanismo e fordismo”. A questão é apresentada imediatamente como uma “obsessão” perigosa pelo impacto que teve, por meio da tradição utópica (G. menciona A cidade do Sol, de Campanella, mas pensa provavelmente em Fourier e na pedagogia soviética de tipo ingenuamente rousseauniano), sobre os “progressistas”, que cometem o erro de naturalizar a sexualidade, enquanto nada é mais “inatural” que a “regulamentação dos instintos sexuais”. Prova disso é a influência da “literatura ‘psicanalítica’” (que não é outra coisa que “um modo de criticar a regulamentação dos instintos sexuais de forma por vezes ‘iluminista’, com a criação de um novo mito do ‘selvagem’ com base sexual” (Q 22, 3, 2.148 [CC, 4, 249]), de que G. se mostra consciente em vários fragmentos dos Q. No Q 22, 10 [CC, 4, 263] e no Q 22, 11 [CC, 4, 265-8], a regulação e a “repressão” dos instintos sexuais é compreendida como lugar crucial de uma “coerção” mais geral, que acompanha todos os momentos da evolução das sociedades humanas (desde a “passagem do nomadismo à vida sedentária e agrícola”), da qual a organização fordista de produção não é senão a etapa mais evoluída.
O “puritanismo”, longe de ter que ser considerado uma “manifestação de hipocrisia”, deve ser compreendido em sua “dimensão objetiva”, ou seja, aquela que se propõe a constituir – pelo recurso exemplar da ética das “classes superiores” puritano-industriais – “um tipo superior” de trabalhador monógamo, que “não desperdice suas energias nervosas nas busca desordenada e excitante da satisfação sexual ocasional” (ibidem, 2.167 [CC, 4, 269]). De tal forma, a ética sexual taylorista confirmará o modelo camponês da estabilidade das uniões sexuais, trazendo, porém, uma exigência suplementar de interiorização moral da “família em sentido amplo”, pois já em processo de atomização (Q 22, 10, 2.162 [CC, 4, 264]), e de “uma nova forma de união sexual cujo traço característico e fundamental parece dever ser a monogamia e a estabilidade relativa” (Q 22, 11, 2.167 [CC, 4, 269]). Assim, às classes dirigentes é confiada a tarefa de produzir um modelo de coerção sexual, e as crises de “libertinismo”, recorrentes na história, representam “o fator ideológico mais depravante e ‘regressivo’”, testemunhando a cisão entre a ética das classes superiores e a ética das classes trabalhadoras. A esse último cabe a G. contrapor “uma coerção de novo tipo, uma vez que exercida pela elite de uma classe sobre a própria classe” e que “não pode ser senão uma autocoerção, isto é, uma autodisciplina” (Q 22, 10, 2.163 [CC, 4, 264-5]).
Voltando ao Q 22, 3, que, como já se disse, constitui o palimpsesto gramsciano da questão sexual, nada autoriza a redução dessa última à questão das condições de produção (como em Engels), mas também nada autoriza a separação radical delas. A irredutibilidade da questão sexual à “função econômica da reprodução” parece, para G., de algum modo estrutural, até exacerbada pelo desenvolvimento econômico: “Os progressos da higiene, que elevaram a vida humana média, colocam cada vez mais a questão sexual como um aspecto fundamental e específico da questão econômica, aspecto capaz de colocar, por seu turno, complexos problemas do tipo “superestrutural” (ibidem, 2.149, itálico do autor do verbete [CC, 4, 250-1]). Sem dúvida, é no reconhecimento de tal autonomia da questão sexual em relação à economia de (re)produção que devem ser buscadas a singularidade da abordagem gramsciana, comparada à ortodoxia marxista, e a razão de sua influência atual no campo dos Women’s Studies e do feminismo pós-marxista. Toda a segunda parte da nota, de fato, parece traçar as grandes linhas de uma antropologia política do problema, bem além da pura constatação da afirmação do patriarcado como estrutura trans-histórica exacerbada pelo capitalismo (v. Engels, 1993). Imigração, afluxo às metrópoles e reproposição contínua do problema da hegemonia, mudança das relações “moleculares” entre pais e filhos, “[t]odos esses elementos complicam e tornam dificílima qualquer regulamentação do fato sexual e qualquer tentativa de criar uma nova ética sexual adequada aos novos métodos de produção e de trabalho” (Q 22, 3, 2.150 [CC, 4, 252]). Mas, acrescenta G., “a mais importante questão ético-civil ligada à questão sexual é a da formação de uma nova personalidade feminina: enquanto a mulher não tiver alcançado não apenas uma real independência em face do homem, mas também um novo modo de conceber a si mesma e a seu papel nas relações sexuais, a questão sexual continuará repleta de aspectos morbosos” (ibidem, 2.148-9 [CC, 4, 251]). A análise da questão sexual se confunde, então, politicamente com a análise da questão feminina, diferenciando-se da posição marxiana – hegelianamente humanista –, pela qual “a relação do homem com a mulher é a forma mais natural da relação do homem com o homem” (v. Marx, 1983, Manuscritos econômico-filosóficos, “Terceiro manuscrito”, IV).
A necessidade de constituir uma nova subjetividade feminina adquire, além do mais, uma dimensão menos abstrata e mais íntima nas LC, ainda que essa seja de algum modo dessexualizada, em benefício de uma análise psicológica e moral (v., por exemplo, a carta de 15 de fevereiro de 1932 a Tânia [Cartas, II, 157-9], e aquela de 11 de abril de 1932 a Giulia [Cartas, II, 185]). Quanto à posição doutrinária da Igreja sobre a relação entre sexualidade e procriação, uma referência erudita, mas, afinal, extemporânea, encontra-se no Q 1, 68 [CC, 4, 175], em que também G. insiste na necessidade de uma “educação sexual”.
Livio Boni
Ver: feminismo; Freud; libertinismo; mulher; psicanálise; taylorismo.
Desde os primeiros anos da juventude até a maturidade, G. é consciente da existência, complexidade e importância da “questão vaticana”, como está documentado em não poucos escritos jornalísticos, intervenções nos órgãos oficiais do partido e, sobretudo, nos Q (particularmente no Q 16, 11, 1.865-74 [CC, 4, 41] e no Q 16, 14, 1.882-4 [CC, 4, 59], que contêm uma análise crítica da política concordatária). Em 1924, G. descreve e focaliza a natureza do Vaticano, como estrutura organizacional e sistema de poder da Igreja católica: “O Vaticano é, sem dúvida, a mais vasta e poderosa organização privada que já existiu. Por certos aspectos, tem o caráter de um Estado, e é reconhecido como tal por certo número de governos [...]. Permanece sendo uma das forças políticas mais eficientes da história moderna [...]. A organização do Vaticano reflete seu caráter internacional. Ela constitui a base do poder do papado na Itália” (“O Vaticano”, em CPC, 523). Uma realidade com a qual era inevitável fazer as contas. Fazendo referência a um depoimento de Togliatti, já nos anos de “aprendizado universitário”, G. “dizia que o dia em que se formasse um governo socialista, em que surgisse um regime socialista, uma das principais tarefas desse governo seria liquidar completamente a questão romana, garantindo plena liberdade à Igreja” (Togliatti, 1984, p. 266).
Alguns anos mais tarde, em L’Ordine Nuovo, G. insiste que é necessária a busca de uma relação pacífica com a Igreja católica. Já que “na Itália, em Roma, há o Vaticano, há o papa: o Estado liberal teve de encontrar um sistema de equilíbrio com a potência espiritual da Igreja” e “o Estado operário terá, também ele, de encontrar um sistema de equilíbrio” (“Crônicas de L’Ordine Nuovo”, 20 de março de 1920, em ON, 468). Em 1926, as “Teses de Lyon”[b] apontam os planos em que se deve buscar tal relação. O primeiro é o plano internacional: “É evidente que o proletariado terá de resolver, em grande parte com meios próprios, o problema do papado, mas é igualmente evidente que não chegará a ele sozinho, sem o apoio eficaz do proletariado internacional”. O segundo é o plano político: “Para destruir a influência da organização católica sobre as massas rurais” é necessário “romper a aliança dos camponeses com as forças reacionárias [...] também em outros países da Europa” (CPC, 499 [EP, 2, 338]).
A busca gramsciana de um “sistema de equilíbrio” com a Igreja, portanto, não pode ser interpretada como uma eventual tentativa de estabelecer uma relação qualquer de autoridade com a hierarquia e com a instituição eclesiástica (v. QM, 140 e TL, 483-4). G. é muito claro a esse respeito: “A realização da aliança entre operários e camponeses para a luta contra o capitalismo supõe a destruição da influência do Vaticano (como força política contrarrevolucionária, aliada do Estado burguês – ndr] sobre os camponeses”. De resto, a tomada de posição determinada e radical de G. a favor da Concordata de 1929 também desmente tal leitura.
Tommaso La Rocca
Ver: católicos; Concordata; Igreja católica; papa/papado; questão agrária; religião.
v. física e química.
[a] G., ironicamente, refere-se a um infame jogo de palavras impossível de ser traduzido. Em italiano, “nordico” significa “do norte” e seu oposto é “sudista” (do sul); ao falar em “sudici”, o jogo de palavras remete ao plural de “sudicio” (sujo), associando assim os sulistas a sujos. (N. R. T.)
[b] Antonio Gramsci, “A situação italiana e as tarefas do PCI: teses de Lyon”, Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, v. 35, n. 2, 2004, p. 10-33. (N. E.)