Este Dicionário propõe-se a reconstruir e apresentar ao leitor – da maneira mais acessível possível – o significado dos termos, das expressões, dos conceitos gramscianos, limitados ao período da reflexão carcerária consubstanciada nos Cadernos do cárcere e nas Cartas do cárcere[a], procurando também elucidar o papel e o significado que possuem, em tais reflexões, os principais “interlocutores” de Gramsci, presentes de diversas formas, dos autores que ele lê e resenha aos maiores personagens históricos sobre os quais escreve e a algumas das pessoas queridas mais recorrentes, sobretudo em suas cartas.
A delimitação temporal de nosso trabalho foi determinada, por um lado, pelo fato de que o pensamento carcerário é mais coeso e orgânico, e, por outro, porque permite utilizar aqueles instrumentos filológicos (em primeiro lugar, a edição crítica dos Cadernos organizada por Valentino Gerratana) que ainda não estão disponíveis para os escritos pré-carcerários. No entanto, em muitos casos, quando os autores dos verbetes o consideraram útil, foram feitas referências também ao que Gramsci escrevera nos anos precedentes ao cárcere.
O Dicionário nasceu da convicção de que o estado dos textos carcerários e sua história, o método “analógico” seguido por Gramsci, o espírito de pesquisa e de dialogismo que os caracteriza, a peculiar “multiversidade” da linguagem do autor e mesmo a imensa e heterogênea quantidade de interpretações produzidas até hoje tornam difícil ao leitor comum – e, em boa medida, também ao estudioso – a compreensão do significado ou da possível gama de significados das “palavras de Gramsci”.
A partir dessa constatação, a International Gramsci Society Italia está comprometida, há vários anos, com uma obra de releitura filológica dos textos gramscianos, com vistas a reconstruir-lhes o léxico seguindo a evolução do pensamento do autor. O Dicionário, portanto, encontra-se em uma linha de continuidade com o “Seminário sobre o léxico dos Cadernos do cárcere”, realizado entre 2000 e 2006, bem como com um de seus produtos, o volume intitulado, não por acaso, Le parole di Gramsci [As palavras de Gramsci][b]. Os colaboradores deste volume foram em boa parte frequentadores daquele seminário, com o acréscimo de diversos estudiosos gramscianos, italianos e estrangeiros, aos quais se solicitou que escrevessem de acordo com suas respectivas especialidades e interesses. É necessário acrescentar que os autores assumem a responsabilidade pelos verbetes que assinam. Os organizadores se limitaram a solicitar alterações ou adições, obtendo o consentimento dos autores em cada caso, e realizaram intervenções de caráter formal, empenhando-se, sobretudo, em dar homogeneidade a um trabalho tão vasto e articulado.
Pretende-se assim continuar, com este Dicionário, de maneira diversa, mas com o mesmo método de fidelidade ao texto e de atenção à dimensão diacrônica da reflexão carcerária, um trabalho iniciado há algum tempo para oferecer a um público maior um instrumento que possa ajudar a conhecer uma obra tão complexa quanto não sistemática. Não se deseja com isso, obviamente, simplificar ou “enjaular” Gramsci, nem restituir – de forma sistematizada – toda a riqueza da sua elaboração, que está relacionada, justamente, com a chamada estratégia do pensamento e da escrita de Gramsci e com o caráter intrinsecamente dinâmico, aberto, antidogmático que ela comporta. É claro que o presente trabalho não pretende e nem quer substituir a leitura direta de um texto tão rico. Evidentemente, quem escreveu os verbetes se fez também intérprete do pensamento gramsciano, selecionou o material, decidiu a ordem e a hierarquia dos textos tomados em consideração, assim como as exclusões (pelo menos aquelas impostas pelos limites de espaço). Tudo isso vai declarado abertamente e colocado em evidência. Mas acrescentamos também que houve sempre o esforço de seguir o que Gramsci afirma quando escreve que na decifração de “uma concepção de mundo” não “exposta sistematicamente”, “a pesquisa do leitmotiv, do ritmo do pensamento em desenvolvimento, deve ser mais importante do que as afirmações particulares e casuais e do que os aforismos isolados” (Q 16, 2, 1.840-2 [CC, 4, 19]). Com relação à tensão entre um pensamento coerente e sua exposição fragmentada, nossa tentativa foi a de praticar e de sugerir uma atenção ao texto que nem sempre se encontra na crítica. Estamos convencidos de que um uso atento dos textos leva também a uma melhor aproximação interpretativa, ao passo que um uso descuidado nos afasta da compreensão efetiva do “espírito” de Gramsci. O verbete de um dicionário não pode dar conta de toda a riqueza do pensamento de um autor, mas pode e deseja ser instrumento útil para acompanhar sua descoberta pelo leitor.
Enfim, o projeto de um dicionário gramsciano, em nossa opinião, não pode deixar de colocar em causa, em formas certamente mediadas e complexas, duas ordens de questão: as do caráter “atual” e ao mesmo tempo “clássico” de Gramsci. Trata-se, como se sabe, de dois conceitos intimamente associados a uma riquíssima massa de significados teóricos, filosóficos e, em última análise, políticos, os quais aqui não se pretende sequer esboçar. Enfatizamos que foram compreendidos num entrelaçamento peculiar com relação à obra gramsciana e à sua capacidade de se fazer interrogar por muitas questões de nosso presente, ao mesmo tempo que o interroga em profundidade. Esperamos que esse impulso fundamental e “secreto” tenha dado frutos positivos na realização concreta de nosso trabalho.
Guido Liguori
Pasquale Voza
[a] A prisão de Gramsci ocorreu em 8 de novembro de 1926, e sua morte, em 27 de abril de 1937. Em Antonio Gramsci, Lettere dal carcere (organização de Antonio A. Santucci, Palermo, Sellerio, 1996) – a edição em língua italiana mais completa até hoje – nota-se que a primeira carta após a prisão surgiu no mesmo novembro de 1926, enquanto as últimas datam de janeiro de 1937. Com relação aos Quaderni del carcere (edição crítica do Instituto Gramsci, organização de Valentino Gerratana, Turim, Einaudi, 1975 e 1977), a data inicial de redação, anotada pelo próprio Gramsci, é 8 de fevereiro de 1929, ao passo que a última nota foi redigida em 1935. Na presente edição brasileira, sempre que possível, as citações dos textos de Gramsci serão remetidas às edições organizadas por Carlos Nelson Coutinho (com a colaboração de Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio Nogueira) e publicadas pela Civilização Brasileira, que incluem os Cadernos do cárcere (seis volumes), as Cartas do cárcere (dois volumes) e os Escritos políticos (dois volumes). Ver, mais à frente, a “Nota à edição brasileira”.
[b] Fabio Frosini e Guido Liguori (orgs.), Le parole di Gramsci (Roma, Carocci, 2004). O livro contém ensaios de Giorgio Baratta, Derek Boothman, Giuseppe Cospito, Lea Durante, Fabio Frosini, Guido Liguori, Rita Medici, Marina Paladini Musitelli, Giuseppe Prestipino e Pasquale Voza. Os textos são reelaborações de comunicações ocorridas no primeiro ciclo do “Seminário sobre o léxico dos Cadernos do cárcere”. Para informações sobre o seminário em questão, ver o site de IGS Italia: <www.gramscitalia.it>.