Campos que interagem: Física Quântica e a transferência de conceitos entre física de partículas, nuclear e do estado sólido1
1 Introdução
Yoichiro Nambu foi recentemente agraciado com metade do prêmio Nobel de 2008, pela sua “descoberta do mecanismo de quebra de simetria espontânea na física subatômica”. Nambu (1960b) propôs que a quebra espontânea de simetria, ideia derivada da física do estado sólido e usada na teoria de transição de fases, pode também ser um conceito útil na Teoria Quântica de Campos de partículas elementares. Ele baseou uma nova teoria do vácuo em uma analogia com o estado supercondutor da matéria e mostrou como partículas podem adquirir massa através de um mecanismo similar ao da formação do gap de energia em supercondutores (NAMBU; JONA-LASINIO, 1961a, 1961b). Este ponto de vista engenhoso foi provado frutífero por anos a fio e até hoje permeia todas as teorias, envolvendo o assim chamado modelo-padrão da física de partículas elementares: simetria quebrada espontaneamente possui um papel fundamental no mecanismo de Anderson-Higgs para explicar por que partículas elementares possuem massa.2 As ideias de Nambu foram consideravelmente facilitadas por sua familiaridade com a teoria do estado sólido, devido ao seu trabalho prévio neste campo - particularmente na teoria da supercondutividade - no qual o conceito de quebra de simetria já havia sido desenvolvido no final da década de 50 (NAMBU, 1995). Ele forneceu uma derivação teórica quântica de campos da teoria de supercondutividade de Bardeen-Cooper-Schrieffer (BARDEEN; COOPER; SCHRIEFFER, 1957a, 1957b), baseando-se na invariância de calibre e na teoria da perturbação de Feynman-Dyson, técnica emprestada da eletrodinâmica quântica.3
Tanto a transferência dos métodos teóricos quânticos de campos (tais como o uso dos diagramas de Feyman), das físicas nuclear e de partículas elementares para a física do estado Sólido, quanto a transferência do conceito de simetria quebrada espontaneamente da teoria de sólidos (de Nambu) para a teoria de partículas elementares, são belos exemplos do estabelecimento de elos surpreendentes entre campos de pesquisa aparentemente distantes. Os campos da física do estado sólido, da física nuclear e da física de partículas elementares (ou física da matéria condensada e física de altas energias, para usar seus nomes modernos)4 são frequentemente apresentadas como campos amplamente desconectados, compartilhando pouco mais que suas bases conceituais – inicialmente a Mecânica Quântica, e, a partir dos meados da década de 50, também da Teoria Quântica de Campos.5 No presente artigo, mostrarei que, ao contrário, a física do estado sólido, a física nuclear e a física de partículas elementares são profundamente emaranhadas, tanto em seus respectivos desenvolvimentos históricos, quanto conceituais. Irei estudar a história das interações entre estes campos desde os primórdios da Mecânica Quântica período no qual a física do estado sólido, a física nuclear e a física de partículas estavam longe de serem estabelecidas como subdisciplinas da Física -até a década de 60 em diante. Este estudo enfatizará que a história das interações, como a esboçada acima, está intimamente conectada com a história do século XX. Ao longo do curso desse século, os modos de interação entre os campos evoluíram. Esta evolução não se reflete somente nos desenvolvimentos conceituais em Física, como o advento da Mecânica Quântica ou Teoria Quântica de Campos, mas também em fatores externos, como emigrações na década de 30, a Segunda Guerra Mundial ou a Guerra Fria. Estes fatores tiveram efeitos diferentes nos campos em emergência e também nos modos de interação entre eles. Fases de interações mútuas frutíferas foram interrompidas por fases de desenvolvimentos isolados e houve uma fase particularmente interessante na primeira metade da década de 50, na qual a transferência de conceitos e ideias era predominantemente unidirecional.
O artigo é organizado da seguinte maneira: a seção 2 situa a pré-história das atuais físicas de altas energias e da matéria condensada no contexto do advento da Mecânica Quântica: ao contrário de muitas abordagens, que relatam a história da física do estado sólido, nuclear e de partículas, como exemplos de aplicação da Mecânica Quântica a domínios de pesquisa fora da física atômica, irei argumentar que estas (proto-) disciplinas formam parte da gênese complexa da Mecânica Quântica e, somente em retrospecto, em grande parte devido a razões contingentes, aparecem como sendo meramente fenômenos secundários relativos à física atômica. A importância dos campos emergentes para a contínua negociação a respeito da Mecânica Quântica, nos anos de 1925-1926, será enfatizada. A seção 3 oferece um breve relato das dinâmicas iniciais e da consolidação das subdisciplinas emergentes da Física. Espero, assim, esclarecer os paralelos e diferenças em suas evoluções até o final da Segunda Guerra Mundial e comentarei sobre os efeitos que isto teve nas interações entre eles. A seção 4 trata de um obstáculo específico encontrado tanto pela física nuclear quanto pela física do estado sólido, o chamado “problema de muitos-corpos”. A necessidade de encontrar abordagens teóricas para lidar com este problema é um dos componentes-chave da interação entre os campos. Na seção 5, são discutidos os modos de interação entre a física de partículas elementares e a física do estado sólido, baseados fortemente na análise da influência da Mecânica Quântica e da Teoria Quântica de Campos em ambos os campos. A seção 6 se constitui mais como um epílogo do que como uma conclusão. Ali, reflito sobre alguns aspectos mais gerais da institucionalização sob a luz do advento de teorias de unificação, tais como a Mecânica Quântica e a Teoria Quântica de Campos. O presente artigo constitui-se um trabalho em desenvolvimento.
2 A mecânica quântica além do átomo
As narrativas da história da Mecânica Quântica frequentemente se baseiam na história da Espectroscopia Atômica e de vários tópicos isolados da Física Estatística, como radiação do corpo negro ou da estatística de gases6. As teorias do estado sólido, da ligação química ou do subatômico são apresentadas como meras “aplicações” do novo formalismo a novos domínios. Entretanto, tanto a velha teoria quântica dos anos anteriores a 1925 quanto a Mecânica Quântica dos anos posteriores são entendidas muito além da busca por uma explicação apropriada do espectro do átomo de hidrogênio. As tendências historiográficas são devidas ao fato, ao menos parcialmente, de que outras linhas de desenvolvimento, como o estudo dos sólidos ou do núcleo atômico, não foram estabelecidas como campos propriamente definidos da Física, até décadas posteriores à gênese da Mecânica Quântica em 1925-1927, enquanto que a espectroscopia atômica já era um ofício bem estabelecido. No início do século, os teóricos e com isso também os pais da Mecânica Quântica estavam interessados em uma ampla gama de fenômenos físicos, alguns dos quais, retrospectivamente, podem aparecer como desvios de um caminho reto até a Mecânica Quântica. Werner Heisenberg, ao mesmo tempo em que trabalhava e publicava sobre da Teoria Quântica, escreveu uma dissertação sobre a estabilidade e turbulência de fluidos que fluem (CASSIDY, 1992, p. 150-154). Max Born publicou extensivamente sobre a teoria atômica e as dinâmicas de estruturas cristalinas (ver, por exemplo, BORN, 1915).7 Erwin Schrödinger, nos anos de 1910 e 1920, publicou sobre tópicos tais como relatividade, radiação atmosférica, radioatividade e a condução elétrica e estabilidade dos sólidos.8 Tanto Einstein (1924, 1925), quanto Schrödinger (1924), ao trabalharem com estatística de gases, tentaram extrair de suas teorias sobre degeneração de gases - as quais Hanle (1971, 1979) identificou como uma importante raiz da mecânica ondulatória - conclusões sobre o comportamento conhecido de metais, o qual não podia ser explicado por nenhuma teoria contemporânea (ECKERT; SCHUBERT; TORKAR, 1992, p. 39-40). Estes poucos exemplos, dentre muitos outros, demonstram que os fenômenos exteriores ao domínio da Física Atômica não estavam nem na periferia da atenção dos físicos teóricos anteriormente ao advento da Mecânica Quântica, nem foram irrelevantes para a sua gênese.
A Mecânica Quântica forneceu uma estrutura coerente para que, eventualmente, se construísse uma fundação unificada aos campos nascentes da física do estado sólido, nuclear e de partículas elementares. Pode-se argumentar que as ideias adquiridas na teoria quântica do espectro atômico, assim que eram condensadas na nova mecânica, poderiam finalmente ser empregadas na construção de teorias sobre fenômenos fora do domínio do átomo. Eu pretendo ir além e argumentar que a própria Mecânica Quântica e a interpretação do formalismo quanto-mecânico foram negociadas e moldadas em um diálogo progressivo, que derivou não somente do conhecimento empírico sobre o espectro atômico, mas também do conhecimento daquelas áreas de pesquisa que seriam mais tarde chamadas de física do estado sólido, nuclear e de partículas. A ideia de que a fundação quanto-mecânica da física do estado sólido, de partículas e nuclear não passa de uma mera apropriação de métodos da Mecânica Quântica, por grupos de pesquisadores que trabalhavam na periferia do desenvolvimento, é enganadora. Muito pelo contrário, a história da gênese e interpretação da Mecânica Quântica é fortemente conectada aos problemas que surgiram em diferentes correntes de desenvolvimento, eventualmente combinadas pelos novos campos emergentes, e os protagonistas da gênese da Mecânica Quântica se tornaram frequentemente figuras proeminentes também nos campos nascentes da física do estado sólido, química quântica e física nuclear e de partículas.
Nós já vimos que os pais da Mecânica Quântica, ao mesmo tempo em que ponderavam questões relacionadas aos espectros atômicos, estavam também se dedicando a problemas exteriores à espectroscopia atômica, apesar do papel limitado que estes problemas tiverem no desenvolvimento de fato da nova mecânica. Enquanto o tumulto dos anos 1925-1926 certamente levou a uma parada temporária na maioria das atividades relacionadas aos fenômenos externos à física atômica, o conhecimento empírico e teórico sobre estes fenômenos informou os criadores da Mecânica Quântica e a busca pela explicação destas áreas logo ganhou de novo a atenção dos físicos teóricos. A história da teoria quantomecânica de elétrons em metais é uma ilustração disto: em 1926, após conhecer a nova estatística de um gás de partículas obedecendo ao princípio de exclusão de Pauli9, Heisenberg (1926) observou que a Mecânica Quântica admitia duas classes mutuamente exclusivas de autoestados em sistemas com mais de uma partícula e relacionou este fato a – então ainda dúbia – hipótese do spin do elétron. Mais tarde naquele ano, Wolfgand Pauli (1926) aplicou a estatística de Fermi-Dirac do gás ideal monoatômico à condução de elétrons em metais, com o intuito de explicar seus comportamentos paramagnéticos. Arnold Sommerfeld (1927), então, aplicou a nova estatística na tentativa de explicar a condutividade de metais em uma extensão da teoria clássica de Paul Drude (1900a, 1900b, 1904). Somente quando Felix Bloch (1928) levou em consideração satisfatoriamente a presença de estrutura iônica, “a maquinaria completa da Mecânica Quântica, desenvolvida em 1925 e 1926, tornou-se importante para os sólidos” (HODDESON; BAYM; ECKERT, 1992, p. 89). Muitos ingredientes-chave da moderna física da matéria condensada e de altas energias, bem como da Química Quântica moderna10, de fato derivaram do trabalho dos protagonistas da Mecânica Quântica que foram produzidos, não depois, mas durante a gênese da Mecânica Quântica. A inspeção mais próxima do conteúdo destas contribuições iniciais revela que conceitos importantes da própria Mecânica Quântica (e. g., a conexão entre spin de elétron e a estatística quântica de férmions e bósons, ou a natureza das forças de troca da Mecânica Quântica) resultaram da pesquisa conduzida na época da consolidação da Mecânica Quântica. Adicionalmente, a Mecânica Quântica, em 1927, não foi vista como uma teoria definitiva por seus criadores. Mais notavelmente, a questão da sua extensão relativística confundiu profundamente físicos teóricos e os fez suscetíveis ao estudo de problemas externos à física atômica. Esta questão, de modo amplo, foi negociada com base na Teoria Quântica do núcleo11. Descrever os primórdios da teoria da física do estado sólido ou da física nuclear como meras “aplicações da Mecânica Quântica” é, então, enganador. Conforme será argumentado na seção 5, o fato de que a própria história da Mecânica Quântica está entrelaçada com a história inicial das subdisciplinas emergentes da Física permite desenvolver valiosas ideias sobre os modos de interação entre estes campos em um estágio no qual eles não tinham nenhuma identidade institucional.
3 Campos emergentes: a institucionalização da física nuclear, da física de partículas elementares e da física do estado sólido
Foi somente nas décadas seguintes ao advento da Mecânica Quântica que a física nuclear, a de partículas elementares e a do estado sólido emergiram como campos de pesquisa institucionalizados.12 Durante a década de 30, alguns físicos gradualmente passaram a se autodenominar “físicos nucleares” (HUGHES, 2003). Somente depois da Segunda Guerra, outros físicos começaram a considerar-se “físicos de partículas” ou “físicos do estado sólido”. No caso da física do estado sólido, Weart (1992, p. 617) descreveu este processo da seguinte maneira:
Em 1930 a física do estado sólido não existia. O termo era desconhecido, e não havia qualquer entidade intelectual ou social para a qual o termo poderia ser aplicado. Certamente uma série de especialidades prosperaram, tais como a teoria do elétron em metais e estudos experimentais de ligas magnéticas, as quais eventualmente caíram no campo da física do estado sólido, mas não havia nenhum campo como um todo, não havia nenhuma razão que justificasse uma distinção entre os físicos que estudavam sólidos e o grupo de físicos que estudavam gases, radioatividade ou qualquer outra coisa. Em 1960 a situação mudou completamente. O termo “física do estado sólido” não somente se tornou familiar como poderiam também ser associado a algumas instituições: posições acadêmicas, conferências, periódicos, grupos de pesquisa, mecanismos de financiamentos, até mesmo construções inteiramente destinadas à disciplina. Estas instituições foram unidas em uma comunidade mundial da física do estado sólido. Como um espelho, esta entidade social refletia uma entidade intelectual, o estudo da física do estado sólido.
Nas décadas seguintes ao advento da Mecânica Quântica, áreas aparentemente desconectadas, nos primórdios da pesquisa, tornaram-se progressivamente integradas e consagradas (dialogando com Weart) em entidade social e intelectual e passaram a ser consideradas campos de pesquisa diferentes. Os campos emergentes foram construídos sob intuições de base empírica que já haviam sido alcançadas bem antes que eles pudessem ser considerados subdisciplinas da física por si próprios13. Estas intuições empíricas foram encapsuladas em teorias e modelos14, as quais teriam papéis importantes no estabelecimento dos novos campos emergentes. Antes do advento da Mecânica Quântica, havia nos campos emergentes uma falta de base sistemática, adquirida apenas no curso de apropriação e conseqüente extensão dos métodos mecânicos quânticos que começaram nos anos de 1925-1927. Anteriormente, os fenômenos e teorias mencionados acima não eram vistos, nem apresentados, como elementos coerentes de uma visão unificada. Já durante a sua formulação, a Mecânica Quântica passou a ser vista como um possível formalismo unificado para estas novas áreas de pesquisa. No final da década de 1920 e início da década de 1930, colaboradores dos campos emergentes, embora oriundos de diferentes contextos intelectuais, frequentemente trabalhavam com problemas derivados de diversas áreas que atualmente, em retrospecto, seriam considerados bastante distantes. Tanto a física nuclear inicial quanto a física do estado sólido inicial se baseavam fortemente na mecânica ondulatória e apenas em uma extensão menor, em outras formulações da Mecânica Quântica. O domínio dos métodos da mecânica ondulatória permitiu, assim, que os físicos penetrassem em questões sobre sólidos ou sobre o núcleo, essencialmente com o mesmo arsenal de métodos (por exemplo, teoria da perturbação, efeito tunelamento, estatística quântica). De modo interessante, a dinâmica de institucionalização dos campos emergentes, no entanto, mostrou fortes diferenças em escala, ritmo e implicações sociais, especialmente com respeito aos efeitos da emigração na Europa na década de 1930, da Segunda Guerra Mundial e da era pós-Guerra. Nos seguintes parágrafos, será delineada a história das físicas nuclear e de partículas e da física do estado sólido, a partir de suas origens no início do século XX até as décadas de 1950 e 1960.
3.1 A física nuclear e de partículas
O início da história da física nuclear e de partículas pode ser dividido, grosso modo, em três fases (PAIS, 1986). No início do século XX, os físicos estudaram materiais radioativos e raios cósmicos, focando as propriedades qualitativas da radiação. Nos anos seguintes, a radioatividade foi essencialmente uma ciência experimental, complementada com teorias fenomenológicas simples (HUGHES, 1998). Esta primeira fase, que Pais (1986, p. 297) denomina “[...] física nuclear sem núcleo [...]”, terminou com a análise de Rutherford, em 1911, dos experimentos de espalhamento de partículas α em termos de um modelo atômico que incluía um núcleo. O modelo de Rutherford rapidamente se tornou aceito e provocou investigações sobre as propriedades do núcleo, bem como pesquisas sobre processos nucleares. O terceiro estágio da história inicial do campo coincide com os primórdios da Mecânica Quântica. Este pode ser datado aproximadamente entre 1926-1932. Esta assim chamada “era do paradoxo” foi dominada pela crise do modelo próton-elétron do núcleo e testemunhou as primeiras descrições bem sucedidas dos processos nucleares com os meios da Mecânica Quântica, tais como as teorias de emissões α e γ de Gurney e Condon (1928)15 e de Gamow (1928), com base na mecânica ondulatória. Logo após o advento da Mecânica Quântica, mesmos os experimentais sentiram necessidade de se tornar familiarizados com a mecânica ondulatória (HUGHES, 1998). O chamado annus mirabilis da física nuclear em 1932, com a descoberta do nêutron por James Chadwick, iniciou os “felizes anos 30” (BETHE, 1979). O ano de 1932 marca o ponto de virada da emancipação da física nuclear como um campo distinto de pesquisa: o estudo do núcleo se tornou mais e mais sistematizado, baseado na Mecânica Quântica, e apareceram os primeiros livros e séries de artigos seguindo este programa.16 Em 1932, Douglas Hartree avaliou a situação neste campo do seguinte modo (HARTREE, 1932):
O considerável avanço recente em nosso conhecimento das propriedades e estrutura do núcleo atômico se deve primeiramente ao desenvolvimento brilhante de idéias e experimentos por Rutherford e outros, e segundo ao passo fundamental, dado independentemente e quase simultaneamente por Gamow e Gurney e Condon, de aplicar os conceitos e métodos da Mecânica Quântica – e particularmente aquela formulação da Mecânica Quântica para a qual o termo mecânica ondulatória é aplicado – no fenômeno nuclear, em primeira instância para aqueles de radioatividade e desintegração artificial.
Da metade em diante da década de 1930, a física nuclear teve sucesso em combinar várias linhas de desenvolvimento do início do século XX, tais como a radioatividade, pesquisa sobre raios cósmicos e aspectos da espectroscopia atômica (por exemplo, a estrutura hiperfina dos espectros atômicos). Ela começa a tomar forma como um campo de pesquisa distinto e de crescimento acelerado.17 Durante a Segunda Guerra Mundial, torna-se uma disciplina chave na pesquisa do período de guerra, especialmente através do Projeto Manhattan, e foi amplamente responsável por um prestígio sem precedentes da Física como um todo, que por sua vez levou a um rápido crescimento do tamanho da comunidade acadêmica, após a guerra. Foi somente no pós-guerra que a física de partículas elementares (ou física de altas energias) se consolidou como um campo distinto de pesquisa (PICKERING, 1984). Sua história inicial está intimamente conectada com aquela da física nuclear, frequentemente retratada como sua precursora direta. Entretanto, a física nuclear não sofreu uma mudança de nome na década de 1950; ao invés disto, persistiu ao lado da física de partículas elementares, da qual havia se dividido, principalmente devido ao advento dos aceleradores de partículas e as grandes instalações de pesquisa tais como o Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN). Os físicos de partículas e nucleares nas décadas de 1950 e 1960 estavam interessados em questões diferentes: enquanto os físicos de partículas investigavam os constituintes dos núcleons, os físicos nucleares estudavam o comportamento coletivo de núcleons e processos nucleares (HUGHES, 2003, p. 370-374). Nesse contexto, os físicos nucleares encararam o que passou a ser conhecido como o “problema de muitos-corpos”, isto é, o tratamento das interações de um grande número de partículas. Este problema constituiu-se em um gargalo para um tratamento mecânico quântico do núcleo18. Retornaremos ao problema de muitos-corpos na seção 4.
3.2 A física do estado sólido
Enquanto em princípio seja ainda mais antiga, na medida em que abrange conhecimento de metalurgia e cristalografia (ECKERT; SCHUBERT, 1986; SMITH, 1965), a física do estado sólido durante o século XX combinou diferentes correntes da física do século XIX e início do século XX, tais como a físico-química, criogenia, teoria da elasticidade, cristalografia, eletrodinâmica e termodinâmica, bem como ideias gerais sobre a estrutura e estabilidade da matéria. No século XIX e início do século XX, teorias dos sólidos foram baseadas na Mecânica, na Termodinâmica e no Eletromagnetismo, e estiveram no centro dos debates fervorosos sobre atomismo e a estrutura da matéria. De um lado, havia teorias fenomenologicamente bem sucedidas, descrevendo vários aspectos do comportamento dos sólidos; de outro lado, a teoria cinética era aplicada com bastante sucesso a diversos aspectos isolados. A teoria cinética de metais de Drude (1900a, 1900b, 1904) e a teoria de condução elétrica dela resultante, baseada na identificação de elétrons por J. J. Thomson como carregadores de corrente, é o primeiro exemplo do sucesso da teoria cinética. Outro exemplo é a teoria de Curie-Langevin-Weiss que, explicitamente, usou as ideias de Bolztman para explicar o para– e o ferromagnetismo, ao assumir a existência de moléculas magnéticas dipolares. A óptica ondulatória do século XIX foi a base para a teoria de óptica de cristais de von Laue e Ewald, que seguiu os experimentos de difração de raio-X de Friedrich e Knipping (Cf. FRIEDRICH; KNIPPING; LAUE, 1912). Logo depois da formulação de Planck sobre a hipótese quântica em 1900, o calor específico dos sólidos apresentou uma oportunidade de estender o domínio explicativo das novas hipóteses e formular teorias quânticas do calor específico dos sólidos (EINSTEIN, 1907, 1911a, 1911b) e da dinâmica de estruturas cristalinas (BORN; KARMAN, 1912; DEBYE, 1912b), baseando-se apenas nos graus de liberdade iônicos.19 Entretanto, durante a velha teoria quântica, a teoria quântica não era necessariamente vista como uma ferramenta indispensável para a descrição dos sólidos e muitos dos pioneiros da física teórica do estado sólidos demonstraram, de certo modo, uma atitude oportunista em relação ao uso das hipóteses quânticas em suas teorias20. Este quadro mudou com o advento da Mecânica Quântica, especialmente com as proposições relacionadas ao princípio de exclusão de Pauli e a natureza fermiônica dos elétrons. Arnold Sommerfeld (1927) estendeu a teoria clássica da condução eletrônica de Drude, levando em consideração o que é atualmente conhecido como estatística de Fermi-Dirac. Contudo, sua teoria falhou em explicar a suposição do movimento eletrônico quase livre. Este mistério foi resolvido quando Bloch (1928) apresentou sua teoria da condução do potencial periódico, explicando o alto caminho médio dos elétrons em metais, ao usar a maquinaria da mecânica ondulatória e intuições do campo emergente da química quântica. Hoddeson e Baym (1980, p. 19) afirmam que:
O artigo de Bloch foi seguido por uma série de desenvolvimentos rápidos na teoria “moderna” dos sólidos entre 1928 e 1933, na qual os fenômenos básicos foram explicados um após outro. Conforme Peierls examinou o estado da teoria dos metais em seu artigo de 1932 (Peierls, 1932): “pode-se ter a impressão de que o problema, de explicar as condições típicas de metais a partir de propriedades moleculares, e derivar as leis quantitativas que existem, está, com exceções [...] resolvido”.
O crescimento do número de artigos sobre conceitos teóricos novos referentes a sólidos, no final da década de 1920 e início da década de 1930, não foi limitado à teoria de metais, mas abrangeu muitos outros aspectos, tais como magnetismo e supercondutividade21, condução térmica em sólidos não metálicos e a teoria de bandas, bem como a teoria de estruturas (por exemplo, defeitos pontuais). Na metade da década de 1930, um número impressionante de artigos de revisão apareceu sobre esses assuntos22. Em contraste com o desenvolvimento da física nuclear, entretanto, o momentum destes anos iniciais não durou até a segunda metade da década de 1930 e a Guerra. Vários fatores levaram a uma desaceleração, de fins dos anos 1930 em diante. Primeiramente, sucessos no campo emergente da física nuclear impulsionaram os físicos para fora da teoria dos sólidos: tantas descobertas fundamentalmente novas foram feitas na física nuclear durante a década de 1930 que o estudo dos sólidos, para cuja prospecção só existia um arsenal de técnicas experimentais um tanto quanto limitadas, tornou-se menos atrativo para os físicos. Esta tendência foi amplificada pelos efeitos da emigração da Alemanha nazista que afetou grande parte dos pioneiros da teoria quântica inicial dos sólidos. Alguns dos personagens principais, quando emigraram para a Grã-Bretanha e outros lugares, começaram a confinar suas atenções à física nuclear23. Ainda, o centro da teoria de sólidos durante a década de 30, sob a influência da emigração, moveu-se da Alemanha para a Grã Bretanha. O esforço de Guerra reduziu o número de pesquisadores ativos no campo, apesar de que alguns aspectos da física dos sólidos (por exemplo, pesquisa de radar e microondas, semicondutores) foram fortemente investigados devido à sua relevância em implicações militares (ECKERT, 2003). Após a Guerra, o interesse por sólidos cresceu lentamente, mas de modo contínuo, principalmente devido aos avanços tecnológicos e às novas técnicas experimentais para o estudo dos sólidos, resultantes da pesquisa do período de guerra.24 As técnicas novas ou refinadas levaram a uma abundância de novas proposições dentro da rica fenomenologia dos sólidos. Ao contrário da física nuclear, os experimentos eram baratos e podiam ser conduzidos por grupos pequenos. Alguns daqueles que, antes da Guerra, dedicaram tempo a problemas relacionados à física dos sólidos, optaram por retornar aos seus estudos, sob a luz dos experimentos refinados. Outros, treinados em física durante a Guerra, começaram a participar de novas instituições – tanto na academia quanto na indústria – que lidavam com tópicos relacionados aos sólidos.25Adicionalmente, o número total de físicos cresceu tremendamente nos anos pós-guerra, devido ao aumento de apoio à ciência instigado pelo papel que a Física teve durante a Guerra. Durante a década de 1950 e 1960, a física do estado sólido se tornou, possivelmente, a maior subdisciplina da Física e permaneceu assim desde então, transformando profundamente a tecnologia e exercendo um impacto de longo alcance na sociedade moderna (MOYER, 1985; ECKERT; SCHUBERT, 1986).26 Mesmo físicos que permaneceram no campo durante a Guerra não anteciparam este desenvolvimento. Em sua autobiografia, Frederick Seitz (1994, p. 179), autor de um dos primeiros livros textos sobre a teoria quântica dos sólidos (SEITZ, 1940), comentou:
Se, durante a parte final da Segunda Guerra Mundial, alguém tivesse me perguntado o que aconteceria finalmente com o campo da física do estado sólido, eu teria conjecturado que ele teria sido incorporado no que foi então o campo mais geral da físico-química. Na verdade, em certo sentido, aconteceu o oposto. Muitos físico-químicos se tornaram físicos e entraram em departamentos de física ou grupos interdisciplinares. O campo da físico-química for permanentemente transformado e, em certo nível, reduzido. No meio tempo, a física do estado sólido se tornou parte do amplo campo da física da matéria condensada.
4 O problema de muitos-corpos
Do ponto de vista de um físico teórico, tanto a física do núcleo como a física dos sólidos se preocupam com um grande número de partículas27. Uma solução exata (ou mesmo uma solução numérica aproximada) para a equação de Schrödinger de muitas-partículas revela-se algo impossível28. Em ambos os campos, o sucesso inicial baseado no uso da Mecânica Quântica apoiava-se na validade (e na “eficiência irracional”, tomando emprestado uma expressão cunhada por Wigner para descrever a eficiência da matemática na descrição do nosso mundo) das aproximações para partículas individuais e para valores médios dos campos. Isto é, eram abordagens que negligenciavam a interação das partículas entre si, ou apenas as incluíam como aproximações um tanto quanto cruas29. Tais modelos funcionam surpreendentemente bem em alguns casos30, apesar da presença de fortes interações entre as partículas, mas falham completamente em algumas outras31. O que motivou este fato só foi compreendido nos anos 1950, após o advento da eletrodinâmica quântica.
Superar as abordagens de partículas individuais requereu o desenvolvimento de métodos que atacavam o problema de muitos corpos e forneciam meios para tratar as correlações entre as partículas em um sistema de muitos-corpos que interagem. Esse era um gargalo essencial para o desenvolvimento tanto da teoria nuclear como do estado-sólido e, após a Guerra, um número crescente de físicos começou a desenvolver um interesse mais amplo nesse problema, buscando por novas técnicas que permitiriam abordá-lo. Conyers Herring (1980, p. 71-72) recorda:
Ainda que as pessoas soubessem desde os primórdios da Mecânica Quântica que a verdadeira função de onda do estado-fundamental de um sistema de muitos-elétrons devesse ser de uma forma mais complicada que um determinante das funções de onda de um elétron, e ainda que a importância da correção da “energia de correlação” para um cálculo com a teoria de banda da energia coesiva de um metal tenha sido claramente reconhecida por Wigner e Seitz em 1933 e 193432, a dimensão e o papel da energia de correlação permaneceram compreendidos inadequadamente em uma parte considerável da comunidade do estado-sólido por muitos anos. Talvez a complicação do importante artigo de 193433 de Wigner, que continha uma estimativa surpreendentemente boa da energia de correlação de um gás de elétrons-livres, criou a esperança enganadora na direção de julgar tais efeitos como sendo menores do que havia sido estimado.
Durante quase duas décadas, a expansão perturbativa da energia de correlação, desenvolvida por Wigner, que Herring menciona na citação acima, permaneceu como o estado-da-arte no problema prototípico de muitos-corpos do gás de elétrons livres. Wigner, entretanto, deixou de notar que a contribuição da próxima ordem para sua expansão perturbativa da energia de correlação (ver nota 32) é logaritimicamente divergente, devido à natureza de longo alcance da interação coulombiana. De acordo com David Pines (apud HODDESON et al., 1992b, p. 587), essa divergência desencorajadora “[...] atrasou a aplicação sistemática da teoria perturbativa do gás de elétrons por cerca de 20 anos”.34 Devido à natureza de longo alcance da interação de Coulomb e das divergências resultantes, as abordagens perturbativas, tão bem sucedidas em outras áreas onde a Mecânica Quântica foi usada, tinham que ser complementadas com aproximações um tanto quanto cruas, que resolviam a blindagem da carga eletrônica de um elétron pelos outros elétrons.35 O conceito de blindagem de carga remonta ao trabalho de Debye e Hückel (1923a, 1923b) sobre plasmas clássicos e emergiu no contexto das tentativas de compreender o comportamento de eletrólitos. A física dos plasmas – gases neutros, mas altamente ionizados – era um campo ativo de pesquisa já no início da década de 1920 e ganhou enorme importância durante e após a Guerra, principalmente por sua relevância para separação de isótopos e fusão termonuclear controlada (ECKERT, 2003)36. A inclusão da blindagem de carga em teorias de sólidos, entretanto, permaneceu um tanto ad hoc e, até após a guerra, os físicos eram incapazes de fornecer uma explicação microscópica para o funcionamento do mecanismo.
David Bohm, após receber seu doutorado em Física com J. Robert Oppenheimer em 1943, havia trabalhado em física dos plasmas no Radiation Laboratory da Universidade da Califórnia durante os últimos anos da Guerra. (HODDESON et al., 1992b, p. 534-541) Nos anos do pós-guerra, em Princeton, ele continuou seu trabalho sobre plasmas e ficou particularmente interessado no que chamou plasmas quânticos – plasmas muito mais densos que aqueles encontrados em descargas gasosas – a respeito dos quais Bohm tinha esperanças de que pudessem fornecer um modelo para a compreensão do comportamento de elétrons em metais (PINES, 1987). Ele posteriormente afirmou que na conferência de Pocono, em 1948, quando ele ficou sabendo da eletrodinâmica quântica renormalizada de Schwinger, também com raízes no período da Guerra, ele percebeu que a blindagem dinâmica em um plasma quântico
[...] é basicamente a mesma da renormalização [da carga] na teoria das partículas elementares – quer dizer, a carga real de um elétron é infinita de acordo com aquela teoria, mas ele se encerra em uma nuvem que a torna finita (SCHWEBER, 1994 apud HODDESON et al.,1992b, p. 536);
e que os métodos teóricos quânticos de campos empregados em eletrodinâmica quântica poderiam ser úteis também em teorias do plasma quântico. Pois o advento da eletrodinâmica quântica, em fins da década de 1940, trouxe uma surpresa para os teóricos de partículas: a eletrodinâmica quântica, de certa forma, era também um problema de muitos corpos. O vácuo quântico-eletrodinâmico não é vazio como o vácuo clássico, mas preenchido com uma corrente de pares partículas-antipartículas (AICHISON, 1985). A eletrodinâmica quântica não apenas fornecia os métodos teóricos para lidar com essa polarização do vácuo, mas também técnicas poderosas para lidar com os complicados cálculos perturbativos, que também se inspiraram na interpretação do novo formalismo. (KAISER, 2005)
Durante os anos 1950, a compreensão da conexão entre renormalização da carga, na eletrodinâmica quântica, e a blindagem dinâmica, em sistemas quânticos de muitos corpos, levou Bohm e outros a estabelecer analogias para a Teoria Quântica de Campos das partículas elementares que, no final, ajudaram a resolver o quebra-cabeça da interação de longo alcance coulombiana na teoria de sólidos. Um exemplo para a transferência de métodos teóricos quânticos de campos é o uso de coordenadas coletivas (permitindo a separação de coordenadas através de transformações canônicas), que apareceram de modo independente durante os anos 1950, tanto na teoria de Bohm-Pines do gás de elétrons, como na teoria dos núcleos de Bohr e Mottelson (1953). A separação de variáveis em ambos os casos permitiu o tratamento simultâneo de aspectos coletivos e individuais do comportamento de muitos-corpos e o estudo de suas relações.37 Outro exemplo é a técnica dos diagramas de Feynman (1949), adotada gradualmente em ambos os campos ao longo dos anos 1950. Do início até meados da década de 1950, da mesma forma que nos anos que sucederam o advento da Mecânica Quântica, teóricos equipados com o arsenal dessas novas técnicas de muitos-corpos foram capazes de semear tanto o campo da física do estado sólido, como o da física nuclear, e as interações entre teóricos neste período eram frequentes. Em fins da década de 1950, a engenhosa transferência de métodos teóricos quânticos de campo desenvolvidos na física de partículas e nuclear despertou uma mudança fundamental na abordagem teórica à física dos sólidos.38 De repente, teorias macroscópicas receberam uma justificativa microscópica. A eficiência irracional de modelos de partículas individuais foi explicada ao se adotar ideias de renormalização da Teoria Quântica de Campos. A emergência de teorias efetivas descrevendo sólidos em termos de novas entidades fictícias (quasipartículas e excitações coletivas) era dirigida pelo desejo de se ater ao modelo de partículas individuais.39 O crescimento notável da física do estado sólido como campo de pesquisa, despertado pelos desenvolvimentos experimentais durante a guerra, foi amplificado pelo desenvolvimento de um ponto de vista unificado em relação a problemas de muitos-corpos em Teoria Quântica de Campos40 e de uma nova heurística intuitiva (a imagem de quasipartículas), que permitiu essencialmente manter os modelos de partículas individuais que haviam sido desenvolvidos anteriormente.41
5 Campos de interação
Ao longo do século XX, ocorreram interações importantes e fertilizações cruzadas entre física nuclear, de partículas e do estado sólido, desde antes de suas institucionalizações até o presente. Nesta seção, discutirei os modos de interação entre os campos, com ênfase em suas dinâmicas históricas. Um estudo das interações entre física de partículas, nuclear e do estado sólido revela pelo menos dois mecanismos:
a) | Compartilhamento de protagonistas: o treinamento em Mecânica Quântica ou Teoria Quântica de Campos possibilitou que alguns físicos trabalhassem em ambos os campos simultaneamente. Esse mecanismo foi particularmente poderoso em fins de 1920 e início de 1930 e na era pós-guerra, isto é, nos anos após a formulação das teorias fundamentais correspondentes. |
b) | Fronteiras permeáveis: os métodos e conceitos desenvolvidos em um campo podiam ser transferidos e adaptados para outros, frequentemente por meio do estabelecimento de analogias formais entre dois problemas diferentes. |
5.1 Compartilhamento de protagonistas
Nos anos seguintes ao advento da Mecânica Quântica, os campos emergentes da física nuclear e do estado sólido interagiram fortemente através do compartilhamento de protagonistas. Muitos dos pais da Mecânica Quântica e seus estudantes procuravam estender o domínio explicativo da Mecânica Quântica para fenômenos fora do campo da física atômica, com a esperança de que, levando em consideração a rica fenomenologia dos sólidos e do núcleo, poder-se-ia ajudar a avançar a Teoria Quântica ao se testar as limitações da Mecânica Quântica e ao fornecer novas pistas para sua extensão. O conhecimento da velha Teoria Quântica sugeriu a aplicabilidade da Mecânica Quântica a um domínio mais amplo de fenômenos do que aqueles da espectroscopia atômica; e o conhecimento da Mecânica Quântica, especialmente da mecânica ondulatória de Schrödinger, permitiu aos físicos formular novas teorias, tanto para o subatômico como para os agregados de átomos, isto é, moléculas e sólidos. Físicos teóricos dispunham de um conjunto comum de ferramentas e técnicas que poderiam facilmente ser empregadas para o estudo dos núcleos e dos sólidos – o mesmo vale, numa extensão menor, para os experimentais. Experimentais, por outro lado, foram levados um tanto naturalmente para os campos emergentes, já que a espectroscopia não se encerrava nas séries do átomo de hidrogênio. A questão da estrutura hiperfina dos espectros atômicos forçou os físicos a pensar o papel do núcleo.42 Na outra ponta do espectro, experimentais estavam interessados nos espectros de moléculas e, assim, tinham que considerar os graus de liberdade rotacionais e vibracionais, bem como as questões de ligação que formaram uma ponte natural para o estudo dos sólidos. Em física teórica, protagonistas das origens tanto da física nuclear como do estado sólido, em fins da década de 1920 e 1930, incluíam nomes tais como Heisenberg, Pauli, Debye, Bloch, Condon, H. London, F. London, Bethe, Wigner, Peierls, Landau, Seitz, Mott, Heitler e Fröhlich. Durante a década de 1930, muitos dos físicos, laborando em ambos os campos simultaneamente, começaram a abandonar um campo ou o outro (ver seção 3). Enquanto parcialmente motivados pela necessidade de acompanhar uma crescente quantidade de literatura especializada nos campos emergentes, o processo de especialização frequentemente era reforçado pelas restrições à emigração e pela Guerra, o que levou à prevalência da física nuclear. O treinamento especializado da geração do pós-guerra reduziu ainda mais a permeabilidade das fronteiras disciplinares para cientistas individuais. Entretanto, após a Guerra, alguns dos físicos que já haviam trabalhado em sólidos, em meados da década de 1930, decidiram retornar ao campo e físicos mais jovens gradualmente os acompanharam. Junto de si, eles levaram novas ferramentas – Teoria Quântica de Campos – que eventualmente seria aplicada com sucesso também à teoria dos sólidos.
Um exemplo de compartilhamento de protagonistas entre o início da física do estado sólido e a física nuclear é Hans Bethe. Estudante de Sommerfeld em Munique, Bethe escreveu uma dissertação, em 1926-28, explicando os experimentos de Davisson-Germer, utilizando ideias da teoria de Ewald de óptica em cristais. Após ser agraciado com uma Rockfeller fellowship em 1930, ele passou um tempo com Fowler em Cambridge, com Fermi em Roma e como assistente em Tübingen. Em 1933, junto com Sommerfeld, escreveu seu famoso artigo de referência (Handbuch) sobre Teoria Quântica dos metais (SOMMERFELD; BETHE, 1933). Emigrou em 1933 e entrou no grupo de Bragg, em Manchester, posteriormente indo para o grupo de Mott em Bristol, em 1934, tornando-se professor em Cornell em 1935. Nesses anos, ele desistiu de seu trabalho em sólidos e focou-se em física nuclear. Posteriormente lembrou:
[...] Eu imagino que provavelmente, após mais alguns anos, eu também teria sido cativado pela física nuclear. Mas aconteceu mais cedo porque eu entrei em contato com pessoas que estavam fazendo física nuclear. A Inglaterra estava cheia de física nuclear quando eu cheguei lá em 1933 e eu acho que isso teve muito a ver com o que aconteceu. De fato, Mott e eu apenas trocamos nossos papeis naquela época. Ele estava em teoria de colisões, colisões de altas energias, efeitos relativísticos em colisões e agora ele havia mudado para estado sólido. E eu fiz o contrário.43
Em 1936-37, Bethe publicou uma série de artigos de revisão sobre física nuclear, que vieram a ser conhecidos como a “Bíblia de Bethe” por uma geração subsequente de físicos.44 O trabalho dele durante a Guerra estava relacionado com o radar e, principalmente, com o desenvolvimento de armas nucleares dentro do Projeto Manhattan. Após a Guerra, o físico nuclear contribuiu para a eletrodinâmica quântica, por exemplo, através de sua explicação de 1947 do desvio Lamb no hidrogênio. Na década de 1950, Bethe trabalhou em teorias de muitos-corpos do núcleo (com Keith Brueckner e Jeffrey Goldstone). Posteriormente em sua vida, Bethe foi para a astrofísica e tornou-se um advogado dos movimentos de cientistas contra armas nucleares. Enquanto Bethe nunca retornou à teoria do estado sólido, suas contribuições para a teoria nuclear de muitos-corpos foi de relevância imediata também para a teoria do estado sólido.
Um colaborador próximo de Bethe nos anos 1930, Rudolf Peierls, em suas memórias descreve sua re-entrada no campo que ele havia abandonado, devido à pesquisa relacionada com a Guerra, do seguinte modo:
Antes da Guerra, a maior parte do meu trabalho havia sido em física do estado-sólido, mas havia acontecido uma grande expansão do trabalho em minha área, então eu me senti desatualizado [...] Recuperei minha conexão com a física do estado sólido de um modo incomum. Em 1953 proferi uma série de palestras em física do estado sólido na escola de verão em Les Houches [...] Isso exigiu, de uma vez, notas de aula por escrito, que eu decidi transformar em um livro. Ao escrever as notas, e posteriormente ao revisá-las para o livro, me dei conta que muitos dos problemas que eu considerava em aberto quinze anos atrás permaneciam sem solução. Esses estavam relacionados particularmente a problemas em teoria da condutividade. Eu, assim, decidi retornar a estes problemas e comecei discussões com colegas no departamento. Geoffrey Chester, que ao chegar em 1956 havia trabalhado com hélio líquido (tradicionalmente tratado junto com problemas do estado sólido, ainda que não seja muito sólido!) tornou-se interessado, e da mesma forma Armin Thellung, um visitante da Suíça, e Sam Edwards, que havia vindo em 1953 com experiência em teoria de campos e física nuclear. De seus trabalhos e de vários de seus estudantes resultaram importante esclarecimentos. (PEIERLS, 1985, p. 229)
Ambas as biografias exemplificam a tendência geral de 1930 a 1950: nos anos 1930 e durante a Guerra, o estudo dos núcleos ganhou momentum, enquanto o estudo dos sólidos perdeu o apelo, para ser retomado nos anos do pós-Guerra, fomentado pelos avanços consideráveis tanto no experimento como na teoria.
5.2 Fronteiras permeáveis
As fronteiras entre a física de partículas, a nuclear e a do estado sólido eram não somente permeáveis a cientistas individuais, mas também a um número de conceitos e técnicas importantes, especialmente com o advento da Teoria Quântica de Campos em fins da década de 1940. O conhecimento sobre métodos teóricos quânticos de campos não viajava facilmente de teórico para teórico (KAISER, 2005). Muito pelo contrário, “tecnologias teóricas” tinham que ser aprendidas em contato com aqueles que já as dominavam ou trazidas por alguém para um novo campo de pesquisa45. No início da década de 1950, a transferência de conceitos e métodos era principalmente unidirecional, de física de partículas e nuclear para física do estado sólido46. Isso só mudaria em fins da década de 1950. Não somente técnicas formais eram transferidas, mas também a heurística da física do estado sólido era influenciada pelo advento da eletrodinâmica quântica: a abordagem heurística de Feynman (GALISON, 1998), tão bem sucedida em eletrodinâmica quântica, era baseada em evitar equações fundamentais do movimento (por exemplo, a formulação hamiltoniana da eletrodinâmica quântica), em favor de uma abordagem de soluções orientadas espacialmente (por exemplo, usando funções de Green). Uma mudança semelhante no estilo de raciocínio também aconteceu na teoria do estado sólido em fins da década de 1950: o ponto de partida das descrições microscópicas para o comportamento de sólidos se afastou de abordagens construtivas baseadas na equação de Schrödinger de muitos corpos para o uso de propagadores efetivos de partículas individuais. Os novos métodos se espalharam rapidamente e revolucionaram a física do estado sólido. Abrikosov, Gordov e Dzayloshinksi, no prefácio ao seu livro de 1961, Methods of quantum field theory in statistical Physics47, descreveram esse processo do seguinte modo:
Nos últimos anos, um sucesso notável tem sido alcançado na física estatística, devido ao uso extensivo de métodos emprestados da Teoria Quântica de Campos. O fato de esses métodos serem frutíferos está associado com novas formulações da teoria da perturbação, primariamente ligada com a aplicação dos “diagramas de Feynman”. A vantagem básica da técnica do diagrama está em seu caráter intuitivo: operando com conceitos de partículas únicas, nós podemos usar a técnica para determinar a estrutura de qualquer aproximação […]. Esse novos métodos tornaram possível não somente resolver um grande número de problemas que não se rendiam à antiga formulação da teoria, mas também obter muitas novas relações de caráter geral.48
A blindagem dinâmica de cargas em sólidos era explicada microscopicamente usando os métodos de renormalização de carga da eletrodinâmica quântica, principalmente a teoria da perturbação diagramática de Feynman (1949), e se apoiando em esquemas perturbativos, inventados para a aplicação desses métodos em problemas de física nuclear. Keith Brueckner (1955) havia introduzido uma “expansão de núcleos-ligados” para o tratamento da matéria nuclear (ver, por exemplo, BETHE, 1956) e Jeffrey Goldstone (1957), introduzindo a técnica perturbativa e utilizando diagramas como os de Feynman. Com essa abordagem, ele conseguiu mostrar que a expansão de núcleos-ligados de Brueckner é exata para o estado fundamental de energia de um sistema de muitos férmions interagindo, o que permite o tratamento “do estado fundamental de partículas independentes como um ‘estado de vácuo’” (GOLDSTONE, 1957, p. 268), colocando assim a analogia à eletrodinâmica quântica em bases ainda mais firmes. Ao mesmo tempo, Murray Gell-Mann, um teórico de partículas, juntamente com Brueckner, que estava predominantemente interessado em teorias de matéria nuclear, atacaram diagramaticamente o problema do limite de alta densidade de um gás de elétrons os quais interagem entre si e resolveram o quebra-cabeça das divergências que ocorriam em todas as abordagens anteriores para a energia de correlação no gás de elétrons (GELL-MANN; BRUECKNER, 1957). Seu trabalho conjunto, publicado no início de 1957, resultou de uma cooperação com um projeto RAND em fusão termonuclear (HODDESON et al., 1992b, p. 538-539). Eles notaram que as divergências na energia de correlação do gás de elétrons, contida em teorias anteriores, eram consequência de uma soma incompleta das séries de perturbação. Uma soma completa gerava uma série geométrica e as divergências eram canceladas49. O trabalho deles e o já mencionado artigo de Goldstone (1957) podem ser considerados como os primeiros exemplos da aplicação de métodos diagramáticos do tipo Feynman em uma área explicitamente conectada à teoria do estado sólido. Hoje, diagramas de Feynman são comuns no campo (ver, por exemplo, MATTUCK, 1967). A teoria da perturbação diagramática é um dos vários elementos que se originaram na Teoria Quântica de Campos de partículas elementares que iniciaram uma mudança fundamental na Teoria Quântica de sólidos. Um grande conjunto de aplicações dos novos métodos teóricos quânticos de campos a problemas em física do estado sólido apareceu rapidamente50.
Em fins da década de 1950 e começo de 1960, os métodos teóricos quânticos de campos em física do estado sólido foram estendidos e desenvolvidos, frequentemente de modo independente da física de partículas. Desde então, a física da matéria condensada se tornou uma fonte de novos modelos, métodos e conceitos em Teoria Quântica de Campos em geral. A rica fenomenologia da física do estado sólido – quando comparada à física de partículas e nuclear – implicou em numerosas abordagens engenhosas e uma diversidade de novos conceitos, cujo potencial fertilizou de volta a física de altas energias. Frequentemente, ideias originárias da física de partículas, através de sua adoção na teoria do estado sólido, passaram por refinamento em suas interpretações físicas; e o estabelecimento de analogias entre física de altas energias e da matéria condensada, hoje em dia, é visto geralmente como uma fonte de inovação em ambos os campos. Nós já havíamos mencionado a história do conceito de quebra espontânea de simetria na introdução deste artigo. Um exemplo próximo datado do fim da década de 1950, ressaltando a interação intensa entre teóricos nucleares e do estado sólido baseados na teoria de muitos corpos, é o artigo de Bohr, Mottelson e Pines (BOHR et al., 1958), que estabeleceu uma analogia entre a supercondutividade e o espectro de baixa energia do núcleo. Em sua palestra do prêmio Nobel, Mottelson (1976, p. 377) lembrou:
Foi uma circunstância afortunada para nós que David Pines passasse um período de diversos meses em Copenhague no verão de 1957, durante o qual ele nos introduziu aos excitantes novos desenvolvimentos da teoria da supercondutividade. Através de discussões com ele, a relevância desses conceitos para o problema da correlação de pares em núcleos se tornou aparente (Bohr et al., 1958). Um componente importante dessas discussões era o fato de que evidências experimentais haviam sido acumuladas para a existência de um gap de energia no espectro de excitação do núcleo reminiscente daquele observado em supercondutores.
Outro exemplo relacionado e particularmente intrigante de fertilização cruzada é a abordagem de grupo de renormalização (SHIKOV, 1993, 2009). Originário dos trabalhos iniciais de Teoria Quântica de Campos em partículas elementares (GELL-MANN; LOW, 1954; STÜCKELBERG; PETERMAN, 1953), o grupo de renormalização só chegou à proeminência, na década de 1970, quando Kenneth G. Wilson (1971) e outros, baseados em ideias desenvolvidas em trabalhos anteriores sobre teoria da matéria condensada por Leo Kadanoff (1966) - renormalização em blocos de spin - aplicaram de modo bem sucedido esta à teoria da transição de fases e fenômenos críticos e, posteriormente, ao problema de Kondo (WILSON, 1975). O trabalho de Wilson, conforme (SCHWEBER, 1993, p.150), “[...] deixou claro que a renormalização não era um dispositivo técnico para eliminar divergências, ‘mas uma expressão da variação da estrutura das interações físicas com mudanças na escala do fenômeno sendo testado’ (Gross, 1985)”. O método de grupo de renormalização teve um impacto tremendo em física da matéria condensada e estatística (por exemplo, grupo de renormalização de matriz densidade), mas também em física de altas energias e no modelo padrão (por exemplo, a ideia de usar constantes acopladas), e mesmo na interpretação e desenvolvimento posterior da própria Teoria Quântica de Campos (HARTMANN, 2001; SCHWEBER, 1993, 2007).51 Este está no coração de debates efervescentes sobre o reducionismo na Física.52 O impacto da física da matéria condensada em questões fundamentais da Física tem, entretanto, surpreendido a físicos de altas energias. Até hoje, interações e fertilizações cruzadas entre física de altas energias e da matéria condensada são frequentes e analogias entre a Teoria Quântica de Campos de partículas elementares e fenômenos em física da matéria condensada são abundantes.53
6 Epílogo: mecânica quântica e o crescimento e diversificação da física moderna
Durante o século XX, a Física não somente passou por mudanças conceituais revolucionárias, mas também cresceu significativamente como disciplina científica. Kragh (1999, p. 440-441) estima um aumento por cerca de um fator 100 no número de físicos e na quantidade de publicação ao longo do último século. Isto transformou profundamente o modo pelo qual a pesquisa física é desenvolvida. Exemplos de tais transformações são as mudanças na divisão de trabalho entre teoria e experimento, a emergência da big science e da pesquisa em equipe, questões de relevância militar e tecnológica da Física e a diversificação da Física teórica em subdisciplinas especializadas. Enquanto a Física não está sozinha em sua expansão, seu crescimento certamente foi amplificado pelo espalhamento da Mecânica Quântica e pela relevância crescente da Física para o domínio militar e tecnológico54. A Mecânica Quântica, e posteriormente a Teoria Quântica de Campos, transformou-se numa estrutura unificadora para a maioria dos físicos. Ingenuamente, é possível esperar que o advento de teorias unificadoras, tais como a Mecânica Quântica e a Teoria Quântica de Campos, levaria a uma integração dos temas, não a uma diversificação acelerada. Entretanto, como foi visto, o completo oposto permanece verdadeiro: em Física, a unificação intelectual não implica integração institucional, mas o contrário – ao longo do século XX, a Física se dividiu em subdisciplinas.55 Teria então a Mecânica Quântica agido como uma semente para a diversificação? E, em caso afirmativo, quais mecanismos estavam por trás desse processo?
Uma forma de responder a essa questão é negar que ela esteja bem colocada. Perceber a Mecânica Quântica como um formalismo unificante, desprovido de seu conteúdo, de fato é um exercício sem sentido. A Mecânica Quântica de fato integrou correntes aparentemente desconexas de desenvolvimento da Física do século XIX e início do século XX e assim levou à integração da, digamos, pesquisa em radioatividade e raios cósmicos sob o telhado da física nuclear. A Mecânica Quântica usada em física nuclear não é um conjunto fixo de ferramentas, desenvolvido em física atômica e aplicado ao domínio do núcleo, pois a própria Mecânica Quântica se desenvolveu quando fenômenos nucleares e de outras áreas foram incluídos no seu domínio explicativo. Entretanto, em uma perspectiva histórica, não pode ser negado que a subdivisão ou diversificação da Física começou mais ou menos ao mesmo tempo do advento da Mecânica Quântica. A aparente contradição pode ser removida ao se notar que os pais da Mecânica Quântica não eram simplesmente “físicos atômicos” ou espectroscopistas que haviam formulado uma teoria fundamental para descrever a riqueza de fenômenos encontrados nesta área particular da Física. Pelo contrário, muitos dos “mecânicos quânticos” iniciais eram, acima de tudo, físicos teóricos, ao invés de atômicos, nucleares ou do estado sólido. Colocar etiquetas desse tipo sobre os físicos do início do século XX é algo comum, mas altamente problemático. Enquanto o primeiro sucesso da Mecânica Quântica veio com a descrição do espectro atômico, a tradição da velha Teoria Quântica sugeria um alcance explicativo muito mais amplo. Equipados com a confiança no poder da Mecânica Quântica quanto à descrição do espectro atômico, os primeiros mecânicos quânticos começaram a estendê-la para o subatômico (isto é, física nuclear e de partículas) e para agregados de átomos (isto é, física molecular e do estado sólido, Química e, posteriormente, até mesmo Biologia Molecular).
Avanços na experimentação, frequentemente dependentes da Mecânica Quântica, tiveram um papel crucial nas décadas seguintes ao advento da mesma e forneceram uma abundância de fenômenos a serem explicados, tornando extremamente difícil para qualquer indivíduo manter-se a par de todos os desenvolvimentos. Após a Guerra, o crescimento sem precedentes no número absoluto de físicos amplificou essa tendência. Os primeiros protagonistas da “aplicação” da Mecânica Quântica a fenômenos fora do domínio do átomo eram móveis por que tinham um passado na construção da Teoria Quântica que ia bem além das questões de espectroscopia atômica. Em fins dos anos 1920 e início dos anos 1930, eles frequentemente seguiram o desenvolvimento em vários dos campos emergentes. As gerações subsequentes não tinham essa vantagem. A permeabilidade das fronteiras das disciplinas emergentes para pessoas, e também para ideias e conceitos individuais, diminuiu. O modo pelo qual a Física – Mecânica Quântica – era ensinada mudou (ver, por exemplo, KAISER, 2007). Vagarosamente, mas de maneira contínua, campos tais como a física nuclear, de partículas e do estado sólido se consolidaram como subdisciplinas bem definidas da Física em seu próprio direito.
Só o advento da Teoria Quântica de Campos em fins dos anos 1940, suplantando – ou melhor, complementando – a Mecânica Quântica como o formalismo unificador para os campos emergentes durante os anos 1950, aproximou novamente as trajetórias da física nuclear, de partículas e do estado sólido entre si. Conceitos e métodos desenvolvidos para solucionar as aparentes contradições na Mecânica Quântica, quando esta se aproximou do acoplamento ao campo eletromagnético, foram transferidos de física de partículas para física nuclear e do estado sólido. A rica fenomenologia e a fácil acessibilidade experimental dos sólidos levaram a novos conceitos e técnicas que, em fins dos anos 1950 e início dos anos 1960, começaram a fertilização cruzada de volta para a física de partículas e nuclear. Desde então, interações entre os campos são frequentes e férteis. As interações, algumas esboçadas no presente texto, de fato refletem certa integração intelectual devido à Mecânica Quântica e à Teoria Quântica de Campos. Mas elas também se beneficiaram da diversidade de contextos, onde a física quântica é aplicada e estendida. Ao invés de concorrer para uma falta de unidade ou coerência na Física, a diversidade que brota da desintegração institucional da Física durante o século XX parece garantir sua estabilidade e não destruí-la. As origens da divisão fundamental entre os estilos de pensamento em física de altas energias e da matéria condensada e seus efeitos nas interações entre os dois campos, necessitarão de estudos históricos adicionais.
Agradecimento
O autor agradece a Olival Freire Jr. e a todos os organizadores desta conferência, pela hospitalidade, e a Finn Aaserud, Gordon Baym, Silvio Dahmen, Lillian Hoddeson, Don Howard, Anja Skaar Jacobsen, Jeremiah James, Ed Jurkowitz, Leo Kadano, Shaul Katzir, Christoph Lehner, Ben Mottelson, Felix von Oppen, Ingo Peschel, Jürgen Renn, Sam Schweber, Georges Waysand, Spencer Weart, pela suas observações e críticas que auxiliaram os vários estágios deste projeto em andamento sobre o advento dos métodos teóricos quânticos de campo em física da matéria condensada. O autor agradecidamente reconhece concessão de suporte do Friends of the Center for History of Physics, American Institute of Physics.
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