Capítulo Onze
QUANDO EVE voltou para a cozinha, Granby tinha acendido o fogo e mais velas, de modo que o cômodo brilhava com uma rica luz dourada. Uma jarra de cerveja estava sobre a mesa, e três canecas haviam sido enchidas até a borda.
– Richard serviu uma para você – disse Nick, gesticulando uma mão para as canecas. – É cerveja, mas ele irá buscar uma taça de vinho, se você preferir.
– Não, tomarei cerveja com vocês. – Ela começou a rasgar em tiras o velho lençol que levara consigo. – Você precisa remover seu casaco e sua camisa, por favor.
Ela não olhou quando Granby ajudou Nick a tirar o casaco, mas quando ele removeu a camisa, Eve descobriu-se olhando para os ombros largos. Observou o jeito que os músculos se flexionavam sob a pele enquanto tirava a camisa pela cabeça, os contornos sinuosos acentuados pela luz das velas. Engolindo em seco, forçou-se a se concentrar e desviar os olhos para a bandagem apertada ao redor das costelas do marido. Havia uma mancha escura do lado esquerdo do ferimento.
– Bem Deus, Sir – exclamou Granby, franzindo o cenho. – Este curativo foi trocado desde a última vez que eu o vi?
Nick sentou-se na beira da mesa, e levantou os braços quando Eve começou a remover a bandagem.
– É claro – disse ele. – Rebecca fez isso para mim aproximadamente uma semana atrás. Ela é a dona da Hospedaria Ship, senhora, caso esteja se perguntando.
– É lá que você está morando, numa hospedaria?
– Sim, na fronteira de Hastings. O risco de ser reconhecido é muito grande na cidade, mas estou bem escondido em Ship. Foi Rebecca quem cuidou de mim logo que fui levado à praia.
Alguns dos pensamentos de Eve deviam ter transparecido no seu rosto, porque Nick riu.
– Você não precisa ter ciúme, querida. Ela é casada e tem idade o bastante para ser minha mãe.
– Não estou com ciúmes – retorquiu ela.
Nick estendeu os braços para ela.
– Não? – murmurou, puxando-a para mais perto.
Ela pôs as mãos contra o peito dele e empurrou-o.
– É claro que não! – disse Eve com irritação. Foi para a bomba no canto, e trabalhou a manivela vigorosamente. A água caiu dentro da bacia. Pegou mais água do que precisava, mas queria que o rubor em seu rosto desaparecesse, antes que se virasse de novo para Nick. Ouviu o murmúrio zangado de Granby.
– Eu deveria ter ficado com você, capitão.
– Isso não teria feito diferença. Ademais, Rick, eu necessitava de você aqui para cuidar de minha esposa.
Eve recusou-se a permitir que as palavras de Nick lhe trouxessem qualquer conforto. O patife estava apenas cuidando dos próprios interesses! Todavia, quando voltou sua atenção para o ferimento na lateral do corpo dele, todos os outros pensamentos desapareceram pela visão do corte vermelho e profundo.
– Você me disse que era um ferimento superficial. – Suas mãos tremiam um pouco, enquanto lavava o sangue seco, e gentilmente limpava ao redor do machucado. – Isto é muito profundo. Você teve sorte de a bala não ter atingido nenhum órgão vital.
– Já sofri ferimentos piores que este – ele a assegurou, alegremente.
– Mas eu sempre estive lá para cuidar de você! – falou o pajem rapidamente.
– Oh. – Eve pausou. – Então, talvez, sr. Granby, você queira continuar daqui…
– Não, ele não fará isso! – exclamou Nick. – Os cuidados de Richard sempre foram do tipo brusco e rápido. Eu prefiro seu toque gentil.
Eve fez uma careta, revoltada por seu próprio prazer diante daquelas palavras. Pegou um pequeno frasco de unguento.
– O que é isso? – perguntou Nick, desconfiado.
– Pasta da planta medicinal confrei, para ajudar a cicatrização da pele.
– Está cicatrizando bem sozinho – murmurou ele, olhando-a de maneira cética.
Eve ergueu o frasco à sua frente.
– Eu mesma preparei – insistiu ela.
Finalmente, Nick suspirou e levantou o braço.
– Muito bem, aplique sua poção de bruxa!
Mergulhou os dedos dentro do frasco e começou a passar o unguento sobre o ferimento. A proximidade com Nick mexia em seu interior, dificultando a concentração. Eve estava ciente do peito largo subindo e descendo a centímetros do seu rosto, as cicatrizes claras na pele de Nick lembrando-a da vida aventureira que ele levava. Não percebeu que tinha parado de aplicar a pasta de confrei, e estava estudando uma cicatriz redonda no ombro direito dele, quando o ouviu murmurar:
– Eu lhe disse que este não era o primeiro buraco que tive no meu corpo.
– Acho que você procura perigo – disse ela num tom de voz baixo.
– Não, mas ele parece me encontrar.
Olhou para cima e viu o sorriso travesso nos lábios dele. Nick prendeu-lhe o olhar, convidando-a a compartilhar sua excitação, e, oh, como queria fazer isso! Queria se jogar contra ele e se perder nos braços fortes, mas tal entrega a assustava. Eve voltou os olhos para o ferimento feio e vermelho da lateral do corpo de Nick. Só olhar para aquilo a fazia tremer pelo que poderia ter acontecido. Estava prestes a sugerir que sr. Granby colocasse a bandagem final quando o pajem pigarreou e pediu licença, antes de sair e fechar a porta. O silêncio que se instalou na cozinha estava carregado de tensão. Pegou uma tira do pano limpo e virou-se de frente para Nick. De modo obediente, ele levantou os braços, mas ainda estava sentado sobre a mesa, e Eve foi obrigada a se mover para a frente e posicionar-se entre as pernas dele, a fim de passar a faixa ao redor das costas largas. Seu rosto chegou muito perto daquele peito sólido, tão perto que ela apenas teria de se inclinar um pouquinho para que seu rosto se pressionasse contra ele. A pele cheirava a sal e ar marítimo, assim como a sabonete e um aroma muito masculino. Eve inalou profundamente. Era tão forte, passava-lhe tanta segurança. Nick teve um sobressalto.
– Oh… eu machuquei você? – Ela olhou para cima rapidamente.
– Não, querida. Tinha esquecido como era bom ter você perto de mim.
O brilho ardente nos olhos azuis fez o coração de Eve disparar no peito. Experimentou um enorme desejo de esticar o corpo e beijar a covinha que apareceu na lateral da boca bonita quando ele lhe sorriu. Com esforço, desviou os olhos, lembrando a si mesma que indivíduo inoportuno Nick era.
– Só estou fazendo isso porque não quero sua morte batendo à minha porta!
– Sim, é claro.
Reprimiu um sorriso diante do tom obediente de Nick e continuou lhe fazendo o curativo. Quando acabou com a bandagem, suas mãos permaneceram na pele quente, relutantes em se afastar. Nick desceu da mesa e parou diante dela, o corpo tenso e excitado. Uma onda de antecipação a fez tremer, rapidamente seguida por uma dor aguda quando se lembrou da traição de Nick. Ficara de luto por ele, sofrera por um marido que não estava morto.
– Você precisa de sua camisa.
– Eve.
Com um meneio suave da cabeça, ela afastou as mãos do corpo másculo e deu um passo atrás, piscando rapidamente.
– Não tenho tempo para flertes, Sir.
– Flertes? Apenas desejo um pouco de carinho de minha esposa.
Eve olhou para as próprias mãos, unidas com força diante de si. O cômodo estava silencioso, exceto pelo estalar alegre do fogo, o qual parecia zombar de sua infelicidade. Ela falou num sussurro:
– Não confio em você. Ainda não. Isso continua sendo muito doloroso para mim…
– Então esperarei – replicou ele calmamente. – Até que você esteja pronta.
O nó da garganta de Eve ameaçou sufocá-la quando lágrimas se acumularam em seus olhos. Houve passos pesados vindos da passagem subterrânea, um rangido da maçaneta, e Granby entrou na cozinha. Nick rapidamente virou-se, colocando-se entre Eve e a porta. Indo para as sombras, ela pegou seu lenço do bolso e secou os olhos.
– Trouxe mais cerveja – disse Granby. – Pensei que você pudesse querer outra caneca?
– Sim, obrigado, mas não posso ficar muito tempo. A maré logo vai virar.
Nick conduziu Eve para uma cadeira, então se sentou ao seu lado. Granby preencheu sua caneca.
– Então, capitão, quais são as novidades?
– Poucas, infelizmente. Estive em Boulogne e não pude encontrar evidências de que estão fazendo o chá falso lá. O que me leva de volta a minha suspeita original de que a mistura é feita aqui, neste país, mas onde? Minhas buscas ao redor de Chelston Hall não resultaram em nada. Não posso descobrir que Chelston está realizando uma grande produção de smouch em suas propriedades.
– Certamente fazer isso seria perigoso para ele – murmurou Eve.
– Seria, é claro, mas a produção precisa acontecer em algum local isolado, e ele tem acres de região reflorestada. Infelizmente, depois do fiasco às pedras de Nore, tem havido pouca atividade; as fontes dos homens dos impostos não têm novas pistas para nós seguirmos. É como o pântano, os povos dos vilarejos estão isolados, e as pessoas não falam prontamente com estranhos.
– Então o que acontece agora? – perguntou Granby.
– Nós continuamos observando e esperando. Chelston não pode parar tudo indefinidamente. Precisará mover as mercadorias em breve.
Apesar das palavras otimistas de Nick, Eve sentiu o desânimo que as rodeava.
– Bem, tivemos alguma excitação – disse ela, tentando parecer alegre. – Recebi uma visita esta manhã, de lady Chelston.
– Não acredito! – exclamou Nick.
– É verdade. Ela conhecia minha mãe. Disse que tinha perdido o contato com ela depois que ambas se casaram. Não posso imaginar que mamãe gostasse de lady Chelston… de quem não gostei nem um pouco.
– E o que ela queria? – perguntou Nick ansiosamente. – Ela pediu para olhar ao redor da casa, ou estava esperando que você a convidasse para passar uns dias aqui?
– Muito ao contrário. Lady Chelston queria que eu fosse para a festa de uma semana que dará em Chelston Hall. É claro que recusei. Seria muito impróprio, especialmente quando haverá um baile de máscaras lá.
– Por Deus, isso é verdade?
– Sim. Embora tenha me dito que eu não precisaria ir ao baile, se não quisesse. – Um sorriso relutante curvou os cantos da boca de Eve. – Ela irá se fantasiar de Perséfone, e Chelston como Hades.
Nick riu.
– Quão apropriado, Hades tendo sido conhecido tanto como o invisível quanto como o rico! Isso combina muito bem com a ideia que tenho do homem.
– Não tão apropriado para a lady dele – disse Eve, rindo. – Perséfone era inocente, e não posso acreditar que tal termo se aplica à lady Chelston!
– Verdade, mas gosto da ideia de um baile de máscaras. Isso pode ser muito útil para nós.
– Agora, o que você está planejando? – perguntou ela, desconfiada do sorriso travesso de Nick.
– Bem, seria uma vantagem ter alguém dentro de Chelston Hall. Talvez descubramos alguma coisa.
Eve afastou-se, meneando a cabeça.
– Oh, não!
Nick lhe deu um olhar triste.
– Não esperaria que você vasculhasse a casa, querida, meramente que abrisse uma porta ou uma janela para me deixar entrar.
– Certamente não! Não poderia ir, de maneira alguma. Sou uma viúva. – Nick arqueou uma sobrancelha para ela. – Bem, ainda estou de luto pelo meu avô.
– É claro que está – concordou ele, estendendo o braço para lhe pegar uma mão. – Não seria esperado que você fosse ao baile, nem mesmo que apreciasse a companhia de outros depois do jantar. Seu estado de viuvez torna perfeitamente aceitável que fique muito tempo em seu quarto, mas pense como você seria útil, dentro de Chelston Hall.
– Pensei que você quisesse que eu vivesse isolada – argumentou Eve. – Sair em público seria muito impróprio para mim.
– Esta é uma festa particular numa casa de campo onde ninguém a conhece. Sua situação lhe permitiria manter distância dos outros convidados. – Nick apertou-lhe a mão e deu-lhe toda a força de seu sorriso charmoso. – Prometo que nada de mal lhe acontecerá.
Ela se sentiu amolecendo, e tentou um argumento final desesperado:
– Você não pode saber disso. Lorde Chelston pode estar planejando me coagir a desistir de Monkhurst, ou até mesmo me assassinar quando eu estiver dormindo.
– Chelston é externamente muito respeitável. Eu não a enviaria se achasse que você corre algum perigo. Não acredito que ele mostraria seu jogo tão claramente. Martha a acompanhará, é claro.
– E onde você estará? – perguntou Eve com desconfiança. Não se sentia tranquilizada pelo brilho travesso nos olhos azuis.
– Oh, estarei por perto, não tema. – Nick apertou-lhe os dedos novamente. – Diga que fará isso por mim, querida. Escreva para lady e diga-lhe que mudou de ideia.
– Não farei uma coisa dessas! Não posso pensar em nada que tenha mais probabilidade de despertar a desconfiança dela.
– Pensei que você quisesse me ajudar. – O olhar de reprovação de Nick a fez hesitar.
– Lady Chelston disse que me enviaria um convite, mesmo eu a assegurando que não iria. Se ela enviar o convite, então aceitarei.
Ele lhe ergueu a mão e pressionou-a aos lábios.
– Obrigado. Sabia que poderia contar com você.
– Devo ir também, Sir? – perguntou Granby. – Se houver algum perigo…
– Não acho que a sra. Wylder estará correndo sérios riscos enquanto estiver em Chelston Hall, Richard. Prefiro que você fique aqui, caso eles tentem invadir a casa.
– Você acha que há alguma coisa aqui que eles queiram? – exclamou Eve, recolhendo a mão. – E está feliz que eu continue morando aqui, quando posso estar em perigo mortal? Oooh… – Ela quase bateu o pé no chão, de tanta raiva. – Você é desprezível!