Capítulo Doze

EVE QUERIA acreditar que a visita de lady Chelston não tinha sido mais do que um gesto de boa vizinhança, e que, tendo feito sua tarefa cristã, a lady esqueceria tudo sobre aquilo. Consequentemente, ficou desapontada, e, de alguma forma, surpresa, quando o convite para visitar Chelston Hall chegou poucos dias depois. Tendo dado sua palavra a Nick, Eve enviou uma resposta aceitando o convite, mas não era esperado que sua decisão de visitar Chelston Hall fosse bem recebida por seus criados. Aggie protestou contra a ideia de sua ama viajar tão breve após sua chegada a Monkhurst.

– Ainda há tanto a fazer aqui, senhora – reclamou ela. – Nós nem acabamos de esvaziar o sótão!

– Não ficarei fora mais que uma semana – disse Eve. – E vocês não precisam me ter na residência para que limpem absolutamente tudo. Na verdade, prefiro não estar aqui durante a faxina.

Estavam sentadas na cozinha, onde Eve estivera preparando os menus da semana com sua governanta. Olhou para cima, de sua lista, quando a porta se abriu e Sam entrou com o braço carregado de lenha.

– Bom dia, senhora – ele cumprimentou Eve alegremente, e derrubou as madeiras dentro da cesta. – Pronto, mãe, lenha seca para o fogão. Nat e eu iremos acabar de cortar os arbustos hoje, e depois cortaremos mais madeira para o fogo.

Quando endireitou o corpo e virou-se para sair, Eve notou que o olho esquerdo de Sam estava roxo, e uma das faces estava com um ferimento vívido.

– Meu Deus – exclamou ela. – O que aconteceu com você?

Sam sorriu e pôs os dedos no rosto.

– Oh, noites atrás, nós tivemos uma briga com alguns rapazes em Jury’s Cut. Houve uma discussão sem sentido: queriam que nós parássemos de usar o rio. Pularam em cima de nós, quando estávamos lá.

Aggie balançou a cabeça enquanto misturava os conteúdos na chaleira sobre o fogo.

– Tem havido muitas brigas recentemente – disse ela. – Espero que não estejamos voltando àquela época ruim. Alguns dizem que é a volta da gangue de Hawkhurst.

Eve franziu o cenho para Sam.

– Silas me prometeu que, se eu lhes arranjasse trabalho, todos vocês parariam com o contra… com o mercado livre.

– E nós pararemos, senhora, com certeza, mas temos de lidar com algumas obrigações antes.

– É uma questão de honra – explicou Aggie, ansiosa para que Eve compreendesse. – Algumas das pessoas do vilarejo já pagaram, entende, porém, uma vez que as últimas encomendas forem entregues, então os garotos não irão fazer mais isso. E tal fato me deixa feliz; não dormirei tranquila até que completem a entrega final.

Sam pareceu aflito.

– Ora, mãe, como pode dizer isso quando nosso pai fez mercado livre durante toda sua vida?

– Ah, mas não era tão perigoso no passado. Era uma negociação cavalheiresca, uma vez que as piores gangues foram expulsas daqui…

Eve saiu, deixando-os para discutir, e correu para o andar de cima, a fim de informar sua criada da viagem iminente. Martha foi ainda mais contra aquilo do que a governanta, e expressou sua desaprovação de modo muito mais verbal:

– Bem, não gosto disso, srta. Eve, e assim lhe digo! Ser colocada nas mãos daquele vilão, sem mencionar o desrespeito ao seu santo avô.

– Não haverá desrespeito – retornou Eve com dignidade. – Usarei roupas de luto, e deixei claro para lady Chelston que não participarei de nenhum dos entretenimentos oferecidos durante a semana de festas.

Martha bufou.

– Mesmo assim, ficar hospedada na casa do inimigo do capitão é um risco, senhorita, você não pode negar.

– Você parece saber muita coisa sobre esse assunto, Martha. Suponho que tem conversado com Richard Granby.

Sua criada enrubesceu.

– Sr. Granby e eu temos um entendimento, senhorita.

– Ahh. Então é isso; você não quer deixá-lo ir comigo para Chelston Hall.

– Srta. Eve! Como pode pensar que algum dia a deixaria viajar sem que eu fosse junto para cuidar de você? E acha que Rich… que o sr. Granby incentivaria uma coisa dessas? Agora, pare de me provocar, e deixe-me para eu fazer a minha mala, já que você está determinada a ir!

CHELSTON HALL era uma mansão sólida, tinha sido ampliada recentemente com duas novas alas, e um imponente frontão triangular acima da entrada. Era erguida sobre um pequeno morro, possibilitando aos seus ocupantes vistas incomparáveis dos campos ao redor, e até mesmo, num dia de clima bom, um vislumbre do mar. O vento soprava à volta de Eve quando ela desceu da carruagem. Através do véu preto, observou o lacaio alto de semblante inflexível, que a convidou para entrar na casa e conduziu-a para um enorme salão de mármore. Uma grande escadaria levava a uma galeria que cercava todo o andar superior, apoiada sobre brilhantes pilares de mármore. Um segundo lacaio a escoltou para seu quarto. Sons de risadas vinham de alguma das salas do corredor, mas Eve não estava com pressa de conhecer os outros hóspedes, e pediu que o lacaio informasse lady Chelston que descansaria até a hora do jantar.

O quarto que lhe foi designado ficava na ala leste da mansão, com vista para um grande terraço e jardins floridos em mosaicos. Heras cercavam a janela e se derramavam sobre o peitoril de pedra, seu crescimento tão abundante que ameaçavam invadir o quarto. Uma rápida olhada assegurou Eve que a porta sólida de seu quarto tinha fechadura e chave, e havia um pequeno closet anexo que também continha uma cama estreita para sua criada. Deu a Martha a tarefa de desfazer sua mala, decidindo que seria melhor pendurar suas roupas em cabides no closet do que dobrá-las sobre as prateleiras de madeira do armário, as quais já continham uma seleção colorida de sedas e veludos dobrados. Eve deitou-se em sua cama então, até que fosse hora de juntar-se aos outros hóspedes para jantar. Apesar de sua calma exterior, sentia-se excitada com o pensamento do que estaria por vir. Tinha um papel a representar, mas, embora se sentisse um pouco nervosa, não achava que algum mal poderia lhe acontecer numa casa repleta de hóspedes. Perguntou-se quão breve Nick a contataria. Eve enviara Richard Granby para informar seu marido que iria para Chelston Hall, mas a resposta de Nick havia sido decepcionantemente breve: ele a procuraria.

– O quê? – Eve exclamara ao ouvir aquilo. – Não deu nenhuma indicação de quando eu posso esperar vê-lo?

– O capitão prefere deixar que os assuntos sigam seu curso natural, sra. Wylder – replicou Granby de forma desajeitada. – Acha que esse é o jeito mais satisfatório de trabalhar.

– Bem, acho que é o mais insatisfatório – retorquiu Eve. – Devo me colocar em risco, sem ideia do que ele espera que eu faça.

Ela pensou ter visto um pequeno sorriso curvar os lábios do pajem, mas então este desapareceu num instante. Ele murmurou calmamente:

– O capitão Wyldfire corre com o vento, senhora. Esse é o jeito dele, mas não precisa ficar ansiosa. Ele sempre aparece.

– Bem, vamos esperar que esta vez não seja uma exceção!

– SRA. WYLDER, estou tão feliz que você pôde se juntar a nós!

Catherine Chelston apressou-se para cumprimentá-la, com um farfalhar de suas saias de seda, quando Eve entrou na sala de estar. Lady Chelston gesticulou para o cavalheiro muito bem-vestido, que a seguira em passos mais lentos.

– Senhora, posso lhe apresentar meu marido?

Eve observou o homem fazendo uma reverência diante dela. Lorde Chelston era magro e de estatura média, mas emanava uma força rude sob a seda e a renda de seu traje impecável, e os olhos que fixou nela continham uma expressão tão fria e calculista que Eve teve de suprimir um tremor. O rosto fino era pálido, com uma testa alta, e ela supunha que, sob a peruca, os cabelos dele eram ralos e escassos. Pegou-lhe a mão num aperto frouxo e úmido.

– Minha cara sra. Wylder, é muita gentileza sua nos honrar com sua presença, especialmente quando sofreu não apenas uma, mas duas perdas há tão pouco tempo.

– Contei ao milorde sobre a sua relutância em aceitar meu convite – disse lady Chelston.

– Ainda não tenho certeza se deveria estar aqui – murmurou Eve, recolhendo a mão e resistindo à vontade de limpar seus dedos no vestido.

– Seus escrúpulos têm crédito – retornou lorde Chelston. – E tenha a certeza de que ninguém irá interferir em sua dor, mas em tais ocasiões, às vezes é melhor estar entre amigos.

Eve inclinou a cabeça.

– Conheceu meu marido, Sir?

– Infelizmente, não tive esse prazer, mas não pense que está totalmente sozinha em sua dor, aqui, pois seu primo também está hospedado conosco. – Deu um passo ao lado, e Eve viu Bernard sorrindo-lhe do outro lado da sala. Ela desviou os olhos sem reconhecer a reverência dele. Catherine deu uma risada gentil.

– Pobre homem, contou-nos que se deixou levar pela paixão e se declarou cedo demais. Não se preocupe, minha querida sra. Wylder; Bernard me prometeu que irá se comportar aqui.

– Perdoe-me, senhora, se reservo meu julgamento sobre isso – retornou Eve.

– É claro. – Lady Chelston tocou-lhe o braço brevemente. – Mas eu lhe suplico que o deixe escoltá-la para a sala de jantar esta noite. Não queremos dar motivo aos fofoqueiros para pensarem que há algum desentendimento em sua família, queremos?

– Muito bem, senhora, permitirei isso para agradá-la. Todavia, como deixei claro em minha carta, não poderei participar de todos os seus entretenimentos, e certamente não irei ao baile de máscaras.

– Certo. Não que isso seja muito compreensível – concordou sua anfitriã. – Espero que se junte a nós nos jantares prévios, mas depois disso, você pode ficar no seu quarto, e de lá, pedir quantas refeições quiser. – Lady Chelston deu-lhe um tapinha nas mãos. – Nós queremos que você se sinta em casa aqui, querida. Espero que possamos lhe trazer algum conforto neste momento difícil. Talvez sua visita a ajude a esquecer sua dor, pelo menos por um curto período de tempo.

Eve inclinou a cabeça.

– Certamente, isso irá acontecer, lady Chelston.

– ESTAMOS AQUI há três dias, e ainda nenhuma palavra dele!

Eve olhava para o espelho enquanto Martha escovava seus cabelos.

– Acalme-se, senhorita. O capitão virá quando estiver pronto.

– E enquanto isso, sinto-me uma fraude tão grande. – Eve suspirou, mantendo o tom de voz baixo. – Todos têm tanta consideração por mim, acreditando que sou uma pobre viúva sofredora. Meus anfitriões não falaram ou fizeram nada incomum, e até mesmo Bernard está mantendo distância!

– Como deveria fazer – resmungou Martha. – Agora, fique imóvel, srta. Eve, enquanto prendo seus cabelos no topo da cabeça novamente. Você não pode descer para o grande salão de jantar da lady parecendo um espantalho.

Eve parou um pouco.

– Gostaria que não precisasse ir. Lady Chelston sabe que não participarei do baile, mas planejou a mesa de jantar para me incluir. Eu me sentirei tão deslocada em minhas roupas pretas de viúva.

– O preto destaca sua pele clara e bonita – retornou Martha em tom estimulante. – Todas as ladies irão invejá-la, e os cavalheiros irão admirá-la.

Eve fez uma careta no espelho, e pensou que só existia um homem que queria que a admirasse, e Nick não estaria presente. Observou quando Martha fixou o chapéu preto de renda sobre seus cachos, então se levantou e alisou o vestido. Tinha escolhido usar um vestido preto de renda fina por cima de suas saias de seda, o luto profundo suavizado apenas por um único colar de pérolas ao redor de seu pescoço.

– Achei que fosse uma extravagância desnecessária quando comprei este vestido, mas agora estou contente por tê-lo. A sensação da seda contra meu corpo me dá mais confiança. Bem – ajeitou as saias uma última vez –, deseje-me sorte. – Uma onda irrepreensível de humor a fez sorrir. – Talvez descubra que minha dor é muito grande, e seja obrigada a fugir da mesa de jantar.

Pegou o labirinto de corredores, mantendo seu olhar modestamente baixo, e não prestando atenção aos servos parados como estátuas que estavam a serviço em intervalos regulares ao longo de sua rota. Durante as horas da chegada delas a Chelston Hall, Martha lhe contara que, segundo as fofocas que ouvira, a dona da casa tinha uma predileção por lacaios jovens, e Eve notou que todos os servos uniformizados na casa possuíam mais de 1,80m de altura. Observando lady Chelston dando olhares demorados para tais lacaios, Eve suspeitou que pelo menos alguns deles prestavam serviços mais íntimos à lady do que aqueles geralmente requeridos de um criado. Estava se aproximando do corredor principal quando uma daquelas estátuas uniformizadas lhe falou:

– Boa noite, querida. – O som da voz familiar foi tão inesperado que os joelhos de Eve ameaçaram dobrar, e ela pôs uma mão na parede para se apoiar. Erguendo os olhos, ela focou, em perplexidade, a figura alta de peruca branca e casaco azul com adornos dourados. Os profundos olhos azuis e o sorriso travesso eram inconfundíveis.

– Nick! O que, em nome de Deus, você está fazendo aqui? – sussurrou ela.

Com um rápido olhar para se certificar de que o corredor estava deserto, ele lhe segurou o pulso e a conduziu para a porta mais próxima, e para dentro de um quarto pequeno e vazio.

– Eu lhe disse que viria.

– Mas não assim! Você está… estranho.

Ele sorriu.

– E você está linda de tirar o fôlego. Senti sua falta. – Os olhos azuis escureceram com desejo, e Eve deslizou os seus rapidamente, achando difícil recuperar o próprio fôlego.

– Isso é loucura! Você será reconhecido.

Você não me reconheceu – apontou ele.

– Isso é diferente.

– Não, não é. As pessoas só veem o que esperam ver. Além disso, quem que está aqui me conhece?

– Meu primo Bernard, para começar!

Nick deu de ombros.

– Não irá me notar. Tinha pensado em dar uma olhada na papelada de Chelston enquanto estou aqui.

– Pelo que sei, há dois lugares onde talvez ele guarde documentos importantes. Há uma escrivaninha na biblioteca, mas foi aberta para os convidados esta noite. Todavia, o escritório dele fica no andar de baixo, do lado oposto do salão, e na direção da cozinha e dos aposentos dos servos. A passagem leva somente ao escritório e à escada dos fundos para a ala leste, de modo que o lugar deve estar deserto esta noite.

– Muito bem, Eve. Você andou ocupada.

– Não tive muita coisa para fazer, exceto conhecer a casa.

– Agradeço sua perspicácia. – Ele lhe deu um olhar de apreciação. – Você vai descer para jantar neste traje? Os cavalheiros não terão olhos para ninguém mais.

Ela corou.

– Não era a minha intenção.

– Não, mas você não tem ideia do quanto é linda.

Eve tentou ignorar aquilo, mas teve ciência do rubor cobrindo seu rosto e do friozinho de excitação na barriga.

– Como você entrou?

– É de conhecimento comum nesta área que os Chelston contratam mais criados quando estão recebendo pessoas. Uma vez que descobri que lady Chelston gosta de escolher seus servos pessoalmente, não foi difícil ser escolhido. – O sorriso travesso estava nos olhos azuis novamente. – Afinal de contas, possuo todos os atributos que ela procura em seus lacaios.

– Seria bem-feito se escolhesse você para lhe prestar serviços pessoais esta noite!

– Bem-feito para mim, e uma felicidade para a lady – provocou ele.

Eve arfou diante de tamanha audácia. Nick meramente riu e envolveu-a em seus braços.

– Não, não, estou brincando, querida. Só há espaço para uma mulher na minha vida agora, e você sabe disso.

Aquelas palavras e a sensação dos braços de Nick ao seu redor deixaram os sentidos de Eve em turbilhão. Não teve tempo de se recompor e virar a cabeça antes que ele a estivesse beijando, a boca firme e exigente contra a sua. Eve lhe agarrou o casaco e correspondeu ao beijo, um desejo poderoso esquentando seu sangue.

– Você precisa ir jantar agora? – perguntou ele, cobrindo-lhe o rosto e o pescoço com beijos quentes e suaves.

– Seremos descobertos – sussurrou ela quando a razão ameaçou abandoná-la.

Nick gemeu.

– Você está certa. Nossa falta será sentida. – Ele lhe segurou os ombros e tomou-lhe a boca num último beijo demorado. – Pronto. Vá antes que eu esqueça que sou um servo e violente você.

Ela não sorriu quando se afastou alguns passos.

– Nós nos falaremos novamente?

– Eu a encontrarei mais tarde, confie em mim. – Ele abriu a porta e olhou para fora cuidadosamente. – O caminho está livre. Vá agora.

Ainda atordoada pelo encontro, Eve foi para a sala de estar. Foi uma das últimas a chegar, e sua entrada passou quase despercebida no meio da confusão barulhenta. A sala estava repleta de convidados, que riam, conversavam e comentavam sobre as fantasias e máscaras uns dos outros. Lady Chelston apareceu, magnífica em verde e dourado.

– Perséfone na Primavera, minha querida – disse ela quando Eve murmurou um cumprimento – Chelston mandou lapidar estes diamantes amarelos no formato de prímulas para o corpete de meu vestido… não são maravilhosas?

Sem esperar resposta, ela saiu, e Eve observou-a circular pela sala, muito distraída para trocar mais do que algumas palavras com qualquer pessoa. Um pequeno grupo de hóspedes cumprimentou Eve de maneira gentil, então continuou sua discussão sem mais um olhar ocasional ou palavra na sua direção. Tal situação era perfeita, diferentemente do jantar demorado, que provou ser uma experiência dolorosa. Eve estava sentada ao lado de seu primo, e quase desmaiou quando Nick entrou com outro lacaio para servir o primeiro prato. Resolutamente, manteve os olhos baixos, rezando para que não fizesse nada que o entregasse. Conversações aconteciam ao redor da mesa; Eve não tinha ideia do que falava ou do que os outros lhe falavam. Os pratos coloridos e elegantes, preparados para o deleite dos convidados de lorde Chelston não tinham sabor algum em sua boca. Eve preencheu seu prato e comeu mecanicamente, e durante o tempo inteiro estava ciente dos lacaios rodeando a sala em silêncio, completando copos, tirando pratos e substituindo-os por outros limpos.

– Prima, deixe-me servir você de um pouco de lúcio assado – disse Bernard. – O peixe está delicioso.

– Não, obrigada.

– Você ainda está zangada comigo – disse ele em tom de voz baixo. – Não deveria ter me declarado tão cedo. Foi a força de minha consideração por você que me fez agir de forma tão precipitada.

Eve congelou. Nick estava bem na frente deles, servindo o cavalheiro sentado do lado oposto da mesa. Ansiosa para que Bernard não olhasse para cima, deu-lhe um sorriso muito mais caloroso do que pretendera, desesperada para manter sua atenção.

– Assim você me disse em sua carta, primo.

– Sua resposta não me deu esperança que você havia me perdoado.

Sua carta implicava que você ainda acredita que tem a chance de se casar comigo um dia – replicou ela.

– E não tenho?

Nick havia desaparecido de vista, e Eve relaxou um pouco.

– Não – respondeu ela. – Nunca.

– Nunca é um longo tempo, prima.

O sorriso complacente no rosto de Bernard a fez querer esbofeteá-lo. Eve conteve-se, arrependendo-se de seu jeito amigável mais cedo. Falou com falsa doçura:

– Então você terá muito tempo para se recuperar de seu desapontamento.

De maneira deliberada, virou o ombro e começou a conversar com o cavalheiro à sua direita. Pronto, pensou. Dei minha resposta a Bernard, e nunca mais falarei com ele. E Nick que se cuide sozinho!

A refeição progrediu sem discussões, exceto por um barulho de pratos derrubados para chamar a atenção de um servo desajeitado. Uma olhada para a ponta da mesa mostrou a Eve que lorde Chelston e a esposa estavam à vontade, e muito entretidos com seus convidados para olhar na direção dos lacaios. Quando finalmente sua anfitriã deu o sinal para as ladies se retirarem, Eve experimentou um momento de pânico. E se alguma coisa acontecesse a Nick mais tarde, quando não estivesse lá? A razão lhe dizia que não havia nada que pudesse fazer para ajudar, mas teria preferido permanecer perto dele. Enquanto as ladies saíam da sala, Eve arriscou uma olhada rápida para a linha de servos uniformizados. Viu Nick quase imediatamente, mas, embora ele tivesse lhe encontrado os olhos por um breve instante, não deu sinal de reconhecimento. Sentiu vontade de rir. Nick podia ser ousado, mas não era tão impulsivo que arriscaria que um olhar fosse interceptado. Aquilo lhe deu algum conforto, mas ainda era difícil manter a compostura, sabendo que seu marido corria perigo. Após uma breve troca de palavras com sua anfitriã, Eve foi para o quarto. Ao passar ao longo do corredor, ouviu a orquestra começando no andar de baixo. As notas reverberavam ao redor do salão vazio, mas Eve sabia que, uma vez que o vasto espaço fosse preenchido com pessoas, o eco seria substituído por um som muito mais melodioso. Tudo se tornaria agitado, pensou, todos os lacaios seriam requisitados para atender aos convidados, e Nick poderia escapar sem ser notado. Andou pelo quarto, o corpo pulsando com energia nervosa. Não conseguiria ficar sentada, sem fazer nada, e depois de uma hora, não podia mais suportar a incerteza, e voltou para a galeria. Não havia servos na luz fraca dos corredores no andar de cima, e Eve supôs que tinham sido chamados para servirem no andar de baixo. Espiou sobre a balaustrada. O salão estava repleto com uma multidão colorida e barulhenta. Muitos dos convidados estavam em fantasias elaboradas, com máscaras sobre seus olhos, mas entre estes, havia figuras misteriosas cobertas por volumosas túnicas de seda. Os lacaios uniformizados se moviam no meio da multidão, oferecendo cálices de vinho. Eve andou ao longo da galeria, até que pudesse ver a entrada da antessala que se abria para o salão de bailes. As portas duplas haviam sido abertas, e mais servos estavam pondo ceias sobre mesas longas.

– Sra. Wylder, o barulho a incomoda?

Ela teve um sobressalto de susto, e virou-se para encontrar lorde Chelston ao seu lado.

– N… não, Sir. – Eve tentou um sorriso fraco. – Meramente queria ver como o baile estava progredindo.

Ele lhe estendeu o braço.

– Deixe-me escoltá-la para baixo…

– Não, não, milorde, obrigada. – Ela se encolheu. – Meu vestido preto não combina com tanta alegria, e pode deixar alguns de seus convidados desconfortáveis. Perdoe-me, vi o bastante e irei me recolher agora.

– Então, permita-me escoltá-la de volta ao seu quarto. – Ele lhe pegou a mão, colocou-a sobre seu braço e andou ao seu lado ao longo do corredor parcamente iluminado. – Encontrá-la olhando os dançarinos me faz pensar que talvez você esteja solitária, senhora.

– Solitária, milorde? Não, eu lhe asseguro…

– Shawcross me informou que Makerham foi seu lar por muitos anos. Deve ser difícil para você deixar tal lugar, deixar todos os seus amigos e se mudar para Monkhurst, uma propriedade que, pelo que sei, é muito isolada. Você é jovem; não preferiria viver em Tunbridge, ou Bath, onde poderia encontrar uma vida social um pouco mais ativa?

– Estou muito contente em Monkhurst, milorde.

Ele parou, os olhos intensos estudando-lhe o rosto.

– Tem certeza? – perguntou gentilmente. – Não está bancando a corajosa em relação ao seu apuro? Se o problema for dinheiro, senhora, então talvez eu possa ajudar. Poderia comprar Monkhurst. Conheço esta região, sra. Wylder; a propriedade de Monkhurst não é adequada para ninguém. Ficaria feliz em tirá-la de suas mãos por uma generosa quantia… e nós não precisamos esperar que as legalidades sejam completadas. Poderia lhe dar um adiantamento para permitir que você se mude imediatamente para algum lugar mais adequado à sua natureza.

Eve ergueu uma das mãos.

– Por favor, milorde, não diga mais nada. Eu lhe asseguro que Monkhurst é totalmente adequada para mim. Talvez, talvez em um ano ou coisa assim, quando minha dor tiver diminuído… – Ela deliberadamente deixou a frase inacabada e baixou os olhos, desviando do olhar frio e penetrante do lorde. Após um momento, ele fez uma reverência.

– Como desejar, senhora. Irei levá-la ao seu quarto agora, mas não hesite de mandar sua criada até mim, se precisar de alguma coisa. Qualquer coisa.

– O senhor é muito gentil.

O homem a escoltou até sua porta, e quando Eve entrou, encontrou Martha esperando por ela ansiosamente.

– Oh, srta. Eve, graças a Deus você está de volta em segurança! Estava tão preocupada.

– E com razão. – Eve pressionou a orelha junto à porta, ouvindo. – Lorde Chelston me descobriu no corredor. Está claro que não é seguro que eu vagueie pela casa dessa forma. – A excitação percorria seu corpo. Ela atravessou para o armário e abriu as portas.

– O que você vai fazer, senhorita? – Martha quis saber. – Nós não guardamos as suas roupas aí.

– Eu sei – replicou Eve, mexendo nos tecidos sobre as prateleiras. – Mas vi alguma coisa quando nós chegamos… ah, aqui está – disse, emergindo do armário com um sorriso triunfante nos lábios, e segurando uma túnica vermelha.

– Por Deus, senhorita, você não vai se juntar à dança?

– Não, mas eu vi diversas túnicas vermelhas entre as pessoas que estão no baile, de modo que ninguém irá me reconhecer se eu usar isto esta noite!

SAINDO DO quarto novamente algum tempo depois, agora coberta por seda vermelho brilhante, Eve seguiu seu caminho ao longo do corredor vazio e desceu a escada. Quando chegou ao andar de baixo, houve um grito e risadas altas, e Eve se recostou em uma das paredes com painel no momento que uma lady vestida de Gloriana passou correndo, arrastando um ofegante e barbudo Falstaff atrás de si. Não prestaram atenção a Eve, envolta em sua túnica, e assim que desapareceram de vista, ela prosseguiu. Chegando ao estúdio, tentou a maçaneta. A porta se abriu facilmente, mas a sala estava no escuro. Calmamente, pegou um castiçal, saiu no corredor e ergueu a vela para as que estavam acesas nos castiçais presos às paredes. Com uma pequena parte objetiva de seu cérebro, maravilhou-se por sua mão estar tão firme, mas tinha ciência de que um ataque de nervos agora poderia estragar tudo. Entrou mais uma vez no estúdio e fechou a porta cuidadosamente. Levantando o castiçal, olhou ao redor da sala. Eve estava subitamente perdida. Não sabia pelo que procurava. Gabinetes com portas de vidro alinhavam duas paredes, enquanto prateleiras ladeavam a construção decorativa ao redor da lareira e da janela, onde havia uma cômoda alta, seu topo na altura do parapeito. Uma escrivaninha de mogno pesado ocupava a maior do espaço central, com uma seleção de selos, tinteiros e canetas, arranjados organizadamente sobre o topo, mas não tinha papéis à mostra, assim como não havia sobre qualquer outra superfície da sala. Moveu-se para a lareira e inspecionou a prateleira, mas não havia convites nos jarros de rapé, nem cartas abertas enfiadas atrás do relógio de ouro. Eve censurou-se por sua ingenuidade ao pensar que lorde Chelston deixaria evidência de suas falcatruas à mostra para que qualquer um encontrasse. O súbito ranger da maçaneta da porta a fez saltar, e Eve quase derrubou o castiçal. Ela balançou no lugar, seu coração violentamente disparado, quando Nick entrou na sala.

– Vi luz debaixo da porta – murmurou ele baixinho. – Chelston está dançando, então soube que devia ser você aqui. O que descobriu?

– Nada ainda. – Ele pôs o castiçal sobre a escrivaninha. – Eu estava prestes a tentar as gavetas.

– Uma ideia muito boa. – Ele atravessou a sala em alguns passos rápidos e abriu a primeira gaveta. Eve observou-o levantar uma pilha de papéis e manuseá-los cuidadosamente.

– É provável que ele guardasse alguma coisa que o incrimina aqui? – perguntou ela.

– Não, mas talvez haja alguma pista para nós.

– Que tipo de pista?

– Não tenho ideia, mas saberei quando encontrá-la.

Eve deu um passo atrás. O brilho da única vela mal era suficiente para iluminar a área onde Nick estava estudando os papéis, então ela nem mesmo tentou ajudar. Em vez disso, andou até a janela. Uma meia-lua estava alta no céu, banhando os jardins numa luz azul-prateada, e enviando um brilho suave sobre o topo da cômoda. Preguiçosamente, ela abriu a primeira gaveta. A luz do luar iluminou um grande mapa detalhado, mas a luz era insuficiente para ler os nomes. Ela retirou o documento da gaveta e ergueu-o para mais perto da janela, mas não adiantou. Achou que podia ser um mapa da propriedade de Chelston, mas a escrita era muito clara para ser lida na luz parca. Eve estava prestes a guardar o papel quando o próximo mapa na gaveta lhe chamou a atenção. O contorno da costa estava realçado por uma linha preta, e mesmo com pouca iluminação reconheceu o mapa imediatamente.

– Nick – sussurrou ela –, aqui tem um mapa de Monkhurst.

Eve tirou o mapa da gaveta e colocou-o sobre o topo da cômoda, enquanto Nick atravessava a sala. Ergueu a vela, e o brilho fraco foi suficiente para mostrar as cores brilhantes do mapa e os nomes dos lugares cuidadosamente marcados.

– Olhe. – Ela apontou para o mapa. – O rio Rother, Jury’s Cut e o canal que leva ao ancoradouro. Está tudo destacado numa tinta escura.

Nick olhou mais de perto.

– Sim, mas este não é essencialmente um mapa de Monkhurst. É a propriedade vizinha que está no centro do mapa. – Ele moveu um pouco a vela e aproximou-a da escrita. – Abbotsfield.

– Nick. – Eve arfou, sua voz tremendo com excitação. – Aggie me disse que o pai de lady Chelston comprou Abbotsfield de meu avô Wingham. Talvez tenha sido parte do dote de casamento dela.

– Nesse caso Chelston pode estar usando a propriedade. Isso mostra que Abbotsfield tem uma porção substancial de terras. Talvez nós estivéssemos procurando a produção de Chelston no lugar errado – disse Nick lentamente. – Talvez esta não seja feita em Sussex, mas em Kent!

Eve agarrou-lhe o braço.

– Mais cedo esta noite, lorde Chelston ofereceu comprar Monkhurst de mim. Ofereceu me pagar adiantado para que eu deixasse a casa imediatamente.

– Então deve haver uma conexão – disse Nick. O pequeno relógio sobre a prateleira da lareira deu 12 baladas. – Meia-noite – murmurou ele. Cuidadosamente, guardou os mapas na gaveta. – Preciso voltar. E você deve retornar ao seu quarto agora. A hora que as pessoas tirarão as máscaras está chegando e você não pode ser descoberta. – Ele andou para a escrivaninha, verificando se nada estava fora do lugar, então pôs o castiçal sobre o topo e virou-se para segurar Eve pelos ombros. – Eu sinto muito por ter de deixá-la ir tão breve. Eu… – Nick parou, ouvindo.

Eve escutou passos e uma risadinha abafada do lado de fora da porta. Quando a maçaneta rangeu, lançou-se sobre Nick, passando os braços ao redor do pescoço dele.

– Oh, chegamos tarde demais… já tem alguém aqui. Mil desculpas, senhora, por atrapalhar seu… encontro amoroso. – Eve reconheceu a voz como a do homem que tinha se sentado à sua direita durante o jantar. Manteve o rosto enterrado no peito de Nick, agradecendo aos céus que ainda estava coberta da cabeça aos pés por sua túnica vermelha. A porta foi fechada com um clique, e Nick assobiou baixinho e longamente. Então, abraçou-a, dando uma risada rouca contra seu rosto.

– Pensamento ligeiro, querida.

Encostou-se contra ele, subitamente fraca.

– Isso é excitação demais para mim – murmurou Eve. – Tenho medo de desmaiar.

Braços fortes se apertaram ao seu redor.

– Não você, meu amor, que é uma mulher forte. – Nick segurou-lhe o queixo e inclinou-lhe o rosto para cima, antes de acrescentar com olhos brilhantes: – Admita, você está gostando desta aventura.

A familiar onda de desejo a fez se derreter por dentro. Sentia-se alegre, impulsiva.

– Quando eu estou com você… – começou ela.

– Sim?

Eve apertou os lábios. Seria loucura confiar nele.

– Você me deixa desnorteada – terminou ela, de modo não convincente.

Nick prendeu-lhe os olhos por mais um momento, então beijou-lhe a testa.

– Gostaria que tivesse tempo de perguntar o que você quer dizer com isso, querida, mas deve voltar para seu quarto agora. – Ele apagou a vela, pegou-lhe a mão e conduziu-a para fora do estúdio.

Os sons de celebração vindos do salão estavam ainda mais altos do que antes. Gritinhos e risadas ecoavam entre as paredes com painéis do corredor escuro, e diversos copos vazios tinham sido abandonados numa prateleira estreita. Aproximaram-se da escada dos fundos. Gemidos e suspiros vinham da escuridão adiante, e Eve tentou não pensar o que estava acontecendo lá. A mão de Nick pressionou a parte baixa de suas costas.

– Vá – sussurrou ele. – Rápido.

Ela se virou para lhe dar uma última olhada, então levantou as saias e correu. Nick a observou subir a escada correndo e desaparecer na escuridão sem olhar para trás. Vira um brilho de desejo nos olhos de Eve quando a abraçara, mas também notara a retirada dela, a falta de confiança. Não estava pronta para se entregar a ele, ainda não. Mas estaria, pois Nick vislumbrava em Eve um espírito apaixonado que combinava com o seu, e estava determinado a capturá-lo. Quando ele se virou da escada, ouviu passos pesados e vozes, e o mordomo apareceu, falando com um dos lacaios regulares. Ao vê-lo, eles pararam.

– Agora, meu rapaz – começou o mordomo com voz zangada –, o que você acha que está fazendo aqui?

Nick pegou alguns dos copos vazios.

– Recolhendo estes copos.

Quando outra dança acabou, e a música no salão morreu, os gemidos e sussurros vindos de trás da escadaria puderam ser ouvidos claramente. Nick sorriu e inclinou a cabeça na direção do barulho. O lacaio deu um sorriso em resposta, mas o mordomo fez uma carranca.

– Seu lugar é no salão, atendendo os convidados, não escondido aqui na passagem! Volte para lá agora. Você pode recolher os copos depois que todos forem embora.

Nick abaixou a cabeça.

– Sim, Sir. Ele foi embora, sorrindo para si mesmo ao ouvir o mordomo reclamando com seu companheiro.

– Que Deus nos ajude, a ama contrata servos extras pelo que eles têm dentro de suas calças, em vez de pelo que eles têm na cabeça…

Nick desceu e foi para a cozinha, onde encontrou o cozinheiro francês mal-humorado de lorde Chelston gritando com seus subordinados. Passou por eles, e foi para a sala dos servos, onde uma criada de aparência cansada estava tirando as mesas onde os lacaios haviam jantado.

– Aqui, deixe-me ajudá-la com isso. – Ele começou a empilhar os pratos. – Vocês sempre comem tão bem?

Ela deu uma risadinha.

– Não. Isso só acontece quando há convidados, e sobra muito para nós.

– Você trabalha aqui há muito tempo?

– Sim, desde que era garota.

– Então deve ter visto muitos bailes como este.

A criada pausou e esfregou o nariz.

– Não muitos, mas acho que eles sempre fazem bailes e festas na casa em Lunnon.

– Oh? Esta é a única outra casa deles, então?

– Oh, não! O amo tem uma casa aonde vai para caçar, em algum lugar ao norte, e outra em Devon.

– E quanto a Kent? – perguntou Nick. – Pensei ter ouvido um dos rapazes do estábulo mencionar uma propriedade em Kent. Abbots… alguma coisa.

– Você quer dizer Abbotsfield, mas não há uma casa lá. Esta queimou anos atrás.

Nick carregou os pratos para a copa, e a criada lhe deu um olhar rápido e analítico.

– Você não deveria estar me ajudando. Deveria estar lá em cima, servindo a ceia.

– Sei que deveria, mas acho que há lacaios suficientes lá. Subirei num minuto, quando acabarmos de tirar as mesas.

– Bem, cuidado para que os pratos não sujem seu uniforme – avisou ela. – Eles irão fazê-lo pagar pela lavagem das roupas, se isso acontecer.

Nick sorriu.

– Bem, neste caso, terão de me pagar primeiro!

EVE SUBIU a escada correndo e seguiu os corredores vazios para seu quarto. Após entrar e trancar a porta com segurança, encostou-se contra um dos painéis de madeira, sua respiração ofegante. Uma única vela brilhava sobre a abóbada da lareira, e Martha estava sentada num banco, olhando com desânimo para a lareira vazia. Quando viu Eve, levantou-se num salto.

– Oh, srta. Eve, graças a Deus! Onde você estava, e por que diabos está sorrindo desse jeito?

– Estou sorrindo, Martha, porque acho que estou vivendo uma aventura!

Eve rapidamente trocou suas roupas por uma camisola. A túnica vermelha foi bem dobrada e retornada à prateleira do armário, e Martha pegou seu vestido preto para pendurá-lo com os outros no closet. No momento que voltou, Eve estava sentada diante da penteadeira, soltando seus cabelos. Resistiu às tentativas de sua criada de lhe tirar a escova da mão. Vá dormir, Martha. Você deve estar muito cansada.

– Não tão cansada que não posso cuidar de você, até vê-la seguramente debaixo das cobertas, srta. Eve.

– Tenho capacidade de apagar minha própria vela, garanto-lhe! Vá agora. Assim que acabar de escovar meus cabelos, irei para cama, prometo.

Todavia, levou muito tempo antes que Eve conseguisse dormir naquela noite. Não podia dizer que o baile a incomodava, porque muito pouco barulho chegava ao quarto, aparte o suave ressonar vindo do closet de Martha. Mas os eventos da noite tinham deixado seu cérebro girando com conjecturas, e havia o medo de que Nick fosse descoberto. Virou-se e se revirou na cama solitária, imaginando onde ele estaria, o que planejava fazer a seguir. Não importava que dissesse a si mesma que esse era um exercício inútil; os pensamentos a mantiveram acordada até que a luz acinzentada do amanhecer penetrou seu quarto.

FOI COM alguma excitação que Eve desceu para o desjejum na manhã seguinte, mas os poucos hóspedes que não estavam dormindo, por causa dos excessos da noite anterior, cumprimentaram-na normalmente, e não havia sinal de que estivesse prestes a ser denunciada como uma fraude ou uma espiã. Perguntou sobre a festa, e soube que tinha sido um grande sucesso, com as últimas carruagens indo embora após o amanhecer. Ninguém mencionou intrusos se fingindo de lacaio, e os criados atendendo na sala do café da manhã pareciam tão sonolentos e indiferentes como sempre, de modo que pôde apenas imaginar que o disfarce de Nick não fora detectado.

Não era esperado que as pessoas estivessem muito animadas depois de um entretenimento tão exaustivo, e o dia passou calmamente, com Eve se certificando de estar na companhia das ladies durante o tempo inteiro. Ficou aliviada que nem Bernard nem lorde Chelston tentaram se aproximar, mas as atenções muito educadas de seu primo durante o jantar esgotaram sua paciência, e, alegando fadiga, Eve escapou para seu quarto antes que os cavalheiros se juntassem às ladies na sala de estar. Eve estava realmente muito cansada depois de sua noite de insônia, e não perdeu tempo em vestir sua camisola e dispensar Martha. Dentro de minutos, estava dormindo, apenas para ser acordada com um sobressalto por um barulho algum tempo depois. O quarto estava muito escuro, uma vez que sua criada tinha fechado as cortinas para bloquear a luz brilhante da lua, a qual poderia perturbar sua ama. Eve permaneceu deitada imóvel, esforçando-se para ouvir. Havia trancado a porta, mas perguntou-se se tinha sido o som de alguém tentando abrir a maçaneta que a acordara. Então ouviu novamente… batidas leves, porém insistentes, em vidro. Por um momento, hesitou, imaginando se deveria chamar Martha, mas decidiu-se contra isso. Saindo da cama, andou para a janela. Com o coração batendo descompassado contra as costelas, abriu as cortinas pesadas.

Não havia ninguém lá.

A lua quase cheia brilhava num céu sem nuvens, banhando os jardins em sua luz serena. Eve subiu a vidraça, e o ar frio da noite inundou o quarto. Ela descansou as mãos no peitoril, confusa. Não havia vento, nada para causar o barulho de alguma coisa batendo em sua janela.

Ela arfou quando uma mão surgiu e agarrou-lhe o pulso.

– Para trás, querida, e me deixe entrar.