Capítulo Quinze

EVE SE arrastou durante a manhã, mal entretida em suas tarefas. Seu corpo doía pelas atividades da noite anterior, com as quais não estava acostumada, e havia um peso em sua alma, como se alguma centelha de esperança tivesse finalmente sido extinta. Aquilo passaria, é claro, mas no momento, sentia-se desesperadamente solitária. Experimentou um súbito momento de agonia ao pensar em seu avô. Como sentia saudade dele, e da vida pacífica e tranquila que haviam compartilhado. Como desejava que seu avô nunca tivesse convidado Nick Wylder para ir a Makerham! O pensamento sobre Nick levou-a de volta para os eventos da noite anterior. A fúria dele por ter saído com Nat e Sam a magoara profundamente, mais ainda porque acreditara que compartilharia sua euforia. A excitação intensa que havia sentido durante a fuga era inebriante. Quisera explicar isso para Nick, informá-lo que agora entendia porque buscava o perigo. Todavia, em vez de tomá-la nos braços e fazer amor com ela, Nick a censurara, transformando sua aventura num ato tolo, causando nada além de problemas. O pensamento fez seus olhos arderem, e Eve piscou para reprimir as lágrimas. Não choraria. Tudo acabara bem. Sam tinha mandado avisar que todos estavam seguros, e era isso que importava.

– Perdoe-me, senhora, há um bilhete para você.

Granby aproximou-se, entregando-lhe uma carta. Eve a pegou, mas teve de piscar diversas vezes, antes que as palavras parassem de nadar diante de seus olhos.

– É de Catherine Chelston – informou ela. – Diz que está a caminho daqui, determinada a me levar para Appledore para ver os novos tecidos que acabaram de chegar na loja da sra. Jameson. – Eve redobrou o bilhete. – Não irei recebê-la.

– Há algum plano em ação – murmurou Granby. – Seria interessante saber qual é.

– Interessante para você e seu amo, talvez – retrucou Eve.

– Perdão, senhora?

Ele esfregou a testa.

– Não, sou quem pede perdão, Richard. Estou muito cansada, e não tenho desejo participar desses jogos.

– Mas, senhora, o capitão…

– Não! – exclamou ela. – Depois da reprimenda que recebi ontem à noite, não quero ter mais nada a ver com isso. Receba lady Chelston, se você quiser; afinal de contas, alguém precisa sair a cavalo para encontrá-la, para lhe dizer que eu não irei! – Virou-se e saiu da sala, deixando Granby boquiaberto.

O dia se arrastou e, após um jantar solitário, Eve se recolheu em seu quarto, dizendo a si mesma que tudo pareceria mais alegre depois de uma boa noite de sono. Supunha que Granby tinha contado à Martha sobre sua explosão, uma vez que a criada estava determinadamente animada e andava ao redor do quarto acendendo velas e falando o tempo inteiro, como se estivesse com medo do silêncio. Eve se permitiu ser despida e convencida a colocar uma camisola de seda, então sentou-se no banco diante do espelho, enquanto Martha lhe escovava os cabelos. O ritmo da atividade era tranquilizante, e um pouco da tensão saiu de seus ombros. Martha encontrou-lhe os olhos no espelho e sorriu.

– Pronto, srta. Eve, está melhor assim? Não é de admirar que você esteja tão cansada, tendo ficado ao ar livre até quase o amanhecer! Aggie não fala de outra coisa, exceto sobre você indo buscar mercadorias, exatamente como sua santa mãe. Bem, disso e do fato que o capitão está vivo. Eu devo dizer que estou aliviada por não precisar mais tomar cuidado com o que falo. Ela e Silas ficaram tão felizes que você pensaria que o capitão é um deles. É claro que o capitão lhes disse que não espalhasse a notícia, mas falou que eles podiam contar para Nat e Sam, uma vez que todas estas pessoas sabem ficar de boca fechada…

– E gostaria que você fizesse exatamente isso, Martha! – Eve abaixou a cabeça nas mãos. Todos queriam falar do capitão, quando tudo que ela queria era esquecê-lo. Antes que pudesse se desculpar por suas palavras rudes, Martha estava lhe dando um tapinha no ombro.

– Ah, minha pobre criança! Aqui estou eu, tagarelando sem parar, quando, sem dúvida, sua cabeça está doendo. Bem, minha querida, o que você precisa é de alguma coisa para ajudá-la a dormir. Que tal uma caneca de leite quente?

– Obrigada, Martha, gostaria disso. Se não for muito trabalho.

– Trabalho nenhum. O fogo da cozinha ainda estará quente para esquentar uma panela, tenho certeza. Entre na cama e voltarei logo com o leite.

Ela saiu do quarto, mas Eve continuou no banco, olhando desconsoladamente para seu reflexo. Deveria trançar seus cabelos, pensou, para que não estivessem embaraçados pela manhã, mas parecia muito trabalho. Talvez pedisse para Martha fazer isso quando retornasse. Ouviu passos leves no corredor, o clique do trinco quando a porta foi aberta e fechada em seguida. Eve esperou ouvir a tagarelice de Martha, mas não houve nada, apenas silêncio contínuo. Ela se virou. Nick estava dentro do quarto, o casaco aberto e balançando de leve, como se ele tivesse feito movimentos rápidos instantes antes. Ele a fitou com intensidade, os olhos sombreados.

– Tive medo por você – disse ele abruptamente. – Ontem à noite. Os homens podem se transformar em animais no calor da batalha. Por isso eu estava zangado. Sei o que pode acontecer se eles acham uma mulher. E oficiais aduaneiros não são nem um pouco cavalheiros.

– Mas não me pegaram.

– Não. Mas isso não me impediu de pensar na possibilidade. Meu sangue gelou ao pensar sobre o que poderia ter lhe acontecido.

Eve se levantou. Um fiapo de esperança brotou em seu coração. Eve o conhecia bem o bastante para perceber que aquilo era o mais perto que Nick chegaria de um pedido de desculpas.

– Não pensei no perigo quando saí. Eu só queria ajudar.

– Eu sei. Você foi muito corajosa.

O fiapo de esperança aumentou, mas ela o negou, mantendo-o sob controle.

– Você disse que eu era tola.

– Eu disse? Eve… – Ele deu um passo na sua direção, e ela ergueu uma das mãos, saboreando a sensação de poder.

Ideia idiota foram suas exatas palavras, referindo-se a minha ideia de ter ido no lugar de Silas.

Um pequeno sorriso curvou os cantos da boca de Nick.

– O termo idiota poderia se aplicar bem a mim. Devo lhe dizer agora que estou muito orgulhoso de você, sra. Wylder.

– Você… está?

– Oh, sim. Quantas mulheres se colocariam em tamanho perigo por livre e espontânea vontade?

Ele se aproximava. Mais alguns passos, e ele estaria ao alcance de tocá-la. A atração era muito forte, mas Eve lutou contra.

– Martha… vai voltar com uma caneca de leite para mim.

– Não, ela não vai. Eu a mandei para cama.

Eve arfou. Baixou a mão na sua lateral.

– Oh! De todos os homens arrogantes, dominadores…

Nick a puxou para seus braços e a calou com um beijo, enviando um tremor por todo corpo de Eve. Ela lhe agarrou o casaco quando a língua dele se inseriu em sua boca. Estava tão aliviada de tê-lo junto a si que respondeu avidamente, beijando-o de volta com uma ferocidade que deixou ambos sem fôlego. Finalmente, quando Nick levantou a cabeça, Eve descansou o rosto contra o peito largo, ouvindo as batidas fortes do coração dele, deleitando-se na sensação daqueles braços poderosos ao seu redor.

– Você foi magnífica ontem à noite – murmurou ele, beijando-lhe o topo da cabeça. Cavalgava como uma verdadeira amazona. E duvido que eles a tivessem capturado.

Ela deslizou as mãos por baixo do casaco dele, rodeou-lhe a cintura e o abraçou com o máximo de força que conseguiu.

– Eu queria deixá-lo orgulhoso de mim.

Estou orgulhoso de você, meu amor.

Ela quase ronronou com prazer diante daquilo.

– Verdade? – perguntou contra o peito de Nick, e o sentiu gemer em resposta. Levantou a cabeça para encontrá-lo olhando-a. Eve respondeu ao olhar de desejo que viu nos olhos azuis inclinando a cabeça para trás, convidando um beijo.

Quando a cabeça escura desceu, ele a ergueu nos braços e carregou-a para cama. Antes mesmo que Nick a abaixasse sobre o colchão, os dedos de Eve estavam procurando os botões da camisa masculina. Ela queria deslizar as mãos sobre a pele nua dele, sentir novamente o prazer que sabia que somente Nick era capaz de lhe dar.

Quando ele a deitou sobre a cama e a liberou, Eve posicionou-se sobre os joelhos. Experimentou um momento de pânico ao pensar que ele poderia estar deixando-a, mas em vez disso, Nick removeu seu casaco e gravata. Impacientemente, estendeu os braços, puxando-o para si. No momento que ele subiu na cama, Eve rodeou-lhe o pescoço com os braços, abrindo os lábios sob os beijos profundos e ardentes dele. Inundada por desejo, encontrou-se abrindo a camisa de Nick, desesperada para lhe tocar a pele, para deslizar os dedos sobre as curvas firmes daquele corpo poderoso. Havia mais para discutir, mais questões para serem respondidas, mas por enquanto precisava saber que estava realmente lá, que aquele não era um sonho doce do qual acordaria, perdida e insatisfeita. Dedos longos se entrelaçaram nas fitas de seu pescoço, e, durante todo o tempo, ele continuou beijando-lhe a boca, enlouquecendo-a de desejo. Nick levantou a cabeça e gentilmente deslizou as mãos sobre os ombros delgados, abaixando a camisola, a qual caiu sobre a cama ao redor dela. Eve segurou-lhe a camisa e puxou-a.

– Isso não é justo – sussurrou ela. – Quero ver você, também – acrescentou, lutando com os botões da calça dele, mas suas mãos pararam quando Nick removeu a camisa num movimento rápido, e ela viu a bandagem bem abaixo das costelas.

– Meramente uma precaução agora – disse ele, seguindo-lhe o olhar. Como se para provar suas palavras, Nick desenrolou a faixa para revelar a linha fina e irregular. – Viu? Está quase curado.

Gentilmente, posicionou os dedos perto do ferimento. A pele ali era clara e fria ao toque. Sem sinal de inflamação.

– Ainda dói?

– Não muito. – Ele lhe sorriu e aquela covinha travessa apareceu. – O ferimento não irá atrapalhar minha performance, prometo.

Enquanto descia da cama e rapidamente removia botas, calça e meias, Eve puxou a camisola que rodeava seus joelhos e jogou-a de lado, mas durante todo o tempo manteve os olhos em Nick, apreciando o jeito que a luz das velas brincava com os contornos musculosos das costas largas, enfatizando a curvatura da coluna. Era como se ela o estivesse vendo pela primeira vez, maravilhando-se com a largura daqueles ombros, com a cintura estreita e as nádegas firmes e bem formadas. Quando Nick virou-se, a visão do corpo excitado arrancou um gemido de Eve. Nick tombou-a sobre a cama, rindo.

– Eu lhe disse que senti a sua falta.

Ela o puxou para si, entrelaçando as mãos nos cabelos macios, aninhando-lhe a cabeça enquanto ele trilhava beijos ao longo de sua clavícula. Eve arqueou o corpo quando mãos fortes seguraram seus seios, polegares acariciando-a gentilmente. Ela inalou a fragrância deliciosa que agora lhe era tão familiar, então inclinou a cabeça para trás quando a boca de Nick trilhou um de seus seios e se fechou sobre um mamilo rijo. A língua quente circulou-o lentamente, causando-lhe uma agonia tão doce que um gemido suave escapou de sua garganta. Sentia-se tão viva, cada centímetro de sua pele suplicando pelo toque dele, e Eve tremeu quando dedos hábeis viajaram sobre seu estômago reto. O desejo ardente intensificou-se quando a mão que a acariciava moveu-se mais para baixo. Músculos dentro de sua pélvis pareciam se contrair e se estender. Suas coxas se abriram em antecipação, seu corpo se inclinou, ansioso para receber os dedos de Nick em seu interior. Mesmo assim, o toque dele lhe causou um sobressalto, e ela gritou quando uma onda de excitação a inundou. A língua de Nick ainda acariciava seus seios, criando um prazer quase insuportável, enquanto os dedos habilidosos continuavam a massagem rítmica. Eve se contorceu sob ele, gritando seu nome, não mais capaz de controlar o próprio corpo. Num único movimento flexível, Nick rolou por cima dela. Os dedos abandonaram seu centro do prazer, e ela o sentiu em seu interior, rijo e suave ao mesmo tempo. Arfando, Eve estendeu os braços e puxou-lhe a cabeça para mais perto, de modo que pudesse beijá-lo, querendo retribuir um pouco do prazer que estava lhe dando. Nick tinha gosto de sal e vinho. Os sentidos de Eve giravam com as sensações do corpo poderoso cobrindo o seu, os membros de ambos entrelaçados na semiescuridão. Sentiu quando o autocontrole de Nick começou a escorregar, e acompanhou o ritmo dos movimentos dele, deleitando-se na liberação fantástica enquanto ambos se aproximavam do clímax final. Eve se agarrou a ele, chorando quando uma onda de paixão chegou ao pico e arrebentou. O corpo de Nick estava acima, ao redor e dentro do seu, possuindo-a totalmente. Com um gemido, Nick tombou, ofegando, ao seu lado na cama. Gentilmente, aconchegou-a em seus braços.

– Acho – murmurou ele dentro de seus cabelos – que você também sentiu a minha falta.

Ela se aninhou mais perto e deu um suspiro sonolento.

– Eu não tinha percebido o quanto.

Ele riu suavemente.

– Então nós somos iguais nisso.

EVE ACORDOU para se encontrar sozinha na cama. O sol do começo da manhã se infiltrava pela janela, e ela levantou a cabeça para olhar ao redor do quarto. Não novamente! Memórias a abalaram. Nick já estava vestido, curvando-se diante do espelho para amarrar a gravata. Lembrou-se da noite de núpcias deles em Makerham, acordando para encontrar Nick vestido e prestes a deixá-la. Um frio instalou-se em seu coração. Seria sempre assim? Eve se sentou, puxando o lençol para se cobrir.

– Você vai embora?

– Preciso ir. – Em dois passos, ele estava ao lado da cama, segurando-lhe o rosto e beijando-a. – Nós fomos informados ontem de que Chelston irá mover um grande carregamento em breve… talvez esta noite. Tenho de voltar. O barco costeiro está patrulhando a boca do rio Rother; nada pode nos escapar. – Ele a beijou novamente. – Mais alguns dias, e este caso deve estar solucionado. Então lhe prometo que meus dias de itinerante irão acabar.

– Você está falando sério?

– Sim.

Eve soltou o lençol para lhe rodear o pescoço com os braços e dar-lhe um último beijo. Seu corpo se arqueou em direção às mãos que seguraram seus seios.

– Ora, Evelina, você dificulta para que um homem a deixe!

Ela deu uma risada baixa, usando todos os seus poderes recém-descobertos para detê-lo.

– Verdade?

Nick pôs as mãos nos ombros dela e segurou-a longe de si.

– Sim, mas isso deve ser feito. – Os olhos azuis continham uma promessa que a fez tremer com antecipação. – Eu retornarei. Esteja pronta para mim!

Um último beijo ardente, e ele a deixou.