Capítulo Dezesseis

QUANDO EVE desceu a escada algumas horas depois, as palavras de Nick soavam em sua cabeça como uma canção alegre. Sentiu-se radiante ao se lembrar do jeito como ele a olhara, da admissão que a raiva que sentira não era pelo que ela havia feito, mas pelo perigo que enfrentara. Era verdade, aquela tinha sido uma escapada impulsiva, e não algo que Eve queria repetir, mas experimentara um prazer louco em enganar os oficiais. Riu sozinha enquanto atravessava o salão. Sam e os amigos tinham muito bons planos, a trilha escondida era eficaz; ninguém adivinharia que havia qualquer outra rota além da estrada. Eve parou.

– É claro! – exclamou ela. – Será que… – Olhou para cima e descobriu que Granby entrara no salão e a estava observando.

– Senhora?

Ela o fitou, mal conseguindo conter sua excitação.

– Sr. Granby, quero que você vá comigo, agora, para o canal do ancoradouro.

– O canal? Mas por que, senhora?

– Não posso dizer – replicou ela, os olhos brilhando com travessura. – Talvez não seja nada, mas… Vamos. E leve um lampião!

Eve estava excitada demais para perder tempo em trocar de roupa, mas fez Granby descer a escadinha na sua frente e desviar os olhos, enquanto erguia suas saias e lidava com os degraus estreitos. Aggie, segurando a porta do alçapão, resmungou sua desaprovação e expressão com avisos terríveis sobre mulheres teimosas.

– Vi aqueles romances que você mantém sobre o criado-mudo, srta. Eve. Eles não lhe fazem bem, enchendo sua cabeça com ideias estranhas, e fazendo-a pensar que você pode agir como a heroína de um romance!

Eve pausou tempo bastante para rir.

– Meu Deus, Aggie, se realmente pensasse em mim mesma como uma heroína, não deveria ter contado a ninguém para onde estava indo e me colocado em grande perigo. Ora, vamos, estou sendo muito sensata e levando sr. Granby comigo. Agora feche a porta depois que nós sairmos, por favor.

Quando Eve acabou de descer e chegou ao chão da passagem subterrânea, o alçapão já tinha se fechado acima, e estavam no escuro, exceto pelo brilho fraco do lampião. Tremeu no ar frio e úmido, e quase desejou que tivesse levado um xale.

– Então, senhora, pelo que está procurando? – perguntou Granby.

– Não tenho certeza. Vamos seguir para o ancoradouro… e mantenha o lampião iluminando a frente. Posso ouvir coisas se mexendo no escuro, e não tenho o desejo de saber o que é.

Granby riu.

– Talvez sejam ratos, srta. Eve, mas não irão incomodá-la. Afinal de contas, nós devemos parecer monstros para eles.

– Sua observação pode fazer sentido, sr. Granby – disse Eve com calma estudada –, mas realmente não quero pensar sobre isso! Vamos prosseguir.

Agarrou-lhe o braço enquanto andavam ao longo do canal, dizendo a si mesma que os barulhos que ouvia não passavam de gotas de água pingando do teto da passagem, ou do gemido suave do vento soprando através do portão no final do túnel cheio de curvas. Descobriu-se respirando com um pouco mais de facilidade quando chegaram à última curva e se depararam com o portão trancado. Além do portão, os painéis de madeira que formavam a parede dos fundos do ancoradouro estavam apodrecendo, e a luz do sol refletindo na água gentil da vala brilhava entre as tábuas envelhecidas pelo tempo. Instintivamente, Eve moveu-se em direção à luz.

– Devo destrancar o portão, senhora?

– Não. – Eve parou, considerando. – A passagem é cheia de curvas, por isso perdi meu senso de direção. Diga-me, sr. Granby, se nós ficássemos de costas para a abertura, de que lado deste canal estaria Abbotsfield?

Granby não hesitou.

– Daquele lado – replicou ele, apontando. – Ao norte.

Eve olhou para o jeito que o canal se curvava levemente em direção ao norte.

– Excelente – disse ela. – Então é lá que devemos procurar.

– Procurar o quê?

– Uma entrada escondida. Quando eu estava fora com Sam na outra noite, disse que as famílias nestas regiões têm escondido suas trilhas dos homens dos impostos por gerações.

– Isso é verdade, senhora, mas eu não vejo…

Ela pegou o lampião de Richard e começou a inspecionar as paredes muito cuidadosamente.

– Sabemos que Silas sempre esteve envolvido com o mercado livre. A mera presença deste túnel sugere que Monkhurst foi usada para contrabando certa vez, contudo, minha família também possuiu Abbotsfield, que não fica a menos de um quilômetro ao norte daqui. E se houver um túnel de Abbotsfield para cá? Sam e seus companheiros usam uma trilha submersa, que escondem da estrada com cercas de junco, de modo que os oficiais passaram reto por ali, seguindo a estrada. Se os homens do rei algum dia vasculhassem o ancoradouro, poderiam descobrir este túnel e segui-lo para Monkhurst, mas procurariam outra abertura? A curva no canal torna esta parede particularmente escura… aha! – Eve levantou mais o lampião. – Há uma abertura aqui!

Granby aproximou-se, correndo as mãos pela parede.

– Isso parece parte da parede, mas… é uma porta.

– Não há fechadura. – Moveu o lampião para a frente e para trás.

– Não, mas… há um trinco!

O clique ecoou ao redor da passagem subterrânea, e Eve ficou tensa, esperando o barulho de metal contra metal quando a porta se abriu, mas esta se moveu suavemente e quase em silêncio.

– As dobradiças foram banhadas em óleo muito recentemente – murmurou Granby.

O coração de Eve disparou contra as costelas.

– Cuidado! – exclamou ela. – E se houver alguém…? – Suas palavras falharam quando a porta se abriu mais e o brilho do lampião iluminou o espaço adiante. A luz não chegava muito longe, mas mostrou-lhes um túnel enorme, estendendo-se dentro da escuridão. Empilhadas contra suas paredes, havia dúzias de caixas de madeira.

Granby deu um assobio baixo.

– Você estava certa, srta. Eve. – Ele pegou o lampião da mão dela e passou pela abertura da porta. Inclinou-se para mais perto de uma das caixas. – Chá. Ou melhor, não chá. Smouch.

Eve engoliu em seco.

– Nick disse que os oficiais aduaneiros estão vigiando o rio – disse ela lentamente. – Estão vigiando o lugar errado. Os barris serão retirados através de Jury’s Cut.

– Então perderão isso, senhora.

Ela se virou e agarrou-lhe o braço.

– Sr. Granby, você precisa ir imediatamente contar para Nick. Talvez ainda haja tempo para que ele faça algo.

Voltaram correndo ao longo da passagem subterrânea.

– Rápido – disse ela quando eles tinham chegado à cozinha mais uma vez. – Pegue o cavalo mais ligeiro, e não pare para ninguém.

– E quanto a você, senhora? O capitão Wylder me ordenou ficar em sua companhia.

– Estarei segura o bastante. Tenho Davies e Warren para cuidar de mim. Agora vá!

EVE FOI trocar de roupa. Tinha certeza de que não se contentaria com nada até que ouvisse notícias de Nick, mas não podia ficar parada. Depois de tomar um café da manhã tardio, separou uma pilha de lençóis para remendar, e os estava carregando para o andar de baixo quando viu uma figura atravessando o hall de entrada.

– Bernard! – Ele parou e olhou para cima, erguendo o chapéu para ela. – Como você entrou aqui?

– Entrei pelo jardim da cozinha, prima. Você não está feliz em me ver?

Eve esperou que seu rosto não mostrasse seu desprezo. Estava um pouco surpresa por vê-lo de botas e calça larga, e apesar do calor do dia, carregava um casaco pesado sobre um dos braços. Ela falou brevemente:

– Estou muito ocupada, Bernard. Por favor, diga logo o que você quer.

Ele a seguiu para a sala matinal, onde Eve colocou os lençóis ao lado da cesta de costura.

– Pensei que talvez você quisesse dar uma pequena caminhada comigo. Deixe-me colocar isso de outra forma – disse Bernard quando ela abriu a boca para responder. – Você irá dar uma caminhada comigo. – Ele levantou um pouco o casaco para revelar um pequeno revólver prateado na mão. – Não pense que eu não usarei isto – continuou Bernard. – Desta distância, não poderia errar o alvo e deixar de matá-la.

Eve ficou muito imóvel, os olhos fixos na arma apontada para seu estômago.

– O que você pretende, Bernard?

– Explicarei em breve. Por enquanto, você vai para o terraço, na minha frente, e de lá para o parque.

– E se me recusar?

– Eu a sufocarei ou atirarei em você.

Eve olhou para o rosto de Bernard. Havia uma determinação nos olhos cruéis que a fez acreditar que ele realmente cumpriria a ameaça. Ele gesticulou na direção da porta.

– Vamos? E não pense em chamar seus servos – avisou ele quando Eve começou a andar na sua frente. – Se achar que está lhes dando algum sinal, por menor que seja, atirarei em você.

Eve saiu da casa, e, seguindo as instruções de Bernard, andou em direção à passagem arcada que levava ao parque. Estava um dia de clima agradável, entretanto, Eve se pegou tremendo, ciente da boca da arma de fogo a apenas centímetros de suas costas. Só podia rezar para que surgisse alguma distração, de modo que pudesse fugir, mas pelo momento, não havia ninguém à vista, ninguém que soubesse de seu apuro.

– Para onde estamos indo? – perguntou ela, tentando manter o tom de voz calmo.

– Ande em direção à fileira de praias ali. Minha carruagem está parada além daquele muro.

– Você está me sequestrando. – Era uma declaração, e Eve ficou surpresa por soar tão despreocupada sobre aquilo.

Bernard riu.

– Sim, suponho que estou. Teria sido mais simples se você tivesse concordado em acompanhar lady Chelston ontem. Ela ficou muito irritada por você ter se recusado a recebê-la, mas nós achamos que levantaríamos suspeitas se fosse à sua casa e exigisse que você a acompanhasse.

– Nós? Quem seriam nós, Bernard?

– Lorde Chelston e eu, é claro. Eu…

Um grito repentino atrás deles o fez parar. Bernard agarrou o braço de Eve e pressionou o revólver contra as costelas dela.

– É… minha criada – disse Eve, olhando para trás. – Preciso falar com ela, tranquilizá-la.

– Então seja muito cuidadosa, prima. Lembre-se da arma nas suas costas. Tenho outra igual no bolso, e posso usá-la muito bem com a mão esquerda. Não me obrigue a atirar na sua criada e em você.

Mantendo-se perto, ele virou Eve de frente para Martha, que estava correndo na direção deles.

– Senhorita, vi-a da casa…

– Sim, Martha. Vou dar uma caminhada com meu primo. – A criada hesitou, franzindo o cenho, e Eve rezou para que Martha não falasse nada inadequado.

– Pode voltar para dentro da casa – disse Eve em tom de voz baixo. – Não preciso de você.

Martha mudou o peso de um pé para o outro, desconfortavelmente.

– Srta. Eve, vai… chover. Vocês não ficariam mais confortáveis dentro da casa?

– É por isso que nós vamos andar agora – replicou Eve suavemente. – Todavia, isso significa que eu não poderei montar Perséfone esta tarde. Quando o sr. Granby retornar, Martha, por favor, diga-lhe que não precisarei de Perséfone.

Eve sorriu brilhantemente, enquanto, durante o tempo todo, estava apavorada que sua criada parecesse perplexa e lhe perguntasse o que queria dizer com aquilo.

– Quer que a acompanhe, senhorita?

O revólver duro cutucou as costas de Eve. Ela conseguiu uma risada, embora o som fosse estridente para seus nervos tensos.

– Oh, não. Você será muito mais útil remendando os lençóis que deixei na sala matinal. Eu mesma ia remendá-los, até que meu primo aqui me convenceu a dar uma caminhada. Vá agora, Martha. Não irei me demorar.

– Ela está desconfiada – murmurou Bernard, observando a criada seguir seu caminho de volta para a casa.

– É claro que está – retorquiu Eve. – Ela sabe que não gosto de você. Todavia, Martha não ousa questionar meu comportamento. Ela ficará sentada, costurando até a hora do jantar.

– A essas alturas, você estará muito longe.

Mais alguns minutos os levou para a extremidade das árvores. Bernard a empurrou para um caminho estreito, e Eve logo viu uma abertura na cerca e uma carruagem adiante. Ficou tensa. Se tentasse fugir, seria melhor fazer isso agora. Uma vez dentro da carruagem, podia estar a quilômetros de distância antes que tivesse outra chance de escapar. Eve havia fechado as mãos nas saias, pronta para levantá-las e começar a correr quando sentiu um golpe na parte de trás de sua cabeça. A força do mesmo a fez cair sobre os joelhos, e a luz do dia foi substituída por escuridão quando ela perdeu a consciência.