Capítulo Dois
– EVELINA, MEU anjo, você está sendo enervante!
A repreensão amena de Sir Benjamin fez sua neta fitá-lo com olhos arregalados. Estavam sentados juntos na sala matinal, onde Rooney tinha ajudado Sir Benjamin a se sentar em sua poltrona favorita e lhe estava pondo um cobertor sobre as pernas. Eve esperou até que o pajem terminasse sua tarefa e saísse da sala, antes de responder:
– Vovô, não tenho ideia do que o senhor está falando.
– Que jogo você está fazendo, Eve? Eu trago o capitão Wylder aqui como um pretendente, e você parece evitar o homem.
– Não, não, vovô, tenho sido muito atenciosa.
– Você se apresenta à minha mesa de jantar, e serve-lhe chá na sala de estar depois – retorquiu Sir Benjamin. – Dificilmente um comportamento efusivo, meu anjo. Soube, por Rooney, que você sai de casa antes do café da manhã todos os dias, e não retorna antes do fim da tarde. Subitamente, há tantas famílias aflitas em Makerham, requisitando a sua presença?
– O verão trouxe muitas doenças e febre, Sir.
– Então envie Martha com uma cesta de comida, criança. Não quero que você negligencie nosso hóspede.
Eve baixou os olhos.
– Sim, vovô. – Ela roubou um olhar de Sir Benjamin, e viu que ele a estava estudando com o cenho franzido. Estendeu as mãos, com as palmas para fora. – Oh, Sir, por favor, não fique zangado comigo. É uma novidade tão grande ter um homem estranho dentro de casa que estou levando um tempo para me acostumar.
Podia ter acrescentado que achava o hóspede de seu avô muito atraente para seu gosto, mas decidiu calar-se.
– Bem, considero quatro dias tempo suficiente para você ter se acostumado, como colocou a questão. Não nego que o capitão é uma excelente companhia, mas não foi a mim que veio ver. Se você continuar se ausentando, o capitão Wylder pensará que não gosta dele.
– Não é isso, vovô…
– Minha neta querida, sei que isso é muito repentino para você. Quando a levei para Tunbridge Wells alguns anos atrás, tive esperança que você pudesse formar uma aliança, mas não gostou de nenhum cavalheiro, e não pôde ser persuadida a ficar em Londres com suas amigas.
– Não podia deixá-lo, vovô – disse ela rapidamente. – O senhor estava doente, e precisava de meus cuidados.
Ele lhe deu um tapinha nas mãos.
– Seu coração é muito bom, Eve querida, mas eu deveria tê-la obrigado a partir. Aprisionada aqui comigo, você não tem oportunidades de conhecer cavalheiros elegíveis.
– Mas não estou infeliz, Sir.
– Esta não é a questão, Evelina. – Sir Benjamin inclinou-se para a frente, falando em tom de urgência: – Estou ficando cada vez mais fraco, meu amor. Quando me for, não haverá ninguém para protegê-la. Seu primo herdará Makerham, não há nada a ser feito quanto a isso, mas não gosto dele. Não permitirei que você seja deixada aos cuidados de Bernard.
Ela tremeu diante do pensamento.
– O senhor está certo, vovô. Não acho que gostaria disso.
– Então você irá considerar o capitão Wylder como pretendente?
– Sim, vovô. Se me oferecer casamento, eu irei considerar a proposta. – Eve sorriu. Tinha decidido que não abaixaria a guarda até que recebesse uma resposta de Londres sobre o capitão Wylder. Agora, com a carta de sua amiga Maria aninhada no bolso, decidira um curso de ação. – Lamento se não fui tão atenciosa com nosso hóspede como o senhor gostaria, vovô. Prometo que estou pronta para entreter o capitão Wylder. Na verdade – acrescentou com uma piscadela –, começarei hoje mesmo.
NICK ERGUEU os olhos da carta que estava lendo quando Richard Granby entrou no quarto.
– Notícias ruins, capitão?
Nick meneou a cabeça.
– Nenhuma notícia em absoluto – respondeu ele. – Infelizmente.
– Sinto muito. – Granby hesitou, e então murmurou suavemente: – E, se eu posso perguntar, como seus planos com a jovem lady estão progredindo?
Nick jogou a carta de lado.
– Não estão – disse ele de forma breve. – Pergunto-me se devo desistir e mudar de direção. O almirante quer respostas, e há outros caminhos a seguir, embora nenhum deles seja tão atraente quanto este – acrescentou, torcendo os lábios numa careta.
Uma batida à porta os interrompeu. Sem demora, Nick pegou a carta e guardou-a, enquanto Granby abria a porta. Ouviu um murmurinho de vozes, e virou-se para ver seu pajem se aproximando, um papel dobrado na mão.
– Um bilhete para o senhor, capitão.
– Bem. – Ele esboçou um sorriso lento enquanto lia a carta. – Talvez nem tudo esteja perdido. A srta. Shawcross quer me ver. No jardim.
Nick andou ao longo dos caminhos de cascalho, até chegar a uma alameda ladeada por árvores. No final, havia uma pequena clareira, onde uma estátua do deus grego Pan estava aninhada contra a cerca viva. Do outro lado, bancos pintados de branco tinham sido posicionados para aqueles que desejavam descansar por um tempo em seu recanto. Evelina estava sentada num dos bancos, lendo uma carta. Com a aproximação de Nick, ela olhou para cima e esboçou um pequeno sorriso. Ele fez uma reverência.
– Você queria falar comigo, srta. Shawcross?
Ela gesticulou para o banco oposto, e Nick sentou-se.
– Sim, eu queria, Sir. – Os suaves olhos castanhos descansaram no rosto dele. – Você disse, no nosso primeiro encontro, que veio aqui para se casar comigo. Esta é sua verdadeira intenção?
– Um ataque direto – disse ele, com aprovação. – Eu gosto disso.
– Você não respondeu a minha pergunta, capitão.
– Então, sim. Esta é a minha verdadeira intenção, srta. Shawcross.
Ela lhe prendeu o olhar sem hesitação.
– Por quê?
As sobrancelhas de Nick se arquearam. Aquilo era muito direto.
– Está na hora de eu me acomodar. Minha família vem me pressionando para fazer isso desde que eu voltei para casa do mar.
– Mas você não sabe nada ao meu respeito.
Nick lhe sorriu.
– Você é linda, espirituosa, educada… e Sir Benjamin me garante que é uma excelente cozinheira. Isso não é o bastante?
Ela baixou o olhar, um delicado rubor tingindo-lhe o rosto.
– Mas você não sabia nada sobre mim quando procurou meu avô em Tunbridge Wells.
Ergueu os olhos novamente, e Nick hesitou. O quanto poderia contar?
– Fui a Tunbridge à procura de Sir Benjamin – admitiu ele. – Eu apenas planejava renovar meu conhecimento familiar com ele. Logo percebi que Sir Benjamin estava procurando um marido para você. – Um sorriso curvou-lhe os lábios. – Ele pareceu pensar que talvez eu fosse um candidato adequado.
– Está dizendo que ele sugeriu isso? – Ela pareceu chocada. – E você concordou em…
Ele abriu as mãos, falando de modo apologético:
– Esta me pareceu uma oportunidade que não podia ser perdida. E estou feliz por ter vindo.
Por um momento, Evelina pareceu encantadoramente agitada, mas logo se recuperou.
– Muito bem, Sir. – Ela procurou uma posição mais confortável no banco, e olhou para os papéis que tinha nas mãos. – Vovô pode tê-lo considerado adequado, mas você ainda precisa me convencer! Gostaria de lhe fazer algumas perguntas.
Nick recostou-se e cruzou uma bota sobre a outra.
– Estou à sua disposição, senhorita.
– Nós já estabelecemos que você é marinheiro, e, ninguém pode negar, um marinheiro corajoso.
– Obrigado – replicou ele, docilmente.
– Mas você tem uma reputação na cidade, capitão. – Ela olhou para a carta. – No ano passado, seu nome estava ligado a sra. Stringham.
Nick piscou. A garota havia levantado informações sobre ele!
– Nós fomos… amigos por alguns meses, sim.
– Pelo que sei, ela é uma lady com reputação manchada, de alguma maneira. – Evelina deu de ombros. – Sem dúvida, muito mais interessante para você do que uma garota ingênua.
Engasgou, mas ela não pareceu notar, e estava mais uma vez consultando sua lista.
– Então houve lady Alton.
– O que tem ela? – perguntou ele, cautelosamente.
– Foi sua amante, não foi? Você parece chocado, capitão Wylder. Pensei que gostasse do ataque direto.
Nick sentou-se mais ereto. Por Deus, a moça o estava provocando!
– Posso lhe perguntar como você conseguiu estas informações, srta. Shawcross?
Ela abraçou a carta junto ao peito.
– Você pode perguntar, mas não divulgarei minhas fontes.
Ele se inclinou para a frente.
– E o que mais suas… fontes… dizem ao meu respeito?
Evelina estudou as folhas de papel novamente.
– Bem, houve a srta. Brierley, de Rochester. Muitas pessoas pensaram que você a pediria em casamento.
– O quê? Por que a levei a um passeio de carruagem no parque?
– Aparentemente, sim – murmurou ela, sem erguer os olhos da carta. – E Dorothy Chate, a atriz, sem mencionar as dançarinas de ópera…
– Preferiria que nós não mencionássemos as dançarinas de ópera!
Ela o olhou com seriedade.
– Desde que você saiu da marinha, sua vida parece ter sido de devassidão, Sir.
Ele tentou parecer arrependido.
– Por isso, necessito muito de uma esposa para me manter acomodado.
– Não tenho muita certeza se alguém conseguiria mantê-lo acomodado, capitão Wylder. Está dizendo que, se nós nos casássemos, você abriria mão de sua vida libertina?
– Tentaria.
Ele lhe deu um olhar repleto de sentimentos, e notou, com satisfação, o sorriso se formando na boca de Evelina. Ela estava tendo dificuldade em manter o semblante sério.
– Não estou muito certa se acredito em você.
– Sinto que necessito de uma ocupação.
Ela virou a página.
– Meu correspondente me diz que você tem uma ocupação.
Nick congelou. Era possível que ela soubesse daquilo?
– Ou deveria ter; você deveria estar cuidando de suas propriedades no norte, capitão Wylder, não desperdiçando seu tempo com buscas ociosas.
Nick respirou novamente.
– Não chamaria procurar uma esposa de busca ociosa.
– Capitão Wylder – começou ela seriamente –, não tenho certeza se sou a esposa certa para você.
– Srta. Shawcross, quanto melhor eu a conheço, mais convencido me torno de que você é a esposa perfeita para mim!
– Não sou nem um pouco cosmopolita. O que quero dizer é… – Ela enrubesceu novamente, parecendo tão adorável que ele queria atravessar o espaço entre os dois e tomá-la nos braços. – O que vai acontecer se você se cansar de mim? – Quando ele não respondeu, Evelina murmurou baixinho: – Não sou tão ingênua quanto você pode pensar, capitão. Sei que o casamento dos meus pais foi incomum; eles se amavam tanto que faziam tudo juntos, como iguais. – Ela deu um breve sorriso triste. – Eles até mesmo morreram juntos. Não espero isso, mas…
Nick começou a se levantar do banco, então voltou a se sentar. Sabia que qualquer tentativa de confortá-la tinha mais probabilidade de assustá-la e fazê-la fugir.
– Mas o quê, srta. Shawcross?
O rubor se intensificou no rosto de Evelina, mas ela estava determinada em seu objetivo. Suas palavras foram quase inaudíveis:
– Eu… não quereria compartilhar você com uma amante.
Nick respirou profundamente. Por Deus, admirava a bravura da garota. Agora, deveria honrar tal bravura com uma resposta honesta:
– Srta. Shawcross, apesar de tudo que ouviu ao meu respeito, por favor, acredite que sou um cavalheiro. Se nós nos casarmos, eu lhe dou a minha palavra que você será sempre tratada com respeito, e darei o melhor de mim para fazê-la feliz. Posso lhe prometer que não tenho amante alguma escondida. – Nick riu subitamente. – Agora, o que significa este olhar? Não acredita em mim?
Ela o olhou de modo penetrante.
– Não acho que você entenda, Sir.
– Então talvez você possa explicar.
Nick recostou-se, quando ela lhe enviou outro olhar raivoso. Sentia-se mais seguro quando Evelina estava zangada com ele.
– Sempre esperei que vovô arranjasse um casamento para mim, mas pensei que seria com um cavalheiro da região. Alguém…
– Alguém seguro, tranquilo e tedioso – ajudou-a Nick.
– Bem… sim.
Ele abriu as mãos no ar.
– Mesmo os cavalheiros mais corretos e interioranos têm amantes, sabia?
– Mas têm menor probabilidade de ter mulheres caindo aos seus pés – retorquiu ela. Então balançou a carta. – Meu correspondente me diz que ladies na cidade grande acham você fatalmente atraente.
– Ela realmente pensa assim?
– Como você sabe que é uma mulher?
– Tenho instintos para essas coisas. Sua correspondente também me acha fatalmente atraente?
– Capitão Wylder, não acho que você esteja levando isso a sério.
– Mas estou! E seu avô já me falou sobre isso.
– Ele… falou?
– Sim. – A consternação de Evelina o fez sorrir. – Essa é uma pergunta que ocorreria a qualquer guardião amoroso. Já assegurei a seu avô que, se eu me casar, minha esposa não terá nada a temer nesse departamento. – Ele pausou. – Saiba que Sir Benjamin me aprova. Você não irá ao menos considerar meu pedido de casamento?
Ela lhe prendeu o olhar por um momento, então dobrou os papéis e colocou-os dentro do bolso do vestido.
– Sim, capitão Wylder, irei considerar seu pedido – respondeu ela, calmamente. – Mas não é uma decisão para ser tomada de modo apressado.
– Não, é claro que não.
– Obrigada por ter sido tão franco comigo, capitão.
Quando se levantou, Nick fez o mesmo e pegou-lhe a mão, levando os dedos delicados para seus lábios.
– Espero que tenhamos compreendido um ao outro agora, srta. Shawcross.
– Não tenho certeza se isso aconteceu. – Eve uniu as sobrancelhas numa expressão intrigada. – Ainda não entendo por que você quer se casar comigo, mas deixaremos isso passar, por enquanto. – Ela recolheu a mão e, assentindo com a cabeça num gesto régio, virou-se e partiu.
EVE VOLTOU para seu quarto, pensando sobre o encontro com o capitão Wylder. Ele não tinha negado nenhuma das conexões que Maria Gryfford detalhara na carta, mas parecera cauteloso. Haveria ainda mais amantes das quais não sabia? Eve percebeu que não se importava com quantas amantes tivera no passado; apenas o presente e o futuro importavam. Uma linha da carta de lady Gryfford lhe veio à mente. Se o maravilhoso capitão Wyldfire lhe propôs casamento, então, agarre-o imediatamente, minha querida Eve. Nós todas somos loucas por ele! Mas por que queria se casar com ela? Nick Wylder não parecia o tipo de homem que se casaria meramente para agradar a família. Então, Eve havia crescido para acreditar que se casaria para agradar seu avô. Seriam tão diferentes assim? Ela pôs os braços ao redor do próprio corpo. Aquela era uma grande decisão… deixar a segurança do único lar que conhecera, e colocar-se sob a proteção de Nick Wylder. Afinal de contas, o que sabia sobre ele? Confiava no capitão?
– Sim – falou em voz alta. – Confio nele. Talvez eu não devesse, mas confio.
– Perdão, srta. Eve, você disse alguma coisa?
Martha entrou no quarto.
– O quê? Oh, não. Estava apenas falando sozinha. Já está na hora de me vestir para o jantar? Acho que usarei meu vestido azul novamente esta noite, Martha.
– Ah, você quer ficar bonita para o capitão, é isso?
– Não seja impertinente!
Eve franziu o cenho para sua criada, mas Martha trabalhava na casa desde que Eve era bebê, e não deixava de falar o que pensava tão facilmente.
– Bem, o que mais alguém pode pensar, quando você e ele estiveram juntos no jardim esta tarde?
– Quem lhe contou?
Martha deu de ombros.
– Sr. Granby mencionou…
– Como ousa fofocar sobre mim?
– Deus do céu, srta. Eve, nós não estávamos fofocando. Sr. Granby mencionou o fato por acaso. E que importância tem isso, de qualquer forma, uma vez que você irá se casar com ele?
– Martha! Quem disse isso?
A criada a olhou.
– Bem, não é verdade?
– Não. Sim… isto é… – Ela se sentou na cama, chorando. – Oh, Martha, não sei o que fazer!
– Você não quer se casar com o capitão?
Eve abriu as mãos num gesto de impotência.
– Preciso me casar com alguém.
– E o capitão é muito bonito, senhorita.
Eve sentiu-se corando.
– Sim, ele é. Muito bonito.
E excitante, e espirituoso. Eve nunca se sentira atraída por um homem antes. Não que tivesse muita experiência… uma visita curta a Tunbridge sendo o mais perto que estivera de entrar na sociedade, mas possuía muitos livros. Sabia exatamente como devia ser a aparência de um herói, e, embora os cavalheiros que conhecera em Tunbridge não tivessem correspondido às suas expectativas, foi forçada a admitir que Nick Wylder era a materialização de seus sonhos secretos. O pensamento era um pouco assustador.
– Bem, se você quer a minha opinião, acho que deve ouvir Sir Benjamin e fazer o que ele deseja, senhorita – aconselhou Martha. – Ele nunca a decepcionou.
– Eu sei, Martha, mas estamos falando de… casamento. – Ela sussurrou a palavra, subitamente nervosa pelos pensamentos que esta invocava.
– Que Deus a abençoe, esta é precisamente a hora para ser aconselhada por seu avô – insistiu Martha alegremente. – Se Sir Benjamin acha que o capitão é o homem certo para você, então é, e com certeza, muito melhor que seu primo Bernard – acrescentou, de repente séria. – E é com quem você irá acabar se Sir Benjamin morrer e deixá-la sozinha. Eu vi Bernard a rodeando quando ele esteve aqui numa visita.
– Pare com isso, Martha – Eve estremeceu. – Ademais, ouvi dizer que meu primo está procurando uma esposa rica.
– Bem, talvez ele esteja – opinou Martha. – Mas isso não o impedirá de tentar colocá-la entre os lençóis, com ou sem anel de casamento!
Com esse aviso, ela saiu para ir buscar o vestido, deixando Eve olhando para suas costas com expressão horrorizada.
NO MOMENTO que desceu para jantar, Eve não estava mais perto de tomar uma decisão, mas era muito bem-educada para permitir que seu tumulto interior transparecesse, e cumprimentou Sir Benjamin e o capitão com seu usual sorriso calmo. Apesar de sua atitude segura no jardim, naquela tarde, sentia-se um pouco nervosa por encontrar Nick novamente, mas o jeito amigável e educado dele logo a deixou à vontade. Todavia, a sugestão de Sir Benjamin, depois do jantar, de que pessoas jovens deveriam dar um passeio pelo jardim, enquanto ainda estava claro, causou-lhe pânico.
– Uma excelente ideia – aprovou Nick, os olhos brilhando, mas ainda assim, gentis. – Venha, srta. Shawcross, dê-me o prazer de sua companhia numa pequena caminhada – Ele se inclinou para mais perto e murmurou: – Não precisa ser nada mais que isso, eu lhe prometo.
Sentindo o sangue quente em suas faces, Eve apressou-se para pegar seu xale, e retornou para encontrar Nick esperando-a no hall de entrada.
– Sir Benjamin já se recolheu – informou-a ele quando desceu a escada, indo na sua direção. – Ele pediu que você subisse para vê-lo quando voltar. – Nick estendeu-lhe o braço. – Vamos andar? Não se preocupe – acrescentou, percebendo a hesitação dela. – Nós conversaremos sobre os assuntos mais banais, se você quiser.
A compreensão dele acalmou os nervos de Eve. Ela pôs a mão no braço dele e lhe permitiu conduzi-la para o lado de fora da casa. No começo, falaram sobre o tempo, então livros e música, mas depois que passaram o campo de flores e gramado e entraram num caminho de arbustos, Nick falou subitamente:
– Acredito, srta. Shawcross, que lhe devo um pedido de desculpas. – Ela o fitou e ele continuou: – Parece que Sir Benjamin realmente não a preparou para minha visita.
Ela enrubesceu.
– Este não é o tópico banal que você me prometeu, capitão.
– Eu sei, mas você parece muito reservada comigo esta noite. Está tentando decidir se deve ou não se casar comigo, é isso?
– É claro que não! – exclamou ela, assustada. – É… – Eve parou. – Para ser honesta com você, sim – admitiu.
Ele parou e virou-se para ela, capturando-lhe as mãos.
– E o que é tão difícil sobre essa decisão, srta. Shawcross?
Nick ergueu-lhe a mão para seus lábios e começou a beijar os dedos delicados, um por um. Ela observou, hipnotizada.
– Eu, hum…
Ele lhe levantou a outra mão, e, quando terminou com os dedos, seus lábios se moveram para o pulso, enviando uma sensação de choque pela extensão do braço de Eve.
– Não consigo pensar – confessou ela.
Nick levantou a cabeça e sorriu-lhe. Os dedos de Eve ainda estavam formigando, e ela se pegou olhando para a boca dele, tentando imaginar o que o toque daqueles lábios lhe causaria. O sorriso nos olhos azuis se aprofundou. Ele lhe segurou o queixo.
– Às vezes, é melhor não pensar – murmurou ele, e gentilmente levou a boca em direção a boca de Eve.
Foi um beijo muito leve, um mero roçar de lábios, mas mexeu com todos os sentidos de Eve, e quando Nick se afastou, o rosto dela continuou inclinado para cima, convidando-o a beijá-la novamente. Ele a fitou.
– Uma jovem lady não deve permitir que um cavalheiro a beije, a menos que ela pretenda se casar com ele – disse Nick.
– Então talvez você tenha tomado a decisão por mim – replicou ela.
Ele riu, colocou a mão de Eve de volta em seu braço, e continuaram a caminhada.
– Não irei coagi-la a nada, srta. Shawcross; esta deve ser uma decisão sua.
– Na verdade, é uma decisão de meu avô – disse ela. – Ou pelo menos, o desejo dele. Mas sua suposição está correta, capitão. Ele não mencionou a sua vinda. Todavia, eu não deveria estar surpresa por isso. Meu avô sempre falou que um dia traria para casa um marido para mim. – Eve suspirou. – Jamais acreditei nele, de verdade.
– Certamente, ele não a manteve trancada aqui durante todos esses anos? – O tom de voz de Nick era um pouco chocado, e ela riu.
– Como uma princesa num conto de fadas? Não, é claro que não. Fui a assembleias no vilarejo de Makerham em algumas ocasiões. E estive em Tunbridge poucos anos atrás.
– Então é claro que você sabe tudo que precisa saber sobre o mundo!
– Sei o bastante para perceber que estou feliz em permanecer aqui em Makerham. Tudo que quero está aqui.
– Está mesmo? Você nunca tem o desejo de saber o que acontece do lado de fora destas paredes?
– Há os novos jornais…
– Não é a mesma coisa! Eles não são cidades pequenas e cidades grandes… países inteiros esperando para ser explorados. Tal pensamento não lhe causa excitação?
O pensamento causava medo em Evelina. Ela se afastou para segurar uma rosa particularmente adorável entre os dedos, inalando sua fragrância enquanto formulava a resposta. Aparte muito poucas lembranças da vida com seus pais, e dos breves anos na escola, Makerham era o único mundo que Eve já conhecera. O mundo exterior era estranho e cheio de perigos, como a doença que matara seus pais. Sua vida em Makerham era segura; o pensamento de seu primo tomando posse do lugar era algo que não queria considerar.
– Sou muito feliz aqui – disse ela novamente.
Nick andou ao lado de Evelina, as mãos firmemente atrás das costas para impedi-las de puxá-la para seus braços. Ele nunca vira uma noite de verão tão gloriosa; abelhas zumbiam ao redor das plantas, e o aroma de lavanda preenchia o ar. Então havia Evelina. Era linda, mas possuía uma aura de calma ao seu redor, de serenidade. Era como encontrar um porto seguro após semanas de tempestade no mar. Quando ele procurara Sir Benjamin em Tunbridge Wells, já tinha formulado seus planos; se era necessário casar-se para alcançar seus objetivos, então estava disposto a cumprir seu dever, mas nunca esperara que dever pudesse ser algo tão prazeroso.
Ele parou e virou-a gentilmente para que ela o encarasse.
– Entendo o quanto você adora Makerham, mas consideraria morar em algum outro lugar?
– Acho que devo considerar, Sir, uma vez que a casa passará para meu primo, quando vovô falecer.
– Não foi exatamente isso que quis dizer. Sir Benjamin me trouxe aqui como um marido em potencial para você. Não sei ao certo o que ele lhe contou ao meu respeito…
– Somente que seu pai era conde. Esta é uma posição muito alta para uma filha de baronete. – O sorriso dela mexeu com os sentidos de Nick. Ele precisou de toda sua força de vontade para não a envolver nos braços e cobrir-lhe o rosto de beijos, mas precisava falar com ela.
– Evelina… Eve, pela nossa conversa esta tarde, você sabe que não levei uma vida inocente, mas eu lhe disse que isso mudará quando eu me casar. Possuo uma renda confortável, e duas propriedades no norte. Tenho condições de lhe oferecer férias na cidade todos os anos, se assim desejar. Você terá sua própria carruagem, e podemos comprar uma propriedade perto de Makerham, perto do seu avô, se você quiser.
– Capitão Wylder, ainda é muito cedo para uma decisão!
Ele pôs um dedo contra os lábios dela.
– Talvez, mas faço tudo com precisão, minha querida. Assim que a vi, soube que queria me casar com você. – Nick viu a confusão no rosto dela e parou. Afastou-se um pouco, respirou fundo e murmurou de modo gentil: – Você não precisa responder imediatamente. Apenas quero que entenda o que eu estou lhe oferecendo.
Havia uma leve sombra nos olhos de Eve quando ela o fitou.
– Isso tudo está claro, capitão, mas não entendo o que eu posso oferecer a você.
Ele hesitou, então disse em tom de voz leve:
– Creio que você possui a propriedade de sua mãe em Monkhurst.
Ela riu.
– Uma casa em ruínas no limite de Romney Marsh! Adoro o lugar, onde passei alguns momentos felizes quando criança, mas ninguém mais morou lá desde que meus pais morreram. É um dote pobre, capitão Wylder. Lamento, mas sairei ganhando nesta barganha, Sir!
Nick sentiu-se alegre. Era quase sua, podia ler isso nos suaves olhos castanhos. Uma felicidade estonteante o abalou. Ele deslizou as mãos ao longo dos braços dela e segurou-lhe os dedos.
– Não, Eve, acho que obterei muito mais do que aquilo pelo que barganhei!
Eve olhou para a cabeça escura abaixada sobre suas mãos. Isso não podia estar lhe acontecendo; quando estava na escola, havia lido romances de cavaleiros bonitos conquistando donzelas em perigo, mas aquilo era fantasia. Ademais, não estava em perigo. Ou estava? Tinha 24 anos, e jamais conhecera um homem com quem quisesse se casar, e provavelmente não conheceria enquanto vivesse em tamanho isolamento. Seu avô estava muito mais fraco do que estivera poucos meses atrás. Se ele morresse enquanto ela ainda estivesse solteira, então o que seria de Eve? A visão de seu primo preencheu-lhe a mente. Nunca apreciara Bernard, sentindo que ele possuía um traço cruel de caráter, que a assustava. E agora, ali estava aquele capitão do mar lindo, propondo-lhe casamento, e ele vinha com a bênção de seu avô. Realmente não havia escolha. Eve percebeu que Nick a olhava fixamente. Precisava falar alguma coisa.
– Quão breve você deseja se casar, capitão Wylder?
Deus, como ela era direta e objetiva.
– Até o final do mês.
– O final do…!
– Sim, não vejo razão para não conseguirmos uma licença especial. Temos tempo para que os proclamas estejam prontos na igreja. Iremos nos casar aqui, é claro. Não tenho dúvida que é isso que você gostaria…
– Mas ainda não concordei com o casamento!
Com uma risada, Nick a puxou para seus braços.
– Não, mas você irá concordar.
Ele estava lhe sorrindo. Eve achou difícil se concentrar, seus pensamentos pareciam centrados na covinha na face esquerda dele.
– O que vovô irá dizer de um casamento tão apressado?
– Oh, acho que concordará. – Nick a beijou, um beijo ardente que enviou um tremor pelo corpo inteiro de Eve. – O que você me diz, Eve, será minha esposa?
– Mas – ela tentou organizar seus pensamentos confusos –, acabamos de nos conhecer!
– E temos mais de três semanas até o casamento para nos conhecermos melhor. – Ele a beijou novamente. – E então?
Ela saiu dos braços dele.
– Não, não. Isso está fora de cogitação – disse Eve mal-humorada. – Você aparece do nada, grande, ousado e… e totalmente irresistível, e espera que eu concorde em ser sua esposa! Não, Sir, eu não farei isso.
Ele se ajoelhou diante dela, abrindo as mãos em suas laterais.
– Evelina, você quer se casar comigo?
Ela tocou as mãos sobre a boca para abafar uma risada.
– Levante-se, Sir, antes que alguém o veja!
– Não até que você responda minha pergunta.
Evelina o estudou. Os olhos azuis dele brilhavam, e a covinha no rosto bonito estava aparente. Deus, o homem nunca ficava sério?
– Então, Evelina, irá me dar sua resposta?
Uma imobilidade se instalou no jardim. Os pássaros estavam silenciosos, nem um sopro de vento movia os arbustos; o mundo inteiro parecia quieto, esperando sua resposta. Subitamente, Eve soube que não havia nada que quisesse mais do que se casar com Nick Wylder.
– Muito bem – declarou ela, calmamente. – Eu me casarei com você.