Capítulo Três
– OH, CÉUS, o que fiz?
Evelina andava de um lado para o outro em seu quarto, as mãos unidas pressionadas à boca. A chegada de um marido em potencial a Makerham não deveria ter vindo como uma surpresa, uma vez que seu avô frequentemente dissera que lhe encontraria um pretendente, e ela o assegurara que agiria de acordo com o julgamento dele. Mas Eve não esperara que tal cavalheiro fosse tão incrivelmente atraente como o capitão Wylder, assim como não havia previsto que ele a pediria em casamento após conhecê-la por tão pouco tempo. Ainda mais extraordinário era o fato que ela aceitara! Eve pausou junto à janela. Os últimos remanescentes da luz do dia tinham desaparecido, e o vidro refletia sua imagem como um espelho escuro. Ela sempre pensara em si mesma como uma mulher sensata, equilibrada, então, que loucura a possuíra para aceitar a proposta dele, enquanto estava no jardim, com a fragrância das rosas de verão no ar?
– Não, isso não vai dar certo – murmurou Eve em voz alta, voltando a andar pelo quarto. – Amanhã, devo dizer a ele que mudei de ideia… não que mudei de ideia – corrigiu-se. – Apenas que quero mais um pouco de tempo para pensar na proposta.
Ela subiu na cama, e apagou a vela, satisfeita por ter resolvido sobre um curso sensato de ação.
– INFERNO E maldição, nós estamos perdidos agora. – Nick removeu seu casaco e entregou-o para seu lacaio. – Eu não planejei isso, Richard!
– Pensei que o objetivo de vir para cá fosse propor casamento à jovem lady – murmurou Richard Granby, dobrando o casaco e pendurando-o cuidadosamente sobre uma cadeira.
– Sim, é claro. Mas eu me comportei como um verdadeiro palerma!
– Mas pelo que entendi, a srta. Shawcross aceitou o seu pedido, capitão.
– Sim, ela aceitou. – Nick sentou-se numa cadeira e deu um suspiro exasperado.
– Então, eu lhe desejo felicidades, Sir.
– Deixe de ser insolente! Isso não deveria ter acontecido… ou apenas como um último recurso. – Um sorriso irônico curvou um lado da boca de Nick. – A verdade é que ela mexe comigo, Richard. Ela me derrubou com o primeiro olhar daqueles grandes olhos castanhos, e eu não me recuperei desde então.
– A criada dela me diz que srta. Shawcross é uma lady muito talentosa em tudo que faz.
– Sim, ela é. É de se admirar que não tenha se casado anos atrás.
– Martha… esta é a criada pessoal da srta. Shawcross, capitão… Martha diz que ela vive aqui com muito sossego desde que acabou a escola. Com a saúde fraca de Sir Benjamin, eles nunca tiveram o hábito de receber pessoas na casa.
Nick deu uma risada curta.
– Então ela ficou aqui esperando durante todos esses anos, como uma Bela Adormecida! Mas o problema é que eu não sou um Príncipe Encantado.
Um leve sorriso surgiu nas feições impassíveis de Richard Granby.
– Se me permite apontar, Sir, eu acho que diversas ladies discordariam de você a esse respeito.
Nick gesticulou uma das mãos no ar, impacientemente.
– E se ela descobrir o verdadeiro motivo pelo qual eu estou aqui?
– Talvez você deva contar-lhe.
– Ora, Richard, o que a srta. Shawcross pensaria de mim, casando-me para controlar a propriedade dela? Não, seguirei meu próprio conselho. Afinal de contas, mais quatro semanas, e este assunto terá terminado, de modo que não há razão para que srta. Evelina Shawcross saiba de alguma coisa. – Nick passou a mão pelos cabelos. – Mas eu não gosto da ideia de apressá-la para este casamento. Talvez meramente passemos pela cerimônia. Afinal de contas, precisarei voltar para a costa logo depois que o casamento acabar. Dessa forma, se ela descobrir que realmente não pode me tolerar…
– Perdoe-me por dizer isso, capitão, mas toda vez que seus romances acabam, é raramente escolha da lady terminar o relacionamento.
– Sim, mas srta. Shawcross é diferente. – Nick se levantou da cadeira e alongou o corpo. – Pegue minha camisola, por favor, Richard. Já deve passar da meia-noite, e está na hora de eu… – Ele parou, franzindo o cenho. – Qual é o problema?
Do corredor do lado de fora de seu quarto, veio o som de sussurros urgentes e passos apressados. Nick foi para a porta e abriu-a. O pajem de Sir Benjamin estava andando ao longo do corredor, e pelo brilho do lampião que ele segurava no alto, Nick observou que o casaco do homem estava desabotoado e os cabelos despenteados, como se ele tivesse sido tirado da cama antes da hora. Nick saiu no corredor.
– O que aconteceu, Rooney? – demandou ele.
– É o amo, Sir. Ele teve uma de suas crises.
– Posso ajudar de alguma forma? Granby pode montar um cavalo e chamar um médico.
– Obrigado, capitão, mas não. Já mandei um cavalariço ir buscar dr. Scott. Se me der licença, Sir, preciso voltar para Sir Benjamin. Srta. Eve está com ele, mas não gosto de ficar longe por muito tempo.
– É claro. – Nick deu um passo ao lado, e, depois de observar o pajem desaparecer de visão apressadamente, retornou para seu quarto.
– É o cavalheiro idoso, Sir? – perguntou Granby. – Eu ouvi dizer que ele está muito doente.
– Sim, está. Vá ver se há algo que nós possamos fazer, Richard. O homem de Sir Benjamin está relutante em me perturbar, mas talvez ele seja mais direto com você.
Tendo despachado seu homem, Nick encontrou-se sozinho. Silêncio o rodeou, mas não fez nada para aliviar sua ansiedade. Era um hóspede na casa, mas a ideia de dormir enquanto Eve estava sentada com o avô era impensável. Ele pegou seu casaco. Devia haver alguma coisa que pudesse fazer.
QUANDO EVE saiu do quarto de Sir Benjamin, seus olhos ardiam pela falta de sono. Ela carregava uma vela num castiçal para iluminar o corredor escuro e a escada que descia. O arco que levava ao grande salão brilhou com uma luz bem-vinda, e no momento que se moveu para a frente, pôde ver que um fogo tinha sido acesso, e diversas velas queimavam nos castiçais presos às paredes. Nick Wylder estava abaixado diante do fogo, mexendo uma grande panela preta que parecia precariamente equilibrada entre as chamas. Ele endireitou o corpo e virou-se ao ouvir os passos dela se aproximando.
– Fui informada de que você estava aqui, capitão. – Ela gesticulou a cabeça em direção à lareira. – Duvido que alguém tenha cozinhado aí por gerações.
– Ponche – disse ele, sorrindo. – Nada como ponche para restaurar os ânimos no meio da noite.
– Sinto muito se nós o acordamos.
– Não estava dormindo. – Nick estendeu o braço, pegou-lhe a mão e conduziu-se para o sofá em uma das laterais da lareira. – Como está Sir Benjamin?
– Mais tranquilo agora. Vovô entra em pânico quando sofre uma destas crises e não consegue respirar, mas o dr. Scott sempre o acalma.
Ela se sentou por um momento, olhando fixamente para as chamas.
– Espero que você não se importe por eu ter acendido a lareira. Sei que é verão, mas de alguma maneira, um bom fogo sempre parece confortante em momentos como este.
– Parece, obrigada, mas você não precisava fazer isto.
Ele gesticulou a mão, dispensando o comentário.
– Os servos estão ocupados com seu amo. Eu não aumentaria a carga deles. – Nick virou-se para a panela no fogo e despejou um pouco de seu conteúdo numa caneca. – Aqui, experimente isto.
Eve curvou os dedos ao redor da caneca quente. Não tinha percebido como estava com frio. Um aroma doce e forte subiu do líquido, e seus olhos se arregalaram.
– Rum. – Nick sorriu. – Prove.
Cautelosamente, ela deu um gole. Estava quente e doce, e o gosto de álcool a fez tossir, mas a sensação que se seguiu foi estranhamente confortante. Nick a observava, e ela conseguiu dar um pequeno sorriso.
– Obrigada. Isto é exatamente o que preciso. Talvez possamos oferecer um pouco para dr. Scott, antes que ele vá embora.
– É claro. Essas crises são uma ocorrência regular?
– Têm sido mais frequentes nos meses recentes.
– Eu não sabia que Sir Benjamin estava tão doente.
– Ele esconde bem. Não gosta de pessoas paparicando-o. – Ela leu a pergunta nos olhos dele, e baixou o olhar para a caneca entre suas mãos. – As crises enfraquecem o coração de vovô. O médico diz que nós devemos estar preparados… – Eve não pôde confiar em sua própria voz para continuar, então deu um gole no ponche. Quando olhou para cima novamente, Nick a observava, a fisionomia tão preocupada que ela se pegou sorrindo. – Talvez agora você entenda por que vovô está tão ansioso para me ver casada – acrescentou, entregando-lhe a caneca vazia. – Ele se preocupa com o que será de mim quando se for deste mundo.
Nick acomodou-se ao seu lado no sofá.
– Então, pelo menos, posso aliviar a mente de Sir Benjamin no que diz respeito a isso, e talvez no que diz respeito à outra coisa. – Ele pegou-lhe as mãos. – Quando nós nos casarmos, não precisaremos nos mudar para Yorkshire imediatamente. Acho que você preferiria ficar perto de seu avô.
Tais palavras amenizaram uma ansiedade que Eve mal reconhecera. Ela o fitou com intensidade.
– Verdade? Você não se importaria se vivêssemos aqui por um tempo?
– Verdade. Tenho um administrador excelente, que cuida de meus assuntos por um bom número de anos; e continuará fazendo isso por mais um tempo.
– Obrigada. – O alívio e gratidão de Eve eram palpáveis. Sem pensar, inclinou-se na sua direção, e ele a envolveu nos braços. Aconchegar sua cabeça contra aquele ombro largo era, pensou ela, como chegar em casa depois de uma longa jornada cansativa.
Nick descansou o rosto contra os cabelos sedosos, inalando a fragrância doce e floral deles. Eve parecia tão frágil, tão delicada que ele temia abraçá-la forte demais e quebrá-la. Seu coração entristeceu. Não queria apenas possuir aquela criatura adorável, mas protegê-la também. O sentimento não era familiar, e nem muito confortável. Permaneceram abraçados num silêncio agradável por diversos minutos, enquanto ouviam o tique-taque do relógio alto e os estalos das lenhas queimando na lareira. Ele imaginou se este era o momento certo para se abrir com ela, para se confidenciar. Conteve-se. Aquele era um assunto governamental, e não seu para compartilhar. Eve era tão frágil que Nick não queria adicionar mais preocupações naqueles ombros delgados. Além disso, em algumas semanas, tudo estaria resolvido.