Capítulo Cinco
EVE ACORDOU na manhã seguinte ao som dos cantos dos pássaros do lado de fora de sua janela. Quando seu estado sonolento dissipou-se, e as lembranças da noite anterior retornaram, uma deliciosa sensação de bem-estar se espalhou pelo seu corpo. Estendeu um braço, esperando sentir Nick ao seu lado, mas estava sozinha na cama. Abriu os olhos. Nick estava em pé perto da janela. Com o sol da manhã atrás dele, ela não podia ver-lhe o rosto, mas sabia que ele a observava.
– Nick?
Quando ele se aproximou da cama, Eve notou que Nick estava vestido para cavalgar, já de botas e esporas.
– Não quis acordá-la. Você parecia tão tranquila.
– Você vai sair? Não pode esperar por mim para que eu o acompanhe…
– Isso não é possível – murmurou ele, sentando-se na beira da cama e pegando-lhe a mão. – Preciso viajar por alguns dias. O mensageiro chegou esta manhã de Hastings. Sinto muito, meu amor, mas negócios requerem minha atenção urgente.
Eve sentou-se.
– Hastings! Que negócios podem ser tão importantes que o levam para longe tão em seguida do casamento? – demandou ela.
– Ainda não posso lhe contar.
– Oh, mas…
Nick pôs um dedo em seus lábios e meneou a cabeça.
– Quietinha, minha querida. Você deve confiar em mim.
Nick ainda estava lhe sorrindo, mas havia alguma coisa nos olhos azuis que a fez pausar, que a fez engolir as diversas perguntas que queria lhe fazer. Nick inclinou-se para beijá-la, muito gentilmente.
– Apenas negócios muito urgentes poderiam me separar de você neste momento – disse ele. – Pode acreditar?
Ela assentiu, repentinamente se sentindo inundada de tristeza. Aquilo não era nada incomum, disse a si mesma. Cavalheiros não discutiam assuntos de negócios com suas esposas. Ela tremeu, de súbito ciente de sua nudez. Nick atravessou o quarto para pegar seu penhoar de seda cor de damasco. Eve saiu da cama e vestiu-o, concentrando-se em amarrar a faixa, de modo que não precisasse olhar para cima. Nick estendeu os braços para tocá-la.
– Sinto muito, querida.
Quando ele a abraçou, Eve descansou a cabeça contra o peito largo, esforçando-se para não chorar.
– Quão breve você vai voltar?
Nick apertou os braços ao seu redor.
– Não sei. Dentro de uma semana, se tudo der certo. Mais tempo, se não der.
– E… não pode me contar que negócios são esses que levam você para longe de mim? – Eve sabia que ele não ia lhe contar, mesmo enquanto fazia a pergunta. Ele lhe segurou o queixo e inclinou-lhe a cabeça para cima. Ela encontrou-lhe os olhos, piscando para clarear a própria vista das lágrimas que ameaçavam escorrer.
– Preciso lhe pedir que confie em mim, meu amor.
– Confio – disse ela com veemência.
Nick a beijou.
– Então, fique aqui, mantenha-se segura para quando eu retornar.
Eve estremeceu de repente, e sentiu uma vaga premonição de perigo.
– Promete que você irá retornar?
Ele riu, os olhos azuis brilhando.
– Minha adorável menina, é claro que retornarei! – Nick beijou-a, e ela se inclinou contra ele, retornando seus beijos e desejando que a erguesse nos braços e a carregasse para cama para um último ato de amor antes que partisse. Seu desapontamento quando ele a afastou com gentileza foi tão forte que quase a fez chorar. – Eu preciso ir agora, querida.
– Não pode me dar dez minutos para eu me vestir? Eu gostaria de descer e me despedir de você. – Ela notou a hesitação de Nick, e acrescentou em tom de voz baixo: – Por favor, Nick.
Ele cedeu.
– Muito bem. Dez minutos.
Nick observou-a sair do quarto, a cabeça erguida. Uma onda de ternura o envolveu. Eve não podia entender por que precisava ir, entretanto, não havia lágrimas, ou acessos de raiva. Nick lhe pedira que confiasse nele, e ela confiara. Ele ergueu uma das mãos, abriu a boca para chamá-la, mas alguma coisa o impediu de fazer isso. O momento foi perdido; ela havia saído e fechado a porta.
– Melhor assim – disse a si mesmo. – Quanto menos Eve souber sobre esse assunto, melhor.
UM POUCO mais de dez minutos depois, Eve acompanhou Nick para o lado de fora da casa, tentando não se agarrar ao braço dele com muita força.
– Você poderá me escrever, Sir? – Ela tentou manter o tom de voz leve.
– Tentarei, mas talvez não seja possível, se eu estiver muito ocupado – Nick ergueu-lhe uma das mãos para seus lábios. – Seja forte por mim, meu amor, até que eu retorne.
Olhando para o rosto sorridente de Nick, Eve lembrou-se da primeira impressão que tivera dele; um aventureiro, um homem que procurava perigo. Seus dedos subitamente lhe apertaram a mão.
– Você será cuidadoso?
Nick deu uma risada alegre.
– Querida, sou sempre cuidadoso! – Com um último aperto na mão dela, ele se virou e montou seu cavalo preto com agilidade. – Granby irá me seguir com a carruagem em aproximadamente uma hora. – Ele lhe sorriu, os olhos brilhando. – Não quero ouvir que você caiu em tristeza, querida.
Ela forçou um sorriso.
– Não sou uma criatura tão fraca, Sir. Irei me manter ocupada até seu retorno. – O sorriso caloroso de Nick tocou-lhe o coração.
– Boa garota. Avance, Admiral! – Ele levantou seu chicote numa saudação enquanto se virava e saía galopando.
Eve observou-o da pequena ponte, até que Nick estivesse fora de vista, então, com um suspiro, voltou para dentro da casa. Havia um vazio doloroso em seu peito, e ela sentia um desejo desesperador de dar vazão às lágrimas. Olhou para o relógio no grande salão; ainda era muito cedo. Estava casada a menos de 24h, e seu marido já lhe dera mais prazer e mais dor do que Eve jamais conhecera.
QUANDO EVE se juntou a Sir Benjamin na sala matinal algum tempo depois, ele lhe estendeu a mão.
– Rooney me contou que Nick foi chamado para uma viagem, meu anjo. Isso é uma grande pena, mas significa que eu a tenho só para mim.
Ela sorriu enquanto lhe segurava os dedos estendidos.
– O senhor realmente tem, vovô.
– E você está feliz com o marido que eu lhe encontrei, minha querida?
Ela lhe sorriu.
– Tem alguma dúvida quanto a isso, Sir?
– Não, meu bem. Você estava irradiando felicidade nas últimas semanas. – Sir Benjamin suspirou. – Mas sentiremos a falta dele. Nick Wylder é um camarada muito cheio de vida… Wyldfire, eles o chamam, quando ele está no mar. – Seu avô riu. – Ele certamente deixa a casa iluminada com sua energia! E entreteve a nós, da realeza, não foi, minha querida?
– Sim, Sir, e enquanto ele estiver fora, nós devemos entreter um ao outro – disse Eve de maneira animada. – Está um lindo dia, vovô. Que tal dar um passeio comigo pelo jardim? Eu gostaria que o senhor visse os canteiros; as rosas estão particularmente fragrantes agora. Rooney lhe dará seu braço…
– Acho que não, querida. Minhas pernas não estão muito fortes hoje.
– Então permita-me trazer o tabuleiro de gamão para a sala matinal. Sei que as habilidades de Nick são superiores às minhas, mas eu também não jogo nada mal.
Sir Benjamin deu-lhe um tapinha na mão.
– Agora não, Evelina. Estou muito cansado. Acho que eu gostaria de descansar aqui no sol por um tempo.
– É claro, vovô. – Ela se inclinou para lhe beijar o rosto. – Tenho muitas coisas para fazer. Andei negligenciando minhas tarefas domésticas recentemente.
Pobre vovô, pensou Eve enquanto saía da sala. Ele sentirá quase tanta falta de Nick quanto eu.
EVELINA MANTEVE-SE ocupada. Mergulhou mais uma vez na vida de Makerham, pois ainda era a dona do lar, e permaneceria sendo até que Nick voltasse e a levasse para cuidar das casas dele no norte. Durante as noites longas e solitárias na cama imensa, ela reprimia seus desejos com pensamentos sobre sua nova vida longe do único lar que tinha conhecido. Ficaria triste de deixar seu avô, é claro, mas o pensamento de se mudar não a assustava. Com Nick ao seu lado, sabia que não precisava ter medo de nada. Uma semana já se passara, e não havia carta de Nick, apenas um bilhete rabiscado às pressas, dizendo-lhe que se ela precisasse dele, poderia deixar recado na Hospedaria Ship em Hastings. Eve era filosófica sobre isso; seu avô tinha sido um correspondente muito pobre na época que ela estivera na escola, às vezes um mês se passava sem uma carta, e então, quando esta chegava, não era mais do que algumas linhas rabiscadas com pressa. Ela não choraria. Além disso, algo muito mais sério a preocupava no momento. A saúde de Sir Benjamin estava piorando cada vez mais. Eve mandou chamar o médico, e desceu a escada correndo para recebê-lo, assim que ele chegou.
– Obrigada por vir tão prontamente, dr. Scott.
– Isso não é incômodo algum, srta. Eve… quero dizer, sra. Wylder – respondeu o médico, um sorriso nos olhos gentis. – Agora, diga-me, qual é o problema com o meu paciente? São as pernas dele novamente?
Eve assentiu.
– Está reclamando de dores no peito, também. Desde o casamento, vovô não saiu de dentro da casa – disse ela, enquanto o escoltava para o quarto de seu avô no andar de cima. – No começo, eu pensei que ele estivesse um pouco cansado de todas as celebrações, mas esta última semana, ele quase não saiu da cama. E está comendo tão pouco.
– Bem, leve-me até ele, sra. Wylder, e verei o que posso fazer.
Eve estava ocupada, arranjando um vaso de rosas no grande salão quando o médico veio à sua procura.
– Pensei em levar estas flores para vovô – murmurou ela, enquanto ele descia a escada. – Gosta tanto de flores, e o perfume destas é encantador. – Seu sorriso desapareceu quando ela olhou para o rosto do médico. – Imagino que não tenha boas notícias, dr. Scott?
– Você deve lembrar-se que ele é um homem idoso – disse o médico gentilmente. – E um homem muito doente.
– Eu sei – respondeu ela. – Sinto-me muito grata por vovô estar comigo há tanto tempo…
– Eu sempre achei que ele estivesse determinado a continuar vivendo por sua causa. Agora que você está casada…
– Oh, por favor, não diga isso! – exclamou Eve, em tom de desespero.
– Não, bem, talvez não. – Dr. Scott deu-lhe um tapinha no ombro. – Vá vê-lo, minha querida. Leve as flores para ele. Voltarei amanhã.
– VOVÔ, EU lhe trouxe algumas flores. Uma vez que não pode ir ao jardim, o jardim deve vir até o senhor. Eu as colocarei aqui, perto da janela, onde o senhor possa vê-las. Pronto, não são lindas?
Sir Benjamin deu um pequeno sorriso. Encontrava-se recostado sobre diversos travesseiros, mas seus olhos estavam fechados. Parecia magro, pálido e muito frágil em seu barrete e camisola. Eve aproximou-se da cama e pegou-lhe uma das mãos.
– O senhor não vai olhar para as rosas, vovô?
Ele abriu uma fresta dos olhos.
– Muito bonitas – murmurou. – Perdoe-me, meu anjo. Eu pareço estar sem fôlego.
– Então não o desperdice com palavras – sussurrou ela. – Eu ficarei aqui sentada do seu lado. Nós não precisamos falar.
NO MOMENTO que o dr. Scott retornou na manhã seguinte, estava tudo acabado. Evelina o recebeu com um xale preto ao redor dos ombros. Seus olhos, ela sabia, estavam vermelhos e inchados pelo choro, mas ela não se desculpou.
– Oh, minha querida. – Ele lhe pegou as mãos.
Evelina levantou a cabeça um pouco mais.
– Foi muito tranquilo – disse ela. – Rooney e eu estávamos com ele.
– Fico contente, pois vocês eram as duas pessoas que mais o amavam. Seu avô gostaria disso. Mas o que você fará agora? Não deve ficar aqui sozinha.
– Por que não? Estou acostumada a isso.
– Não nessas circunstâncias. Há arranjos a serem feitos – disse dr. Scott. – O funeral, por exemplo.
– Eu irei instruir o advogado de vovô hoje. Ele saberá o que fazer. E escreverei para meu marido. – Uma nova onda de tristeza fechou a garganta de Eve, tornando o ato de falar difícil. Sentia tanta saudade de Nick. – Ele está longe no momento.
– Então desejo muito que retorne rapidamente para você, sra. Wylder.
Evelina também desejava, mas não podia permitir que a ausência de Nick preenchesse seus pensamentos. Havia muita coisa a fazer. Cartas a serem escritas, advogado para ser consultado, além dos arranjos para o funeral. Evelina deixou os cuidados de Makerham com a sra. Harding, enquanto se ocupava com os rituais necessários após o falecimento de uma pessoa. Enviou uma carta para Hastings e perguntou-se quão breve podia esperar uma resposta. Dois dias depois, estava em um dos cômodos do andar superior, vasculhando os baús que continham roupas de sua mãe, procurando alguma coisa que pudesse usar como um vestido de luto, quando, através das janelas abertas, ouviu os sons de uma carruagem se aproximando. Seu coração disparou violentamente com o pensamento de que Nick havia voltado. Correu escada abaixo, chegando ao grande salão no exato momento que a porta se abriu.
– Oh, eu sabia que você viria! Eu…
Eve parou, lutando contra uma onda de raiva e desapontamento quando viu Bernard Shawcross entrando na sala.
– Fico encantado ao saber que eu não a desapontei, prima – disse ele suavemente. Fez uma reverência, então endireitou o corpo e levou uma mão ao pescoço. – Como pode observar, adotei uma gravata preta para o momento de luto.
– S… sim, obrigada – gaguejou ela. – Vejo que você recebeu minha carta.
Ele inclinou a cabeça.
– Vim imediatamente. Achei que você pudesse precisar de mim. Este é um momento muito desgastante. Meus mais profundos sentimentos, querida prima. Deve ter sido um choque muito grande para você.
– Choque? Não… não. A saúde de vovô já era preocupante por algum tempo. Foi por isso que nós não nos mudamos para a casa de meu marido ao norte do país. Mas você deve estar me achando muito mal-educada. Por favor, sente-se, Bernard. Deve estar se perguntando por que o capitão Wylder não está aqui para recebê-lo. Ele está viajando a negócios.
– Ah. – Olhos estreitos sob sobrancelhas grossas se fixaram nela. – Então você não teve notícias de seu marido?
– Não, ainda não. Tenho a esperança de que, neste exato momento, esteja a caminho de Makerham.
A boca de Bernard se curvou num sorriso.
– Vamos esperar que sim, mas enquanto isso, estou aqui para apoiá-la. Se você puder pedir que a sra. Harding prepare um quarto para mim… – Bernard gesticulou com a mão. – Eu sei, por direito, deveria ser a suíte máster, mas talvez seja um pouco cedo.
Ela experimentou uma onda de raiva diante da presunção dele.
– Cedo demais – retorquiu Eve. – O quarto de vovô ainda está como ele o deixou… – Ela parou, recompôs-se e falou mais calmamente: – Um dos quartos de hóspedes será preparado para você.
Eve ficou satisfeita pela desculpa de deixar seu primo, e apressou-se para consultar a governanta. A reação da sra. Harding diante da notícia da chegada de Bernard foi tipicamente franca.
– Então ele apareceu, não é? Este homem é como uma moeda sem valor.
– Ele é o amo desta casa, agora, sra. Harding – relembrou-a Eve gentilmente, ignorando a expressão desdenhosa da governanta. – Devo limpar o quarto de vovô para ele, mas não ainda.
– É claro que não ainda, srta. Eve! O amo ainda nem está em seu túmulo. Nós esvaziaremos o quarto completamente depois do funeral, senhorita, e faremos isso juntas. Esse não é um trabalho para uma jovem lady realizar sozinha.
– E – Eve mordiscou o lábio –, pode jantar conosco, sra. Harding? – Ela não podia explicar o desconforto que a ideia de ficar sozinha com Bernard lhe causava, mas a mulher mais velha assentiu imediatamente.
– É claro, senhorita, estarei na sala de estar no fim da tarde, também. Você não deve ser deixada sozinha com aquele homem.
– Oh, eu tenho certeza que nada…
– Não se pode ter certeza de nada com seu primo – retorquiu a sra. Harding com firmeza. – Ele significa problema, marque as minhas palavras. Apenas desejaria que o capitão estivesse aqui. Ele saberia como cuidar de você.
Eve forçou um sorriso. Quão facilmente os criados tinham aceitado Nick.
– Talvez nós tenhamos notícias dele amanhã.