Capítulo Seis

NÃO FOI até o dia do funeral de Sir Benjamin que eles ouviram falar de Nick, e quando isso aconteceu, a notícia foi devastadora. Evelina estava no salão matinal com seu primo, esperando por uma carruagem que os levaria à igreja de Makerham, quando Green anunciou que o pajem de capitão Wylder havia chegado e desejava falar com ela.

– Finalmente! – Eve deu um breve olhar apologético para seu primo, antes de se apressar para o grande salão, onde Richard Granby a esperava.

– Então – cumprimentou ela –, que notícias você tem de seu amo? – Eve ouviu passos na escada atrás de si, e experimentou um momento de irritação por seu primo tê-la seguido, mas este foi esquecido quando ela observou a expressão grave no rosto de Granby. – O que aconteceu? – perguntou em tom de voz veemente. – Conte-me.

– Houve um acidente, senhora.

Evelina o olhou fixamente. Bernard pôs um braço ao seu redor e guiou-a para uma poltrona.

– É melhor você se sentar, prima – murmurou ele.

Ela manteve os olhos fixos no pajem.

– Um acidente? Ele está muito machucado?

Granby movimentou-se desconfortavelmente, e Eve levou as mãos ao rosto quando uma ideia chocante passou por sua cabeça.

– Não…?

A mão de Bernard apertou seu ombro.

– Ele está morto? – perguntou ele de modo ríspido. – Fale de uma vez, homem.

– Sim, senhor.

Eve pôde apenas olhá-lo. O mundo girava, desequilibrando-se. Eve estava tendo dificuldade de pensar. Ouviu Bernard perguntando o que tinha acontecido, e tentou se concentrar na resposta de Granby.

– Afogado, caiu do barco no último sábado.

– Talvez tenha sobrevivido – sugeriu Bernard. – Não pode haver alguma esperança?

Granby meneou a cabeça.

– Não, senhor. Estavam em algum lugar além das Pedras de Nore, muito longe para que um homem ferido nadasse. Mas nós checamos as praias…

– Barco? – Eve franziu o cenho. – Mas ele foi para Hastings a negócios. O que Nick estava fazendo num barco?

Granby pareceu ainda mais desconfortável. Bernard deu um tapinha no ombro de Eve.

– Haverá tempo para tais perguntas mais tarde, minha querida. Por hora, acho que você deveria se deitar. – A suposição calma de autoridade deu a Eve uma força nova.

Impacientemente, ela lhe empurrou a mão de seu ombro.

– Não tenho a menor intenção de me deitar. Não estou doente, primo, e não ficarei histérica porque meu marido está… – Eve não conseguiu pronunciar a palavra. Sabia que sua compostura poderia desmoronar a qualquer momento, e não permitiria que isso acontecesse. Precisava permanecer forte. Respirou profundamente para se firmar. – Você deve ter cavalgado metade da noite para chegar aqui tão cedo, sr. Granby. Obrigada por isso. Sugiro que descanse agora.

– Sim, senhora. Lamento muito, sra. Wylder.

– Sra. Wylder – repetiu ela. – Ninguém me chama assim aqui. – Olhou para cima. – Mais uma coisa, sr. Granby. O corpo do meu marido…?

O pajem hesitou. Evitou-lhe os olhos quando murmurou:

– Perdido, senhora.

– Talvez ainda seja recuperado – sugeriu Bernard.

– A notícia foi espalhada ao longo da costa. – Granby assentiu com um gesto de cabeça. – Eles prometeram avisar se ele… for encontrado.

– Eles? – perguntou Bernard. – Quem seriam estes?

– Os conhecidos de negócios do amo.

Apesar da sensação de entorpecimento que se abateu sobre ela, Eve quase sorriu. O tom de voz arrogante do pajem, e o olhar que acompanhava suas palavras, diziam com muita clareza que os negócios de Nick Wylder eram um assunto pessoal, certamente não para serem compartilhados com Bernard Shawcross. Eve levantou-se.

– Conversaremos mais tarde, sr. Granby. – Ela se voltou para seu primo. – Talvez, você possa me escoltar até a carruagem, Bernard.

– Minha querida prima, isso não é necessário… realmente, não é comum… que mulheres estejam presentes num funeral. – Eve o olhou, e ele continuou gentilmente: – Eu não tenho dúvidas que você preferiria ir para seu quarto. Devo chamar sua criada para ajudá-la?

– Não, primo. Irei à igreja. Preciso estar ativa.

– Mas certamente…

Ela ergueu uma das mãos. Sua voz, quando falou, estava quase descontrolada:

– Eu gostaria, primo, que você parasse de tentar controlar a minha vida. Ficarei muito melhor se tiver a permissão de me manter ocupada. Por favor, deixe-me agir conforme a minha vontade nisso.

– Minha querida Evelina, eu sou o chefe da família agora…

Granby pigarreou.

– Perdão, Sir, mas a sra. Wylder é parte da família Darrington agora.

Eve sentiu uma onda de gratidão por Richard Granby. Bernard fez uma careta, mas quando abriu a boca para retorquir, ela falou antes:

– Sim, obrigada, sr. Granby. Isso é tudo, por enquanto. Você pode ir. – Eve pegou seu chapéu e desceu o véu sobre o rosto. – Primo, nossa carruagem está na frente da porta.

SIR BENJAMIN tinha sido uma figura importante em Makerham, e a pequena igreja do vilarejo estava repleta com aqueles que desejavam prestar seus últimos respeitos. A visão de Evelina em seu vestido preto largo, e inclinada pesadamente sobre um braço do primo fez mais de um paroquiano piscar contra as lágrimas. Quando o caixão foi carregado para fora da igreja, e a srta. Shawcross desmaiou, muitos disseram que era uma bênção ela ser poupada da visão do corpo de seu amado avô sendo consignado a terra. Martha acompanhou-a de volta a casa, e carregou-a parcialmente para o quarto, mas não foi até que sua criada a tivesse colocado na cama e partido que Eve se permitiu dar vazão à sua dor. Lágrimas queimaram seus olhos, e soluços incontroláveis sacudiam seu corpo enquanto ela chorava a perda de seu avô e de seu marido. Curvou-se em posição fetal e enterrou os dentes na mão fechada, para se impedir de gritar com raiva e sofrimento. A morte de Sir Benjamin já era esperada há muito tempo, mas a perda de Nick era insuportável. Ela não estava preparada para a agonia, e, de uma maneira estranha, sentia-se traída. Ele entrara em sua vida de repente, e Eve se apaixonara perdidamente. Confiara em Nick com seu coração, e agora ele havia ido, de maneira tão abrupta quanto chegara. Ela puxou as cobertas sobre a cabeça e permitiu que as lágrimas escorressem, chorando por seu avô, por Nick, por si mesma. Finalmente, quando a exaustão a dominou, Eve enterrou o rosto em seu travesseiro úmido, rezando para que as penas caras que forravam o travesseiro privassem seus pulmões de ar e a sufocassem.

Quando Eve acordou para um amanhecer acinzentado, seu primeiro pensamento consciente foi desapontamento. Desapontamento por ainda estar viva. O silêncio na casa lhe disse que era muito cedo. Afastou as cobertas e saiu da cama; havia uma sensação de peso em seus membros que tornava cada movimento um esforço. Quase se arrastando, andou até a janela e olhou para fora. O jardim estava cinzento e sem cor na meia-luz. Muito apropriado, pensou. Uma casa de luto. Cruzou os braços sobre o peito e tentou dar sentido à dor. Estivera preparada para perder seu avô; haviam se despedido, e Eve se sentia confortada pelo pensamento de que ele não estava mais sofrendo de dor ou de má saúde. Estava triste pela morte de seu avô, mas não desolada. Mas Nick… Nick, com seu sorriso deslumbrante e olhos azuis sorridentes. Entrara em seu mundo protegido e lhe dera um vislumbre de uma vida muito mais excitante. Ela o conhecera por pouco tempo, mas agora sentia tanta saudade que era como uma dor física em seu interior.

Olhou para o horizonte, onde um sol aguado estava subindo através das nuvens. Logo, a casa estaria acordada, e Martha chegaria com seu chocolate quente. A vida continuaria, e era esperado que ela cumprisse seus deveres. Com um suspiro, virou-se da janela. O dia se estendia infinitamente à sua frente. Eve não tinha ideia de como suportaria aquele sofrimento.

Seu conto de fadas havia se transformado num pesadelo.

– AH, PRIMA, aí está você.

Evelina adquiriu uma expressão neutra quando Bernard Shawcross entrou na sala matinal. Sorrir era impossível, mas ela não podia olhá-lo com raiva.

– Então, eu a encontrei sozinha, finalmente. – Ele riu baixinho. – Começava a pensar que você estava me evitando.

E com boa razão, pensou Eve. Em voz alta, disse:

– Tenho estado muito ocupada. Desde o funeral, recebi muitos visitantes que vieram oferecer condolências, então há todos os assuntos legais para cuidar, assim como as tarefas de casa a serem feitas…

– Pelo menos, com isso, posso ajudá-la – disse ele, sentando-se perto dela. – Afinal de contas, Makerham é minha casa agora, então posso remover essa preocupação de seus bonitos ombros.

Ela reprimiu um tremor.

– Makerham nunca foi uma preocupação, primo – replicou Eve friamente.

– Green me diz que você falou com seu advogado esta manhã. Há alguma notícia de seu marido?

Ela balançou a cabeça.

– Sr. Didcot pede cautela. Sem um… – Eve engoliu em seco. – Sem um co… corpo, ele não pode me pronunciar como viúva. Tanto ele quanto Granby me aconselham a ir para Yorkshire, a fim de me posicionar sob a proteção da família de meu marido.

– Yorkshire é um país selvagem, não civilizado, prima. Você não vai gostar de lá.

Ela arqueou as sobrancelhas.

– Você não pode dizer que York e Harrogate não são lugares civilizados. Realmente, Bernard, você é muito medieval, às vezes.

– Talvez, mas você sempre viveu no sul, sempre morou em Makerham. Nós somos os últimos membros da família Shawcross, prima. É apenas certo que eu queira cuidar de você.

Ele estendeu o braço enquanto falava, e pôs a mão no joelho dela. Eve congelou.

– Por favor, primo, sou uma mulher casada.

– Você é viúva, minha querida.

– Você tem muita certeza disso.

– Se fosse você, não alimentaria falsas esperanças. – A mão no seu joelho se apertou. – E agora que você experimentou o toque de um homem…

Ela teve um sobressalto.

– Por favor, pare. É muito cedo para tal conversa, Bernard! Por favor, com licença!

Ela se virou, mas ele estendeu o braço a capturou-a.

– Pense, Evelina. O que você sabe sobre a família de Wylder? Não deve ir para o norte. Estaria longe de tudo que sempre conheceu, sempre amou. Considere o que posso lhe oferecer. – Ele estava de pé atrás dela agora, a respiração soprando no seu pescoço. – Aquele seu marido era um demônio. Sabia disso? Achou que poderia reformá-lo? Impossível, minha cara; não se pode domar um tigre, somente enjaulá-lo. Se ele tivesse verdadeiramente mudado, como poderia tê-la deixado tão breve após seu casamento?

Eve balançou a cabeça.

– Não – protestou ela. – Eu não irei ouvi-lo!

– Mas você precisa me ouvir! Ele a enganou, Eve. Nunca a amou de verdade. Se a tivesse amado, não a teria deixado. Como algum homem poderia deixá-la? – Bernard puxou-a de volta para si e sussurrou no seu ouvido: – Você ama Makerham, e nunca deve abandonar este lugar. Pode ficar aqui, cuidar da casa como sempre cuidou. Nós iremos nos casar, é claro, assim que for possível, mas até lá, podemos ser… discretos.

Eve lutou contra o pânico crescente. O aperto dele em seus braços era como ferro, machucando-lhe a pele. Sabia que não poderia se libertar usando a força. Deveria permanecer calma, se quisesse escapar. Falou num tom de voz baixo:

– Por favor, primo. Isso tudo é tão, tão inesperado. Meus pensamentos estão em tumulto.

– É claro. Não deveria ter tocado nesse assunto por enquanto. – Eve sentiu os lábios dele em sua nuca. – Vá, minha querida. Conversaremos sobre isso mais tarde.

Eve forçou-se a sair da sala devagar, a coluna rígida de medo, como se houvesse um animal selvagem atrás dela, pronto para saltar. Assim que chegou ao corredor, ergueu as saias e correu para seu quarto, tentando bloquear a memória da boca de Bernard em sua pele.

EVE TROCOU de roupa, e na hora do jantar, obrigou-se a descer com alguma trepidação. Ficou aliviada ao encontrar apenas a governanta esperando-a.

– Sra. Harding, preciso ir embora de Makerham.

– Para longe do novo amo, você quer dizer.

A declaração direta fez Eve sorrir.

– As intenções dele são… basicamente… honráveis.

A sra. Harding deu uma risada zombeteira.

– Sim. Terá de se casar com você, se quiser conseguir Monkhurst.

– Perdão?

– Eu o ouvi falando com o advogado Didcot quando veio ler o testamento. – A governanta enrubesceu de leve. – Precisei apanhar um pouco de alecrim do arbusto do lado de fora da janela do estúdio, de modo que não pude evitar ouvir, senhorita. Ele questionou o sr. Didcot diretamente sobre quem ficaria com Monkhurst, agora que você estava casada. O sr. Didcot falou que obviamente não tinha a liberdade de discutir o acordo do casamento, mas podia dizer-lhe que Monkhurst ficaria para você e seus herdeiros. A menos que você morresse antes de ter filhos – continuou ela, as sobrancelhas unidas em concentração. – Então, é claro que a propriedade iria diretamente para seu marido. Parece que Bernard tinha a esperança que Monkhurst fosse revertido para a família, mas o advogado Didcot explicou-lhe que a propriedade pertencia à família de sua mãe, os Wingham, e nunca foi parte da herança.

– Por que ele quereria Monkhurst? A casa está fechada há anos, desde que mamãe morreu, na verdade.

A sra. Harding abriu as mãos.

– Talvez por ganância, srta. Eve. Ele quer tudo.

– Bem, não terá a casa de minha mãe – declarou Eve. – Assim como não me terá!

A sra. Harding levantou uma das mãos.

– Quieta agora, querida, ouço os passos dele no corredor. E você não precisa parecer tão ansiosa, pois não irei deixá-la sozinha com o homem.

A governanta cumpriu sua palavra, e após um jantar desconfortável, Eve pediu licença para se recolher em seus aposentos. Lá, certificou-se de que sua porta estava trancada seguramente. Foi para cama e deitou-se rigidamente debaixo das cobertas. Fazia pouco mais de uma semana que Eve mal dormia durante as noites, enquanto pensava em Nick Wylder, lembrava-se das conversas deles, revivia os momentos que tinham passado juntos. Desde a notícia da morte de Nick, quando todo seu ser ansiava pelo esquecimento do sono, este não vinha. Mas pelo menos agora, depois da súbita declaração de Bernard, Eve podia passar a longa noite de insônia fazendo planos.

CEDO, NO dia seguinte, Eve chamou Granby à sala matinal, e quando ele chegou, ela começou sem preâmbulos:

– Granby, estou indo embora de Makerham.

– Ah. Nós iremos para Yorkshire, senhora?

– Não. Planejo ir para Monkhurst.

– Monkhurst! Mas isso é impossível!

– É muito possível – replicou ela com firmeza. – O acordo de casamento é bastante claro; Monkhurst continua sendo minha propriedade.

– Certamente, seria melhor para você ficar sob a proteção da família do amo.

– Não. Por que deveria? Meu avô me deixou muito bem provida em seu testamento, e sr. Didcot me assegura que isso não será afetado pela minha… viuvez. Não dependo de ninguém, sr. Granby.

– É claro, senhora, mas…

– Estou decidida.

O pajem a olhou, seu semblante geralmente impassível traindo sua consternação.

– Eu lhe peço que reconsidere, senhora. Você mesma disse que a casa de Monkhurst não foi habitada pelos últimos dez anos! A propriedade pode… pode estar abandonada. Permita-me escoltá-la para Yorkshire. Você será muito bem-vinda lá, e…

– Agora, por que você parece tão horrorizado com o pensamento de Monkhurst? – perguntou ela. – É a minha propriedade, afinal de contas. Morei lá com meus pais pelos primeiros anos de minha vida. E quanto ao fato de a propriedade estar abandonada, isso não é verdade. Eu costumava ajudar vovô com as contas, e sei que ele ainda está pagando a governanta e o marido dela para cuidarem da casa. Eu me sentirei mais à vontade com pessoas que conheço, sob as circunstâncias atuais.

– É claro, senhora, mas certamente…

– Sim? – Havia um toque de impaciência na voz dela agora.

O pajem abaixou a cabeça.

– Desculpe-me, senhora, se acha que eu estou sendo intrometido, mas o amo quereria que você fosse para a família dele.

– Mas o amo não está aqui. – Eve não foi capaz de conter o tremor de sua voz.

– Não, senhora, mas…

– Basta, sr. Granby. Já tomei minha decisão. Uma vez que você retornou de Hastings na carruagem de viagem, gostaria de usá-la para ir a Monkhurst. Você pode usar o vagão de bagagens para levar as malas do capitão Wylder para Yorkshire. Irei lhe providenciar fundos suficientes para a jornada.

– Não, senhora.

– Perdão?

Granby inclinou a cabeça, o maxilar rígido evidenciando obstinação.

– Não posso deixá-la, sra. Wylder. O amo nunca me perdoaria. Quero dizer – ele acrescentou apressadamente –, se você vai a Monkhurst, então eu gostaria de acompanhá-la. Poderia lhe ser útil. Como um mensageiro, talvez, ou como um mordomo em Monkhurst.

– Um mordomo! Você entende alguma coisa desse tipo de serviço?

– Naveguei com o capitão por anos, senhora, e somente me tornei seu pajem quando ele deixou o mar. Sei muito mais do que vestir um cavalheiro, e não gosto da ideia de você e Martha viajando para tão longe sem um homem.

Eve estudou-lhe a postura firme.

– Confesso que seria um conforto ter um servo do sexo masculino comigo.

Uma expressão de alívio brilhou nos olhos de Granby. Ele fez uma reverência.

– Então está combinado, sra. Wylder. Irei arrumar a mala.

– Apresse-se, pois eu desejo estar longe daqui por volta do meio-dia.

NÃO ERA esperado que Bernard aceitasse a decisão de Eve calmamente, mas na presença da sra. Harding e dos criados, não podia discutir com muita veemência, e Eve foi cuidadosa para não lhe dar uma oportunidade de falar com ela a sós. Por volta do meio-dia, a carruagem estava carregada com a bagagem e pronta para partir.

– Creio que você irá encontrar a casa num estado bastante precário – avisou Bernard, enquanto a ajudava a entrar na carruagem.

– Talvez, mas enviei um mensageiro, quando o dia amanheceu, para avisar os criados de minha chegada.

– Enviou um mensageiro? Você planejou isso e nunca me disse uma palavra!

Após uma breve hesitação, ele lhe pegou a mão e curvou-se sobre esta.

– Muito bem, mas não posso gostar disso. – Bernard beijou-lhe os dedos. – Lembre-se, Evelina, você sempre será bem-vinda em Makerham.

Passava pouco do meio-dia quando Eve partiu de Makerham. Não ousou olhar para trás e ver a casa que tinha sido seu lar por tantos anos, nem para o terreno em volta da igreja, onde Sir Benjamin agora descansava. Em vez disso, manteve o olhar fixo em Granby, que cavalgava ao lado da carruagem. A cena a lembrou de sua primeira visão de Nick Wylder, quando ele viera cavalgando em sua direção no magnífico cavalo preto. A memória causou um nó em sua garganta. Ainda não podia acreditar que nunca mais veria Nick. Eve perguntou-se o que teria acontecido com Admiral, o cavalo. Deveria perguntar ao sr. Granby. Se o animal ainda estivesse em Hastings, então ele deveria ser trazido, mesmo que tivesse de ser vendido. Sim, o cavalo definitivamente teria de ser vendido, pensou ela, tentando ser prática. Mas não ainda. Não até que Eve estivesse estabelecida em sua nova vida.

O DIA se arrastou. Nem mesmo o pensamento de ver Monkhurst novamente, uma casa que Eve não visitava há uma década, não teve o poder de animá-la. A perda de seu avô não tinha sido inesperada, e embora ela sofresse por ele, era Nick quem preenchia seus pensamentos. Nick com seu sorriso encantador, e brilhantes olhos azuis, com sua energia e seu entusiasmo pela vida. Ela se lembrou da noite que eles haviam compartilhado uma simples noite que a transformara de menina em mulher. Nick a fizera se sentir viva, despertando-lhe emoções que ela jamais conhecera antes… e agora nunca mais conheceria. Eve fechou os olhos e virou a cabeça na direção da janela, de modo que Martha não visse suas lágrimas.

O progresso deles tinha sido lento através das estradas ao redor de Makerham, todavia, uma vez que chegaram a Guildford, as estradas melhoraram e o ritmo da viagem acelerou. Eve dera instruções para que seguissem o mais rapidamente possível, mas, embora suas paradas para trocar cavalos tivessem sido breves, e Eve descera apenas uma vez em Tenterden para uma refeição apressada, eram quase 22h quando chegaram ao seu destino. No momento que a carruagem parou diante dos portões fechados, Eve baixou a janela.

– Posso sentir o cheiro da brisa – murmurou ela. – Eu tinha esquecido como os ventos carregam o ar salgado para o interior.

– Não há luzes na casa – murmurou Martha, espiando para fora da janela em direção ao prédio sombreado, delineado contra o céu escuro. – Nós estamos trancadas do lado de fora.

– Bobagem – replicou Eve. – Há uma luz na janela da casinha da entrada. Sr. Granby está batendo à porta neste exato momento.

Alguns minutos depois, o pajem se aproximou da carruagem, seguido por uma figura larga e de passos lentos.

– Este é Silas Brattee, sra. Wylder, o responsável pela casinha da entrada. Ele diz que sua mensagem nunca chegou.

– Mas enviei o bilhete expresso, indicando urgência!

Granby deu de ombros.

– Descobrirei o que houve amanhã, senhora.

Eve gesticulou para que Granby desse alguns passos para o lado, e estudou o homem atrás dele.

– Você é o marido de Aggie, não é? – perguntou ela. – Não irá me reconhecer, pois estava no mar quando eu vivi aqui durante minha infância.

– Sim, eu estava, senhora. Fui para o mar na época que você nasceu, creio. Sua mãe estava morta quando voltei, mas Sir Benjamin manteve Aggie e eu aqui para cuidar do lugar. – Silas mudava o peso do corpo de um pé para o outro enquanto lhe falava. – Se nós soubéssemos que você viria, senhora, teríamos limpado e a arrumado a casa. Do jeito que está, o lugar não é adequado.

– Bem, terá de servir – respondeu Eve. – Destranque os portões, por favor.

– Vocês poderiam se hospedar em Mebbe the Bell, ou no Woolpack – sugeriu Silas esperançosamente.

– Isso fica apenas um quilômetro para trás, ou coisa assim – acrescentou Granby. – Eles terão quartos para a noite.

– Bobagem. Tomei precauções de trazer minhas próprias roupas de cama. Não levará mais que um momento para preparar camas para nós.

– Não, senhora – disse Silas. – Vocês ficariam muito mais confortáveis no vilarejo, acredite.

Eve o olhou através da escuridão.

– Estou começando a imaginar que talvez você tenha recebido minha mensagem, mas decidido ignorá-la – declarou ela. – Deixe-me entrar agora, sr. Brattee.

– A casa não tem sido habitada – Granby avisou-a. – Talvez esteja com muita umidade.

– Não me importo se o teto estiver caindo – retorquiu Eve. – Ficarei na minha casa esta noite.

Seu olhar feroz teve o efeito desejado. Granby assentiu e murmurou para Silas destrancar os portões.

– Bem – disse Eve quando a carruagem pegou o caminho coberto de grama e foi em direção à porta da frente –, este é um pobre começo.

– A sra. Brattee irá trazer café e comida para a casa mais tarde – disse Granby, enquanto ajudava Eve a descer. – Contudo, temo que você não ficará muito confortável.

– Estou tão exausta agora que acho que me sentirei contente contanto que estiver deitada – replicou ela, seguindo-o para dentro do hall de entrada escuro. Permaneceu parada ali por alguns momentos, removendo as luvas, enquanto o pajem se movia ao redor das paredes, acendendo velas. Quando o ambiente foi mais iluminado, o contorno de um grande salão pôde ser visto. Era mobiliado com uma mesa imensa, que preenchia o centro da sala, e diversas poltronas sólidas e cômodas pesadas encostadas contra as paredes.

Martha deu um suspiro audível.

– Ooh, senhorita, isto me lembra da última vez que estive aqui, quando sua santa mãe estava viva. Era uma garota na época, é claro, como você. Meu primeiro emprego fora de casa, mas eu me recordo de sua mãe dizendo como sempre ficava feliz em voltar para cá depois de suas viagens.

– Tenho certeza de que ela nunca veio para uma casa despreparada! – respondeu Eve com rispidez.

– Não, senhorita, mas ela não teria se preocupado com isso. Sua mãe era uma lady muito alegre, e uma pessoa que adorava aventura, que Deus a tenha.

– Bem, não quero nada mais do que uma vida tranquila! – Eve suspirou. – Vamos ver o que podemos fazer, Martha. Pegue uma vela e nós subiremos. Ficarei no quarto principal, e, se não me falha a memória, há um quarto adjacente para criadas. Peça que Dan Coachman suba com as malas, e nós procuraremos os lençóis.

– Você não irá arrumar camas, senhorita! – Martha estava chocada. – Rich… quero dizer, sr. Granby, pode me ajudar com isso.

– Bem, se acha que ficarei sentada sozinha aqui embaixo, como uma lady inútil enquanto você trabalha, está muito enganada – declarou Eve, divertida. – Tenho tanta capacidade quanto você de pôr lençóis numa cama… bem, quase… e faremos isso rapidamente. Sr. Granby será mais útil na cozinha, ajudando a sra. Brattee a preparar nossa ceia!

EVE SENTIU-SE grata pelo fato de o quarto principal ainda estar mobiliado, e depois que elas removeram os lençóis empoeirados, declarou-se muito satisfeita. Deu um grito de deleite ao encontrar o retrato de sua mãe escorado contra a pequena escrivaninha elegante, e imediatamente chamou Martha para ajudá-la a pendurá-lo no gancho vazio acima da lareira.

– Pronto – disse ela, trazendo as velas para mais perto. – Agora me sinto muito mais em casa.

– Sua mãe era muito bonita, srta. Eve – observou Martha. – E você se parece com ela.

– Pareço? – Eve olhou para a pintura. Viu uma mulher elegante num vestido dourado, parada muito ereta, com uma das mãos descansando sobre um grande atlas. Eve reconheceu algumas semelhanças… os cabelos escuros grossos e brilhantes, o pequeno nariz reto e a boca sorridente, mas havia uma segurança em sua mãe que Eve nunca sentira em si mesma: aqueles olhos escuros pareciam olhar para o mundo com tanta autoconfiança.

– Isto foi pintado um pouco antes do casamento dela – murmurou Eve. – Mesmo então, minha mãe ansiava para viajar ao redor do mundo, enquanto eu… sempre me contentei em viver sossegada em casa. Que desapontamento eu seria para ela. – Olhou para o retrato por mais alguns momentos, então balançou a cabeça, como se para se livrar de alguns pensamentos indesejados. – Tais reflexões não me farão bem! Abra estas malas e ache nossos lençóis, Martha. Devemos nos preparar para dormir.

Não havia cortinas em volta da cama, mas o colchão estava abaixo de sua cobertura protetora e não parecia úmido. Martha resmungou quando ela tirou os lençóis da mala, mas Eve queria estar ativa, pois isso a ajudava esquecer a infelicidade por um tempo.

Naquela noite, Eve sonhou que Nick ainda estava vivo. Naquelas horas escuras antes do amanhecer, quando os sonhos são mais vívidos, ela o viu claramente, ouviu-lhe a risada, e soube, no seu íntimo, que ele estava perto. O desapontamento, quando ela abriu os olhos e a memória retornou, a fez se sentir fisicamente enjoada. Eve olhou ao redor dos móveis não familiares, e experimentou um momento de pânico. Ali não era Makerham, nem era o lugar ensolarado e quente de seu sonho, o lugar onde Nick estava. Ela fechou os olhos de novo, tentando trazer o sonho de volta, mas era impossível. Tudo que restava era uma vaga felicidade lembrada, e Eve agarrou-se a esta, segurando-se em tal felicidade como um talismã, para ser tocado e reanimado quando as demandas do dia se tornassem árduas demais.

Enquanto descia a escada, pensou que Monkhurst parecia muito mais bem-vinda com o sol da manhã se infiltrando na casa. Encontrou a sra. Brattee esperando para escoltá-la ao pequeno salão, onde o café da manhã estava sobre a mesa para ela.

– Aggie! – Eve sorriu calorosamente para a governanta. – Sinto tanto por não ter visto você ontem à noite. Martha insistiu que eu jantasse em meu quarto, e para lhe dizer a verdade, no momento que acabamos de arrumar as camas, estava pronta para dormir! Você não mudou nada, entretanto, deve fazer dez anos desde que eu estive aqui pela última vez!

– Sim, isso mesmo – replicou Aggie, suas feições duras se suavizando um pouco. – E você é uma lady crescida agora – Sinto muito por ontem à noite, sra. Wylder. Se nós soubéssemos…

– Não tem problema. Nós logo deixaremos tudo confortável.

– Você está planejando ficar aqui?

Eve observou o olhar de horror no rosto da governanta, e teve um forte desejo de rir.

– Sim – respondeu ela, sentando-se à mesa do café da manhã. – Granby queria muito que eu fosse para Yorkshire, na casa do amo dele, mas prefiro ficar aqui, por enquanto.

– Mas a casa não é adequada para você, senhora. Está vazia há anos.

Eve deu um gole de seu café.

– Fiz uma rápida inspeção antes de descer. A casa está em condições muito melhores do que esperava. É difícil acreditar que o lugar não é ocupado há dez anos. Na verdade – Eve fixou os olhos na governanta –, um dos quartos… o que eu costumava conhecer como quarto azul… tem toda a aparência de ter sido usado recentemente.

– Bem, senhora, não posso imaginar como isso é possível – replicou a sra. Brattee, andando ao redor do salão.

– Não pode? Vovô sempre dizia que a família de mamãe tinha elos com pessoas do comércio livre. Pensei que talvez eles tivessem estado aqui.

Houve um barulho alto quando o prato que a governanta estivera segurando caiu no chão e espatifou-se. Eve arqueou as sobrancelhas.

– Oh? Estou certa, então?

– Não, senhora. Juro que contrabandistas não dormiram na casa! – declarou Aggie, parecendo muito alarmada.

– Quem, então? – perguntou Eve, gentilmente. – Acho que tenho o direito de saber quem esteve dormindo em minha casa. – Ela esperou, olhando intensamente para Aggie, que se movimentou com óbvio desconforto. – Conte-me – comandou.

– Não posso, senhora. Prometi que não falaria.

– Acho que você deve falar.

A mulher mais velha a olhou, indecisa, e Evelina tentou novamente.

– Vamos – insistiu ela com suavidade. – Diga-me quem foi.

A governanta torceu o avental entre as mãos.

– Foi o amo – declarou ela.

– Vovô? Mas ele não chega perto deste lugar há anos.

– Não, não, o amo jovem – replicou a sra. Brattee. – O capitão Wylder.