Capítulo Sete

EVELINA OLHOU fixamente para a governanta. Aggie começou a tremer e uniu as mãos, enterrando as unhas nas palmas numa tentativa de lutar contra o pânico.

– Quando foi isso?

– Mais ou menos uma semana atrás.

– Então você o viu antes que ele, antes que…

– Sim, senhora – Aggie assentiu. – Ele… ele veio aqui falar com Silas, disse que agora que estava casado com você, seria apropriado que ficasse em Monkhurst. Ele mostrou os papéis de casamento para que Silas o deixasse entrar. Meu marido não achou que haveria nenhum mal nisso…

Eve levantou-se num salto.

– Nenhum mal! Richard Granby sabia disso, e não me contou! Onde está Granby?

– Levou a velha carruagem para o vilarejo, senhora. Disse que iria buscar algumas provisões para mim, para nos suprir até que Silas possa me levar a Appledore no coche.

– Então irá ficar fora por horas. – Eve sentou-se novamente, as sobrancelhas unidas numa expressão pensativa. – Nick ficou aqui? – perguntou ela. – Mas por quê?

– Isso não sei dizer, senhora, mas Silas nunca negou nada ao capitão…

– Espere. – Evelina levou uma das mãos à cabeça, tentando dar sentido ao que estava ouvindo. – Meu marido… conhecia Silas?

– Sim, senhora. Navegaram juntos, anos atrás. Silas estava sempre falando sobre o capitão Wyldfire, e ficou feliz quando o capitão veio procurá-lo, mas não o deixaria entrar na casa, não até que tudo fosse legalizado, pelo menos.

– Você quer dizer que… que o capitão Wylder veio aqui antes de nós nos casarmos?

– Oh, sim, senhora. – Parecia que, agora que tinha feito sua confissão, a sra. Brattee estava contente em falar. – Ele esteve aqui na primavera. Silas ficou tão surpreso.

– Mas o que queria? – A expressão se fechou novamente no rosto da mulher mais velha, e Eve disse, com impaciência: – Você já começou a me contar, Aggie. Não acho que pode parar agora.

– Ele… ele queria saber sobre o comércio livre.

– Silas é… quero dizer… ele sabe sobre essas coisas?

A governanta deu-lhe um olhar compassivo.

– Não existe uma família por aqui que não saiba, senhorita.

– Mas não entendo. Por que Nick veio aqui?

– Isso eu não sei dizer, senhora. Ele ficou no vilarejo por uma semana ou mais, saiu com Silas e os meninos… Lembra-se dos meus filhos, Sam e Nathanial? Você não os reconheceria, estão homens agora. Ambos casados. Meu Nathanial tem gêmeos, e Sam tem um bebê a caminho.

Eve sorriu, lembrando.

– Nós costumávamos brincar juntos no pântano, não é? Sei que você nem sempre aprovou o fato de eu acompanhar as brincadeiras loucas dos meninos, mas mamãe não se importava, e nós éramos tão jovens. Tudo mudou quando eu fui enviada para a escola.

– Você precisava aprender coisas para ser uma lady, senhorita Eve.

– Suponho que sim. – Eve suspirou. – Mas nós desviamos do assunto principal. Você estava me contando sobre a visita do capitão Wylder.

– Ah, sim. Como estava dizendo, Silas tem um barco a remo no pântano, sabe, e o capitão Nick saiu com eles…

– Espere, espere! – Eve interrompeu mais uma vez. – Está dizendo que o capitão Wylder os ajudou a contrabandear mercadorias para dentro do país?

– Silas prefere chamar isso de mercado livre – disse a sra. Brattee, afrontada. – Trazem alguns barris de bebida alcoólica, às vezes, um pouco de renda de Bruxelas… não é como se alguém da região tivesse condições de comprar as mercadorias, se tivessem de pagar os impostos, de modo que isso não prejudica ninguém.

Evelina percebeu que seria inútil argumentar contra aquilo, então se concentrou na sua maior ansiedade.

– Mas por que Nick? Que interesse tinha nesse tipo de coisa?

– Muitos marinheiros se voltam para o mercado livre a fim de reparar suas fortunas, senhora.

Eve balançou a cabeça.

– Nick Wylder não precisava de dinheiro. Sei disso porque vovô discutiu o acordo de casamento comigo. Meu marido não somente possuía propriedades, como uma grande quantidade de dinheiro investida nos Fundos. Então, por que ele viria para Monkhurst?

– O capitão estava muito interessado na casa, mas Silas foi inflexível. Exceto as visitas ocasionais de seu avô, Monkhurst ficou fechada desde que seus pais faleceram. – Aggie deu um suspiro alto. – Silas era muito apegado à sua mãe. Ela era a “queridinha” de Silas, então ele não ia deixar ninguém entrar na casa dela. Mesmo quando seu primo, sr. Bernard Shawcross, esteve aqui alguns anos atrás, Silas o mandou embora, dizendo que tinha ordens de seu avô para fechar a casa, e fechada ela permaneceu. – Aggie bufou. – E seu primo não aceitou a negação tão bem quanto o capitão Wyldfire. Ficou furioso com Silas; disse que era da família e tinha o direito de entrar, mas Silas falou que, se este fosse o caso, deveria ir pedir permissão para seu avô.

– Sim, mas e quanto ao capitão Wylder? – incentivou Eve, gentilmente.

– O capitão foi embora. De volta para Londres, nós pensamos. Então, de repente, ele volta e nos diz que está casado… e com a nossa srta. Shawcross!

– Mas por que não me contou que esteve em Monkhurst, ou que ia voltar para cá?

A expressão confusa da governanta era genuína, e Eve decidiu não a pressionar mais. Todavia, a questão continuava em sua cabeça. Ela brincou com a aliança de ouro no dedo, girando-a e girando-a, enquanto uma resposta se alojava em seu cérebro. Nick não confiara nela.

Somente porque não me conhecia, disse a si mesma com fervor. Com o tempo, ele teria aprendido a confiar em mim. Se apenas… Um pequeno grito de frustração escapou de sua garganta. Ela bateu uma mão fechada na palma.

– Oh, odeio aquele homem! – exclamou. – Como ele pôde fazer isso comigo? Eu o odeio, eu o odeio!

Lágrimas se acumularam nos seus olhos, mas Eve lutou para contê-las. Seria forte. E descobriria tudo sobre aquele mistério.

CONTUDO, UMA conversa com Silas se provou ainda menos gratificante, pois o velho homem meramente meneou a cabeça, dizendo que não tinha ideia do motivo pelo qual o capitão Nick fora procurá-lo lá.

– Você o levou para sair em seu barco quando ele esteve aqui na primavera – acrescentou ela rapidamente. – Vamos lá, Silas, eu sei tudo sobre suas… atividades.

– O capitão não está preocupado com as bugigangas que nós trazemos – disse ele. – Ele está atrás de peixe grande, disso eu sei. Mas ficou impressionado com o barco que usamos para entrar e sair do mar. Um barco rápido na água. Meu irmão Ephraim tem outro desses em Dimchurch, contei ao capitão como nós costumávamos remar para atravessar para Boulogne nos velhos tempos. Porém, hoje, quando chega uma remessa, nós pegamos o veleiro na praia e trazemos o que precisamos através de Jury’s Cut.

– O que você faz ainda é ilegal, Silas, e eu não posso aceitar isso. – Ela o olhou com firmeza. – Deve me prometer que vai desistir do mercado livre, Silas. Eu encontrarei trabalho para você, e para Nat e Samuel, entretanto não deve mais participar desse tipo de contrabando.

Não era esperado que Silas concordasse imediatamente, mas Eve foi inflexível, e, por fim, arrancou-lhe uma promessa de que pararia com suas atividades ilegais. Satisfeita em relação a isso, Eve pôde mais uma vez se concentrar em descobrir por que Nick havia ido para Monkhurst.

– O que o capitão Wylder queria aqui, Silas? Quanto tempo ficou na casa?

– Não mais do que duas noites. Nós pegamos um pequeno barco em Monkhurst Drain, srta. Eve, que segue para Jury’s Cut e o mar, e mostrei o ancoradouro ao capitão, mas não é usado há anos. – Silas girou seu chapéu nas mãos, e olhou para Eve com ansiedade. – Eu não achei que havia algum mal nisso, conhecendo o capitão, e sabendo que agora era da família…

– E você confiava nele, Silas? – perguntou ela, saudosamente.

– Com a minha vida, senhora. O capitão sabia que eu o seguiria para qualquer lugar – terminou ele com orgulho. – Quando nós estávamos lutando contra os rebeldes na Guerra Americana, ele não se sentia mais feliz do que quando causava confusão. Imprevisível, como seu apelido, Wyldfire. Estava aqui num minuto, e no minuto seguinte, tinha ido para Hastings. – Silas franziu o cenho, balançando a cabeça. – A perda dele foi uma pena, que Deus o tenha.

Não havia mais nada a ser descoberto através do velho homem. Evelina o dispensou, mas o problema continuou girando em sua mente durante toda a manhã, enquanto ela trabalhava na casa, tentando decidir o que era necessário para torná-la um lar confortável. O sol do início da manhã tinha dado lugar a nuvens pesadas, e um vento de tempestade assobiava através das passagens, sinalizando uma mudança do clima seco e ensolarado das últimas semanas.

ERA MEIO-DIA antes que Eve ouvisse os sons da carruagem retornando. Uma olhada para fora da janela mostrou-lhe que chovia forte, e ela sentiu uma pequena satisfação ao ver que Granby não levara uma capa de chuva, e estava ensopado. Apressou-se para a cozinha, e encontrou o pajem se secando diante do fogão à lenha. Não dando atenção à sra. Brattee, que estava ocupada desempacotando as compras que Granby lhe fizera, Eve foi direto ao ataque:

– Por que você não me contou que meu marido se hospedou aqui?

Granby virou-se, e ela viu um brilho de surpresa nos olhos dele, antes que ele vestisse sua usual máscara inescrutável.

– Achei que isso poderia aborrecê-la, senhora.

– Estou mais aborrecida por pensar que você mentiu para mim. O que mais me omitiu? – demandou ela. – O que o capitão Wylder estava fazendo aqui?

– Acredito que ele quisesse renovar seu contato com sr. Brattee e a família dele – disse Granby, suavemente.

– Mas ele já tinha feito isso. Visitou Silas antes de ir procurar vovô em Tunbridge.

O pajem baixou a cabeça.

– Se você diz, senhora.

Eve o estudou com atenção.

– O capitão Wylder me disse que tinha negócios em Sussex.

O pajem inclinou a cabeça.

– Isso é verdade, senhora. O amo ficou aqui por apenas duas noites antes de ir para Hastings.

– E esses… negócios envolviam contrabando?

Granby pareceu chocado.

– Os conhecidos do capitão Wylder em Hastings são pessoas muito respeitáveis, senhora.

– Espero que sim, sr. Granby.

Ele deu um pequeno sorriso, e abriu as mãos no ar.

– Você tem a minha palavra quanto a isso, sra. Wylder.

– Preciso mais do que isso.

– Senhora?

Eve pôs as mãos nos quadris e encarou-o.

– Vá e vista roupas secas, sr. Granby. E peça a minha carruagem. Nós iremos para Hastings.

O sorriso de Granby desapareceu.

– Hastings! Agora?

– Sim, agora. Assim que arrumarmos as malas.

– Mas, senhora, não há a menor necessidade…

– Há toda necessidade – interrompeu ela. – Estou ansiosa para saber que não sou a viúva de um vilão comum!

– Sra. Wylder, eu lhe suplico, pelo menos adie sua jornada até que esta tempestade diminua.

RICHARD GRANBY estava parado ao lado de Eve, diante da porta da frente aberta, olhando, com desespero, para a chuva que batia na casa, enquanto o cocheiro guardava as malas deles na carruagem, água escorrendo do brim de seu chapéu e de seu casaco.

– Estou determinada a chegar a Hastings hoje – retorquiu ela. – Você pode ir dentro da carruagem com Martha e eu, se não quiser ficar ensopado.

O pajem declinou a oferta, e andou para o lado do cocheiro Dan.

– Está com medo que eu o interrogue mais – observou Eve alegremente, enquanto subia na carruagem.

Sua criada torceu o nariz e acomodou-se ao seu lado.

– Sr. Granby estava apenas tentando poupá-la de preocupação desnecessária, srta. Eve.

– Foi isso que ele lhe falou, Martha?

– Não, senhora, mas eu sei que é um homem bom.

– Ele é? – Eve olhou para sua criada com atenção. – Você parece ter uma amizade incomum com Richard Granby.

Martha enrubesceu, mas falou de maneira tensa:

– Considerando a posição dele e a minha, é natural que nós conversemos.

Eve parou de provocá-la.

– É claro que é – disse ela, voltando a mente para suas próprias preocupações. – E se o sr. Granby lhe falou alguma coisa que diz respeito à morte de meu marido, eu gostaria que você me contasse, Martha. Eu não sossegarei até que saiba que tipo de negócios levou meu marido embora de Makerham de maneira tão apressada. Espero que encontremos algumas respostas em Hastings. – Ela se inclinou contra o assento almofadado. – E confesso que quero ver onde Nick passou seus últimos dias – murmurou para si mesma.

O VENTO uivava ao redor deles, balançando a carruagem, enquanto a chuva pesada batia no teto e contra as janelas. O ritmo era necessariamente lento. A tempestade piorou quando se aproximaram da costa, e foi um alívio atravessar o vilarejo de Rye, pois, embora o pavimento de pedras redondas fizesse a carruagem chacoalhar até que os dentes de Eve estivessem batendo uns contra os outros, pelo menos as casas lhes ofereciam algum abrigo dos ventos fortes. A carruagem parou e Eve inclinou-se para a frente, a fim de espiar pela janela. Um homem montado num cavalo tinha parado ao lado deles e estava gritando alguma coisa para o cocheiro. Eve abaixou o vidro.

– O que foi? Algum problema?

O cavaleiro virou-se para olhá-la, tocando a mão no chapéu ensopado.

– Sim, senhora. A estrada Winchelsea está fechada. Quiseram aproveitar o clima seco para consertá-la, mas os tolos não começaram o trabalho até ontem. Agora, a margem de grama está muito molhada para suportar o peso de uma carruagem, e só há espaço para um cavalo passar apertado.

– Existe outra rota? – perguntou Eve.

O homem assentiu.

– Sim, vocês podem ir via Broad Oak Cross, e então para o sul através de Battle.

Granby inclinou-se para baixo, de onde estava ao lado do cocheiro, meneando a cabeça para ela.

– Esta é uma longa jornada, sra. Wylder. Dan diz que deve proceder devagar, se quisermos conquistar os ventos fortes e a estrada aberta.

– Então é isso que devemos fazer – disse Eve de forma decidida. – Diga-lhe para continuar!

– Muito bem, senhora.

Martha torceu o nariz.

– O pobre homem provavelmente vai ficar doente e morrer, sentado na boleia com esse tempo.

– Muito provável – replicou Eve, sem se abalar.

– Nós devíamos voltar – disse sua criada franca. – Nada bom pode resultar disso, srta. Eve, marque minhas palavras. Para que você quer fazer toda essa viagem até Hastings? E se ouvir coisas que não queria saber sobre o amo?

Eve não respondeu. Martha tinha vociferado o medo que a vinha perturbando, de que Nick estivera envolvido em alguma atividade abominável, mas não adiantava. Precisava saber a verdade, por pior que fosse. Além disso, por mais ilógico que parecesse, queria visitar o lugar onde morrera. Para dizer adeus. As lágrimas preencheram seus olhos novamente e Eve piscou para reprimi-las, furiosa consigo mesma. Por que sentia tanta dor por um homem que conhecera por menos de um mês? Todavia, a atração entre eles havia sido tão forte que Eve não pudera resistir. Nick ainda perseguia seus sonhos. Ele entrara em seu coração de maneira tão efetiva que agora a perda dele ameaçava parti-lo.

– Você é uma tola, Evelina – ela falou para si mesma, zangada. – Permitiu-se acreditar que vovô lhe trouxe um cavaleiro em armadura brilhante!

A parada repentina da carruagem a tirou de seus pensamentos deprimentes.

– Oh, céus, o que foi agora? – perguntou Martha.

A carruagem balançou quando alguém desceu da parte da frente, e Eve pressionou o nariz na janela, tentando ver do lado de fora. Era impossível; do lado de dentro, o vidro estava embaçado pela sua respiração, e do lado de fora, os pingos de chuva distorciam a vista. Ela abriu a janela, e imediatamente a chuva bateu no seu rosto. Havia outra carruagem parada na frente deles, e Granby estava conversando com o condutor, a mão em cima do chapéu, a fim de impedir que o vento o levasse embora.

– Há algum tipo de impedimento – Eve falou para sua criada, fechando a janela mais uma vez. – Granby está verificando o que é agora.

Momentos depois, o pajem abriu a porta. Embora estivesse de pé, na lateral mais abrigada da carruagem, o vento forte ameaçou arrancar a porta da carruagem de suas mãos.

– A estrada está debaixo d’água, senhora. Um bueiro caiu. Uma carruagem já tentou passar e quebrou um eixo. Ninguém se feriu – ele se apressou em assegurá-las. – Mas nós devemos voltar.

Relutantemente, Eve concordou. Olhou para a chuva além dele, ainda caindo sem parar. O pensamento de passar mais algumas horas retornando para Monkhurst não era agradável.

– Muito bem, Granby. Diga a Dan para nos levar ao vilarejo mais próximo. Iremos passar a noite lá.

E QUANDO entraram em Udimore, Eve deu uma olhada na hospedaria decadente, e mudou de ideia no ato. Ordenou que Dan os levasse de volta para Rye.

– O que vi das criadas maltratadas e proprietários asquerosos me convenceu de que não ficaríamos confortáveis lá – disse ela enquanto se acomodava no banco da carruagem com sua criada mais uma vez. – Granby me disse que nós passamos por diversas hospedarias de aparência boa em Rye. Ficaremos melhor lá.

– Espero que sim, senhora – replicou Martha numa voz fraca. – Sinto que se eu não sair logo dessa carruagem sacudindo, eu terei de lhe pedir seus sais para cheirar!

Eve riu.

– Então eu teria de desapontá-la, Martha, pois eu não carrego algo assim!

– Nesse caso, ainda bem que pus um frasco de magnésia em sua frasqueira! Com sua permissão, srta. Eve, tomarei um pouco, assim que puder pôr as mãos no frasco.

– Eu a aconselharia a fazer uma caminhada e tomar um pouco de ar fresco – replicou Eve –, mas, como você quiser.

Ela olhou pela janela. A chuva tinha diminuído um pouco, e, olhando para cima, Eve viu a torre da igreja de Rye, segura em seu morro, um contorno preto contra o céu tenebroso. O barulho de cascos de cavalo nas pedras lisas a informou que eles haviam chegado à cidade, e ela experimentou alguns momentos de ansiedade quando parou diante de George, apenas para descobrir que todos os quartos da hospedaria estavam ocupados. Todavia, minutos depois, a carruagem entrou no pátio de Mermaid, outra estalagem movimentada, e Granby estava segurando a porta para que ela descesse. Evelina teve a impressão de uma construção de alvenaria cercando o pátio, enquanto se apressava para a entrada. Foi imediatamente conduzida para um pequeno salão particular, repleto de objetos de latão e móveis brilhando.

– Isto é muito mais adequado! – exclamou ela. – Um cômodo limpo e quente, e cheiros deliciosos vindos da cozinha. Juro que estou faminta. Granby irá pedir jantar para nós assim que possível.

Sua criada gemeu.

– Eu me sinto totalmente enjoada, senhorita.

– Pobre Martha. Sente-se, então, e descanse até que o dono da hospedaria nos traga café. Ou devo pedir que ele traga chá?

– Como você desejar, senhorita. Eu não quero nada mais do que ficar sentada quieta por um tempo.

– Então faça isso. Granby está organizando os quartos para nós, e providenciando para que nossas malas sejam levadas para cima. Nunca percebi antes como é útil ter um homem para realizar esse tipo de tarefa. Talvez eu o mantenha, afinal de contas, como meu mordomo. – Uma olhada para a figura pálida sentada ao lado do fogo mostrou-lhe que Martha não estava ouvindo, então Eve ocupou-se em deixar ambas confortáveis. Ajudou sua criada a remover chapéu e casaco e colocou-os, juntamente com os seus, sobre uma cadeira. Uma criada de faces rosadas levou seu café, pedindo desculpas pela demora.

– Nós tivemos muito movimento, com a tempestade e tudo mais. Todas as mesas estão ocupadas. – Ela olhou ao redor, sorrindo e fazendo uma reverência. – Vocês tiveram sorte de conseguir este salão, senhora. Ficarão confortáveis o bastante aqui.

Quando a criada saiu, Martha abriu um olho.

– Não vai se sentar, senhorita? Deve estar exausta, depois de toda essa viagem…

– Nem um pouco! Não gostei de ser sacudida ao longo da estrada, porém estou mais excitada do que cansada. Você sabe quão pouco viajei. Minha última jornada foi para Tunbridge com vovô, dois anos atrás, e o trajeto foi tão lento que acho que teríamos chegado mais depressa se tivéssemos ido a pé! – Ela foi para a janela e olhou para fora. – Se pelo menos parasse de chover, nós poderíamos sair para uma caminhada e ver a cidade.

Sua criada gemeu novamente, e Eve virou-se para ela.

– Pobre Martha, aqui estou eu, tagarelando alegremente, quando você está se sentindo tão mal. Está mesmo pálida, pobrezinha. Talvez um pouco de magnésia acalme seu estômago. Pergunto-me onde Granby pode estar. Deve ter levado a frasqueira para meu quarto. Bem, talvez o dono possa me mostrar o caminho.

Eve foi para a porta e olhou para fora. O corredor estava muito movimentado e, através da porta oposta, podia ver a taverna repleta de homens tomando cerveja e fumando cachimbo, enquanto se abrigavam da chuva. À sua direita, estava um cenário muito mais ordenado, pois o corredor se abria para uma cafeteria, onde viajantes estavam sentados a pequenas mesas e eram servidos de refrescos por garçons que pareciam mal-humorados. Não havia sinal do dono da hospedaria ou da criada alegre. Sem desanimar, Eve foi à procura de seu anfitrião. O prédio antigo era grande e irregular e, por um momento, não pôde decidir qual era o melhor caminho a pegar. Tinha visto diversas pessoas usando uma porta nos fundos da cafeteria, e supunha que esta levaria a um corredor interno, onde poderia encontrar uma camareira gentil que a levasse ao andar superior. Eve atravessou a cafeteria rapidamente, tentando evitar os olhares curiosos dos clientes. Manteve os olhos fixos na porta, estendendo a mão enquanto se aproximava. A porta vaivém se abriu facilmente, e ela avistou Granby no corredor mais adiante, conversando com um grupo de homens de aparência grosseira. Em sua pressa, não viu o pequeno degrau para descer, e tropeçou, perdendo o equilíbrio, e colidindo com o homem mais perto da porta.

– Oh, perdão – murmurou ela quando braços fortes se estenderam para firmá-la. – Eu…

Suas palavras morreram na garganta quando olhou para cima e se encontrou diante do rosto muito familiar de Nick Wylder.