Capítulo Oito

O AR de Evelina ficou preso na garganta, e por um instante, ela pensou que pudesse desmaiar. O olhar de surpresa no rosto de Nick deu lugar ao humor irônico. Os cantos da boca dele se curvaram num sorriso.

– Oh, Deus – murmurou ele. – Isso não era para acontecer.

Eve recuperou seu equilíbrio e afastou-se dele. Alguma coisa estava errada. Aquele era seu marido, mas não era o homem elegante com quem ela se casara. A camisa branca impecável e a sobrecasaca feita sob medida tinham sido substituídas por um casaco de lã surrado e uma camisa colorida, e os cabelos pretos não estavam mais confinados por uma fita, e um cacho sedoso lhe caía de maneira desalinhada sobre os olhos. O sangue estava pulsando nos ouvidos de Eve, enquanto ela tentava dar sentido à situação.

– Você está vivo – Ela não podia tirar os olhos do rosto dele. – Mas como, por que…

Um dos outros homens balançou a cabeça e disse em tom de aviso:

– Capitão…

Nick levantou uma das mãos.

– Não posso explicar agora, querida, mas você não deve ser vista comigo. Richard a levará para seu quarto.

– Não… eu…

Nick aproximou-se e segurou-lhe os braços.

– Explicarei tudo mais tarde. – Ele a sacudiu de leve. – Volte a entrar, Eve. Você deve agir como se não tivesse me visto, entende?

Eve engoliu em seco. Não entendia nada e queria discutir.

– Eve. – Ele lhe prendeu os olhos. – Preciso que você faça isso por mim.

– Você… irá até mim? – sussurrou ela, as mãos ainda agarrando-lhe o casaco.

– Você tem a minha palavra. – Nick a olhou, então, num movimento súbito, puxou-a para si e beijou-lhe os lábios uma vez, com força. – Irei ao seu quarto, muito em breve. Agora vá. – Ele a virou de si e deu-lhe um pequeno empurrão.

Richard Granby pegou-lhe o braço e a conduziu de volta para o salão particular. Havia tantos pensamentos em sua cabeça que, desta vez, ela não notou as pessoas que jantavam na cafeteria ou as risadas estridentes quando eles passaram pela taverna. Granby a impulsionou para dentro do salão privado. Martha, que estivera dormindo na poltrona, emitiu um grito e levantou-se.

– Pelo amor de Deus, Richard, o que você fez com ela?

Granby guiou Eve para uma cadeira e gentilmente ajudou-a a se sentar.

– Ela teve um choque. Você pode ir buscar um copo de vinho?

Eve ergueu uma das mãos.

– Não – disse ela com voz trêmula. – Eu não quero nada. Só quero saber o que está acontecendo.

– Isso será explicado mais tarde, senhora. Por enquanto, você deve permanecer aqui e não falar nada.

– Não posso contar para Martha?

– Contar-me o quê? – demandou sua criada, parecendo confusa.

Granby deu-lhe um sorriso tranquilizador.

– Oh, acho que não haverá problema, contanto que isso não se espalhe. Eu retornarei em breve para levar vocês aos seus quartos.

Ele fez uma reverência no seu usual estilo vagaroso, deixando Martha quase irritada com impaciência.

– O que houve, srta. Eve? O que você vai me contar?

Eve olhou para o rosto ansioso de Martha.

– Acabei de ver o capitão Wylder. Ele está vivo.

Enquanto a reação de Eve tinha sido controlada, a de Martha foi barulhenta. Ela gritou e voltou a se sentar na poltrona, batendo os pés no chão. Foi uma infelicidade que a criada da taverna escolheu aquele momento para entrar com um bule de café quente. Recordando-se das palavras de Nick, Eve sabia que era imperativo que Martha não contasse o segredo, então imediatamente segurou-lhe os ombros e a sacudiu.

– Pare com isto neste instante! – Seu tratamento brusco teve efeito; Martha parou de gritar e começou a soluçar ruidosamente. Eve dispensou a criada de olhos arregalados e esperou pacientemente até que Martha parasse de chorar e enxugasse os olhos. Com apenas alguns soluços ocasionais, ela se desculpou pela explosão, e em tom de voz baixo pediu que Eve lhe contasse tudo. Eve fez isso, mas descobriu que relatar seu encontro com Nick apenas aumentava sua frustração, uma vez que Martha fazia perguntas que ela não podia responder.

Eve não queria nada mais do que se sentar em silêncio e analisar seus sentimentos. O choque inicial de encontrar-se face a face com seu marido tinha se seguido de uma onda de euforia, mas esta havia sido substituída quase imediatamente por consternação. Por que Nick quisera que ela acreditasse que ele estava morto? Respostas lhe vinham à mente, mas nenhuma era satisfatória, e a maioria parecia muito dolorosa para contemplar, então ela resolutamente as reprimiu, determinada a parecer calma e esperar a explicação de Nick. A reação de Martha à notícia era muito mais simples. O amo estava vivo, e ela se sentia feliz por isso. Eve desejou que pudesse ser tão facilmente satisfeita. Ficou aliviada quando Granby finalmente entrou na sala e anunciou que o dono da hospedaria estava esperando para escoltá-las até o quarto.

– É o nosso melhor apartamento, senhora – falou o anfitrião delas enquanto liderava o caminho através de um corredor curvilíneo e escada acima. – Dizem que a boa rainha Bess dormiu lá. Tenho certeza de que vocês irão achar o quarto muito confortável. – No final de um corredor escurecido, ele abriu uma porta e deu um passo atrás para que elas entrassem. – Aqui está. Não é um belo apartamento?

Eve tinha de concordar. Era um quarto grande e quadrado, com teto de gesso ornado e painéis de madeira ricamente entalhados em todas as paredes. Velas brilhavam dos castiçais presos às paredes, iluminando as cortinas vermelhas e douradas que decoravam a cama imensa, e combinando com as cortinas das janelas, que bloqueavam a visão do céu chuvoso do lado de fora. Uma grande cômoda e um sofá coberto de um tecido cor de vinho ocupavam o canto mais afastado da cama, e os únicos móveis eram duas cadeiras e uma pequena mesa posicionada diante da lareira de pedra, onde um fogo agradável queimava. A mesa já estava posta, e para duas pessoas. Eve olhou para o proprietário. Ele lhe sorriu e deu um tapinha no nariz.

– Sr. Granby sugeriu uma refeição leve, de modo que você não precise de servos interrompendo-a. Há carnes, pães, tortas, frutas… tudo que poderia desejar. – Ele apontou para uma pequena porta no canto do quarto. – Aquela é uma escada privada, senhora, que leva ao quarto de sua criada e ao hall dos fundos, de modo que até mesmo ela pode ir para a cozinha jantar e voltar sem perturbá-la. – Ele lhe deu uma piscadela sugestiva, e o rosto de Eve esquentou.

– Obrigada.

Com mais um sorriso alegre, o proprietário da hospedaria fez uma reverência, saiu e fechou a porta silenciosamente. Martha já estava andando ao redor, inspecionando as acomodações.

– Muito confortável, srta. Eve. Tudo exatamente como deveria ser. E muito limpo, sem um milímetro de pó. Devo desfazer sua mala? Parece tanto trabalho para uma única noite.

– Sim. Não. Isto é, não. – Eve tentou pensar em assuntos práticos, mas seu cérebro não queria funcionar.

– Então irei tirar sua camisola.

– Não! Não, deixe a camisola onde está, Martha. Vá, agora. Chamarei se precisar de você novamente. Oh, Martha. – Ela removeu um pequeno frasco de sua frasqueira e entregou para sua criada. – Você acabou não tomando magnésia.

– Não, senhorita, tomarei agora, se não se importa. Obrigada. Isto é, se você não precisa da magnésia para si mesma?

Eve olhou na direção da mesa, onde um decantador e dois cálices estavam prontos para a refeição que chegaria. Sentia necessidade de alguma coisa mais do que remédio.

– Não, mas você pode me servir um cálice de vinho antes de ir.

Eve observou a criada servir uma taça de vinho tinto, antes de ir para o próprio quarto. A pequena porta de conexão se fechou com um clique, e Eve estava sozinha. Mas não era a paz do quarto antigo que a envolvia. Era pura fúria.

– Eu não irei vê-lo! – exclamou ela em voz alta. – Ele me tratou de maneira abominável. Eu não irei vê-lo.

Andou para a porta principal, trancou-a com a chave, e depois passou o trinco. Então deu um suspiro longo e profundo. Pronto, estava feito. Lentamente, removeu seu casaco de pele, dobrou-o e colocou-o sobre a mala, antes de retornar à mesa e pegar seu cálice de vinho. A tempestade tinha passado, e o silêncio reinava no quarto. Nenhum barulho do andar de baixo se infiltrava no cômodo, e o ar parecia calmo e tranquilo, em total contraste com seus próprios nervos, os quais estavam à flor da pele. Nick que batesse à porta. Ele poderia martelar a porta, e ela não o deixaria entrar. Eve parou no meio do quarto, olhando para a porta, tentando ouvir o mais suave barulho. Pegando seu vinho, censurou-se silenciosamente por sua ansiedade. Ninguém poderia surpreendê-la, o quarto estava seguro. Não estava? O raspar de madeira em madeira a fez girar a tempo de ver um dos painéis ao lado da lareira se abrindo, e Nick Wylder entrando no quarto. Ele ainda usava o casaco de lã, mas em vez da camisa colorida, agora usava uma branca, presa com um laço branco no pescoço, enquanto uma faixa preta na nuca confinava os cabelos negros e brilhantes como uma ave de rapina. A calça larga de marinheiro e os sapatos gastos tinham sido substituídos por calça de camurça e botas altas. Com a calda do casaco balançando ao redor dele, ocorreu a Eve que ele parecia um perfeito pirata. Nick gesticulou em direção ao painel.

– A escada sobe diretamente da rua. Não precisa ficar alarmada; tranquei a porta ao pé da escada; ninguém mais pode vir por este caminho.

Nick mantinha uma postura ereta, os pés levemente separados, as mãos nas laterais do corpo, enquanto a observava. Como um gato, pensou. Alerta, cauteloso. O coração de Eve tinha parado de bater por um segundo, mas agora estava disparado contra as costelas. Não sabia se ria ou chorava, se estava agradecida ou furiosa.

– Você não se afogou – disse ela finalmente.

– Não, querida, sinto muito por não ter estado lá para ajudá-la quando Sir Benjamin faleceu.

– Você mentiu para mim.

– Evelina, eu…

Uma raiva enlouquecedora tomou conta de Eve, anulando a razão. O cálice de vinho voou de sua mão, seu conteúdo deixando uma trilha escura ao longo do chão. Nick deu um passo ao lado e a taça passou por ele e espatifou-se contra a parede.

– Como você ousa?

– Querida, ouça-me… – Ele abaixou quando ela pegou a segunda taça e jogou na sua direção. – Eve, sinto muito. Deixe-me explicar…

As palavras dele foram perdidas quando o vidro bateu contra o painel de madeira, enviando cacos para o chão. Com um grito de fúria, Eve pegou uma faca de carne e avançou nele.

– Eu o odeio, Nick Wylder!

Quando se lançou contra ele, Nick lhe segurou o braço, afastando a lâmina letal de seu corpo.

– Eve, não tive escolha.

Impossibilitada de enfiar a faca no coração dele, Eve levantou a outra mão, seus dedos curvados prontos para arrancar-lhe os olhos. Praguejando, Nick segurou-lhe o braço, dominando-a com facilidade.

– Sei que você está zangada, meu amor, mas não deixarei que me mate. – Ele apertou os dedos no punho dela, e Eve abriu a mão, soltando a faca no chão. – Assim está melhor. – Nick sorriu e libertou-a. – Não é de se admirar que meu pai tenha dito que nunca se deve confiar uma faca a uma mulher!

– Você nunca fala sério? – Ela deu um gemido de frustração e começou a socar-lhe o peito com os punhos cerrados.

Nick passou os braços ao seu redor, puxando-a para mais perto.

– Eu sei – ele falou baixinho enquanto ela continuava a socá-lo. – Sei que fui um monstro por fazer isso com você.

Eve bateu os punhos contra o peito sólido e inflexível até que não tivesse mais forças nos braços. Então, quando sua raiva evaporou, foi substituída por lágrimas. Eve se descobriu chorando, soluçando de maneira incontrolável. Não resistiu quando Nick puxou-a para mais perto, acariciando-lhe os cabelos e murmurando palavras suaves. Continuou abraçando-a enquanto chorava e, finalmente, Eve tombou contra o corpo forte, respirando fundo diversas vezes. Nick enfiou a mão num dos bolsos do velho casaco e retirou um lenço limpo.

– Achei que isso pudesse ser necessário – murmurou ele, pressionando o lenço na mão dela. – Não tinha ideia que minha esposa possuía um temperamento tão forte.

– Nem eu – murmurou Eve por baixo do lenço.

Ele tocou os lábios em seus cabelos.

– Agora você vai me ouvir? Vai me deixar explicar? – Ele a guiou para o sofá, e eles se sentaram juntos, Nick mantendo um braço firme ao redor dos ombros dela. – Não planejei isso, Eve. Acredite em mim.

– Por que deveria acreditar em você? – Zangada, ela tirou o braço dele de seu corpo e sentou-se muito ereta, enquanto secava os olhos. – Você mentiu para mim desde o começo. Casou-se comigo para ganhar o controle de Monkhurst, não foi?

– Richard me contou que você esteve lá. Sim, é verdade que queria acesso a Monkhurst. Casar-me com você era uma maneira de conseguir isso.

O sofrimento inundou o coração de Eve.

– Você é desprezível.

Ele suspirou.

– Talvez seja, mas nunca pretendi magoá-la. Admito ter ido a Tunbridge Wells à procura de seu avô, sabendo que ele possuía Monkhurst. Logo descobri que a propriedade era parte de seu acordo de casamento, e que Sir Benjamin estava lhe procurando um marido. – O sorriso irreprimível tocou-lhe os lábios – Tudo se encaixava perfeitamente com meus planos… e minha família vinha insistindo que eu me casasse, então sabia que estaria dando alegria a eles, também. Então aceitei o convite de Sir Benjamin para visitá-la em Makerham. O que não antecipei foi o encontro com uma jovem lady tão adorável, esperando para me conhecer.

Evelina reprimiu a onda traidora de prazer que aquelas palavras lhe causaram. Não ousaria considerá-las ou seu autocontrole frágil se romperia. Injetou um toque de impaciência na voz:

– E quais eram seus planos, exatamente? Por que você precisava de Monkhurst?

– Suspeitava que a propriedade de Monkhurst estava sendo usada por contrabandistas.

– Muito provável. – Ela deu de ombros. – Quase todas as casas na área tem esta função.

– Sim, sei, mas… Acho que devo voltar ao princípio. – Nick pausou e Eve esperou, mexendo no lenço dele com dedos irrequietos. – Minha… ah… carreira arriscada na marinha chamou a atenção do Almirantado, e desde que retornei à Inglaterra, estou trabalhando para eles, investigando certas… atividades.

– Contrabando. Você disse isso.

– Sim, mas não a prática inofensiva feita por Silas e seus amigos… alguns barris de aguardente francês e pacotes de renda de Bruxelas. Os vilões que procuro estão envolvidos em operações muito maiores. Não apenas estão privando o governo dos impostos… e antes que você interrompa, deixe-me dizer que já ouvi todos os argumentos de que os impostos são muito altos. As pessoas que procuro estão inundando o país com um chá que é, na melhor das hipóteses, ilegal, e na pior, venenoso. Chamam isso de smouch. É feito de folhas recolhidas de cercas vivas da Inglaterra, e misturadas com chamber-lye, sulfato de ferro e outra escolha de ingredientes, incluindo, com bastante frequência, estrume de ovelha. Então essa mistura é assada e raspada até virar um pó preto. Mais ou menos isso – disse ele, observando a expressão de horror no rosto de Eve. – Tracei os mais recentes carregamentos para esta costa. A carga foi de navio para Boulogne, depois vendida para nossos… comerciantes livres.

– Mas não fariam isso – exclamou ela. – Silas não transportaria uma carga como esta.

– Não conscientemente, mas ele foi enganado a trazer a carga para a costa. Não achou estranho que a sra. Brattee não tinha chá estocado no armário quando você chegou a Monkhurst? Agora que Silas sabe a verdade, não confia em nenhum chá vindo do continente.

Os olhos de Eve escureceram.

– Isso é alguma horrível conspiração francesa para nos envenenar!

Nick meneou a cabeça.

– Gostaria de poder dizer que é, mas as evidências mostram que o chá está sendo feito neste país, e nesta área.

– E você suspeita de Monkhurst? Da minha casa?

– Uma das cargas que nós interceptamos continha um fragmento de uma carta. Monkhurst foi mencionada nela. Silas jurou que não havia conexão, mas queria ver por mim mesmo.

– Então você se casou comigo para ganhar acesso à minha casa.

– Sim.

Ela lhe deu outro olhar furioso.

– Você não se desculpa por isso.

Nick sorriu.

– Não me arrependo de ter me casado com você, Evelina. Jamais poderia me arrepender.

A pele de Eve formigou quando viu o brilho nos olhos azuis. Era difícil ficar furiosa quando ele lhe sorria daquele jeito. Lembrou que os sorrisos de Nick não significavam nada. Eram tão sem valor quanto suas palavras melosas. Desviou os olhos, fazendo uma careta.

– Continue.

– Uma vez que Silas foi persuadido a me deixar entrar na casa, nós vasculhamos a propriedade. Há grandes porões, e uma passagem subterrânea muito interessante levando ao ancoradouro em Monkhurst Drain, mas nenhum sinal de que tenha sido usada nos anos recentes.

– Bem, não há nenhum segredo sobre isso! Mamãe me mostrou o túnel quando eu era criança. Contou-me que o avô dela o construiu de modo que a família não precisasse se molhar, andando para o ancoradouro em dias de chuva, mas se esse fosse o caso, por que a passagem levaria para dentro da cozinha? E por que a entrada está escondida atrás de painéis no fundo do ancoradouro? Pelo lado de fora, o túnel é bem escondido; parece que é construído no banco. – Eve balançou a cabeça. – Eu sempre acreditei que o ancoradouro tivesse sido construído para contrabandear mercadorias para dentro da casa, mas mamãe nunca admitiu. – Eve esqueceu sua raiva quando uma memória temporariamente esquecida ressurgiu. – Lembro de ter tido pesadelos sobre pessoas roubando a casa através do túnel, então papai me levou lá. Ele me mostrou a grade de aço no final do túnel. Tinha uma grande trava, e a chave era guardada num gancho dentro do túnel, de modo que qualquer pessoa da casa pudesse sair, mas ninguém pudesse entrar.

– Este ainda é assim, Eve, então você pode ficar sossegada. Entretanto, o ancoradouro está precisando de reparos urgentes.

– Quando meus pais morreram, os barcos foram vendidos. Vovô manteve a casa em ordem, mas nós apenas visitamos Monkhurst uma ou duas vezes depois disso.

Nick tinha estendido o braço ao longo do encosto do sofá. Seus dedos estavam brincando com um dos cachos no pescoço de Eve. Era uma grande tentação virar-lhe a cabeça e descansar o rosto contra a mão dele, mas ela resistiu.

– E quanto a você, Eve? – perguntou ele suavemente. – Desgosta da casa?

– Oh, não, a propriedade guarda apenas boas memórias para mim. Nós vivemos lá até que eu estivesse com aproximadamente nove anos, então fui ficar com vovô quando meus pais viajaram para o exterior, e… nunca voltaram. Morreram na Itália.

Os dedos de Nick deixaram seus cabelos e apertaram-lhe o ombro.

– Eu sei, você me contou que pegaram uma febre. Sinto muito.

– Eu também, mas isso faz muito tempo.

– Também sinto pelo seu avô, e lamento ainda mais por não ter podido estar com você.

Eve endireitou as costas, não estava preparada para aceitar a compaixão. Movimentou os ombros para afastar a mão de Nick, todavia, ficou desapontada quando ele a removeu. Falou em tom de voz ríspido:

– Nós estamos fugindo do ponto em questão, Sir. Por que você foi embora de Makerham tão subitamente?

– Minhas investigações me levaram a suspeitar que lorde Chelston estava envolvido neste negócio. Ele tem uma propriedade de tamanho considerável perto de Northiam, e mantém um iate em Hastings. Mantive pessoas vigiando por algum tempo até agora, mas ele é muito esquivo. Na manhã depois do nosso casamento, recebi uma mensagem que um encontro tinha sido combinado. Depois de tantos meses de trabalho, não poderia deixar que meus homens lidassem com isso sozinhos, então tive de vir para a costa.

– Você não prendeu lorde Chelston?

– Ele é um homem poderoso. Precisamos de fortes evidências antes de tornarmos nossas suspeitas conhecidas. Além disso, quero capturar todos os principais envolvidos e fechar a operação inteira. Se nós agirmos muito depressa, irão meramente se esconder, mudar a produção para um novo local. Essas pessoas são espertas; têm um depósito em Boulogne. Os franceses não são contra ajudar alguém que está trabalhando contra a Inglaterra. Você mesma disse, contrabando é um meio de vida nesta parte do país. As gangues locais têm clientes regulares que confiam nelas, que acreditam que estão comprando Black Bohea, o chá preto chinês. – Ele se inclinou para a frente, descansando os cotovelos sobre os joelhos. – Houve relatos de que um carregamento de smouch estava pronto para ser enviado para Hastings num bergantim… que é um barco à vela e a remo… e transferido para um veleiro francês para fora desta costa. Nós achamos que seria possível pegar os homens de Chelston em flagrante com a mercadoria; com tal evidência, poderíamos condená-lo. O capitão George tem um barco rápido à sua disposição, o Argos, mas na noite do encontro, alguns de nós estávamos disfarçados num pequeno barco de pesca, esperando chegar perto o bastante do bergantim para entrar a bordo e dominar a tripulação, mas eles descobriram a trama.

– O que aconteceu? – perguntou Eve, não podendo evitar seu fascínio.

– Durante a luta, fui baleado e caí na água.

– Baleado!

– O ferimento foi superficial, logo abaixo das costelas. Nada sério, mas o tiro me derrubou na água. Felizmente, consegui nadar para o Argos, mas foi decidido que seria vantagem para nós deixar todos pensarem que eu tinha morrido.

Eve manteve os olhos no perfil de Nick, notando as linhas de risada no canto dos olhos azuis, e os lábios curvados num sorriso. Seria tão fácil perder seu coração para ele novamente. Ela endireitou os ombros, determinada a resistir à tentação.

– Entendo que não queria que esses vilões soubessem que você estava vivo, mas e quanto a mim? – questionou ela calmamente. – Por que enviou Granby para me contar que você estava morto?

Nick virou a cabeça para fitá-la, e por uma vez, não havia sorriso nos olhos azuis.

– Nunca pretendia lhe contar. Pensei que nós pudéssemos resolver esse assunto rapidamente, e que não houvesse necessidade de você saber. Então recebi sua carta, dizendo que seu avô havia falecido, e soube que teria de enviar Granby para você.

– Mas por quê? Eu não entendo.

– Porque o homem que atirou em mim foi seu primo, Bernard Shawcross.