Viagem pelo rio São Francisco e por alguns dos seus afluentes entre Pirapora e Juazeiro*

Quando se iniciou nossa viagem, a estação seca já estava bem estabelecida. Não houve chuvas durante todo o tempo da excursão, apenas com uma ou duas exceções. Em conseqüência disso as margens do rio tornaram-se cada vez mais áridas, até que, chegados a Juazeiro, encontramos os arrabaldes com aspecto que lembrava o deserto, por estar toda a vegetação queimada pelo sol e muitas árvores sem folhas. Na mesma proporção diminuiu a vida dos insetos e outros pequenos animais. Disso ressentiram-se as coleções, porque as zonas percorridas, em estação mais favorável, sem dúvida, teriam sido mais ricas, posto que se trate de região relativamente pobre. Nas presentes circunstâncias, apenas conseguimos uma coleção regular de mariposas, quase todas pequenas, que foram apanhadas a bordo, onde, à noite, chegaram procurando os lampiões de acetileno que lá estabelecemos. Vinham acompanhadas de outros insetos, neurópteros e dípteros, com larvas aquáticas e, entre estes, um grande número de mosquitos, geralmente comuns e de poucas espécies. Além destes, conseguimos com muito custo outros dípteros sugadores de sangue. Toda a coleção, da qual trataremos separadamente, era pequena e constituída pela maior parte de espécies conhecidas. Tivemos, todavia, ocasião de fazer várias observações biológicas bastante interessantes que se referem a algumas dessas espécies.

Quanto às coleções de animais maiores que podíamos ter reunido nesta viagem rápida, tivemos de lamentar a perda duma caixa com líquidos conservadores. Tendo sido mandada a tempo, tivemos esperanças de recebê-la, o que até hoje não aconteceu. Assim, a coleção se limitou a peles secas e alguns répteis e peixes. Sentimos também a perda de certos líquidos, destinados principalmente a estudos microscópicos. A caixa que os continha nunca chegou às nossas mãos e perdeu-se completamente. Para compensar um pouco estas faltas, fizemos uma coleção bastante grande de plantas secas. A flora desta região, embora não seja rica em razão das secas, tem um caráter bastante especial que oferece muito interesse. Há muitas plantas adaptadas a um solo arenoso, e algumas que crescem na areia pura. Do outro lado, há grande número de plantas, mais ou menos, aquáticas.

Voyage down the São Francisco and some of its tributaries: itinerary.

Roteiro da viagem pelo São Francisco e alguns afluentes.

Itinerary of voyage up Grande [Big] river (tributary of São Francisco).

Roteiro da viagem pelo rio Grande (afluente do São Francisco).

Os estudos que fizemos sobre a patologia do homem e dos animais domésticos confirmaram as nossas presunções sobre a pouca variação observada nela. Os casos da moléstia de Chagas, que nos despertavam real interesse, foram diminuindo à medida que nos aproximávamos das fronteiras de Minas; no estado da Bahia quase faltavam na margem dos rios navegáveis. Em proporção talvez ainda mais rápida observava-se o desaparecimento do transmissor principal, o Triatoma, mais conhecido sob o nome Conorhinus megistus. A espécie sordida encontrava-se com abundância nas margens do rio, tanto em Minas, como na Bahia, mas a distribuição da moléstia não correspondia à presença desta. Se, dum lado, não se pode negar categoricamente a sua faculdade de transmitir o tripanossomo, tudo indica que raras vezes deve estar infeccionada. O sangue humano não parece ser o seu alimento predileto e muitas vezes prefere os galinheiros às habitações humanas. Todavia, a espécie é geralmente conhecida, o que não se dá com a megista, totalmente desconhecida em zonas extensas. Além dessas espécies, encontramos mais uma terceira (maculosa), mas desta apenas um exemplar.

Outro problema dos mais interessantes na patologia da região é o do papo endêmico. Como muitos dos casos encontrados se observam em indivíduos sem dúvida infectados com coreotripanose,1 chegou-se a atribuir o papo desta região unicamente à moléstia de Chagas. Todavia, convém notar que as lesões da tireóide são mais comuns do que outros sintomas ou antecedentes indubitáveis da tripanose, verificando-se apenas com bastante freqüência a coexistência de gânglios intumescidos, principalmente no pescoço. Pelo resto, as lesões da tireóide não se distinguem claramente do papo endêmico comum. Visto que no rio São Francisco toda a população faz uso habitual e muitas vezes exclusivo da água do rio para beber, seria fácil inculpar esta pela produção dos papos. Todavia, nota-se também a diminuição dos papos à medida que se desce no rio, até que desaparecem praticamente nas pessoas que não saíram do lugar. Se esta observação, aliás feita também em outros rios, não exclui absolutamente a idéia de que a água do rio contenha alguma substância química ou algum organismo capaz de produzir a moléstia, também não fala em favor dela. Antes seria possível acusar a falta dum princípio antagonístico ao papo na água do curso superior do rio. Em todo caso, as nossas observações não permitem decidir essas questões, ao passo que continua incerta a etiologia do papo comum, endêmico em regiões onde não há coreotripanose.

A moléstia predominante em todo o vale do São Francisco é o impaludismo. Todavia, geralmente não oferece interesse especial, tratando-se de formas leves, de cuja transmissão só se pode inculpar a ubiqüitária Cellia argyrotarsis. As formas mais graves são raras, e, sobre a natureza de algumas epidemias ou casos esporádicos mais graves que nos foram citados, pairam algumas dúvidas. Se a febre amarela geralmente é desconhecida nestas regiões, todavia não se pode excluir completamente o aparecimento de casos isolados, tanto mais porque a Stegomyia está muito disseminada e freqüentemente é criada a bordo dos vapores, como observamos no “Presidente Dantas,” em que viajamos. Também será fácil o aparecimento da febre tifóide, embora não tivéssemos conhecimento de casos indubitáveis.

Não há noção de febres com os caracteres da febre de Malta ou de pappataci. Em toda a viagem observamos apenas um Phlebotomus, um macho de intermedius, e o Dr. Chagas viu alguns exemplares de espécie indeterminada em Pirapora.

As leishmanioses faltam completamente nas zonas que percorremos.

A ancilostomíase é geralmente menos abundante do que em outras zonas menos secas. Não verificamos nenhum caso de bilharziose e apenas uns poucos de elefantíase, provavelmente devido à filariose.

Vimos algumas dermatomicoses, mas nenhum caso de blastomicose, esporotricose ou Pemphigus foliaceus. Tampouco observamos o mal de engasgo. O alastrim era conhecido em muitos lugares, mas as epidemias já tinham cessado.

Encontramos um número grande de casos de sífilis, dos quais alguns com lesões extensas, devidas à falta de tratamento. Todavia, não tivemos a impressão de maior malignidade, às vezes atribuída aos casos da região do rio São Francisco. De boubas, observou-se apenas um caso, verificado por exame microscópico.

Considerando o grande número de casos, examinados em zonas onde muitas vezes falta um tratamento médico, não encontramos muitos casos notáveis. Vimos um caso de osteosarcoma do fêmur e alguns tumores intra-abdominais, fibromas ou cistos ovarianos.

O hábito de usar a água do rio para beber é certamente deplorável, tanto pelo lado estético como pelo lado higiênico. Até agora é difícil de abandoná-lo, porque, se não falta completamente outra água, esta, quando existe, muitas vezes não é de boa qualidade, sendo mais ou menos salobra. Até hoje a água do rio não tem causado grandes prejuízos, posto que o rio sirva tanto de esgoto, como de manancial, mas representa uma ameaça contínua, e isto principalmente em relação ao cólera-morbo, fácil de introduzir-se com a maior extensão do tráfico.

Em relação a moléstias de gado, só observamos alguns casos de peste de cadeiras, bem conhecida em certa zona onde há capivaras e mutucas. A moléstia foi verificada por injeções de sangue, produzindo a tripanose nos animais inoculados. Há também durina nesta zona e algumas outras moléstias, mais ou menos banais, mas não deparamos com afecção alguma, nova ou desconhecida.

A falta de material patológico de maior interesse nos levou a apressar um tanto a nossa viagem e visitar vários afluentes, na esperança de encontrar mais tarde material para estudos. Esta antecipação, porém, não se realizou, e também os poucos colegas que encontramos na segunda parte da viagem nada informaram sobre a ocorrência de moléstias menos banais.

Abaixo de Pirapora, o rio São Francisco percorre uma planície de aluvião, na qual existem inúmeras lagoas, das quais uma parte desaparece com o progresso da estação seca, ao passo que as outras persistem em estado reduzido.

Dos dois lados dessa planície seguem-se serras em grande número; em alguns pontos aproximam-se do rio. A sua altura geralmente não excede algumas centenas de metros, e a forma raras vezes corresponde ao nome de serra; geralmente têm mais o aspecto de tabuleiros, principalmente quando vistas de longe. Algumas vezes são cobertas duma capoeira, passando ocasionalmente a mato baixo; geralmente, porém, a vegetação é herbácea, predominando nos lugares mais áridos verdadeiros xerófitos, como cactáceos, macambiras etc. Muitas vezes aparece a pedra nua, geralmente em formas muito pitorescas; sendo constituída em grande parte de calcário, apresenta muitas grutas maiores e menores, algumas secas, outras ainda contendo água. Em outros lugares, principalmente no leito dos rios, onde formam cachoeiras e saltos, a estrutura xistácea da pedra parece em escadas e terraços, formados por grandes lajes. Há muitas vezes paredões constituídos por grés,2 mais ou menos estratificados e corroídos, formando às vezes pitorescos pilares. Não obstante a sua natureza íngreme, esses rochedos são invadidos pela vegetação, e, tanto as figueiras como as barrigudas nascem nos seus interstícios, mandando a grande distância raízes longas e tortuosas.

Fig.1 – ‘Xiquexique’ and ‘macambiras’ on a mountain range near Boqueirão do Rio Grande. Image originally published in Plate 11.

Xiquexique e macambiras, em uma serra vizinha ao Boqueirão do rio Grande. Foto originalmente publicada em Estampa 11 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

O rio em tempo ordinário corre sempre em leito, fechado dos dois lados por barrancos mais ou menos elevados, conforme o lugar e, principalmente, o nível atual das águas. A corrente geralmente é vagarosa. Não obstante a sua grande largura, que freqüentemente excede meio quilômetro, o rio não tem nada de belo, porque a água é sempre turva e os barrancos íngremes geralmente são formados por terra barrenta. A vegetação da margem elevada quase sempre é baixa e sem atração. Os afluentes são geralmente mais bonitos e muitas vezes a sua água é mais clara ou de cor verde, como, às vezes, já o nome indica. Tem geralmente uma correnteza mais forte, o que não impede a navegação em trechos bastante extensos.

Na parte inferior do rio o barro é mais ou menos substituído por areia, que aparece também em bancos e dunas. O rio forma muitas vezes ilhas maiores. A água parece menos suja e, geralmente, as paisagens são mais interessantes. O aparecimento das dunas indica a zona do vento quase constante, que diminui o calor, habitual no tempo da seca. Nesta zona a navegação, que abaixo de Pirapora não mostrava obstáculos, torna-se mais difícil e exige muita atenção. Com a queda rápida do nível das águas, em razão do progresso da seca, os encalhes tornam-se mais freqüentes. Aparecem também várias pedras mais ou menos expostas. Pouco acima do Juazeiro, os vapores têm de parar no tempo da águas baixas, por causa duma corredeira, onde o canal navegável, não obstante alguns trabalhos executados, é estreito e pouco fundo.

Os vapores são todos de pouco calado. Só excepcionalmente deitam ferro para a interrupção da navegação, feita habitualmente à noite. Geralmente são amarrados à margem do rio. Faltando árvores, usam-se varas fortes, fincadas no barranco, depois de servir aos marinheiros para pular em terra. Basta uma ou duas para manter o navio. Também durante o dia as paradas são freqüentes, porque os vapores, que usam para combustível lenha, comprada nas margens dos rios, não podem navegar muito tempo sem reabastecer. A lenha está amontoada no barranco donde é lançada, pau por pau, no vapor, sendo contada na mesma ocasião. O embarque e o desembarque dos passageiros se fazem de modo muito primitivo, por meio de tábuas estreitas e pouco seguras para pé calçado.

Fig. 2 – Engenheiro Halfeld Steamboat. Image originally published in Plate 3.

Vapor Engenheiro Halfeld. Imagem originalmente publicada em Estampa 3.

Fig 3 – Engenheiro Halfeld Steamboat. Picture taken on May 7, 1912. Image originally published in Plate 3.

Vapor Engenheiro Halfeld. Foto tirada em 7.5.1912. Cópia fotográfica que corresponde a imagem originalmente publicada em Estampa 3 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5

Fig. 4 – Boats in São Francisco River. Image originally published in Plate 6.

Barcos que navegam o rio São Francisco. Cópia fotográfica originalmente publicada em Estampa 6 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig. 5 – Ferryboat in São Francisco River. Photo not published in the 1915 report.

Balsa no rio São Francisco. Foto não utilizada no relato publicado em 1915. (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Se o rio, já em tempo de seca, leva um grande volume d’água, este, nas enchentes aumenta dum modo fabuloso. Não obstante as margens elevadas, o rio e seus afluentes transbordam em toda parte, cobrindo enormes extensões de terreno. Em certos anos, as enchentes atingem proporções extraordinárias, invadindo as povoações da margem e causando grandes prejuízos. Além de informações, dignas de fé, que obtivemos em muitos lugares, também há fotografias que dão uma idéia da altura que as águas podem alcançar. Nestas ocasiões, os vapores navegam em trechos extensos fora do leito do rio, aproveitando as comunicações temporárias que abreviam as viagens.

As numerosas lagoas, alimentadas pelas enchentes, acompanham todo o percurso do rio, de modo que dificilmente se encontra uma povoação que não tenha uma ou mais na sua vizinhança imediata. Assim se explica a freqüência de febres palustres, sendo essas lagoas os criadouros de mosquitos palustres, e principalmente das Cellia, transmissoras da infecção, e entre as quais predomina a espécie argyrotarsis. Uma modificação radical destas condições é difícil, e só se poderá lançar mão, por enquanto, de medidas paliativas.

Com o progresso da seca, a maior parte das lagoas fica sem água. Já antes do dessecamento completo as larvas de mosquito podem desaparecer nas lagoas sem sombra, em conseqüência da insolação poderosa, como tivemos ocasião de observar algumas vezes. Os mosquitos adultos só desaparecem bastante tempo depois das margens das mesmas lagoas, e com eles os casos de infeção primitiva, mas, em virtude das recaídas freqüentes, as febres não desaparecem.

As lagoas contribuem também para a alimentação do homem, porque são os criadouros principais dos peixes, sendo também visitadas por numerosos pássaros aquáticos.

Não obstante o grande número de povoações, entre as quais se contam algumas cidades regulares, o vale do rio São Francisco dá a impressão duma região pobre e atrasada. Quanto à população, convém dizer que o elemento índio nela é quase nulo. No entanto, a raça preta entra com um contingente grande, muitas vezes predominante. Não são raros os lugares onde, entre os nativos, falta o elemento completamente branco. Isto, naturalmente, influi muito sobre o caráter da população que geralmente vive de modo bastante primitivo. Comparações com povoados do mesmo tamanho, em outros estados e países, são pouco favoráveis aos moradores do São Francisco, e isto não se deve unicamente à falta de recursos, porque, se a gente pouco ganha, também pouco gasta para a vida. É certo que, nestas zonas, muitas necessidades de climas menos quentes passam a ser um luxo quase supérfluo, mas isso não inclui as necessidades higiênicas. Também não pode haver progresso onde a gente se contenta em vegetar sem melhorar as condições da sua vida.

Além da questão da raça, há outros elementos que se opõem ao progresso. O clima quente, cuja média é bastante superior à da capital federal, e certas moléstias, principalmente a malária, e, em menor extensão, a coreotripanose e a ancilostomíase, contribuem para aumentar a indolência dum povo ao qual também faltam outros exemplos. A produção da terra excede as necessidades locais em valores insignificantes, e a maior parte dos gêneros alcança preços pouco favoráveis, por causa da distância de outros mercados.

Durante a nossa viagem encontramos, principalmente nos afluentes, alguns lugares onde havia sinais de atividade humana em roças e plantações bem tratadas, mas a proporção é pequena. O rio Corrente é o único onde a irrigação artificial é usada em maior escala e com muito bom resultado. No resto, muitas vezes, poucos metros distante e acima do rio a terra é árida e estéril, sendo a vegetação escassa constituída por plantas não aproveitáveis, como a Ipomoea fistulosa e elementos da flora ruderal, que constituem o mato, encontrado ao longo dos caminhos. Considerando que na parte baixa do São Francisco moinhos de vento trabalhariam com muito proveito, sendo o vento quase contínuo, e que, no tempo de necessidade, há poucos lugares que se prestariam melhor à aplicação de motores de sol, tornando-se fácil a irrigação pelos dois sistemas, pode-se esperar que, com o tempo, as condições melhorem, e que então esta zona mereça a designação de ubérrima, o que hoje, certamente, não é o caso. Um dos elementos de atraso está também no fato de que a região é muito afastada do litoral, pedindo os pontos menos distantes uma viagem em estrada de ferro de 24 horas. A própria navegação no rio é demorada e as distâncias são enormes, de modo que muitos gêneros não pagam as despesas de uma exportação à distância.

Os gêneros que se exportam do rio São Francisco correspondem aos três grupos: agricultura, criação e indústrias extrativas. Além dos produtos consumidos no lu gar da produção, pode-se mencionar a casa de açúcar, que fornece rapadura e aguardente, consumidos no mesmo estado. Passa pelo rio também um pouco de café, vindo, porém, de zonas já um pouco distantes do rio. O arroz, que podia ser produzido em abundância, não representa papel importante.

A criação, feita por processos primitivos, fornece grande número de couros, geralmente não curtidos, que, formando parte da carga de um navio, comunicam ao ambiente um cheiro pouco agradável. A carne de sol, que em gosto é muito superior à carne seca que importamos, não é artigo de exportação.

Em razão das viagens longas, a exportação de animais vivos é rara. Encontramos, todavia, um transporte de éguas numa lancha grande, rebocada por vapor. Saíram de Pirapora e fizeram toda a viagem até o Juazeiro.

De produções naturais mencionaremos em primeiro lugar as borrachas, tanto maniçoba (ManihotglazioviiMuell. Arg.) como de mangabeira (Hancornia speciosa M.). Há muita gente que se ocupa em colher borracha, porém a borracha de maniçoba que colhem é muito impura e de má qualidade; com os preços atuais o negócio não pode ser rendoso. Há, também, algumas plantações de maniçoba que poderiam facilmente ser aumentadas se valesse a pena.

Outra produção natural é a cera de carnaúba, hoje bastante procurada para cilindros de fonógrafo. A extração parece rendosa, onde há carnaubais bastante grandes. Há também alguma produção de cera de abelhas.

A resina de jatobá, produto da Hymenaea courbaril L., é outro produto natural que podia facilmente ser obtido em quantidade maiores, mas parece que não há muita procura.

Em qualquer povoação maior encontram-se peles de caça, porém sempre tão mal tratadas que não representam maior valor do que qualquer outro couro do mesmo tamanho.

Em Vila Nova vimos carne-seca de mocós, expostas à venda, aliás por preço ínfimo. Do São Francisco vem surubim seco que é consumido dentro do estado. Este peixe, o Pseudoplatystoma corruscans, bem conservado em latas, podia ser exportado a maior distância, rivalizando com os melhores peixes importados. Seria oportuno que as autoridades estudassem o assunto, facilitando o estabelecimento desta indústria.

De minerais que passam pelo rio São Francisco, só vimos os carbonatos que vêm de zona um tanto distante. O seu preço é superior ao dos diamantes do mesmo tamanho, mas a produção total é pequena. A extração de sal, antigamente geral nesta zona, parece ter cessado.

A idéia de obter dinheiro por meio de produções minerais é muito popular nesta região, e recebemos várias amostras de minerais, mas, aparentemente, estes não tinham maior valor, além de vir de zonas afastadas do próprio vale do rio São Francisco, que não parece possuir riquezas minerais.

A fauna do vale do rio São Francisco mostra a falta das matas e de chuvas em todas as estações. À caça, que em grande parte depende das matas, faltam muitas espécies, e outras existem em número reduzido, pela facilidade de persegui-las em lugares onde não encontram esconderijos. Certos afluentes oferecem condições um tanto melhores, mas geralmente a fauna de mamíferos maiores é pobre. Todavia contém algumas espécies que não são encontradas na latitude da capital federal. Assim, existe uma espécie de guariba diferente, que encontramos no Rio Grande, cujas margens oferecem árvores maiores; é o Mycetes caraya Humb. A anta (Tapirus americanus L.) falta nas zonas mais habitadas e mesmo as capivaras (Hydrochoerus capybara Erxl.) geralmente são pouco abundantes e muito mais ariscas do que em outras regiões, onde não são perseguidas. Entre os roedores menores merece menção especial o mocó (Kerodon rupestris) que habita em grande número as serras das margens do rio, onde se pode esconder facilmente, quando perseguido. Mostram-se muito ariscos e dificilmente se chega a vê-los, mesmo em lugares onde abundam. Aparecem novas espécies de cutia, principalmente a cutia-de-rabo (Dasyprocta agouchy). Outro pequeno mamífero característico do baixo São Francisco é o tatu-bola Dasypus (Tolypeutes) conurus Is. Geoff., bastante comum na região do Juazeiro. Parece ser a única espécie de tatu que se conserva facilmente em cativeiro e até se torna mansa.

Os mamíferos, encontrados durante a nossa viagem em estado selvagem, reduzem-se a alguns sagüis, comuns perto de Pirapora, uns bandos de guaribas, no Rio Grande, alguns cachorros-do-mato (Barreiras e Poço de Mel, abaixo de Urubu), mocós, morcegos e alguns ratos e camundongos. Melhor juízo sobre a fauna podia-se fazer pelas espécies que se encontravam em estado domesticado, pela caça oferecida para comprar e pelas peles expostas à venda, como também pelas informações de pessoas competentes. Entre as peles, encontrava-se muitas vezes a da onça pintada, que ainda é bastante abundante em algumas serras perto do rio São Francisco, como na serra do Cabral, pouco distante de Pirapora. A variedade preta era rara. Existem também as outras espécies de gatos pintados.

Do lobo (Canis jubatus) encontramos apenas uma pele; parece bastante raro nestas regiões. O Ictycyon venaticus era completamente desconhecido.

Na cidade de Barra vimos uma grande pele de ariranha (Lutra brasiliensis).

De animais mansos encontramos alguns micos (Cebus sp.) no Rio Grande. As cutias mansas eram bastante comuns, mas não conseguimos obter um mocó vivo.

Obtivemos algumas cabeças de veado de campo (Cariacus campestris Cuv.); o veado galheiro (Cariacus paludosus Desm.) é raro e somente encontrado nos afluentes.

Compramos uma Didelphis albiventris viva. A cuíca d’água (Chironectes palmatus) era desconhecida.3

A fauna de aves é mais rica. Aparecem novas espécies de pássaros pequenos, como a pomba fogo-apagou (Scardapella squamosa Temm.), o sofrê4 (Xanthornus jamacai Gm.), o cardeal (Paroaria sp.), a casaca-de-couro etc. A seriema (Microdactylus cristatus L.) é freqüentemente reconhecida pelo canto e também a ema (Rhea americana L.) existe em alguns lugares. Entre os pássaros de caça, a codorna parece bastante abundante; há também perdizes e jacus5 nas margens de alguns afluentes. A nota predominante é dada pelos pássaros aquáticos, que ocorrem em grande número, em razão das condições favoráveis existentes, menos no próprio rio do que nas inúmeras lagoas, formadas por este e pelos seus afluentes. As espécies observadas serão mencionadas no diário. Aqui apenas chamarei atenção sobre a facilidade com a qual, em certos lugares, principalmente na cidade de Barra, se podem procurar vivos exemplares novos de pássaros aquáticos, mesmo de espécies que raras vezes se encontram em cativeiro. Entre o número das espécies conhecidas, notamos a ausência do guará ou íbis vermelho (Endocinus ruber L.). Em compensação o téu-téu (Vanellus cayennensis) não falta em parte alguma.

Entre os répteis,6 chama atenção a existência da iguana (Iguana tuberculata Laur.) geralmente conhecida pelo nome errado camaleão. Não obstante a perseguição constante, que lhe vale a sua carne comestível, esse lagarto curioso continua a ser bastante freqüente. Os outros répteis observados serão mencionados ocasionalmente. Aqui apenas diremos alguma coisa sobre as tartarugas. Posto que o rio, principalmente na parte inferior do seu curso, pareça oferecer condições excelentes para as espécies de água doce, não há no São Francisco e nos seus afluentes uma tartaruga de real valor. A espécie, que ocasionalmente encontramos, parecia pertencer ao gênero Hydromedusa, encontrado em toda parte e pouco aproveitada, embora tanto a carne como os ovos sejam comestíveis. Não podemos deixar de chamar aqui a atenção das autoridades públicas sobre as grandes vantagens que adviriam da introdução das tartarugas do Amazonas no sistema fluvial do São Francisco, o que poderia ser feito facilmente e com pouca despesa.

Posto que os peixes do rio São Francisco sejam bastante numerosos, os que se aproveitam para alimentação não passam de uma dúzia. Estes, todavia, representam um recurso enorme para os habitantes da região. Convém salientar principalmente o surubim, que é um peixe de primeira ordem, tanto pelo sabor da carne, quase livre de espinhas, como pelo enorme tamanho que alcança. Bem conservado, poderá rivalizar com as melhores conservas de peixe que se encontram no comércio. As outras espécies, além de menores, são geralmente inferiores em quantidade, mas merecem atenção pelo seu grande número. Teremos ocasião de mencioná-las mais minuciosamente.

Em vista dos recursos já existentes, não parece muito urgente a introdução de espécies novas, e só devia ser experimentada depois de estudo cuidadoso da questão. Uma experiência que podia ser realizada sem perigo, visto tratar-se dum animal herbívoro, seria a introdução do peixe-boi do Amazonas, que lembramos neste conjunto, sem ignorar ser um mamífero adaptado à vida aquática, e não um peixe.

Entre os insetos, além de lepidópteros e dípteros, dos quais trataremos separadamente, observamos atraídos pela luz efeméridas e frigânidos, em pequeno número de espécies, sendo porém os indivíduos numerosos. Em certas ocasiões, apareceu grande número de pequenas Cicadina. Colecionamos também duas espécies de Gryllotalpa. Como tivemos ocasião de observar no Amazonas, esses grilos habitam com muita freqüência a areia dos rios e podem ser encontrados em bancos, onde não há o menor vestígio de vegetação. Outros insetos, que, em estado larval, freqüentam os lugares arenosos, são os Ascalaphus e Myrmeleo, dos quais apanhamos algumas espécies muito vistosas. Nos mesmos lugares encontramos algumas cicindelas que, raras vezes, também apareciam na luz, e uma espécie de carabídeo. Nos acaris mortos e jogados na praia achamos uma espécie de Dermestes em grande número. No resto, os coleópteros faltavam quase completamente. A grande raridade dos insetos na estação seca foi notada por St. Hilaire e, pessoalmente, já a tinha um de nós verificado no Amazonas.

Aqui queremos mencionar um exemplar de Mantispa apanhado a bordo, na luz de acetileno.

De crustáceos só observamos formas microscópicas. Além de Cyclopidas achamos na água das lagoas uma espécie de Simoceohalus e outra de Ceriodaphnia, que representam as Cladocera mais comuns no Brasil. Na mesma ocasião observava se uma espécie de Hydra.

Entre os miriápodes e aracnídeos convém mencionar uma grande lacraia (Scolopendra sp.) e uns escorpiões aqui chamados lacrau.

Colhemos certo número de moluscos cuja determinação será dada mais adiante.

Encontramos também uma interessante esponja de água doce, pertencendo aparentemente ao gênero Spongilla. É bastante freqüente em alguns afluentes, mas não encontramos no rio principal. O povo conhece a sua existência, sem saber nada a respeito da sua natureza.

Falta dizer ainda alguma coisa sobre a flora desta região. Tanto a flora natural como as plantas cultivadas apresentam vários elementos desconhecidos ou raras vezes encontrados no Rio de Janeiro. Assim observa-se nos campos fechados, principalmente na região de Pirapora, o tingui (Magonia glabrata St. Hil.) com grandes frutos lenhosos, cujo conteúdo, ao que se diz, serve para sabão e para matar peixes. Devemos dizer que nos parece pouco ativo, tanto numa, como na outra qualidade. Na mesma zona encontramos o jenipapeiro (Genipa americana L.) e o Piqui (Caryocar brasiliensis Camb.) e a palmeira buriti. Na segunda parte da viagem aparecem a carnaubeira (Cepernicia cerifera M.) e o coqueiro-da-baía (Cocos nacifera L.). O sal, contido na terra, parece favorecer o crescimento dessas palmeiras e talvez explique por que esta última frutifique tão bem, embora cultivada a grande distância do mar. Na mesma zona aparecem o umbuzeiro (Spondias tuberosa) e o juazeiro (Zizyphus joazeiro), que encontramos sem frutos.

Há algumas plantas que foram, a princípio, cultivadas e depois se espalharam espontaneamente, como a chamada rosa-da-turquia (Parkinsonia aculeata L.) e uma Asclepiadacea arborescente (Oxytropis spec.), conhecida pelo nome de algodão de seda, por dar uma paina sedosa no interior de grandes frutos em forma de maçã. Ambas são exóticas, ao passo que um fumo arborescente com folhas dum verde muito claro e flores amarelo-verdes (Nicotiana glauca) parece indígena. Na margem da parte baixa do rio abunda um araticum com frutos cor de laranja e sem sabor (Annona spinoso). Nas serras, encontram-se cactáceos de várias espécies. Nos campos, mais ou menos secos, ao lado dos rios, encontram-se espécies bonitas de Evolvultus e Ipomoea, e na margem deles outras flores, como malváceas, esterculiáceas, malpighiáceas, papilionáceas e acantáceas, escrofulariáceas. Entre estas há várias espécies, já cultivadas ou que merecem ser adaptadas como flores de jardim, como os Evolvulus, Ruella e Agellonia. Nas lagoas, há muitas plantas aquáticas com flores bonitas. Procuramos criar várias espécies de sementes, mas só tivemos resultado com o algodão de seda e a Parkinsonia; ambas as plantas aqui se desenvolvem muito lentamente. Daremos mais pormenores sobre a flora no diário, cuja reprodução segue agora.

Diário (Dr. Lutz)

17 de abril – Tendo saído da capital na véspera, cheguei à noite a Pirapora e hospedei-me num hotel, onde já estavam alguns colegas, ocupados com estudos sobre a coreotripanose, entre eles o dr. Chagas, que partiu logo depois. Durante a última parte da viagem já tinha observado o caráter da região, formada por campos extensos com muitas árvores baixas e tão tortuosas que seria impossível encontrar-se uma vara direita no meio delas. Entre elas abunda o tingui (Magonia glabrata St. Hil.), com grandes frutos em forma de bola com três cristas. No horizonte, viam-se serras mais ou menos distantes e, geralmente, bastante plantas na parte superior. Depois de Lassance, abandona-se o rio das Velhas, até lá seguido pela estrada de ferro, e atravessa-se em direção oblíqua a região que separa este do São Francisco. Nessa ocasião, passa-se pela base duma pequena serra que parece ter uma flora interessante, tanto quanto se pode julgar do trem. Passando esse obstáculo, o trem se dirige em linha reta de extensão extraordinária para Pirapora. O rápido só alcança Pirapora com noite fechada. O centro da cidade e os hotéis são bastante distantes da estação, que, atualmente, marca o ponto final da estrada de ferro.

Fig. 6 – Pirapora Falls, São Francisco River, Minas Gerais. Photo originally published in Plate 1.

Cachoeira de Pirapora, rio São Francisco, Minas Gerais. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 1 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig. 7 – Pirapora Falls, São Francisco River, Minas Gerais. Photo originally published in Plate 1.

Cachoeira de Pirapora, rio São Francisco, Minas Gerais. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 1 [Casa de Oswaldo Cruz (doravante COC), Departamento de Arquivo e Documentação (DAD), Setor Iconográfico (SI), série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC].

Fig. 8 – Pirapora Port, Minas Gerais. Image originally published in Plate 4.

Porto de Pirapora, Minas Gerais. Cópia fotográfica que corresponde à Estampa 4 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

18 de abril – Tendo de esperar ainda pelos companheiros da expedição, resolvi aproveitar o meu tempo, o mais possível, fazendo excursões na região. Principiei hoje, acompanhando os drs. Eurico Villela e Leocadio Chaves numa excursão para Guacuí ou Bom Sucesso, situado na confluência do São Francisco com o rio das Velhas. Este último é mais estreito, mas tem mais correnteza do que o rio principal. Ambos são muito barrentos, correndo entre barrancos altos, guarnecidos só em cima de árvores e arbustos, que não formam mato verdadeiro. Na viagem já encontramos grande número de pássaros aquáticos, muitas garças, um bando de cegonhas chamadas aqui jabiru, moleque, colhereiras e outras espécies menores. Nos barrancos do São Francisco, que tinham uma altura aproximativa de cinco metros, havia muitos buracos, marcando os ninhos da Ceryle torquata ou martim-pescador grande que aparecia na vizinhança deles.7

Fig. 9 – Nests of ‘martim-pescador’ (kingfisher) at the Rio Grande riverbanks. Image originally published in Plate 4.

Ninhos de martim-pescador, nos barrancos do Rio Grande. Imagem originalmente publicada em Estampa 4.

O dia era muito quente; não havendo chovido por muitos dias, a terra estava bastante seca. O lugar é pequeno e dá a impressão de decadência. Há umas 150 casas, todas pequenas e mal construídas, oferecendo muitos esconderijos para o barbeiro, que é observado com freqüência. Todavia, não faltavam vestígios de cultura. Notei cana-de-açúcar, laranjeiras, limoeiros, jenipapeiros e uma mangueira, certamente plantados, além de figueiras brancas, aru e pequi, que talvez nascessem espontaneamente.

No lugar havia muitos doentes de moléstia de Chagas, o que nos impediu de ir passear mais longe. Alguns apresentavam sintomas cardíacos, outros localizações nos centros nervosos. Havia também um caso de mixedema no princípio. As alterações da tireóide são freqüentes, mas os papos volumosos comparativamente raros.

Voltamos no mesmo dia para Pirapora. Fizemos a viagem no “Presidente Dantas,” que tinha sido posto à nossa disposição. O comandante Arthur Vianna foi um excelente companheiro de viagem e nos prestou muitos serviços, como também o major Ramos, que nos acompanhou a Guacuí e sempre nos obsequiou em Pirapora, onde reside. Encarregou-se também da nossa correspondência.

Fig. 10 – Presidente Dantas Steamboat being supplied with firewood. Adolpho Lutz and Astrogildo Machado travelled in this ship. Photo not published in the 1915 report.

Presidente Dantas abastecendo-se de lenha. Nesse vapor viajaram Adolpho Lutz e Astrogildo Machado. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig. 11 – Commodore and machinist of Presidente Dantas Steamboat. Photo taken in Pirapora, April 1912 and not published in the 1915 report.

Comandante e maquinista do vapor Presidente Dantas. Foto batida em Pirapora, em abril de 1912, não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

19 de abril – Como pressentia na véspera, mas contra as predições dos moradores, o tempo tornou-se chuvoso. De manhã caiu uma chuva torrencial que inundou as ruas e uma parte do hotel. De tarde abrandou o aguaceiro, completamente anormal nesta estação, permitindo-nos sair um pouco. O primeiro passeio foi à cachoeira que já tinha visitado em ano anterior. Naquela ocasião o rio estava baixo e permitiu-nos alcançar a cachoeira principal, que nesse tempo era muito pitoresca. Combinando a visita com um banho, colhi naquela ocasião, nas pedras quase à tona d’água, grande quantidade de podostemáceas do gênero Ligea que estavam literalmente cobertas com larvas e casulos duma espécie de borrachudo especial aos saltos e grandes cachoeiras de rios maiores. Verifiquei, então, que o inseto adulto sai somente quando os casulos são expostos ao ar pela vazante do rio, o que explica o seu aparecimento periódico.

Desta vez a água ainda estava alta demais para se chegar ao mesmo ponto e as lajes cobertas por um precipitado barrento eram muito escorregadiças. Com muito custo, conseguimos apanhar alguns casulos dessa espécie, que parece a única nesta cachoeira. Há outra espécie de podostemácea que me parece uma Mouriera, mas encontra-se mais no meio e do outro lado, de modo que desta vez não a achei. Não é procurada pelas larvas e casulos daquele borrachudo, que se chama Simulium orbitale Lutz e nunca ataca a gente, mas persegue os cavalos. Notamos nesta ocasião grande número de peixes pequenos procurando subir pela cachoeira.

Figs. 12, 13 – An agenda at a German pharmaceutical laboratory contains Adolpho Lutz's notes in Portuguese and in German, dated between April 19 and 25, 1912.

Numa agenda de um laboratório farmacêutico alemão encontram-se anotações feitas por Adolpho Lutz em português e em alemão correspondentes aos dias 19 a 25 de abril de 1912 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

A cidade de Pirapora, que percorremos depois, é bastante grande e em via de progresso. Levando em conta a grande distância dos centros, produz uma impressão bastante favorável, sem ter atrativos especiais. O melhor edifício da zona está situado do outro lado do rio e serve para a escola de aprendizes marinheiros. Pelo resto, as casas e mesmo as igrejas são modestas, mas as ruas são assaz largas e bem traçadas e o terreno, bastante arenoso, tem grandes vantagens. A cachoeira está ainda na altura da cidade e por isso o porto acha-se um pouco abaixo desta. Vi vários casos de coreotripanose e impaludismo, além dum reumatismo articular e afeções banais.

20 de abril – Pela bondade de um companheiro do hotel, Sr. Mattoso, ocupado nos trabalhos do prolongamento da estrada de ferro e conhecedor da região, obtivemos cavalos para uma excursão à cabeceira interessante do Brejinho, situada na serra e fazenda do mesmo nome. Tivemos de atravessar o rio com os cavalos num ajoujo e aproveitamos a ocasião para visitar a referida escola que ainda não estava aberta, porém quase pronta. Na excursão, vimos várias plantas interessantes, entre as quais uma mimosa com vistosas flores vermelhas e outra planta decorativa, à qual dão aqui o nome de algodoeiro bravo, que, em outras regiões, designa plantas muito diferentes. É um arbusto lembrando um pouco um dos grandes rododendros, mas as flores encarnadas mais se parecem com as rosas selvagens da Europa. Encontra-se em várias serras perto de Pirapora, mas depois desapareceu e senti muito não ter levado exemplares secos. Provavelmente tratase de uma espécie de Kielmeyera. A cachoeira que corre por enormes lajes foi fotografada. Colhi na viagem algum material de borrachudos e mutucas. Apanhamos também, sem querer, bom número de carrapatinhos que nesta região constituem uma praga terrível. Felizmente tornaram-se mais raros no decurso da viagem e finalmente desapareceram completamente.

Fig. 14 – Brejinho Falls, Minas Gerais. The image originally belonged to Plate 1.

Cachoeira do Brejinho, Minas Gerais. Imagem originalmente em Estampa 1.

Fig.15 – Brejinho Falls, Minas Gerais. Photo originally published in Plate1.

Cachoeira do Brejinho, Minas Gerais. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 1 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

21 de abril – Fiz hoje uma excursão para Buriti das Mulatas, uma das últimas estações da estrada de ferro. Há neste lugar um buritizal no meio dum brejo onde o Dr. Chagas tinha encontrado a Stethomyia nimba, espécie interessante de anofelino. Todavia, nem com cavalo conseguimos apanhar um exemplar e também não achamos as larvas, apurando apenas que não devem ser bromelícolas. Havia na água do brejo larvas de espécies de Cellia, Uranotaenia e Culex (cingulatus) e uma espécie de Ceriodaphnia. Apanhei algumas mutucas interessantes, mas o trabalho em geral foi mal remunerado, visto tratar-se dum lugar que já tinha fornecido coleções muito interessantes. Tivemos aqui a primeira prova de que a estação favorável já tinha passado. Procuramos também o barbeiro, porém sem resultado, não obstante tratar-se de região infectada. Finalmente tivemos ainda de esperar o trem por um [tempo] enorme, chegando a Pirapora com quatro horas de atraso, às 2 horas da manhã.

22 de abril – Recebemos neste dia a maior parte de nossa bagagem bastante volumosa, que foi transferida para bordo. Vi mais alguns doentes e verifiquei no hotel a Cellia albimana. Com o trem da noite, que felizmente chegou a tempo, veio o Dr. Astrogildo Machado, que devia substituir o Dr. Chagas nessa expedição. Fomos dormir a bordo, onde já estava tudo preparado. O rio, nestes últimos dias, tinha caído tanto que o vapor foi obrigado a mudar de lugar para não encalhar.

23 de abril – Tendo levantado ferro cedo, chegamos às 8h30 a Guacuí, distante 20 quilômetros. As 12h37 partimos a cavalo para a serra de Rompe-dia, que faz parte da serra do Cabral. Esta era conhecida como paradeiro de muitas onças que ainda hoje não desapareceram completamente. Na ascensão bastante íngreme encontramos primeiro a vegetação tortuosa dos campos fechados. Mais acima apareceram veredas com buritis e um Paepelanthus, [espécie de] Eriocaulacea de dimensões extraordinárias. Passamos por campos abertos, parecendo apropriados para gado, que só encontramos em número relativamente pequeno, e atravessamos vários rios, em cujas lajes encontrei larvas e pupas de Simulium rubrithorax. Passando ao lado de rochedos de grés avermelhado, decomposto em formas fantásticas, e descendo depois por uma capoeira muito fechada, chegamos a uma caverna, da qual nos tinham falado e que desejávamos visitar. Consiste num túnel, formado pela água do córrego Rompe-dia, de cerca de 30 metros de comprimento e com uma abertura de cada lado. O solo da gruta é formado pela própria pedra, não prometendo resultados paleontológicos; há apenas indicação de formação de estalactites. Considerando o acesso bastante difícil, essa gruta mal compensa o trabalho de visitá-la, mas a excursão na serra oferece um panorama muito interessante. Esta serra parece menos árida que aquelas que se encontram mais rio abaixo, e parece também ter uma flora bastante rica. Encontramos muitas flores bonitas, pertencendo às leguminosas, bignoniáceas, acantáceas, convolvuláceas etc. Durante a excursão encontramos também rastos de antas e porcos de mato. Na volta apanhei algumas mutucas crepusculares. Antes de chegar à serra, atravessamos uma zona com bastantes árvores elevadas, entre as quais se destacava o tamboril (Enterolobrium timbouva M.). Verificamos em Guacuí muitas Cellia argyrotarsis, única anofelina que se pode responsabilizar pela freqüência do impaludismo nesta zona. Um pouco para dentro desse lugar é Porteira, lugar antigo, mas completamente decaído em conseqüência dessa moléstia, o que não é para estranhar, visto estar na borda duma lagoa que se estende duma povoação a outra. Deve ser um excelente criadouro de Cellia, tanto mais que não está muito exposta ao sol. Pelo tempo que a barra do Rio das Velhas já está habitada, devia-se já encontrar uma grande cidade neste ponto, se o lugar fosse mais salubre. Existem aqui duas igrejas grandes, que nunca foram acabadas e apresentam uma decadência ainda maior do que as povoações.

Fig.16 – Eriocaulacea, a species of Paepelanthus. Cabral Mountains. Image originally published in Plate 9

Eriocaulacea, espécie de Paepelanthus. Serra do Cabral. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 9 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

24 de abril – Neste e no dia anterior foram examinados vários doentes e tiradas fotografias de alguns. Observamos um caso interessante de Eczema marginatum de Hebra, generalizado, o que indica um clima quente. Continuando a viagem durante a manhã, chegamos, depois de breve percurso, na parada da fazenda Jatobá, mas não encontramos os cavalos, pedidos com antecedência. Só chegaram muito tarde, de modo que quase não havia mais tempo para a excursão projetada à cachoeira do Rio Jatobá. Resolvemos, todavia, seguir, e atravessamos primeiramente um mato baixo, chegando então a uma serra, pouco elevada, porém bastante íngreme, onde havia primeiramente campo fechado e depois campo aberto. Alcançamos finalmente a cachoeira que é bastante volumosa e pitoresca, lembrando um pouco o salto de Itu. Tiraram-se fotografias e apanhou-se material de Simulium, larvas e casulos no rio, os adultos nos cavalos. Parece, todavia, que os verdadeiros criadores não eram acessíveis. Também não se encontram podostemonáceas.

Durante a viagem fomos muito incomodados por grande número de pequenas moscas do gênero Hippelates. Surpreendidos pela noite e tendo o camarada perdido o caminho, quase tivemos de pernoitar no campo. Em certo ponto, fomos assaltados por grande número de mosquitos que picavam sem zunido. Não pudemos no escuro verificar se se tratava de Cellia ou de Culicoides. Só voltamos com a noite fechada à fazenda de Jatobá, onde havia apenas umas casas completamente primitivas e sem valor. Essa fazenda, incluindo a cachoeira que pode fornecer muita força, foi ultimamente comprada pelo governo de Minas.

Fig.17 – Guacuí view on April 23, 1912. Photo not published in the 1915 report.

Vista de Guacuí em 23.4.1912. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.18 – A case of Eczema marginatum (Hebra). Photo not published in the 1915 report.

Um caso de Eczema marginatum (Hebra). Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig.19 – Patients waiting for consultation with physicians from the São Francisco River expedition. Photo not published in the 1915 report.

Doentes aguardando consulta com os médicos da expedição pelo rio São Francisco. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig.20 – Shoulders and nape of a man with generalized Eczema marginatum (Hebra); examined in Guacuí on April 24, 1912. Photo not published in the 1915 report.

Ombros e nuca de homem com Eczema marginatum (Hebra) generalizado, examinado em Guacuí em 24.4.1912. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.21 – Waterfall, Jatobá River. Photo not published in the 1915 report.

Cachoeira do rio Jatobá. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

25 de abril – Saindo cedo, chegamos às 10 horas a Extrema de Monteclaro, distante 87 quilômetros de Pirapora. Tem umas casas e o seu aspecto é melhor do que o de Guacuí. Aqui, por exceção, há umas cisternas ou poços, quando geralmente nesta região só se bebe a água do rio. Informaram-nos que aqui não havia nem papos, nem barbeiros; assim mesmo encontramos casos tanto de papo, como de coreotripanose, além de muitos casos de febre intermitente. Observamos e fotografamos também um caso de osteossarcoma do fêmur. Resumimos a viagem às 3 horas da tarde. Ao anoitecer passamos a barra do importante tributário Paracatu, a 134 quilômetros de Pirapora, e paramos para passar a noite entre esta barra e São Romão.

Fig.22 – Extrema de Monteclaro, located 87 km from Pirapora, Minas Gerais. Photo not published in the 1915 report.

Extrema de Monteclaro, distante 87 km de Pirapora, Minas Gerais. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.23 – Extrema de Monteclaro. Photo taken on April 25,1912. Not published in the 1915 report.

Extrema de Monteclaro, foto batida em 25.4.1912. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.24 – Village of São Romão on April 26, 1912. Photo not published in the 1915 report.

Povoado de São Romão, em 26.4.1912. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.25 – Affluence of the Paracatu River. Image originally published in Plate 5.

Afluência do rio Paracatu. Imagem originalmente publicada em Estampa 5.

Fig.26 – São Romão. Photo not published in the 1915 report.

São Romão. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

26 de abril – Chegamos muito cedo a São Romão, vila de 500 a 600 casas, ao que informaram. Já tem um século de existência, mas ainda se acha em estado bastante primitivo. Bebe-se água do rio, e o lugar parece pouco salubre. Vimos grande número de doentes das moléstias endêmicas: papo, tripanose e impaludismo. Apareceu também um caso de ancilostomíase e um de sífilis terciária, bastante extensa. Depois de tirar algumas fotografias, tocamos para São Francisco, aonde chegamos às 4 horas da tarde, examinando ainda bom número de doentes.

27 de abril – Acompanhados por vários moradores de São Francisco fizemos uma excursão à Lagoa do Feijão. É muito grande, mas dista uma légua da cidade, de modo que não influi sobre a saúde dos moradores. De outro lado, a Cellia argyrotarsis abunda na própria cidade e logo invadiu nosso navio. Tem os seus criadores dentro ou perto da cidade, que é muito sujeita a inundações. A maior enchente dos últimos tempos foi em 1906. A julgar pelos lugares, que nos indicaram como submergidos, o nível do rio, naquela ocasião, deveria ter estado pelo menos 10 metros acima do nível mais baixo. Em anos ordinários a diferença alcança oito metros. A enchente deste ano, que foi bastante grande, já tinha baixado de cerca de um metro. Principiou em fim de fevereiro e continuou em março, inundando grande parte da cidade. A igreja, bastante grande, mas não completamente acabada, está situada no lugar mais alto da margem, numa espécie de promontório de pedra.

À tarde, vimos mais doentes e jantamos depois no edifício da câmara municipal com os honoratiores do lugar, que nos cumularam de muitas atenções durante a nossa estadia.

Dos lugares vizinhos, São Romão é o mais velho, e já foi muito maior. São Francisco, distante de Pirapora uns 229 quilômetros, foi declarado vila em 1872 e a sua população é avaliada em 10 mil habitantes. Januária, cuja população, incluindo os arrabaldes, é calculada em 23 mil pessoas, é mais recente.

A patologia do lugar é igual à de toda esta zona. Atualmente predomina o impaludismo. O Dr. Machado descobriu um caso de framboesia, sendo o diagnóstico confirmado pela presença dos espiroquetas em preparações feitas pelo método de Burri.

28 de abril – Desamarramos cedo, continuando a viagem rio abaixo. Deixa-mos à esquerda as barras do rio Pardo, carregando água barrenta, e do rio Verde, cuja água verde-escura e límpida se destaca ainda algum tempo depois da confluência com as águas amareladas do São Francisco. Saltamos em Pedra de Santa Maria da Cruz, 299 quilômetros abaixo de Pirapora. Tínhamos informação sobre a freqüência dum barbeiro menor (Triatoma sordida) neste lugar. A sua presença, a princípio negada, foi depois admitida e finalmente apareceu, que era quase geral. Todavia foi só com custo que arranjamos uma larva e uma imago, que acabava de se transformar, como o indicava a cor vermelha que, depois de algumas horas, cedeu lugar à coloração natural do inseto adulto. No lugar havia muitos casos de coreotripanose e as casas, mal construídas, eram mais apropriadas para moradia de barbeiros que para residência dos homens.

Fig.27 – Pedra de Santa Maria da Cruz seen from the river. Photo not published in the 1915 report.

Pedra de Santa Maria da Cruz, vista do rio. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Pouco acima dessa povoação, fizemos uma visita a bordo do vapor “Pirapora,” que ia rio acima. Pertence à mesma companhia; distinguia-se, todavia, por ter uma roda na popa, quando o nosso tinha rodas laterais.

Durante o meio do dia, a temperatura a bordo era sempre bastante elevada, tornando-se mais branda depois das 3 horas. As noites eram agradáveis, posto que um tanto quentes na primeira parte; só depois da meia-noite o ar tornava-se bastante fresco. Durante a viagem e a estadia em Januária ainda houve algumas chuvas, posto que ligeiras; geralmente eram precedidas por calor incomodativo.

A largura do rio aumentou pouco a pouco, diminuindo no mesmo tempo a corrente, que em Januária é pouco sensível. Apareciam alguns bancos de areia cuja presença também se acusava mais na margem do rio. De ambos os lados, apareciam serras azuladas, geralmente planas em cima, salientando-se alguns picos onde se distinguiam rochedos. A vegetação marginal consiste de árvores baixas, e só a da margem do rio Pandeiras parecia-se mais com mata. Encontramos, pela segunda vez, um grande bando de colhereiras.

À tarde chegamos à cidade de Januária, distante 314 quilômetros de Pirapora, mas, por causa do calor excessivo, só saltamos depois do jantar, examinando ainda alguns doentes.

Fig.28 – Sand banks and dunes, São Francisco River. Image originally published in Plate 4.

Bancos de areia e dunas no Rio São Francisco. Imagem originalmente publicada em Estampa 4.

Fig.29 – Lapa viewed from the mountain. Photo originally published in Plate 15.

Vista de Santa Maria tirada do rio Corrente. Imagem originalmente publicada em Estampa 15.

Fig.30 – Januária, Minas Gerais. Image originally published in Plate 7.

Cidade de Januária, Minas Gerais. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 7 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

29 de abril – De manhã vimos doentes, enquanto esperávamos os cavalos necessários para uma excursão a um lugar vizinho, chamado Arraial do brejo do Amparo. Às 3 horas da tarde, finalmente, estávamos em condições de partir e atravessamos um campo arenoso cuja flora mostrava várias plantas novas. O arraial, que é bastante povoado, está situado entre morros onde aparecem rochedos estratificados quase perpendiculares, e perto dum pequeno rio com água um tanto salobra, no qual encontrei algumas larvas novas e indetermináveis de Simulium. Vimos muitos doentes com papos grandes e um caso curioso de moléstia cutânea, tirando-se várias fotografias. Pelas informações existia também o barbeiro. Aqui encontramos também pela primeira vez o algodão de seda que, em conseqüência de ter sementes facilmente carregadas pelo vento, parece naturalizar-se, depois de ter sido introduzido como planta de cultura.

Na volta pelo campo, quando já ficava escuro, pegou-se uma espécie de Culicoides ou mosquito-pólvora que procurava picar o Dr. Machado na mão.

Fig.31 – Brejo do Amparo, Minas Gerais. Photo originally published in Plate 15.

Brejo do Amparo. Minas Gerais. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 16 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.32 – Case of goiter identified in Brejo do Amparo. The date displayed by the photographer was April 8, 1913, but the photo was taken in April 1912. Photo not published in the 1915 report.

Caso de bócio identificado em Brejo do Amparo. A data montada pelo fotógrafo indica 28.4.1913, mas a foto foi batida em abril de 1912. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.33 – Case of hemorragic eruption in Arraial do Brejo do Amparo. Photo taken on April 29, 1912 and not published in the 1915 report.

Caso de erupção hemorrágica no Arraial do brejo do Amparo. Foto batida em 29.4.1912, não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, sub-série expedições, maço FOC).

30 de abril – De manhã examinamos umas 50 meninas de escola, e à tarde o Dr. Machado viu um número ainda maior. É difícil encontrar nesses meninos uma glândula tireóide que pareça completamente normal. Há também uma proporção grande apresentando alguns gânglios hipertrofiados no pescoço.

A maior parte também já sofreu de febres. A taquicardia, provavelmente devida a hipertireoidismo, é freqüente; observavam-se também alguns sintomas de mixedema incipiente. Disso se pode concluir que nessa cidade existe um fator patogênico muito generalizado, posto que pouco intenso.

Vimos ainda alguns outros doentes, tirando-se algumas fotografias, e tivemos ocasião de percorrer a cidade, que é bastante extensa e de aparência regular. À tarde chegou uma lancha de Pirapora, trazendo alguma correspondência.

Na praia tivemos ocasião de observar, ao lado do urubu comum, as espécies de cabeça vermelha e amarela. Todas eram infectadas com uma hipoboscídeo que se encontra com muita regularidade no animal vivo, fugindo, todavia, logo depois da morte do hospedador.

1° de maio – Fizemos uma excursão a umas lagoas vizinhas à cidade. Passeando na praia arenosa dum braço do rio, encontramos as cascas, mais ou menos secas, de muitos acaris grandes, que foram desprezados pelos pescadores de rede, embora sejam perfeitamente comestíveis. Apanhou-se neles uma espécie de Dermestes e várias moscas. Na mesma praia encontrei dois exemplares dum bonito carabídeo e uma licindela grande, como também buracos das larvas. Chegados às lagoas, encontramos grande número de irerês (Dendrocygnus viduata (L.)), que todavia eram muito ariscos. Havia também jaçanãs ou piaçocas (Parra jaçana (L.)) e bom número de téu-téus, que são o maior inimigo do caçador, porque alarmam a caça de mais valor. Caçou-se um irerê e alguns outros pássaros. Peguei também uma mutuca bastante interessante.

Fig.34 – A pond near Januária, Minas Gerais. Image originally published in Plate 13.

Uma lagoa perto de Januária. Minas Gerais. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 13 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

2 de maio – Sabendo da existência duma gruta (ou, como se diz aqui, lapa, interessante, a 2½ léguas da cidade, tínhamos reservado o dia de hoje para essa excursão. Tampouco, como na véspera, conseguimos obter os animais em tempo, o que sempre constitui no interior um dos problemas mais difíceis. Foi só às 10 horas que conseguimos sair. O caminho para a gruta do Tatu (como se chama a caverna, pela vizinhança da fazenda do Tatu) passa primeiramente pelo campo e depois por uma cachoeira ou mato baixo e aberto. O caminho até a fazenda é bom; de lá para diante torna-se mais difícil de achar, sendo às vezes tão íngreme que custa para subir a cavalo. Encontra-se um verdadeiro mato, bem bonito, com várias plantas interessantes, entre estas alguns Cereus de altura extraordinária; estranha-se, apenas, não ver sinais de vida animal, num lugar que parece tão favorável para caça de toda espécie. Acompanhamos um córrego que vinha da serra e passa na fazenda, contribuindo para a maior fertilidade deste lugar. Na serra vêem-se logo paredões de pedra muito decomposta, com estratificação horizontal grosseira e mostrando escavações em forma de grutas baixas, nem sempre acessíveis; de um desses lugares sai um riacho que deposita pequenas estalactites nas suas quedas e contém folhas incrustadas. É possível que esteja em alguma comunicação com a gruta principal, que ainda está um tanto distante, mas trata-se apenas de suposição não verificada.

Admiramos outra vez o modo extraordinário pelo qual esses rochedos íngremes são invadidos por figueiras e barrigudas bastante altas e cujas raízes expostas, às vezes, são mais compridas do que o tronco e os galhos. Depois dum longo passeio no mato depara-se repentinamente com a entrada da gruta, que nada indicara. A abertura, bastante larga, mas pouco elevada, é colocada acima do chão da caverna. Descendo uma rampa curta entra-se numa sala grande com alguns grupos de estalactites e estalagmites monumentais; a cavidade emboca num corredor vasto e bastante longo, terminando em outra abertura assaz grande, mas pouco acessível. A luz que entra por essas aberturas basta para iluminar um pouco as cavidades principais, mas há vários divertículos que ficam completamente no escuro. As estalactites ocupam apenas parte do espaço; perto das paredes laterais há muitos terraços, rodeados de margens salientes que os transformam em bacias chatas. O soalho não é todo de pedra, mas há terra. Onde a abobada é mais alta e, ao mesmo tempo, mais escura, há no chão um monte de húmus, que atribuo à transformação de excrementos de morcegos, que devem escolher de preferência esse lugar para se esconderem. Atualmente não há outros sinais de sua presença. Não achamos nem rio nem lagoa na gruta, e só num ponto, que era preciso conhecer, encontra-se um pouco d’água, que também raras vezes pinga de cima; todavia é licito supor que, no tempo das águas, haja condições muito diferentes das observadas por nós num tempo em que os campos eram completamente secos e cobertos de pó. Fora de algumas mariposas, não encontramos vestígios de animais vivos ou fósseis. Todavia é bem possível que, cavando, se encontrem restos de animais pré-históricos, como em muitas lapas desta região. O tamanho colossal das estalactites indica claramente a enorme idade desta caverna.

Depois de demorar bastante tempo e tirar algumas fotografias, deixamos essa gruta notável, embora pouco conhecida, comparada com a qual a célebre gruta da Lapa é modesta. Aqui a igreja, em vez de tomar conta de toda a gruta, limitou-se a ocupar um cantinho.

Na volta visitamos a fazenda, experimentando os produtos de cana que se achavam em via de fabricação. A aguardente de Januária goza de alguma fama nesta zona, e a rapadura também é um artigo de comércio.

Fig.35 – Tatu Grotto, Minas Gerais. Photo originally published in Plate 2.

Gruta do Tatu, Minas Gerais. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 2 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig.36 – Way to the Tatu Grot, Januária, Minas Gerais. Image originally published in Plate 13.

Caminho da gruta do Tatu, Januária, Minas Gerais. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 13 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig.37 – Tatu Grotto, large room. Minas Gerais. Photo taken on May 2, 1912 and not published in the 1915 report.

Gruta do Tatu, grande sala. Minas Gerais. Foto batida em 2.5.1912, não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

3 de maio – Depois de ter visto mais doentes, deixamos Januária às 9 horas em busca de Jacaré, 30 quilômetros mais abaixo. Esse arraial, de pouco mais de cem casas, também está situado à margem esquerda. Verificamos a existência da Triatoma sordida, que, daqui por diante, se torna freqüente e bastante conhecida e substitui completamente a megista, quase totalmente desconhecida. Obtivemos um exemplar adulto, morto e seco, e uma larva viva e cheia de sangue, que parecia ser de mamífero. Convém acentuar que esta espécie é mais freqüente nos galinheiros do que nas habitações humanas, onde, todavia, não ataca somente os passarinhos de gaiola, mas qualquer outro animal de sangue quente. Exemplares caçados em outros lugares alimentaram-se facilmente, sugando num gatinho; em estado selvagem gostam de atacar pequenos roedores, como o mocó e a preá. Quem quiser atribuir à coreotripanose a moderada hipertrofia da tireóide, que também é freqüente, quando sintomas mais graves e característicos são raros, só poderá considerar esta espécie menor de Triatoma como transmissora. É verdade que o percevejo de cama também é comum nesta região, mas não pode ser um transmissor eficaz, senão a moléstia seria muito mais espalhada. Encontramos, também, um caso de hemiplegia parcial, um de Erythema polymorphum, um de conjuntivite crônica e dois casos de elefantíase, sendo um do pé e complicado por grandes sifílides ulcerosas e serpiginosas. Os outros doentes não apresentavam interesse geral.

À margem do caminho, observamos aqui, pela primeira vez, a Parkinsonia aculeata L., cesalpiniácea arbórea com folhas pinadas e cujos folíolos são muito reduzidos, dando a impressão duma planta xerofítica. Tem o nome vulgar de rosa-da-turquia. Daqui para diante, foi freqüentemente encontrada nas povoações, ao lado do algodão de seda e da Nicotiana glauca. Ambas estas plantas são arborecentes, têm as folhas bastante suculentas e glabras, de cor verde-clara, e parecem espalhar-se espontaneamente. As ruas, que nunca são calçadas e quase sempre sem pedras, prestam-se a esse desenvolvimento.

Fig. 38 – Silk cotton. Jacaré. Image originally published in Plate 11.

Algodão de paina de seda. Jacaré. Imagem originalmente publicada em Estampa 11.

Convém mencionar aqui também o umbuzeiro (Spondias purpurea L.), que resiste às secas pelas coleções d’água contidas em tubérculos das raízes. Torna-se freqüente daqui para diante, mas não era a estação em que carrega frutos, de modo que não me foi possível formar opinião sobre estes.

Na viagem de Januária para Jacaré, demoramo-nos durante hora e meia em Belmonte, pequeno povoado dumas 70 casas, encostado num morro, em cujas pedras havia muitos cactos, e separado do rio por uma lagoa. Havia bócio e um caso suspeito de coreotripanose, sendo abundante a Triatoma sordida.

Saímos de Jacaré às 2h35 e encostamos em Ressaca às 7 horas para passar a noite. Não se saltou por não haver casas nesse lugar.

4 de maio – Partimos às 5h50 e tocamos em Morrinhos às 6h45. Este lugar, já bastante antigo, está situado à margem direita do rio, 412 quilômetros abaixo de Pirapora. Tem uma igreja grande, também já bastante antiga e com o telhado em ruínas, a cuja história se ligam várias lendas. Um pequeno morro, atrás do lugar, consiste em pedra, partida por fendas verticais e dando à percussão um som metálico. Está semeada de cavidades que aqui tomam a forma de poços fundos, dos quais nascem várias gameleiras grandes. No ponto mais alto e perto dum desses poços há um grande cruzeiro, e o povo quer que este tenha sido ligado com a igreja por uma passagem subterrânea secreta.

Fig. 39 – Morrinhos Church, Minas Gerais. Image originally published in Plate 8.

Igreja de Morrinhos, Minas Gerais. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 8 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Nesse lugar havia muito impaludismo, e obteve-se grande número de Triatoma, de espécie sordida. Provinham dum galinheiro e não tinham flagelados no intestino. Perto da igreja, encontrou-se também uma grande lacraia, a maior que observei até hoje.

Saímos de Morrinho à 1h55 e aportamos às 2h45 em Manga, 12 quilômetros abaixo e na margem esquerda, onde demoramos duas horas e meia. Aqui também havia muitos papos, porém, em regra pequenos. Observou-se também um caso de infantilismo e obteve-se a Triatoma sordida. Os exemplares provenientes de galinheiro não estavam infeccionados.

Passamos a noite encostados na llha do Cachorro, aonde chegamos às 7 horas. Pegamos bom número de mariposas nas lâmpadas de acetileno.

5 de maio – Saindo às 6 horas entramos logo no Rio Verde, cuja barra está na margem direita. Perto dum lugar chamado Melância, segundo o mapa, saltei e colhi algumas plantas, principalmente Ipomoea de várias espécies. A água do afluente, como de muitos outros, é mais clara que a do rio principal; em lugares profundos a cor é um verde-garrafa escuro. Às 9 horas entramos no rio Carinhanha, cujas águas, parecidas com as do rio Verde, separam os estados de Minas e da Bahia. A sua parte inferior é completamente desabitada e as margens, cobertas por uma vegetação impenetrável, não se prestam para saltar. Só mais para cima encontramos, à margem direita, um paradeiro apropriado, num lugar chamado Muquém. Havia aqui uma várzea extensa com muitas lagoas e ilhas de capoeiras, como também um morro baixo. Saltamos para caçar e colecionar plantas e animais. Aqui encontrei pela primeira vez uma grande esponja de água doce, cujos esqueletos silícicos estavam fixados em galhos de árvores, bastante acima do nível atual das águas e podendo ser banhados só em tempo de cheia.

Havia também aqui bandos duma espécie de curiango ou bacurau (Caprimulgus) que, ao voar, mostravam uma grande mancha branca na extremidade das asas. Quando sentadas, encolhiam as pernas e achatavam-se no chão, a ponto de, muitas vezes, desaparecerem da vista. A gente da zona, desconhecendo as suas afinidades, tratava-as pelo nome de coruja.

Nas várzeas havia grande variedade de plantas palustres, apresentando muitas vezes formas diminutas, devidas às mutilações feitas pelo gado, pastando. Encontramos também, em lugares úmidos, grande cópia dum pequeno miriápode, infectado com gregarinas, e, no tronco dum juazeiro, um número extraordinário de exemplares duma espécie de Ceratopogon. Saímos às 11 horas e chegamos à 1h30 num outro lugar habitado, chamado Ribanceira alta.

Aqui, com efeito, o barranco era muito elevado e continha grande número de ninhos do martim-pescador grande (Ceryle torquata). Esse pássaro bonito também se mostrava em maior número, sendo todavia bastante arisco. Saltamos em terra para passear e encontramos um tabuleiro extenso com caracteres de duna antiga, formado totalmente de areia branca, coberta de vegetação rasteira muito especial, onde havia arbustos ou árvores maiores; conseguem vegetar assaz bem numa terra que dá, à primeira vista, a impressão de esterilidade. Havia mesmo umas roças perto do rio. Em razão do grande número de trilhos, feitos pelo gado, no fim de algum tempo perdemos completamente o caminho e a direção. Depois de andar muito, encontramos um homem que com a família morava num rancho no mato, colhendo borracha de maniçoba. A árvore é encontrada em estado selvagem em toda esta região, mas pareceu-me pouco abundante. A amostra de borracha, que lá encontramos, não tinha bom aspecto e apresentava bastante mau cheiro. Costumam enterrar a borracha, provavelmente para secar mais depressa neste solo arenoso.

Depois de confirmada a nossa idéia final sobre a direção a seguir, tivemos de contornar uma grande lagoa e de andar ainda por muito tempo, até encontrar o rio e o vapor. Voltamos às 4h10 e, chegados à barra, atravessamos o São Francisco e saltamos em Malhada, pequeno lugar com população quase toda de cor. Obtivemos a informação, confirmada depois em outros lugares, que nos cavalos desta zona existe a peste de cadeiras, sendo a moléstia observada também nas capivaras. Não sendo muito própria a estação, não foi possível arranjar animal doente. Nesta zona também se observa a cara inchada ou osteomalacia dos cavalos, posto que não seja muito freqüente. Às 5h40 chegamos à cidade de Carinhanha, a 483 quilômetros de Pirapora, tendo entrado definitivamente no estado da Bahia. Recebemos ainda várias visitas, a bordo, mas não saltamos mais. Vimos um médico do lugar, que prestou algumas informações. Aqui o papo já é bastante raro, nem encontramos moléstias de Chagas.

Fig. 40 – Mother-Church Plaza, Carinhanha. Photo originally published in Plate 17.

Carinhanha. Largo da Matriz. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 17 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

6 de maio – Visitei a cidade, que dá uma impressão bastante favorável. Foram examinados alguns casos de moléstias sem interesse especial. Não foram obtidos barbeiros nem informações sobre a sua existência. Resolvemos passar a noite em Muquém, no rio Carinhanha, e saímos às 2h10, chegando às 5h15. Na barra desse rio, passa-se por baixo do fio telegráfico. Continuamos as coleções. Encontramos muitos rastos e algumas capivaras, tanto no rio, como de noite em terra, mas não se caçou nenhuma, por serem muito ariscas.

7 de maio – Tivemos uma demora pela necessidade dum concerto na máquina, e só soltamos as amarras à 1h15. Tocamos outra vez em Carinhanha, partindo definitivamente às 2h45. O rio aqui é largo e tem correnteza mais forte. Depois duma viagem sem interesse especial, aportamos às 7 horas num pequeno lugar chamado Barreiras, para tomar lenha. Esta operação, que tem de ser repetida freqüentemente, se faz geralmente em sítios com poucas casas, onde se observa a lenha acumulada no barranco. Eu costumava aproveitar o tempo para colecionar, enquanto o Dr. Machado via doentes ou procurava informações. Saltei e visitei uma casa, quando já se tornava escuro, e tive a felicidade de encontrar numa porta do interior um exemplar de Triatoma maculosa, sendo este o único exemplar dessa terceira espécie que foi encontrado durante a viagem.

Figs.41, 42 – Photos taken on June 5, 1912 and not published in the 1915 report.

Cidade de Barreiras. Fotos batidas em 5.6.1912, não utilizadas no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, sub-série expedições, maço FOC).

8 de maio – Deixando Barreiras às 5 horas da manhã, chegamos às 9h30 a Lapa (634 quilômetros de Pirapora), cujo morro esquisito já era visível muito tempo antes. Passando por um braço do rio e ao lado duma lagoa, chegamos logo à gruta que deu o nome à cidade, tendo sido transformada em igreja, cujas festas são muito visitadas pelos fiéis. Este santuário deu uma prosperidade extraordinária ao lugar, que contém grande número de casas, maior do que corresponde à povoação sedentária. A caverna não tem comprimento nem altura notável. O chão está cimentado, e uma abertura foi transformada em janela. A água, que cai em gotas num pequeno divertículo da gruta, é considerada milagrosa.

Fig.43 – Entrance of Lapa Church, Bahia. Image originally published in Plate 8.

Entrada da igreja da Lapa, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 8 (COC, DAD, SI, série Atividades Científicas, subsérie Expedições, AC-E 1-20.2)

Fig.44 – Lapa Church, Bahia. Image originally published in Plate 8.

Igreja da Lapa, Bahia. Imagem originalmente publicada em Estampa 8.

Fig.45 – Lapa Mountain. Image originally published in Plate 12.

Morro da Lapa. Imagem originalmente publicada em Estampa 12.

Fig.46 – View from Lapa Mountain. Image originally published in Plate 12.

Vista tirada do morro da Lapa. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 12 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig.47 – Lapa viewed from the mountain. Photo originally published in Plate 15.

Vista da Lapa tirada do morro. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 15 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

O próprio morro que ergue, no meio duma planície, as suas encostas quase perpendiculares e formadas por pedra calcária muito recortada, tomando a forma de grandes estalagmites, é bem pitoresco. Subimos pelo lugar mais acessível, posto que bastante íngreme. A altura pode regular entre 100 e 150 metros. De cima, descobre-se um panorama muito vasto. O terreno em geral forma uma grande planície, no meio da qual serpenteia o São Francisco, formando vários braços separados por bancos de areia. De vez em quando, surge um outro morro de formação semelhante à descrita, e bem distante descobre-se uma serra extensa de cor azul. A flora mostra alguns cactos e outras plantas com espinhos; perto da entrada havia uma bromeliácea com flores roxas, que não consegui apanhar, mas que me pareceu uma Tillandsia. Lá se notavam também grandes figueiras, crescendo em paredões verticais e segurando-se por meio de enormes raízes completamente expostas.

Do alto, vê-se bem a cidade, que tem algumas ruas paralelas muito longas. Tiraram-se fotografias da lapa, do morro, da cidade e da vista de cima.

Fig.48 – Port view from Lapa Mountain. Photo originally published in Plate 15.

Vista tirada do morro da Lapa mostrando o porto. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 15 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

9 de maio – De manhã, fizemos uma excursão a cavalo até uma fazenda, onde vimos várias interessantes plantas de cultura que atestavam o espírito progressista do dono. Havia aqui uma lagoa permanente, onde viviam muitas paludinas. Os ovos, postos em cachos em plantas que depois ficam fora d’água, devendo resistir à seca, eram muito abundantes. Crescia em abundância nas margens da lagoa um areticum com frutas alaranjadas, completamente insípidas (Annona spinescens). Na volta procuramos um caminho com vista do outro lado do morro, oposto à cidade.

Durante a nossa ausência tinha chegado o vapor “Pirapora,” trazendo correspondência e um volume. Escrevemos várias cartas que deviam seguir pelo vapor “Matta Machado”.

Fig.49 – Iguana. Image originally published in Plate 9.

Iguana. Imagem originalmente publicada em Estampa 9.

A patologia do lugar não oferecia interesse especial. Havia bastante impaludismo e alguns casos de sífilis, mas tripanose e papo não são endêmicos.

Aqui compramos um exemplar muito manso da cotia de rabo (Dasyprocta agouti), desconhecido no Rio e em São Paulo, onde só existe a espécie comum.

Informaram que nas margens do São Francisco havia três espécies. Mais ao norte, na Amazônia, existem pelo menos três, provavelmente quatro espécies.

Outro animal, característico do Norte, que aparece aqui, é a iguana, erroneamente chamada camaleão. Não obstante a sua forma um tanto fantástica, não é considerada com o horror que aqui, como em grande parte do Brasil, se manifesta à vista da menor cobra, embora completamente inocente. Pegamos um colubrídeo8 preto no porto e tivemos ocasião de verificar o fato que se repetiu muitas vezes depois. É bastante comum aparecerem cobras na lenha amontoada, mas encontramos apenas espécies não venenosas, que são muito mais freqüentes.

Na Lapa se observa a Triatoma sordida; a megista, conhecida apenas por algumas pessoas, deve ser muito rara.

10 de maio – Às 9h20 despedimo-nos da Lapa e dos seus habitantes e entramos logo na foz do rio Corrente, situada do outro lado e um pouco abaixo da Lapa. É digno de nota que todos os afluentes visitados pelos vapores encontram-se do lado esquerdo. O rio, que deve seu nome à corrente bastante forte que mostra em grande parte de seu percurso, tem as águas menos turvas, de cor verde-escura, lembrando as do rio Verde e do Carinhanha. É bastante fundo e por isso navegável em grande extensão, mas, sendo pouco largo e a corrente forte, a navegação não é das mais fáceis. Subimos durante algumas horas entre barrancos pouco elevados, mostrando freqüentemente sinais de cultura. As árvores não alcançam grande altura e a paisagem, embora mais alegre do que no São Francisco, não deixava de apresentar certa monotonia. Durante o dia tivemos bastante calor, embora estivesse o céu parcialmente nublado.

Fig.50 – Corrente River, a water-wheel. Image originally published in Plate 13.

Rio Corrente, roda d’água. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 13 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Aqui a cotia que, por ser mansa, passeava livremente no convés, criou uma diversão, atirando-se na água e nadando até a margem pouco distante. Foi capturada outra vez, já no mato, pelo comandante e pelos marinheiros.

Depois de cinco horas de viagem, vimos passar grande número de pombos selvagens da espécie pomba de bando ou asa branca. Existe nesta zona toda, mas não com a abundância que esperávamos, sendo aliás bastante arisca. No rio, viam-se garças, socós e martins-pescadores com coleira branca; e nas margens aparecia de vez em quando um jacaré. As margens muitas vezes eram decoradas com trepadeiras grandes, cheias de flores, notando-se, principalmente, um Combretum com inflorescências alaranjadas, e grandes cachos de flores roxas, pertencentes a uma papilionácea.

Só à noite chegamos a Porto Novo, deixando de saltar por ser já muito escuro. Combinamos, todavia, um passeio a cavalo para o dia seguinte.

11 de maio – No porto verificamos a maior limpidez da água, permitindo ver os peixes no rio, entre os quais se nota o matrinxã9 que sempre procura comida perto do vapor, e grande número de piabas. Como na véspera, passei mal, com forte bronquite e pequenos ataques febris, conseguindo apenas pelo uso de antipiréticos conservar-me em estado sofrível. Os cavalos demoraram, como de costume, de modo que só depois do almoço foi possível sair. Não me encontro em condições de acompanhar os outros, que foram em procura duma pequena serra, mas voltaram pouco satisfeitos, por não terem encontrado caminhos transitáveis.

De manhã tinha feito um giro pelo lugar, notando casas um tanto melhores, como, geralmente, são encontradas no estado da Bahia. Depois da volta dos companheiros, examinaram-se vários doentes. Havia bastante impaludismo, alguns casos de papo e tripanose e um de goma dos pés. A Tr. sordida era conhecida, mas não conseguimos exemplares.

Saímos um pouco tarde, subindo o rio, que corria bastante. Passamos logo perto duma serra pouco elevada, mas bastante comprida, mostrando em muitos lugares a pedra em camadas horizontais e vestígios de haver aqui nascentes fortes no tempo das águas, que agora estavam completamente secas. Numa convexidade do rio, encontramos um paredão formado por pedra muito estratificada, cuja base era extremamente minada pela água acima do nível atual. Depois de ter percorrido uma distância de duas léguas, paramos para tomar lenha e passar a noite.

12 de maio – Saímos às 5 horas da manhã. A temperatura tinha baixado a 16-17° e o ar úmido do rio dava a impressão do frio.

O aspecto do rio era muito bonito, sendo a vegetação bastante luxuriante, como tivemos ocasião de apreciar de perto porque, numa volta difícil, chegamos a ter contato com o barranco, sendo o tombadilho da proa varrido pelos galhos e seu corrimão demolido. Encontramos várias plantações, principalmente de cana, que são irrigadas com água do rio por meio de rodas, impelidas pela corrente e despejando a água em duas goteiras laterais. Os canaviais parecem viçosos, e a cana que experimentamos era muito boa. Encontramos outro barranco, formado por pedra decomposta e minada na base. Viam-se também alguns morros, mais ou menos distantes, e de um deles, que era bastante alto e coberto de vegetação, vinha um pequeno afluente. Já algum tempo antes de chegar a Santa Maria deparase com um morro mais alto, podendo ter uma elevação de uns 500 metros. É conhecido por Morro de Lavadeira. À hora do almoço chegamos a Santa Maria, na margem esquerda do rio Corrente e 12 léguas acima da barra. Tem um porto e uma praça com algumas árvores. Havia várias barcas e batelões.

Conforme informações que recebi do Sr. Isidoro Affonso de Oliveira, negociante desta praça, Santa Maria teria 800 casas e 4.500 habitantes, o que não parece à primeira vista. Tem três igrejas e forma sede de comarca de Correntina. Esta tem 40 a 50 mil habitantes e contém ainda a cidade de Santa Anna dos Brejos e a vila de Correntina, e possui importante lavoura de cana.

Fig.51 – Washerwomen, São Francisco River. Photo not published in the 1915 report.

Lavadeiras à beira do rio São Francisco. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série Atividades Científicas, subsérie Expedições, IOC (AC-E) 1-35.2)

Fig.52 – Riverside housing and activities. Boats anchored in front of a troop of mules and a food shop. Photo not published in the 1915 report.

Habitações e atividades ribeirinhas. Barcos ancorados diante de tropa de mulas e tenda com mantimentos. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

O Corrente nasce na Serra de São Domingos, no limite de Goiás. Tem por afluentes o rio Formoso, o Arrojado e os das Éguas, Angicos e Guará. Com exceção do Angicos, todos entram pela margem direita.

A água do porto é clara, mostrando grande número de peixes pequenos e às vezes também maiores. Compramos aqui uma piranha de dois quilos e meio e apareceram também pacus muito grandes. Por causa da água clara e da corrente forte a pescaria não dá grande resultado, sendo feita quase unicamente por meio de anzol e por meninos desocupados.

O aspecto da cidade, visto do porto, é favorável, porque percebem-se somente casas regulares e bem caiadas, porém, penetrando mais para dentro, aparecem também choupanas mal construídas. Não pode haver dúvida sobre a existência da Triatoma sordida, porque capturamos vários exemplares em diferentes casas.

A megista não foi encontrada, sendo pouco conhecida. Parece provável que aqui a sordida funcione como transmissora da tripanose, porque encontramos uma série de acidentes que parecem depender dessa infecção. Vimos também muitos outros doentes, a maior parte sem interesse especial. Havia também um caso de febre não palustre, tendo durado uns dez dias, sem sintomas especiais, a não ser dores muito acusadas nas pernas.

Havia aqui também numa família quatro casos de acondroplasia representados pelo pai e três filhos, sendo a mãe e o resto dos filhos, em número de quatro, de estatura normal. Os anões, dois moços e uma moça, tinham a inteligência normal e não sofriam de papo.

Nesse lugar não se encontra médico nem farmácia.

Um pouco antes de chegar a Santa Maria paramos num sítio, onde havia várias fruteiras, entre estas uma mangueira e pés de limão, laranja e cidra. Vimos também uma maniçobeira muito alta. Na cidade, as laranjas representavam, nesta estação, a única fruta comestível, e a sua qualidade não lembrava as conhecidas laranjas da Bahia.

Fig.53 – Flower of Aristolochia gigantea. Santa Maria, Corrente River. Image originally published in Plate 9.

Flor de Aristolochia gigantea. Santa Maria no rio Corrente. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 9 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Trouxeram-nos aqui, presa num laço, uma cobra venenosa muito interessante que tratavam de jararaca. É uma espécie de Lachesis que não conheço e que bem podia ser nova; certamente difere muito das jararacas geralmente conhecidas. Conservei-a viva durante algum tempo, mas morreu antes do fim da viagem. Há outra espécie, conhecida como jararacuçu; talvez corresponda a Lachesis muta, e devia ser chamada surucucu ou surucutinga. Existe também uma cascavel, provavelmente igual à espécie do norte, que difere da espécie comum em São Paulo. A sucuri (Eunectes murina) também é bem conhecida e disseram-nos que, mais rio acima, foram encontrados grandes exemplares.

À noite, peguei na luz algumas mariposas que não tínhamos encontrado ainda, faltando outros insetos.

À tarde, fizemos a cavalo um passeio bastante longo, visitando algumas lagoas, e fotografou-se uma que era considerada muito pestífera. As águas já eram muito reduzidas e pouco fundas, muitas vezes sem larvas de Cellia, o que só pode ser atribuído ao efeito do sol abrasador e à falta de sombra. Encontrei também muitas cascas dum molusco terrestre, espécie de Odontostoma, em parte ainda penduradas nas plantas secas, nas quais se alimentaram no tempo das águas; havia também muitas cascas de Paludina, indicando tratar-se do fundo duma lagoa cuja água foi gradualmente evaporada. Nas lagoas mais permanentes havia ainda larvas de Cellia. Pegamos algumas imagos da Cellia argyrotarsis, um borrachudo (Simulium pruinosum) e duas espécies de mutucas.

A flora lembrava muito a dos campos de Januária, mas no mato apareceram algumas espécies que não tínhamos ainda encontramos com flores, entre estas a Aristolochia grandiflora, com flores de mais de 30 centímetros de comprimento, e uma Cordia, muito florida.

13 de maio – Visitei alguns doentes, apanhando barbeiros de pequena espécie (T. sordida), perto da cama dum doente. Recebemos outros, e o Dr. Machado procurou flagelados no intestino destes exemplares, porém nada encontrou.

14 de maio – Tendo tratado ontem do herbário, aproveitei o tempo para pôr as minhas notas em ordem. Queríamos fazer uma excursão à tarde, mas não foi possível arranjar animais.

15 de maio – Saímos muito cedo para subir ainda um pedaço do rio que, pelas informações, devia ser muito pitoresco. De fato, excedia em interesse tudo o que tínhamos encontrado durante a nossa navegação. Quase continuamente encontravam-se de um ou do outro lado do rio paredões de pedra de 10 a 20 metros de altura, com a base escavada pelo rio e cheia de fendas e grutas maiores e menores, das quais vimos sair algumas corujas e um urubu que pareciam ter os seus ninhos nesses lugares inacessíveis. Nas pedras, cuja estratificação era horizontal, cresciam gameleiras e barrigudas, com muitas plantas menores; duas Ipomoea, uma branca e outra encarnada, decoravam as encostas com festões de flores. Paramos e saltamos num ponto, onde a navegação se tornava difícil, mas não foi possível avançar muito e tivemos de voltar sem ter alcançado a foz do rio Formoso. Passamos devagar diante de Santa Maria, despedindo-nos de bordo.

A bordo tivemos muitos Culex fatigans e algumas Stegomyia; as Cellia tornavam-se agora abundantes. Os dois primeiros mosquitos tinham criadouros a bordo, na água do casco, quando principiamos a viagem, mas tinham-se tomado medidas para matar as larvas. É possível que o novo suplemento tivesse vindo de terra.

Descendo o rio, paramos em Porto Novo, onde tínhamos encomendado uma canoa, da qual precisávamos muito para excursões, não havendo nenhuma a bordo. Todavia não fizemos negócio por não encontrar canoa satisfatória. Pegamos aqui grande quantidade de pequenos peixes, por meio duma lata de querosene furada e deitando um pouco de farinha na água, sobre a qual os peixinhos vorazes caem imediatamente. É fato curioso que eles morrem fatalmente em pouco tempo, comendo esse alimento de uso corrente. Esses peixinhos, que se podem obter facilmente em grande número, poderiam, provavelmente, servir em certos lugares para destruir as larvas de mosquitos.

Continuando a descida, avistamos muitos pássaros, pombos de bando, garças brancas e martins-pescadores de duas espécies. Também encontramos um jacaré morto e encalhado, que devia ter sucumbido a um tiro que levou na ocasião da nossa subida. Avistaram-se alguns outros dentro do rio.

O calor, como geralmente nas descidas, era mais suportável.

Pouco antes das 6 horas passamos a barra, e às 6h15 aportamos na margem do São Francisco, num lugar chamado Passagem.

16 de maio – Saímos às 5h30 com bom tempo e uma temperatura de 20°, quando no Corrente na mesma hora tínhamos observado uma temperatura de apenas 15°, acompanhada de orvalho abundante. O rio agora apresentava-se muito largo, formando a água muitas vezes uma superfície uniforme e contínua; outras vezes, encontrávamos bancos de areia, dos quais um era decorado por uma grande gameleira. Avistamos alguns pássaros marinhos, chamados aqui gaivotas mas que verifiquei, mais tarde, serem talha-mares, e surpreendemos uma família de marrecas, sendo os filhotes ainda incapazes de voar. Tomamos lenha num lugar da margem direita, chamado Gameleira, e aproveitamos para saltar e passear. Encontramos aqui um grande juazeiro e, numa lagoa, duas espécies de Lemnacea, da qual a menor era uma wolffia.

Fig.54 – ‘Gameleira’ fixed on a rock, s.l.,1912. Photo not published in the 1915 report.

Gameleira fixada em uma rocha, s.l., 1912. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série Atividades Científicas, subsérie Expedições, AC-E 7-79).

Continuamos a viagem acompanhando de preferência a margem direita. No horizonte apareciam várias serras azuis, e no rio bancos de areia, às vezes bastante extensos. Ao aproximar-se, uma das serras assume uma coloração natural e aparece com uma altura de cerca de 300 metros na margem direita, donde se estende para o interior em direção quase perpendicular ao rio. Está toda coberta de árvores, não aparecendo pedra em parte alguma. Passada esta, reconhecemos mais distintamente a extensa serra do Urubu, cuja margem superior, em extensões bastante grandes, é formada por linhas retas horizontais, sendo, no resto, o perfil ondulado. Daí a pouco entramos num braço lateral da margem direita e aproximamo-nos da cidade de Urubu, aonde chegamos às 10h45.

Depois do almoço, os companheiros saltaram para ir à cidade, que se acha um tanto distante. Não acompanhei, por sentir-me bastante mal na ocasião e por ser o dia muito quente. Apenas fiz mais tarde um passeio pelas margens do rio, onde havia muitos pés de Annona spinescens e algumas malpighiáceas. A temperatura chegou acima de 32. A bordo pescou-se uma piranha e alguns outros peixes.

Mais tarde os companheiros foram para a ilha que separa os dois braços do rio e mataram dois exemplares regulares do jacaré da espécie menor. Encontramos apenas alguns nematóides no estômago deles.

Fig.55 – Urubu town market. Photo originally published in Plate 18.

Mercado da cidade de Urubu. Imagem originalmente publicada em Estampa 18.

17 de maio – às 6h30 a temperatura do ar era de 18°. O tempo agora é completamente seco e sem a menor promessa de chuvas. De manhã, viram-se alguns doentes e trabalhou-se com as coleções.

18 de maio – Foi resolvida uma excursão a uma fonte d’água quente, situada num lugar bastante distante do rio e que se chama Paulista. Pelas informações que recebemos, era melhor sair dum ponto chamado Poço de Mel, situado mais rio abaixo, onde resolvemos fazer a primeira parada depois de Urubu.

Tanto a bordo, como na cidade, foram examinados muitos doentes, sendo a única moléstia comum e endêmica o impaludismo. Havia poucos casos de ancilostomíase, aumento da tireóide e apenas um ou outro suspeito de tripanose. De barbeiros verificamos apenas a espécie pequena (Tr. sordida) da qual achamos ovos vazios e recebemos algumas larvas.

Fiz um passeio pela cidade antiga, que é bastante grande, mas não tem nada de bonito. As casas do centro são contíguas e vêem-se alguns becos compridos e estreitos. Existe um mercado que visitamos, sem encontrar nada de interessante. Numa casa de negócio vi amostras dos produtos desta zona, entre outros borracha de maniçoba e de mangabeira. A primeira impressiona mal, por estar em pedaços irregulares, muitas vezes esponjosos, mostrando, todavia, boa elasticidade. A borracha de mangabeira parecia muito mais uniforme, mas era menos estimada. Encontrei também café, que vinha de lugares situados umas vinte léguas mais para o sul.

Sobre o número de casas e habitantes não pude obter informações seguras. O calor, durante o dia, foi excessivo; no convés o termômetro suspenso em lugar abrigado marcava 36° e 32° ainda depois de deitar o sol. Como na véspera, houve à noite uma verdadeira invasão de pequenos insetos saltadores, pertencentes à família das Jassidae; perto da luz, vinham em contato com o rosto das pessoas presentes, com tanta rapidez e freqüência que produziam a sensação dum bombardeio com areia.

19 de maio – A noite foi relativamente quente e o termômetro de manhã marcava 19°, estando o céu quase sem nuvens. Deixamos o porto às 7 horas, seguindo rio abaixo pelo braço do São Francisco que passa perto da cidade. Depois de 40 minutos entramos no rio principal, que tem pouca correnteza, e acompanhamos a margem direita. Na cidade, tínhamos visto os primeiros coqueiros-da-baía, e agora apareceram também os primeiros carnaubais do lado esquerdo do rio.

Por trás destes, havia uma série de morros, pouco elevados e quase inteiramente cobertos de vegetação com o caráter de campo fechado, que acompanham o rio e que são conhecidos pelo nome de Serra do Riacho. Mais para baixo há uma outra que chamam Serra Branca, onde dizem que há muita maniçoba. Via-se outra serra do lado direito, logo abaixo de Urubu.

Às 8h45 chegamos à fazenda do Poço de Mel. Saltamos e fomos à casa que, como todas nesta região, era baixa e feita de barro, não se comparando com as casas das fazendas de São Paulo. Assim, não estranhamos a informação de que havia bichos de parede (Triatoma), tanto nas casas principais, como nas acessórias.

Fizemos um pequeno passeio nos arrabaldes, mas voltamos logo, porque o sol estava muito quente. Os donos da fazenda, que embarcaram conosco e nos obsequiaram de todos os modos, ofereceram grande quantidade de leite bom, que faltava muito na nossa viagem. À tarde fizemos uma excursão a cavalo a uma lagoa, distante meia légua. Achamos em grande abundância uma espécie de Marsilia e apanhei alguns exemplares de duas espécies de mutucas, das quais uma muito comum; não apareceram outros sugadores de sangue, apenas consegui apanhar algumas larvas de Cellia. Durante o dia passei melhor, mas, de volta ao navio, sinto-me tão abatido que, muito a contragosto, tive de abandonar a idéia de acompanhar a excursão para Paulista, projetada para o dia seguinte. Continuava com bronquite forte, embora sem febre.

À noite examinaram-se alguns doentes e recebemos duas imagos de Triatoma sordida.

20 de maio – Os companheiros saíram cedo e, tendo passado melhor a noite, quase resolvi acompanhá-los, mas tive de desistir, em vista das 8 léguas que era preciso fazer. Assim fiquei a bordo, onde havia uma brisa fresca, muito agradável. Durante a manhã descobriu-se na lenha, destinada ao vapor, um bicho de parede adulto. Era a primeira vez que se encontrava tão longe das casas; comparando este fato com a sua existência em casas bem isoladas e a sua inclinação a atacar galinhas e até pequenos passarinhos, chega-se à conclusão de tratar-se duma espécie indígena nas matas e serras e vivendo naturalmente em animais selvagens. Tivemos informação de que se encontra com freqüência nos paradeiros dos mocós; de outro lado, mesmo nas casas onde é observada regularmente, não se acha em tão grande número, como se podia esperar, tendo em vista a facilidade de encontrar vítimas. Já me tinha lembrado, anteriormente, da possibilidade do transporte por meio da lenha, mas esta era a primeira demonstração prática. Podiam também ser atraídos pela luz, mas isso nunca foi observado por nós. Os seus esconderijos são geralmente muito abrigados da luz e, de dia, eles não se mostram, mesmo em quartos e alcovas muito sombrios.

Às 5h40 voltaram os excursionistas. Tinham encontrado uma bacia natural com 4 metros de comprimento e 3 de largura sobre 1 de profundidade, apresentando um fundo de areia limpa, constituída, na maior parte, de quartzo branco, que se achava também em redor em pedaços quase puros. A água, cristalina e sem sabor especial, que nasce nessa bacia, tinha uma temperatura pouco acima de 33°. É aproveitada para banhos que se toma na referida bacia natural, situada numa baixada, distante um quilômetro da serra. Nesse lugar, encontraram-se duas espécies de mosquitos-pólvora, ceratopogonídeos hematófagos, já descritos por mim. Parece que também em outros lugares, onde há termas, a presença desses mosquitos se faz notar, e seria interessante verificar este fato e a sua causa.

21 de maio – Soltamos as amarras às 5h40, seguindo a princípio a margem direita. O rio, que de véspera tinha baixado sensivelmente, aqui é bastante calmo e de largura moderada, sem ilhas ou bancos de areia. A nossa primeira parada devia ser em Bom Jardim, na mesma margem direita, distante 8 léguas de Poço de Mel, 764 quilômetros de Pirapora e apenas 605 de Juazeiro. Pouco antes de chegar, vimos, do lado esquerdo, uma ilha larga, enquanto, do lado direito, se percebiam algumas serras bastante distantes do rio. A mais aproximada chama-se Serra do Bom Jardim, e pelas informações é um lugar de muita maniçoba.

Chegando a Bom Jardim às 8h20, fiz um passeio pela povoação até a margem do rio Santo Onofre, que continha ainda bastante água. Mais tarde costuma secar completamente, persistindo apenas algumas poças d’água. No tempo das águas, ao contrário, cresce enormemente, transbordando em grande extensão.

O arraial consiste de mais de 300 casas, das quais apenas uma parte está em estado regular. Pelas informações há muita Triatoma sordida e percevejos comuns em grande número, mas não se conhece o barbeiro grande.

Dos percevejos obtivemos algumas amostras.

Das moléstias, também aqui, o impaludismo é a mais comum. Nos cavalos nota-se cara-inchada e mal-de-cadeiras. Os papos, pelo menos as formas maiores, parecem raros, mas uma ligeira hipertrofia da tireóide é bastante freqüente.

De árvores cultivadas, vimos um coqueiro-da-baía, um cajueiro e uma goiabeira. Perto da cidade existem plantações de maniçoba, para a cultura da qual a região parece mais apropriada do que para qualquer outro gênero.

Aqui encontramos também o vapor “Matta Machado,” que voltava de Juazeiro. Entregamos algumas cartas escritas ou acabadas às pressas. Depois de examinar vários doentes a bordo, continuamos a viagem rio abaixo. Apareceram agora pequenas serras dos dois lados, mas sempre assaz distantes do rio. Este estava bastante calmo e mostrava barrancos pouco elevados, que no tempo das águas são inundados, como conhecemos pelas ruínas duma casa em Bom Jardim, onde o barranco era muito mais alto. Passamos por algumas jabuticabeiras altas e copadas, crescendo numa ilha, de mais de duas léguas de comprimento e separada da margem direita por um braço mais estreito do rio. Às 5 horas passamos o Morro do Limoeiro, que formava a margem esquerda, podendo ter uma altura de 150 metros. Entrando na sua sombra sentiu-se abaixamento da temperatura, que demorou pouco, porque não tardamos a passar. Depois dum esplêndido deitar do sol, atracamos na ilha da Fome, porque a noite não permitia continuar a viagem. Enquanto os marinheiros se divertiam, fazendo uma fogueira, apanhei algumas mariposas na luz.

22 de maio – Partimos às 5h45, assistindo a uma aurora esplêndida. Às 7 horas paramos num lugar chamado Riacho das Canoas, onde se tirou uma fotografia dum magnífico exemplar da Parkinsonia aculeata, arbusto da família das cesalpiniáceas vulgarmente chamado rosa-da-turquia. A extrema redução dos folíolos das folhas pinadas caracteriza a planta como xerofítica, dando ao mesmo tempo um aspecto original.

Às 7h30 continuamos a viagem no rio, que aqui apresenta várias ilhas e bancos de areia. Os morros, que por algum tempo faltaram, reapareceram agora, isoladamente, de um ou outro lado do rio.

Fig.56 – Parkinsonia aculeata. Jerusalem thorn, Canoas Stream. Image originally published in Plate 11.

Parkinsonia aculeata. Rosa da Turquia, riacho das Canoas. Imagem originalmente publicada em Estampa 11.

Às 8h50 chegamos a Morpará, aldeia dumas sessenta casas, situada na foz do rio Paramirim e encostada na base dum morro pitoresco, que pode ter uns 200 metros de altura. É conhecida em toda a zona por causa da pedra que lá existe. É considerada muito boa pedra de amolar, todavia as amostras, que apanhamos na pedreira, não me deram a impressão de valor comercial. No mesmo morro, encontram-se pedaços de quartzo quase puro. Não perdemos tempo para fazer a ascensão por caminhos muito íngremes, no meio duma flora bastante interessante. Chegados em cima, fomos recompensados por uma vista muito bonita. Havia grande quantidade de macambiras, bromeliáceas com uma rosácea de folhas muito recortadas e espinhosas, de cor cinzenta, pouco acima do chão, donde saem inflorescências em forma de espigas, às vezes ramificadas, da altura dum homem. A maior parte estava já em frutificação, e consegui apenas um exemplar com flores que eram amareladas. Pertence ao gênero Encholivium.

Depois do almoço fizemos uma excursão no Paramirim, pequeno rio que, mais acima, se dilata em lagoa bastante vasta, situada na base duma serra pouco elevada, onde parece haver muitos mocós. A lagoa, já bastante reduzida pela seca, tinha, à margem direita, um pequeno mato duma árvore muito singular com folhas pequenas, conhecida no norte por mari e fornecendo uma semente comestível. Gosta evidentemente d’água, porque cresce em terreno periodicamente inundado, como está provado pela presença de algumas esponjas-d’água-doce nas suas raízes, que são compostas de madeira, em parte clara, em parte quase preta. Os troncos estavam em parte escondidos por cortinas, formadas por uma cucurbitácea espinhosa que já tinha secado.

Essa lagoa, uma vez por ano, é sede de pescarias, feitas pela gente de Paramirim, que se reúne para esse fim, cada um contribuindo com parte das redes grandes. Nessa ocasião pega-se grande quantidade de peixes; pelo que nos informaram, no ano passado tinham-se pegado doze mil surubins de todos os tamanhos, que foram salgados, desprezando-se os outros peixes. É isso um exemplo da riqueza em peixes, existente na zona do São Francisco e dos seus afluentes; podia ser explorada dum modo mais perfeito, porque o surubim é um peixe de primeira ordem, quando bem conservado. Nos outros anos, o número apanhado não foi muito menor.

Afirmaram-nos que na lagoa havia muitos patos e marrecas, porém em toda a excursão não os vimos. Atirei em alguns exemplares dum pequeno socó (Butorides virescens), que era muito abundante no rio, onde havia também duas qualidades de martim-pescador e alguns larídeos. Na lagoa não faltaram a jaçanã e o téu-téu, quase sempre presentes nas lagoas. No rio havia também alguns jacarés.

Examinaram-se aqui uns doentes que não ofereceram interesse especial. A moléstia mais comum parece o impaludismo. Obtivemos uma ninfa e várias larvas de Triatoma sordida. De produtos da terra vimos cera de carnaúba, cera da terra e maniçoba. Exportam também surubim seco e pedras de amolar. Havia lá também um couro de onça preta, infelizmente mal preparado. Em terra o calor era muito forte.

Deixamos Paramirim às 4h35, seguindo rio abaixo em demanda da Barra, situada a 12 léguas de distância. Continuamos a viagem durante a noite, aproveitando o luar, e alcançamos a cidade da Barra depois das nove.

Fig.57 – Morpará Mountains, ‘macambiras’ (Encholirium spectabile Martius, Bromeliaceae). Image originally published in Plate 11.

Serra do Morpará, macambiras (Encholirium spectabile Martius, Bromeliaceae). Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 11 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig.58 – Morpará viewed from the mountains. Lapa viewed from the mountains. Photo originally published in Plate 15.

Morpará vista da Serra. Vista da Lapa tirada do morro. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 15 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.59 – Water supply process in Barra. Photo originally published in Plate 18.

Processo de abastecimento d’água na cidade da Barra. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 18 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.60 – Grande and São Francisco rivers seen from Barra. Photo not published in the 1915 report.

Rios Grande e São Francisco vistos da cidade de Barra. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig.61 – Barra, Bahia. Photo originally published in Plate 16.

Cidade da Barra. Bahia. Imagem originalmente publicada em Estampa 16.

23 de maio – Saltei cedo e fiz um passeio pela cidade, que dá melhor impressão que qualquer das que visitamos em nossa viagem. O número das casas é avaliado em 800. São geralmente caiadas e há vários sobrados. Do lado do rio há escadas feitas de tijolos, que, embora estejam um pouco estragadas pelas enchentes, permitem galgar facilmente as ribanceiras que são bastante altas.

Há alguns largos, onde a terra arenosa, seca e transformada em uma camada de pó de algumas polegadas de altura, lembra o deserto. As ruas também estão sem calçamento, mas há passeios dos dois lados. Entre as casas existem jardins, onde vimos coqueiros-da-baía, cajueiros e goiabeiras. Num deles vi um fumo muito alto com flores, lembrando as da Nicotiana glauca, mas com um risco radial vermelho em cada pétala, enquanto as flores eram parecidas com as da N. tabacum, posto que muito grandes. Pensei tratar-se de nova espécie que não consegui determinar, mas hoje estou bem certo de que era apenas uma forma híbrida, derivada das duas espécies mencionadas. Assim primeiro supôs o Sr. Zehntner, que achou um pé semelhante, posto que menor, no meio das espécies parentes. As sementes, que tinha levado, não germinaram.

Fig.62 – Grande River banks. Image originally published in Plate 8.

Margens do Rio Grande. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 8 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.63 – View of the Grande River, gameleiras (Ficus adhatodifolia). Image originally published in Plate 4.

Vista do Rio Grande, gameleiras. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 4 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Nesta zona há também muitas carnaubeiras, cuja cera é um artigo de exportação. Pelo que nos disseram em Paramirim, pode-se obter uma arroba de cera, no valor de 14-16 mil réis, de três mil folhas, pelo trabalho de dois homens durante um dia. Além de servir para velas, a cera tem qualidades físicas especiais e é procurada para cilindros de fonógrafos; as folhas secas servem para cobrir casas, ou podem ser transformadas em esteiras e vassouras.

Há aqui na praia uma feira, onde todas as manhãs se encontram peixes, frutas e uma porção de outras coisas. Há muitas melancias, bastante boas, e entre elas uma variedade, quase ou completamente, branca. A fruta-de-conde também é abundante e de muito boa qualidade, sendo vendida por preço ínfimo, 500 réis um lote bastante pequeno. Quanto às melancias, eram vendidas a um ou dois tostões cada uma. Obtivemos também laranjas de qualidade boa, mas eram escassas.

A cidade está situada à margem esquerda do rio Grande, um pouco para dentro da sua barra principal, acima da qual há um ou dois braços, levando uma parte de sua água para a margem esquerda do São Francisco. A largura do rio Grande aqui é imponente: importa talvez em meio quilômetro, mas não parece muito fundo. Forma com os seus afluentes um sistema fluvial navegável em grande extensão, e abrindo comunicação com sertões distantes.

Fig.64 – Grande River. Image originally published in Plate 6.

Rio Grande. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 6 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.65 – Fishing in the Grande River. Photo originally published in Plate 18.

Pescaria no rio Grande. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 18 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.66 – Fishing in the Grande River. Photo not published in the 1915 report.

Pescaria no rio Grande. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Resolvemos demorar alguns dias na Barra, para esperar um vapor de Pirapora, que devia trazer uma caixa com reagentes e álcool. O tempo seria aproveitado para vários trabalhos e excursões. Para hoje cedo tínhamos arranjado uma pescaria com rede grande, em companhia duma dezena de pescadores. Num lugar, considerado muito bom, a rede foi deitada três vezes, mas o resultado foi quase nulo, limitando-se a um surubim de 60 centímetros de comprimento. Apanhamos também uma pequena tartaruga do gênero Hydromedusa, que conservamos viva.

No mesmo dia comprou-se um tatu-galinha (Dasypus sexcinctus), no qual encontramos carrapatos interessantes (Amblyomma concolor Neumann). Recebemos também uma cobra não venenosa.

Nesta excursão encontramos outra vez em bastante abundância as esponjas-d’água-doce; os maiores exemplares foram fotografados. A água do rio era um pouco esverdeada e menos barrenta que a do São Francisco. É também geralmente usada para bebida.

25 de maio10 – De manhã cedo fomos à praia e vimos aqui umas piranhas azuis, ao lado das amarelas, com que se parecem tanto que à primeira vista só se distinguem pela coloração. Há também uma piranha branca, que é a mais diferente. Aqui não há preconceito contra a carne das piranhas, que é regular; o peixe tem muitas espinhas, mas, nos exemplares grandes (que só servem para comida), podem ser facilmente evitadas. Havia também surubim, dourado e curimbatá (Curimatus gilberti Quoy & Gaimard).

O surubim é sempre o melhor peixe, tanto pelo gosto como pela falta de espinhas dentro da carne. Os dourados abundam no rio, mas não são de tamanho muito grande e são pouco apreciados. Mostram grande habilidade em escapar às redes, pulando por cima destas quando vem o momento crítico. Os curimbatás parecem bastante abundantes, porque encontramos pescadores que tinham duas canoas cheias; mas esse peixe, que se alimenta com lodo e matérias vegetais, deve ter gosto de lama. O matrinxã (Brycon lundii Lutk.) também é desprezado por causa dos seus hábitos pouco limpos. Os outros peixes pouco aparecem no mercado.

Fig.67 – A large ‘dourado’ fish caught in the São Francisco River. Image originally published in Plate 9.

Um grande dourado pescado no rio São Francisco. Imagem originalmente publicada em Estampa 9.

Fig.68 – Espírito Santo Feast. Barra Church, Plate 17.

Festa do Espírito Santo. Igreja da Barra. Estampa 17 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

De manhã estivemos ocupados a bordo, porém à tarde fizemos em canoa um passeio sobre o rio. Encontramos as margens e as pequenas ilhas tão alagadas, que mal se achava um lugar para saltar. Observamos mais esponjas-d’água-doce, todas bastante acima do nível atual da água do rio. Encontramos também no canal que liga os dois rios, acima da barra principal. À noite chegou o vapor “Juazeiro,” que descia o rio Grande, de volta de Barreiras.11 Aproveitamos para mandar algumas cartas via Pirapora. Sendo a véspera da festa do Espírito Santo, havia na cidade grande exibição de pirotecnia.

26 de maio – Às 5 horas da manhã uma grande explosão de fogos de artifício marcou o começo duma festa no rio, na qual tomaram parte duas barcas e várias canoas cheias de gente, vestida, ora de marinheiro, ora de costumes fantásticos.Depois, a festa continuou em terra com procissões, acompanhadas de freqüentes descargas que se repetiram periodicamente durante o dia.

Ofereceram, para comprar, vários pássaros aquáticos novos, marrecas, um carão e uma garça parda, já bastante grande. Pode-se concluir, disso, quantas aves interessantes se poderiam reunir aqui, com pouca despesa, durante um ano inteiro.

Neste porto observou-se também a invasão de Lassida, atraídas pela luz de acetileno; ao mesmo tempo faziam pouco caso das lanternas de querosene.

O modo diferente pelo qual cada espécie de luz impressiona diferentes insetos é muito interessante. A própria chama de acetileno tem um efeito muito fraco sobre a maior parte de insetos, quando comparado com as luzes elétricas de arco.

27 de maio – Por causa da festa de ontem, não houve peixe no mercado. Apareceram outras frutas e legumes, cuja existência não tínhamos notado ainda, como caju, goiabas, tomates, maxixes e quiabos. Provamos também o refresco feito com doce de buriti, que triunfou sobre todas as prevenções e foi declarado excelente. A cor e o gosto lembram um pouco o doce feito com damascos secos. Comprou-se também mel de abelhas, porém o que chamavam assim não era o que esperávamos, mas uma espécie de mel de pau. Durante uma visita à cidade vimos muitos pássaros mansos ou em gaiolas, como jacu, pomba de bando, saracura, pato-do-mato, marreca, garça, maguari, seriema e passarinhos miúdos. Numa loja vimos muitos couros, infelizmente todos em mau estado. Havia onça preta, ariranha e lontra, cutia-de-rabo e mocó, sucuri, jibóia e lagarto.

O tempo, hoje de manhã, parecia prometer chuva, e de fato viu-se chover em alguns pontos do horizonte, aparecendo também um fragmento de arco-íris, mas, finalmente, o tempo se firmou outra vez, sem que tivesse caído chuva no porto. À tarde fizemos um passeio, colhendo alguns objetos de história natural. À noite peguei na luz uma espécie interessante de Mantispa, que tem as asas hialinas, com estigma escuro nas anteriores. Dei-lhe um mosquito, que logo capturou, principiando a devorar o abdome que estava cheio de sangue, comendo depois o resto, menos a cabeça, e continuando com outro mosquito.

Fig.69 – Espírito Santo Feast in Grande River, near Barra, Bahia. Image originally published in Plate 3.

Festa do Espírito Santo, no Rio Grande, perto da cidade da Barra, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 3 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

28 de maio – À tarde fizemos uma excursão em canoa, pescando entre as plantas aquáticas num braço do rio, onde quase não havia corrente. Encontramos aí larvas de mosquitos dos gêneros Cellia, Uranotaenia, Culex e Melanoconion. Do último gênero, apanhamos na luz um exemplar duma espécie que parece nova, em companhia de exemplares de Aedeomyia squamipennis e de um Culex interessante.

Durante a excursão apanharam-se uns filhotes de téu-téu e matou-se uma craúna (Geronticus cayennensis). O pássaro é bastante freqüente nesta região, passando às vezes sobre o rio em pequenos bandos. A carne é comestível.

Nas margens do rio, que rodeiam a cidade da Barra, há uma flora bastante interessante. Nos lugares mais elevados encontravam-se muitas flores de malváceas e esterculiáceas, na zona mais baixa e úmida há uma interessante flora de plantas palustres muito miúdas, como Alisma ellipticum e Mayaca vandellii.

29 de maio – De manhã o vapor não tinha aparecido ainda, e a feira esteve sem interesse. Empregamos o dia em vários trabalhos, principiando-se o exame das águas colhidas durante a viagem. Chuviscou um pouco, mas não chegou a molhar o convés. À tarde chegou o “Carinhanha” de Juazeiro, trazendo vários passageiros.

30 de maio – Às 8h25 avistou-se o navio “Prudente de Moraes,” que vinha de Pirapora. Tivemos muita correspondência, mas não recebemos o álcool esperado, nem outras coisas, pedidas por telegrama. Para a tarde tínhamos arranjado outra vez uma pescaria com rede grande, que foi lançada duas vezes, em lugar pouco fundo dum braço do rio Grande. Por causa da largura das malhas só foi possível apanhar peixes grandes. O resultado total de vários lances consistiu nuns vinte curimbatás e alguns dourados, que não conseguiram saltar em tempo. Os pescadores aqui costumam pescar com as redes grandes à noite, e acreditam que a pesca de dia dá geralmente resultados inferiores. Durante o dia foram mortas uma craúna, um talha-mar, uma narceja, uma garça, vários socós e um inhambu. Peguei um pequeno Simulium, que deve ter sido criado a muitas léguas de distância.

31 de maio12 – Depois de acabadas as últimas compras na feira, as amarras foram soltas e principiou a viagem rio acima. Encontramos três jacarés, dos quais dois pertenciam à espécie grande. Dois estavam apenas dormindo, mas um deles estava morto. Depois duma parada para tomar lenha, que aproveitamos para saltar, chegamos, ao meio-dia, a uma serra bastante alta e muito distante, que da cidade se descobre no horizonte e que o rio atravessa por uma abertura bastante larga. Esta serra é geralmente coberta por vegetação, mas em alguns pontos aparecem pedras ou solo descoberto; não havia chapadas. Os morros da margem esquerda têm o nome de Serra dos Olhos-d’água. Depois de meia hora estávamos outra vez em terreno perfeitamente plano e bastante monótono. Os bancos do rio mostram uma zona de capoeira, na qual de vez em quando aparece um Cercus alto; atrás desta zona de capoeira há muitas lagoas. Onde a água é menos funda, aparecem pontederiáceas com espigas de flores grandes e quase brancas. A água do rio é turva e ligeiramente leitosa, mas com tom verde distinto. À tardezinha, viram-se no rio dois patos-do-mato, os primeiros que apareceram até hoje. Duas léguas antes do Boqueirão há, no meio do rio, uma pedra, que já aparecia por cima da água; dão-lhe o nome de Pedra de Bode. Encontramos também algumas casas dos dois lados do rio.

Fig.70 – Prudente de Morais Steamboat near Barra, Bahia. Photo originally published in Plate 3.

Vapor Prudente de Morais, perto da Barra, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 3 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.71 – Arm of the Grande River. Image originally published in Plate 5.

Braço do Rio Grande. Imagem originalmente publicada em Estampa 5.

Às 7h50 paramos no lugar chamado Boqueirão, para passar a noite. Aproveitamos do luar e fizemos ainda um passeio em terra visitando uma lagoa, onde havia muitos mosquitos do gênero Cellia.

31 de maio – Ao acordar, vimos, dos dois lados do rio, a serra do Boqueirão, que havíamos atravessado na véspera. Estávamos amarrados na margem esquerda do rio Preto, que parece formar a continuação direita do rio principal. A sua água esverdeada, escura, mas bastante transparente, destaca-se da água muito mais amarelada e barrenta do rio Grande, que o encontra em ângulo obtuso, fazendo uma curva logo acima. Na confluência, mas ainda por dentro do rio Preto, via-se uma pequena ilha, meio alagada. Dos dois lados há muitas carnaubeiras de aspecto característico e pitoresco; mais acima da confluência reaparece a vegetação normal que acompanha os rios. As serras são cobertas de vegetação arborescente, entre a qual aparecem muitas pedras.

Fig.72 – Carnauba grove at the confluence of rivers Grande and Preto. Image originally published in Plate 13.

Carnaubal na confluência dos rios Grande e Preto. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 12 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

1° de junho – Voltei hoje cedo à lagoa que visitei ontem. No tempo das águas deve ser muito extensa, mas agora está quase seca. Encontrei cinco craúnas, pousadas num lugar lodoso, onde pareciam catar bichinhos. Na água pesquei algumas larvas de Cellia. Mais tarde fomos até um lugar onde a serra se encosta no rio e as pedras, que lá existem, permitem fazer a ascensão. Encontramos nestes muitos cactos, tanto Cereus como Opuntia e Melocactus, e bromeliáceas, porém tudo sem flor. Embaixo das pedras havia sinais indubitáveis da existência de muitos mocós, mas não avistamos nenhum deles. Embora não tivéssemos tempo de atingir o lugar mais alto, gozamos duma vista muito boa. Rio acima, via-se grande número de lagoas e alguns carnaubais nos dois rios; o resto do terreno era completamente plano, em parte vargem, em parte mato. Rio abaixo aparecia a Serra dos Olhos-d’água. Na parte onde estávamos, e que representa o ponto mais estreito do desfiladeiro, a comissão das obras contra os efeitos das secas pretende fazer uma grande represa.

Às 10h45 largamos as amarras e subimos o rio Grande. Encontramos grande número de lagoas e, entre elas, vários sítios com pastos e roças, onde se viam homens e animais domésticos. Saltamos perto duma lagoa, colhendo plantas e algumas larvas de mosquitos. Durante o dia observamos vários pássaros aquáticos, como craúnas e curicacas (Geronticus albicollis), garças e martins-pescadores. Ao escurecer deitamos ferro no meio do rio. Esta posição favoreceu a pesca com a linha, que rendeu várias piranhas grandes.

2 de junho – Levantamos ferro às 5 horas. Rio acima, as margens conservaram o mesmo caráter. O rio é muito tortuoso, fazendo, às vezes, voltas enormes; a sua largura, algumas vezes, não excede 40 metros. Às 6 horas passamos uma lagoa onde havia muitas craúnas e mais tarde avistou-se um guariba, sentado numa árvore. Havia aqui muitas gameleiras enormes, das quais algumas já tinham perdido as folhas, ao lado de outras que ainda estavam completamente verdes. Continuando a viagem, encontraram-se mais guaribas numa das grandes jatobeiras13 que abundavam nas margens, e caçaram-se três deles. Vimos também uma capivara, e atirei em algumas gralhas-do-peito-branco. No mesmo lugar encontrei um Oncidium ceboleta em flores; era a primeira orquídea bonita, encontrada nesta viagem. As ribanceiras em alguns lugares eram a prumo e bastante elevadas, sendo aproveitadas pelos martins-pescadores para fazer os buracos fundos na extremidade dos quais colocam o seu ninho. Durante esta viagem encontramos muitos jacarés, sendo alguns bastante grandes.

O mato aqui é bastante limpo, mas infelizmente abunda em carrapatinhos e carrapatos, não faltando também o micuim.

Viam-se também algumas tartarugas, trepadas em paus que saíam do rio.

Às 4 horas paramos num lugar chamado Poço Redondo, que visitamos, sem encontrar nada de interessante. Apanhou-se mais um dos pequenos borrachudos, que também devia estar muito longe do seu criadouro. Embora a corrente aqui fosse um tanto mais forte, não havia lugares apropriados para larvas de borrachudos.

Depois da noite completamente fechada, deitamos ferro no meio do rio. Na luz de acetileno peguei alguns mosquitos-pólvora e muitas Aedeomyia, mosquitos inofensivos, cuja tromba não é organizada para picar, como verifiquei por exame microscópico. Apareceu também um pequeno Phlebotomus, provavelmente da espécie intermedius, mas não foi apanhado. Algumas piranhas grandes caíram vítimas da própria voracidade.

3 de junho – Às 5 horas, quando levantamos ferro, a temperatura tinha caído a 15° e o rio estava coberto dum nevoeiro fino. Com o ar saturado de água, tudo estava molhado de orvalho. Chegamos logo a um lugar chamado Campo Grande, formado por umas vinte casas, perto do rio e, como sempre, com algumas lagoas que continham larvas de anofelinos. Aqui conseguimos, afinal, comprar uma canoa regular por Rs. 50$000 [50 mil-réis]. Continuamos a viagem por uma zona onde havia roças e pastos com muito gado, mas falta de árvores altas. Chegamos a um lugar onde o rio se divide em dois braços, cercando uma ilha com duas léguas de comprimento e bastante larga. Subimos o braço que ficou à nossa direita, achando-o, às vezes, bastante estreito. Depois de termos passado a ilha, encontramos outra vez o rio bastante largo; continuamos a viagem, apenas interrompida por uma caçada de guaribas, cujo alimento exclusivo parece consistir em frutas de jatobá. Às 3 horas, tomamos lenha em São José, perto de uma pequena serra, que já por muito tempo aparecia, de vez em quando, nas curvas grandes do rio. Em cima dessa serra havia alguns rochedos pitorescos. Outra, que passamos mais adiante, era toda coberta de vegetação. Pouco tempo depois encontramos o primeiro biguá branco (Plotus anhiga), que não conseguiu escapar em tempo. A autópsia revelou a existência de várias filárias na periferia do cérebro.

Às 6 horas chegamos a Santa Luzia, onde paramos para tomar lenha e passar a noite. Levei, à noite, uma lanterna de acetileno à margem duma grande lagoa, que lá existia, para pegar mosquitos. Apareceu apenas uma Uranotaenia, em muitos exemplares, quase todos machos. Esse mosquito raras vezes pica o homem, tendo todavia a probóscide formada para picar, como verifiquei examinando algumas fêmeas ao microscópio. Apanhei também exemplares duma espécie de Culicoide (mosquito-pólvora), que aproveitei para preparados microscópicos.

4 de junho – Fizemos, na nova canoa, um passeio sobre a lagoa, colhendo muitas plantas aquáticas interessantes e algumas larvas de mosquitos. Havia entre estas a larva, ainda não descrita, da Aedeomyia squamipes. Caçaram-se também alguns pássaros aquáticos. Existem aqui as quatro espécies de martim-pescador.

Pouco antes das 10 horas continuamos a nossa viagem. Na distância aparecia uma serra, formando uma chapada muito regular, ora à nossa direita, ora à esquerda, conforme as curvas do rio. As margens deste conservam o mesmo aspecto, sucedendo-se mato, lagoas e roças. De vez em quando a ribanceira eleva-se quase a pique, reaparecendo então os buracos dos martins-pescadores. Hoje vimos o primeiro tucano e alguns jacus, mas todos fugiram em tempo. A água do rio está agora muito mais clara, de cor verde-garrafa, e os bancos são mais arenosos.

Tomando lenha, encontramos uma cobra-coral-falsa e outra que a gente de bordo declarava unanimamente venenosa, dando-lhe o nome de jararaca. Tratavase, todavia, duma espécie noturna não venenosa. O povo em geral tem tanto medo das cobras que não chega a examiná-las, e as conhece menos bem do que qualquer outro bicho do mato.

Durante o dia deixamos à nossa direita a barra do rio Branco, que entra no rio Grande pela margem esquerda. Às 6 horas chegamos finalmente a Barreiras, situada sobre uma ribanceira, bastante alta, da margem direita. Demos ainda um passeio pela cidade, que é bastante grande, tendo as casas em grande parte contíguas. De cada lado do rio há uma serra, o que explica por que, daqui para diante, a navegação se torna tão difícil que os vapores considerem este porto como ponto final. A serra da margem esquerda do rio é muito extensa e quase plana em cima: a Serra do Mimo, que está do lado da cidade, é mais irregular.

Fig.73 – Mimo Mountains, Barreira, Bahia. Photo originally published in Plate 2.

Serra do Mimo, Barreira, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 2 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

5 de junho14 – De manhã cedo, a temperatura estava bastante fresca e havia orvalho. Sendo a temperatura da água muito superior à do ar, o rio estava coberto de vapores.

Com o sol a temperatura se levantou logo, ficando o tempo bom. Fizemos uma excursão rio acima, parte a pé e parte em canoa, sem ver nada de interessante, a não ser dois cachorros-do-mato, encontrados perto da cidade. Visitamos dois afluentes vindo das serras; o da margem direita, chamado Ribeirão, é atualmente insignificante, o do outro lado é largo e fundo. Dão-lhe o nome de rio das Ôndias15 o que parece uma modificação local para ondas. Procurei criadores de borrachudos, mas não achei nenhum. A região parece muito infestada de carrapatinhos, dos quais encontramos dois cachos em folhas ao lado do caminho. É um inconveniente sério para todas as excursões que não podem ser feitas em caminhos largos.

Durante o dia o calor foi muito forte.

6 de junho – Fomos a cavalo para um ponto distante do rio das Ôndias, onde devia haver cachoeiras. Chegamos lá e encontramos o rio, bastante largo e pouco fundo, que passava com corrente forte sobre um leito de pedras, fazendo justiça ao nome que lhe deram. Nas pedras não havia podostemáceas16 e tampouco larvas e casulos de borrachudos, mas estes foram encontrados em galhos e folhas meio submersas; em outros, acima da água, também achei grande quantidade de ovos de mutucas, de espécie incerta. Nos cavalos não apareceu nenhum sugador de sangue. Os casulos, que forneceram no dia seguinte algumas imagos, todas muito pequenas, eram de quatro qualidades, o pium (Simulium amazonicum Goeldi), S. incrustatum Lutz, subviride Lutz, e paraguayense Sshrottky (?).

Fig.74 – Ôndias River. Photo not published in the 1915 report.

Rio das Ôndias. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

O caminho, que passava no pé da serra da margem esquerda, era bastante interessante. Na viagem encontrei um lugar onde abundava uma Schultesia, pequena gentianácea com grande flor terminal amarela. No rio não há quedas; apenas a muita distância, perto da nascente, deve existir um salto bastante alto. Graças ao cavalo excelente que me deram, não cansei absolutamente nesta excursão bastante comprida. O dia era muito quente. Depois da nossa volta o termômetro, pendurado no convés em lugar abrigado, marcava 33°.

7 de junho – De manhã fomos a pé até a chácara do coronel Pompilio, onde vimos alguns pés de fruta-de-conde muito carregados, que nunca produzem uma fruta madura por causa dum microlepidóptero cujas larvas vivem na polpa, que furam em todas as direções, atacando também as sementes. Consegui mais tarde obter a imago. O mesmo parasito parece existir também no araticum das praias do São Francisco. Havia também muitas laranjeiras com outra moléstia, que produz exsudações de resina nas raízes.

À tarde fiz uma excursão em outra direção. Nas duas excursões colhi várias plantas, entre elas a Thevetia neriifolia, que parecia ter sido plantada, como também a Melia azedarach. Depois fizemos várias preparações microscópicas do material de borrachudos e mosquitos.

8 de junho – Fizemos a cavalo uma excursão à Serra do Mimo, do mesmo lado do rio e perto de Barreiras. Conseguimos sair cedo e entramos logo na sombra de capoeiras e capoeirões onde, de vez em quando, aparecia uma barriguda enorme. Esta espécie de paineira tira o seu nome da intumescência fusiforme que mostra o tronco. Subimos por um caminho regular, havendo, porém, lugares com muita pedra, for mando espécies de escadas. Pouco a pouco, chega-se à altura da serra, que pode ter uns 300 metros de elevação. Encontram-se, em vários pontos, pilares de pedra muito pitorescos, formados por blocos sobrepostos, às vezes mais largos ou mais salientes em cima do que me baixo. Tiramos fotografias destas, como também do belo panorama que se descobre do alto onde havia campo fechado. Depois colheram-se várias plantas interessantes, percorrendo a serra em sentido longitudinal, encontrando logo vegetação mais campestre, com arbustos espaçados. Em vários pontos se viam vestígios de queimadas. Encontramos vários pés de mangabeira; um deles tinha três frutos de forma redonda, ainda verdes e cheios de leite. Parece-me que, tanto na mangabeira como na maniçoba, há mais de uma espécie, confundidas com o mesmo nome. Os troncos das mangabeiras estavam cheios de talhes, indicando que deles se costumava tirar o leite. De maniçoba, encontramos apenas um pé, ainda novo. Achamos mais uma palmeira rasteira, muito menor que a indaiá dos campos de São Paulo, e uma Vellosia (canela-de-ema); infelizmente não tinham nem flores, nem frutos. Isto não se deu com um bonito pé duma espécie de Parkia, vulgarmente chamada sabiá, com inflorescências esféricas pendentes e pedúnculos muito compridos, que dizem ser um alimento predileto do veado. A flora desta serra parece muita rica e interessante. Quanto à fauna, encontramos apenas alguns passarinhos, e ouviam-se os gritos característicos dum bando de seriemas. Os córregos que atravessamos, com uma só exceção, estavam secos, como também algumas grandes escavações sem saída, evidentemente devidas à infiltração da água de chuva, que se encontravam em cima da serra.

Fig.75 – Parmelia batesi, liquen of the family parmeliacea, important sources of coloring matter. Photo not published in the 1915 report.

Parmelia batesi, líquen da família das parmeliáceas, fontes importantes de matéria corante. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig.76 – Parkia sphaerocephala ? Song-thrush. Image originally published in Plate 8.

Parkia sphaerocephala ? – Sabiú. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 8 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Depois de descermos por caminho bastante íngreme, paramos primeiramente num grupo de casas na base da serra e continuamos depois a nossa viagem, até a fazenda de Nova Vista, onde encontramos o dono, coronel José Mariano, que tem um engenho de açúcar. Experimentamos a cana e os produtos desta. Passamos depois o Ribeirão, cuja água é aproveitada para força motriz; achei aqui ovos de mutucas e algumas larvas e casulos de borrachudos. A forma adulta não apareceu, mas informaram que em certas ocasiões incomodam bastante. Voltamos por um caminho agradável, à sombra duma capoeira, e passamos um pasto, onde havia três emas mansas no meio do gado. Depois de uma ausência de umas oito horas, voltamos ao navio, muito satisfeitos com a excursão interessante.

À noite ofereceram-nos uma gambá, da espécie Didelphis albiventris; arranjamos também uma codorna viva. Há aqui perdizes e codornas, mas ninguém quis caçar por medo dos carrapatinhos.

9 de junho – De manhã, trabalhei com o material de ontem. À tarde, fiz uma pequena excursão a cavalo e a pé, mas voltei logo por causa dos carrapatinhos. Obtive alguns exemplares de Erephopsis xanthopogon, mutuca crepuscular grande e bastante espalhada. À noite, apanhei alguns insetos na luz.

10 de junho – Soltamos as amarras às 6 horas, com uma temperatura de 16°, e seguimos em direção a Barra, parando pouco tempo depois na fazenda do Brejão, onde, pelas informações, devia haver muitas mutucas. Em duas excursões, feitas de manhã e à tarde, apanhamos, entre outros insetos, duas espécies de mutucas e um pequeno borrachudo, idêntico ao pium do Amazonas. O lugar era impróprio para criadouros, porque faltava água corrente, fora do rio. Em canoa examinei todos os lugares onde a correnteza era um pouco mais acentuada, mas com resultado completamente negativo. Caçamos alguns pássaros e colhemos algumas flores interessantes, como uma convolvulácea de flores amarelas. O areticum aqui parecia afetado pelo mesmo parasito que tínhamos observado na fruta-de-conde. Passamos a noite no porto do Brejão.

11 de junho – Seguimos, pouco depois das 6 horas, com uma temperatura de 16°, parando logo num lugar chamado Pinhões. Enquanto se tomava lenha, embarquei na canoa, seguindo rio abaixo até a foz do rio Grande. Subimos durante algum tempo esse rio, que era bastante largo, contra uma corrente bem forte, sem encontrar nenhum criadouro de borrachudos. No meio do rio tirou-se para exame uma amostra da água, cuja cor não diferia da do rio Grande.17 Voltamos para este, e esperamos o vapor que veio logo. Continuamos a viagem até Santa Luzia, onde, na nova canoa, visitamos a lagoa, colhendo plantas e algumas folhas de Nymphaea com ovos de insetos. Matou-se um socó-boi e um irerê, que caiu no meio das Eichhornia e não foi achado. Em terra visitamos uma casa onde havia três micos (Cebus sp.) completamente mansos.

Continuamos depois a nossa viagem e encontramos um guariba macho, que atravessava o rio a nado, desaparecendo do outro lado. Presenciamos assim um fato já observado por uns, mas contestado por outros. Chegados ao canal da ilha, a navegação nas voltas tornou-se difícil e nem sempre conseguimos evitar o contato com a vegetação que cobria as margens. Às 6 horas chegamos a Campo Largo, onde passamos uma noite mais quente que qualquer outra da última parte da viagem. Na luz de acetileno apareceram muitos hemípteros aquáticos, efeméridas e outros insetos, entre eles um Phlebotomus intermedius.

12 de junho – Saí cedo em canoa e fizemos umas três léguas rio abaixo, até chegar o vapor, que se tinha demorado no porto. Observei, entre outras flores, uma malvácea muito cheia de espinhos que crescia na margem do rio, quase dentro da água. As suas flores arroxeadas eram pouco menores que as do Hibiscus rosasinensis, o mimo-de-vênus dos nossos jardins. Tirei sementes, que infelizmente não nasceram, quando as plantei no Rio de Janeiro. Achei também outro Oncidium ceboleta em flor e matei um iguana, uma cobra grande e um urubu de cabeça vermelha. Quando este caiu na água, as moscas, que o parasitavam, principiaram logo a voar, sendo algumas apanhadas na canoa. Vimos de longe um bando de jacus que, neste rio, são bastante comuns, mas muito ariscos. Parece tratar-se da Penelope superciliaris. Às 11 horas embarcamos no vapor, que nos tinha alcançado. Continuando a viagem encontramos vários jacarés, umas capivaras e vários pássaros maiores, como socó-boi, garça grande, craúna e jacu, mas não paramos mais. Noite fechada, chegamos a Conceição, duas léguas acima do Boqueirão. A noite estava bastante quente, mas não apareceram muitos insetos na luz. De mosquitos havia apenas algumas Cellia argyrotarsis.

13 de junho – Às 6 horas seguimos com céu nublado e a temperatura pouco abaixo de 21°. Apareceram as serras do Boqueirão. Chegados lá, uns embarcaram na canoa, subindo o rio Preto e visitando algumas lagoas. Viram de longe alguns tucanos e curicacas e mataram uma saracuraçu (Aramides gigas) e algumas marrecas que caíram na água e ficaram perdidas. Os outros, que foram caçar na serra, trouxeram dois mocós. Depois de um banho no rio Preto, voltamos para o vapor, que soltou as amarras pouco depois das 11 horas. Ao saltar em Boqueirão, pegamos alguns mosquitos-pólvora, da espécie Culicoides guttatus, que já conhecíamos de São Paulo e do Rio. Mostravam muita disposição para picar. Na volta não foram mais observados.

Obtive hoje, das frutas-de-conde de Barreiras, duas imagos dum microlepidóptero bastante grande (Antaeotricha anonella SEPP). As lagartas novas são brancas e pontilhadas, com a cabeça escura; roem primeiramente as sementes, escapando por buracos grandes para a polpa, onde se tornam encarnadas. Dentro duma aglomeração de excrementos a larva fia o seu casulo e transforma-se em crisálida castanha. Nestes lugares encontra-se também uma invasão secundária de larvas de moscas; a fruta apodrece e mofa em extensão variável ou mumifica-se, secando completamente se houver muitas lagartas.

Durante o dia experimentou-se a caça. Os mocós foram apreciados, mas a saracura gigante tinha um gosto péssimo, devido, provavelmente, à sua alimentação. É para estranhar, visto que as saracuras pequenas têm boa carne. As craúnas, que experimentamos, geralmente eram boas, mas uma tinha o mesmo mau gosto que a grande saracura. Por outro lado o socó-boi, que não julguei comestível, foi geralmente apreciado.

Continuamos a nossa viagem, parando uma vez para tomar lenha, e, ao anoitecer, chegamos a Barra com céu muito escuro e bastante vento. Encontramos, afinal, um caixão com álcool e formalina, que devia ter vindo há tempos.

14 de junho – Hoje cedo estava chuviscando e via-se magnífico arco-íris duplo. A chuva deu para inundar o convés e vários objetos que deviam secar nele, mas cedeu logo ao sol. Depois das compras necessárias, que causaram muita demora, deixamos a Barra à 1h30, entrando logo no São Francisco que, com as suas águas turvas, corria entre margens pouco elevadas, cuja vegetação baixa contrastava com a do rio Grande. Passamos algumas ilhas e bancos de areia, parando depois de uma hora para tomar lenha, na qual se encontrou outra vez uma cobra-coral não venenosa. Às 5h30 tornamos a tomar lenha, num lugar chamado Mucamba de Vento, onde saltei e colhi algumas plantas. Ficando tarde, resolveuse passar a noite nesse porto. Procuramos barbeiros em diversas casas, porém sem resultado. Na luz de acetileno apareceu grande quantidade de pequenos estafilinídeos, parecidos aos que se costuma encontrar nas flores.

15 de junho – Seguimos às 6 horas. Chegados perto da barra do Icatu, passamos para a canoa, com a qual entramos neste pequeno afluente da margem esquerda. Havia pouca água e muita corrente, dificultando o progresso. Aqui pegamos um dourado regular que saltou na canoa. Chegamos a custo perto dum lugar chamado Comércio, ao pé duma série de montes de areia, sem dúvida de formação eólica. Creio que já antes tínhamos passado algumas dunas, mas foi só daqui para diante que estas se mostravam com caráter bem evidente. Voltamos para o vapor entre bancos de areia e saltando por duas vezes numa ilha grande, bastante cultivada. Nesta zona, as plantações se fazem de preferência nas ilhas e zonas marginais, logo que baixam as águas que as inundam nas enchentes; isso lembra o Nilo, que tem muito de comum com o São Francisco. Tendo descido mais um pouco entramos no canal que liga Xiquexique18 com o grande rio. Depois das 2 horas passamos em frente dessa cidade, para ver a grande lagoa em que termina o canal, e tirar algumas fotografias desta e das serras distantes. Nas enchentes há uma comunicação direta com o São Francisco, o que abrevia muito as viagens da Barra para Xiquexique; podia-se manter esta comunicação por meio de um canal, projeto muitas vezes discutido, mas nunca realizado. Voltamos e paramos na cidade e fomos procurar uma casa onde havia muitos barbeiros da pequena espécie, como nos tinha informado o Sr. Zehntner, do Juazeiro, que lá estivera. Procurando no lugar indicado (umas pilhas de telhas no quintal onde as galinhas costumavam dormir), encontramos muitas Triatoma sordida em todos os estados de evolução, junto com dois escorpiões. Enquanto passeávamos na cidade, houve um tiroteio que acabou com a morte dum homem, que a polícia quis prender, e com ferimento grave dum soldado. Este lugar, de muito tempo, é conhecido por desordens freqüentes. À noite estivemos com o Sr. Jacques Meyer, francês, residente nesta cidade, que nos deu muitas informações úteis e algumas fotografias interessantes. Tem uma fazenda, bastante distante, onde faz plantações de maniçoba.

Fig.77 – Xiquexique and the river at a low level, Bahia. Photo by Dr. Jacques Meyer. Photo originally published in Plate 7.

Xiquexique com o rio baixo, Bahia. Foto do dr. Jacques Meyer. Cópia fotográfica que corresponde aimagem originalmente publicada em Estampa 7 (COC, DAD, SI, série Atividades Científicas, subsérie Expedições, AC-E 142).

A letter by Leo Zehntner (page 1 of 2) to Adolpho Lutz sent on April 11, 1912 from Xiquexique, a town on the margins of the São Francisco River (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5). Zehntner was born in Reigoldswil, Switzerland, on January 1st, 1864; he studied natural sciences in Basilea and Berna. Zehntner became a doctor of philosophy in 1890 and worked as an assistant to the entomologist Henri de Saussure in Geneve. In 1894, he was hired as a naturalist by the Pasuruan research station in Java, Indonesia, where he conducted studies on tropical crops and described new species of crop parasites, mainly coccidea, aphids and hymenoptera. In 1905, he was hired as director of the Instituto Agrícola da Bahia, an educational organization recently founded by the Bahia government. Zehntner adapted the old Imperial Instituto Bahiano de Agricultura, founded in November 1859 in São Bento das Lages, a village near Santo Amaro da Purificação, to its new name and functions.

During the six years of Zehntner as director of the Instituto, other foreign researchers were hired: Ph. von Schultzeburg, Paul Bigler, Paul Huart Chevalier, Zolinger, and Charles Reginald Girdwood. However, Zehntner's work was hampered by facilities problems, and by the lack of financial resources and of support to reach the standards he had in mind for the organization. In 1911, the State of Bahia transferred the administration of the Instituto Agrícola to the federal government, who created the Escola Média ou Teórico-Prática de Agricultura by the decree n° 8.584 dated March 1st, 1911 in São Bento das Lages. The school was to be administered by Henrique Devoto. Zehntner returned to Europe in 1920 and died in Liefstal, Switzerland, on April 3, 1961.

Carta de Leo Zehntner a Adolpho Lutz, remetida de Xiquexique, às margens do Rio São Francisco, em 11.4.1912 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5, duas folhas manuscritas). Nascido em Reigoldswil, Suíça, em 1.1.1864, Zehntner estudou ciências naturais em Basiléia e Berna. Doutor em filosofia em 1890, trabalhou como assistente do entomólogo Henri de Saussure em Genebra. Em 1894, foi admitido como naturalista da estação de pesquisa Pasuruan em Java, na Indonésia, onde realizou estudos sobre culturas tropicais, descrevendo espécies novas de parasitas agrícolas, principalmente coccídeos, afidídeos e himenópteros. Em 1905, foi contratado para dirigir o Instituto Agrícola da Bahia, estabelecimento de ensino recém-fundado pelo governo baiano. Zehntner tratou de adaptar às novas funções o antigo Imperial Instituto Bahiano de Agricultura, criado em novembro de 1859 em São Bento das Lages, povoado próximo a Santo Amaro da Purificação e ligado à vila de São Francisco.

A direção de Zehntner, que durou seis anos, permitiu a atração de outros pesquisadores estrangeiros: Ph von Schultzeburg, Paul Bigler, Paul Huart Chevalier, Zolinger e Charles Reginald Girdwood. O trabalho de Zehntner foi, no entanto, dificultado por problemas de infra-estrutura, pela falta de recursos financeiros e de apoio à instituição científica nos padrões que tinha em mente. Em 1911, o Estado da Bahia transferiu a administração do Instituto Agrícola ao governo federal, que, pelo decreto n° 8.584, de 1.3.1911, criou, ainda em São Bento das Lages, a Escola Média ou Teórico-Prática de Agricultura, passando a nova instituição a ser dirigida por Henrique Devoto. Zehntner retornaria à Europa em 1920. Viria a falecer em Liefstal, Suíça, em 3.4.1961.

Caro senhor,

Um de meus amigos chamou minha atenção para sua publicação Memórias, tomo VII, fascículo I, contendo a descrição de sua viagem ao Rio São Francisco.

Faria o senhor a gentileza de enviar-me, se possível, dois exemplares de sua publicação, um para mim e o outro para meus amigos em Xiquexique.

Vejo que o senhor me chamou de “doutor,” título ao qual não tenho direito algum, e sem querer criticar seu relatório, não posso passar em silêncio aquela frase concernente à prisão de um homem que tinha sido intimado a comparecer diante do delegado de polícia como testemunha. Em lugar de ir lá, ele simplesmente matou o soldado que lhe apresentava a intimação.

Se eu tivesse imaginado que o senhor iria publicar suas notas, ter-lhe-ia pedido a permissão de lhe fornecer uma sobre Xiquexique, na qual eu certamente não teria mencionado que esta localidade é conhecida há muito tempo “por desordens freqüentes,” pois isso teria sido uma afirmação contrária à verdade. Conheço o lugar há dez anos, e de perto, há seis anos, durante os quais não havia sequer polícia. Se houve desordens em Xiquexique a partir do ano de 1912, quando o senhor passou por lá, isso se deve unicamente à polícia que o governo atual do Estado da Bahia enviou para lá para tiranizar a população, a fim de agradar a um dos amigos do mesmo governo que se intitula “chefe político de Xiquexique”!

Fig.78 – Street scene in Xiquexique, Bahia. Photo taken on June 15, 1912 and not published in the 1915 report.

Cena de rua em Xiquexique, Bahia. Foto batida em 15.6.1912. Não utilizada no relato publicado em 1915. (COC, DAD, SI, série Atividades Científicas, sub-série Expedições, AC-E 1-41).

Uma pequena retificação: a fotografia que o senhor publica foi batida em 1912 e não durante a grande inundação de 1906.

Para concluir estas curtas linhas, permito-me dizer-lhe que guardo recordação muito agradável das poucas horas que passamos juntos em Xiquexique há quase quatro anos atrás, e rogo-lhe que creia que estarei sempre à sua disposição se puder se lher útil no que quer que seja.

Queira aceitar, caro senhor, minhas distintas saudações

Jean Meyer

Aos cuidados de London & Brazilian Bank Ltd.

Bahia

P.S. O senhor Dr. Zehntner continua em Juazeiro onde passa bem e de onde me escreveu ainda ultimamente.

Letter sent by Jean Meyer to Adolpho Lutz from Bahia in December 18, 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5). In his report, Lutz mentions Jacques, a Frenchman, who lived in Xiquexique and owned a maniçoba farm. Judging by this letter, his name probably was Jean Jacques Meyer.

Carta de Jean Meyer a Adolpho Lutz, remetida da Bahia, em 18 de dezembro de 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5). Lutz, no relatório, refere-se a Jacques Meyer, francês, residente em Xiquexique, dono de fazenda de maniçoba. Como este, na carta, não corrige a grafia de seu nome talvez fosse Jean Jacques Meyer.

16 de junho – Tivemos hoje ocasião de ver uma pequena coleção de carbonatos, espécie de diamante preto, sem brilho, mas muito duro, encontrado exclusivamente no estado da Bahia. Só serve para fins industriais, mas o valor comercial de exemplares menores é superior ao de diamantes do mesmo tamanho, regulando 25 mil réis o grão. A região onde são encontrados é ainda bastante distante, no meio das serras que se vêem no horizonte e que fornecem muita borracha de maniçoba, sendo esta geralmente mal tratada e muito impura.

A cidade, cujo nome é derivado duma espécie de Cereus, tem um bonito edifício que é a câmara municipal. Quanto ao resto, as casas são nem muito boas, nem muito ruins. Nota-se aqui uma iluminação pública, feita com lâmpadas de querosene. No porto aparece a pedra natural em grandes lajes, e a cidade está bastante elevada acima do rio, sem os brejos e lagoas de costume; deve a estas condições um estado sanitário melhor. Assim mesmo, na grande inundação de 1906, foi totalmente invadida pela água, como mostrava uma fotografia tirada pelo Sr. Jacques Meyer. Há também um médico residente no lugar, cujas informações indicavam a ausência de qualquer moléstia endêmica. Não houve alastrim aqui, talvez por ser a população vacinada. Na margem do rio Verde, que, por terra, fica distante umas 12 léguas, há febres com caráter muito maligno, consideradas as piores da região. Deixamos de ir lá, por causa da grande distância e de ter já passado o tempo delas. Falaram também de beribéri epidêmico no Tabuleiro Alto, mas chegando mais perto do lugar, que é rio abaixo, só obtivemos informações negativas a esse respeito.

O dia foi muito quente, subindo a temperatura a 33°; às 10 horas da noite, estava ainda em 24°. Houve muitos insetos perto da luz de acetileno. Mais tarde, soprou um vento bastante forte, que fez desaparecer as efeméridas e trouxe várias Cellia argyrotarsis evidentemente carregadas de lugares bastante distantes. O canal em frente da cidade é igual em largura ao São Francisco em muitos trechos, e, provavelmente, os mosquitos provinham do outro lado. No porto havia muitas piranhas pequenas. Com anzol foram pescadas de bordo umas vinte, todas de menos de um palmo de comprimento.

Fig.79 – Xiquexique flooded. Bahia. Photo by Dr. Jacques Meyer. Image originally published in Plate 7.

Xiquexique inundada. Bahia. Foto do dr. Jacques Meyer. Imagem originalmente publicada em Estampa 7.

Fig.80 – Verde River, Bahia. Image originally published in Plate 6.

Rio Verde, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à Estampa 6 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

17 de junho – Partimos antes das 6 horas com uma temperatura pouco acima de 22°, vimos na margem direita muitas carnaubeiras, caracterizadas pela forma globular da coroa. Às 7 horas estávamos no São Francisco, onde se via, acompanhando a margem esquerda, uma série de morros, aparentemente formados unicamente por areia, ora exposta, ora coberta de vegetação. Têm o caráter de dunas antigas e a sua formação eólica é corroborada pelos ventos fortes e freqüentes que, ainda hoje, reinam nesta parte do rio, onde as embarcações costumam fazer uso de velas. Do lado direito do rio, aparece um tabuleiro muito extenso. Passamos logo num lugar onde um vapor da companhia foi a pique, depois de ter batido numa pedra. Há disso oito anos, e ainda se percebem as pontas de duas chaminés saindo da água.

Mais tarde paramos e tomamos lenha num porto chamado Boa Vista das Esteiras, ao pé dum pequeno morro, lembrando na sua forma um cone vulcânico. Seguindo mais para baixo, encontramos outra duna, mais encostada ao rio e tendo talvez uns 120 metros de altura. Galgamo-la em subida muito fatigante, feita em grande parte na areia solta. Em cima descortinamos uma boa vista para o outro lado do rio. Do nosso lado, havia uma sucessão de outras dunas, mais ou menos paralelas e quase totalmente cobertas de vegetação interessante, crescendo sobre a areia pura. Entre as flores notei uma Angelonia, escrofulariácea de flor muito bonita.

Fig.81 – Quartz, Pilão Arcado. Image originally published in Plate 12.

Pedra de quartzo, Pilão Arcado. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 12 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

De volta para o navio, seguimos para a foz do rio Verde, aonde chegamos às 3h35. É um estuário bastante largo. A água, que pela maior parte pertencia ao São Francisco, não tinha cor distintiva. Subi pelo rio, que tem, dos dois lados, uma zona de mato bastante bonito. A água é perfeitamente calma; nem por isso deixamos de apanhar, na canoa e em terra, uns dez exemplares de pium, mostrando outra vez como esta espécie, aproveitando provavelmente os ventos e o ar úmido do rio, consegue afastar-se enormemente dos seus criadouros de águas encachoeiradas. Encontramos também um mosquito-pólvora. Voltamos e embarcamos ao cair do sol. O vapor seguiu para Pilão Arcado, lugar pouco distante, à margem esquerda. Durante esta viagem, experimentamos, pela segunda e terceira vez, a sensação produzida pelo contato do casco do navio com o fundo de areia. Chegamos com noite escura à praia de Pilão Arcado, onde passamos a noite. Houve logo um vento bastante forte; em conseqüência deste, poucos insetos apareceram na luz, não obstante a temperatura elevada de 26°. Pouco antes das 10 horas chegou o vapor “Matta Machado,” de Juazeiro. O vento, nessa hora, tinha parado, mas durante a noite voltou com muita força.

18 de junho – Hoje cedo a temperatura era de 20° e o tempo bom, havendo um pouco de vento. Notamos uma corrente bastante forte no rio. O pequeno lugar, cujo nome singular ninguém sabe explicar, está bem colocado, sendo o terreno em parte arenoso, em parte coberto de pedregulho. Há umas 200 a 300 casas, umas boas, outras muito primitivas. Atrás da cidade encontramos um campo pedregoso com uma flora escassa, em grande parte xerofítica, notando-se o xiquexique, um Cereus com flores brancas. Vimos lá um bloco de quartzo quase puro, do tamanho duma pequena casa, com uma escada que dá acesso a plataforma em cima, onde há um cruzeiro e donde se tem uma vista boa sobre as duas margens do rio. Perto da cidade há algumas pedras no rio que formam uma espécie de recife pequeno.

Prosseguimos a nossa viagem às 11h14. O rio continuava sempre muito largo, com margens pouco elevadas e bancos de areia dos dois lados. Num deles havia um grande banco de garças brancas. A bordo apareceu um borrachudo de outra espécie. Viam-se a distância alguns morros ou serras pouco extensas. Depois de uma hora de viagem, encontramos serras com grandes tabuleiros, dos dois lados do rio, ficando mais perto a do lado direito. Esta, que já aparecia numa fotografia tirada da pedra do Pilão Arcado, foi fotografada. Do lado direito, em direção da serra, via-se cair chuva em bastante extensão, mas passamos ao lado dela. Um banco de areia, em que o vento levantou uma nuvem de areia fina, mostrava a formação das dunas. O rio aqui faz uma viravolta, contornando a serra que aparece do lado esquerdo. Às 3 horas, chegamos a um braço de rio que passa perto dum lugar chamado Tabuleiro Alto e recebe um afluente do mesmo nome. Não podendo o vapor passar por esse canal, fiz o trajeto em canoa. Apenas entramos no afluente, que estava completamente obstruído por paus caídos; também não demorei na aldeia, formada por pequeno número de casas péssimas. Às 6 horas, chegamos, pela parte inferior do canal, a um porto, onde o vapor nos esperava. Tínhamos passado diante da Serra do Tabuleiro Alto. Colecionei um grande número de piuns, que abundavam no canal, e atirei em terra num iguana de mais de metro e meio de comprimento, sendo mais da metade representada pela cauda. Tiramos umas fotografias e seguimos depois para um lugar pouco distante, chamado Mato Grosso, onde tomamos lenha e passamos a noite. Na luz apareceram poucos insetos, entre estes o pium e alguns mosquitos, Cellia e Mansonia. Havia um pouco de vento e a lua era nova. Ainda depois das 9 horas, o termômetro marcava 24°.

19 de junho – Saímos às 5h30, com temperatura pouco acima de 24°. Ultimamente não se nota mais a formação de orvalho abundante. Estamos agora na altura de Maceió e os dias são mais compridos e as noites mais quentes. Seguimos rio abaixo, tendo à direita uma série de serras. Às 8 horas estivemos em frente de Remanso, mas descemos mais um pouco, a fim de entrar no canal que conduz ao porto, aonde chegamos logo depois. Fomos visitados a bordo por várias pessoas, entre estas o médico do lugar, Dr. Vital, que nos deu muitas informações. Depois saltamos e fomos à igreja, onde encontramos um ponto com boa vista e tiramos algumas fotografias.

À tarde procuraram-se barbeiros na cidade, encontrando-se apenas alguns exemplares da espécie pequena, aqui chamada Porocotó, em duas casas. Compramos também uma tarrafa, e saí com dois marinheiros para experimentá-la. Apanhamos um grande exemplar de pacamão,19 peixe do fundo, cor de couro, sem escamas e com olhos muito pequenos. Apanhamos também algumas pirambebas, ou piranhas brancas, muito pequenas, escapando outras, que cortaram com os seus dentes agudos algumas malhas da rede. Vimos muitos talha-mares pretos (Rhynchops nigra L., var. cinerascens Spix), algumas gaivotas, trinta-réis (Sterna) e maçaricos. Na areia seca encontrei dois caburés. Obtivemos também um filhote de talha-mar.

Fig.82 – Sand dunes, São Francisco River, south of Remanso. Image originally published in Plate 14.

Dunas de areia no rio São Francisco, abaixo de Remanso. Imagem originalmente publicada em Estampa 14.

Fig.83 – Mountain range, right margin of the São Francisco River, south of Remanso. Image originally published in Plate 14.

Serra na margem direita do rio São Francisco, abaixo de Remanso. Imagem originalmente publicada em Estampa 14.

Tivemos também informações sobre a existência do mal-de-cadeiras, aqui chamado torce, que é uma tripanose dos cavalos. Outra moléstia afim, na durina20 também parece ocorrer aqui. Tratou-se dos meios para examinar alguns desses animais doentes que, geralmente, se achavam em lugares bastante distantes.

20 de junho – Fui cedo ver a feira que estava na praia, um pouco mais acima. Havia, além dos peixes mais conhecidos, algumas corvinas e dois exemplares de pacamão. Na véspera vimos pela primeira vez uma pirá. Depois fomos a uma casa onde havia uma Sittace spixii, espécie bastante rara. Não quis a proprietária vender a ave, que era muito mansa, mas, finalmente, deixou-se tentar pelo dinheiro oferecido.

À tarde chegaram um cavalo e um burro sofrendo de torce. Com sangue, que nos preparados não mostrava tripanossomos, inocularam-se alguns animais de experiência.

À noite ventou muito, e às 10 horas o termômetro marcava ainda 24°.

21 de junho – Hoje cedo a temperatura era de 20° e o vento era fraco. Na feira quase não havia peixe. Tratamos, em terra, de vários assuntos, examinando também alguns doentes. Um pouco antes das 3 horas seguimos no vapor para uma fazenda, do outro lado do rio e seis léguas mais abaixo, a fim de ver animais doentes de torce. Dos dois lados do rio, havia serras mais ou menos distantes. O rio hoje parecia muito turvo, porque a água, agitada pelo vento, carregava areia dos bancos superficiais que aqui abundam. Uma légua acima da fazenda, passamos o pitoresco Morro do Tombador, tendo a forma duma pirâmide. Está tão perto do rio que, com o binóculo, distinguem-se perfeitamente as hastes frutíferas do Encholirium snectabile, bromeliácea que já encontramos na serra de Morpará.

Fig.84 – Stone mountain with Eremanthus north of Catella. Photo taken on June 25, 1912.

Morro de pedra com Eremanthus acima de Catella. Foto batida em 25 de junho de 1912 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.85 – Landscape with carnauba palm trees. Boqueirãozinho, Bahia. Photo taken in May 1912 and not published in the 1915 report.

Paisagem com carnaúbas ao fundo. Boqueirãozinho, Bahia. Foto batida em maio de 1912, não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série Atividades Científicas, subsérie Expedições, IOC (AC-E) 1-31).

Logo depois chegamos à fazenda Catella, cujo dono, coronel Januário, nos acompanhava, assim como o médico do Remanso. Num cavalo, amarrado perto da casa, apanhei vários exemplares de pium, mas não apareceram nem mosquitos, nem tabanídeos. Não tendo ainda chegado os cavalos doentes, fui à noite com dois marinheiros lançar a tarrafa nos bancos de areia do lado esquerdo. Em trinta lances, apanhou-se apenas um curimbatá grande e duas corvinas (Pachyurus squamipinnis Agass.) menores. Por causa da largura das malhas não se podiam apanhar peixes pequenos.

22 de junho – De manhã cedo fomos em canoa para o outro lado do rio, onde tomamos um banho. Apanhei algumas cascas de Anodonta e exemplares vivos duma Melania, gênero de moluscos aquáticos, comum nos rios brasileiros. Atirei, sem resultado, em algumas gaivotas que voavam numa coroa.

De volta, fomos com um cavalo mais manso para uma capoeira, distante dois quilômetros e situada perto duma lagoa. Apanhamos três mutucas, iguais às observadas no Breijão, e piuns em grande número.

Não encontramos os cavalos na fazenda e, depois de esperar muito, voltamos a Remanso, não conseguindo evitar algumas colisões com o fundo do rio. A cidade está situada em terreno perfeitamente plano, num braço do rio, e tem algumas centenas de casas, em grande parte contíguas e formando ruas pouco largas.

23 de junho – Na feira, menos concorrida que a da Barra, nada havia de interessante. Aproveitei a parada do navio para arranjar várias coisas. Depois despedimo-nos do Dr. Vital Rego, que se tinha mostrado sempre muito obsequioso, e de várias outras pessoas do lugar, e voltamos para Catella. Nesta zona os ventos são freqüentes e deixam sinais evidentes da sua ação na areia das coroas. Na véspera, à tarde, o vento era forte, mas acalmou durante a noite; com um pouco de vento em proa, assim mesmo, o calor parecia menor do que realmente era. A temperatura ontem, às 10 horas da noite, era de 24°, hoje cedo 19°; às 11 horas tinha subido outra vez a 26°. Chegamos à fazenda às 12h50, e demoramo-nos até 4h55. Durante esse tempo, examinaram-se dois animais com peste de cadeiras e autopsiou-se um deles, retirando-se fragmentos de órgãos para exame microscópico. O exame do sangue não tinha mostrado tripanossomos, mas o diagnóstico foi confirmado pelo fato de que todos os animais inoculados adoeceram com tripanossomos no sangue.

Fig.86 – Horse with trypanosomiasis. Photo taken on June 22, 1912 and not published in the 1915 report.

Cavalo com mal-de-cadeiras. Foto batida em 22 de junho de 1912, não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.87 – Mare with trypanosomiasis in Catella, near Remanso. Photo taken on June 23, 1912 and not published in the 1915 report.

Égua com mal-de-cadeiras em Catella, perto de Remanso. Foto de 23 de junho de 1912, não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.88 – ‘Traíras’ (Hoplias malabaricus) on the margins of the São Francisco River. Photo not published in the 1915 report.

Traíras, às margens do rio São Francisco. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Durante a autópsia, que foi feita perto do rio, apareceu grande número de piuns. Voltando em canoa examinei muitos galhos retirados do rio, sem encontrar vestígios de criação de borrachudos.

A continuação da viagem foi bastante pitoresca, havendo dos dois lados serras e, no rio, muitas ilhas e coroas. Estando a noite fechada, paramos na margem direita, num lugar chamado Traíras, ao pé de dois morros onde abundam os mocós. Os marinheiros festejaram São João com uma fogueira na margem do rio.

24 de junho – Levantamos cedo para fazer uma caçada. Subi logo ao ponto mais alto, sem ver mocós, mas achei plantas muito interessantes, e a vista do alto era esplêndida. As camadas de pedra aqui eram verticais e havia muitos veios de quartzo. Entre as plantas notei uma Acanthacea aromática com flores vermelhas e uma composta de folhas quase brancas, o Eremanthus matii. Nos últimos dias notamos várias vezes manchas claras na vegetação dos morros, que eram produzidas por aglomerações dessa planta. Havia aqui também muitos cactos e a cansanção, loasácea, cheia de espinhos urticantes, que facilmente atravessam as meias e mesmo a roupa. Encontrei também muitas cascas dum molusco terrestre, que não tínhamos observado antes.

Os companheiros, que foram por outros caminhos, caçaram uma curicaca (Geronticus albicollis) e alguns mocós. Estes se parecem com a preá; são porém um tanto maiores e mais altos nas pernas, que têm a planta dos pés e as unhas muito pretas: a parte posterior do corpo é ferruginosa.

Depois de uma hora continuamos a viagem que interrompemos uma vez, para tomar lenha. À 1h30 viram-se, do lado esquerdo, umas dunas cobertas de vegetação e, do lado direito, uma serra comprida com tabuleiro extenso. Adiante, numa distância de duas léguas, aparecia a igreja de Centocé, quando, depois de roçar algumas vezes no fundo, encalhamos, pela primeira vez, de tal forma que a máquina não conseguiu nos tirar do lugar. Os marinheiros tiveram de cair n’água, procurando livrar o vapor por meio de alavancas. Não dando isso resultado, deitou-se uma âncora pesada a certa distância, enrolando depois a cadeia para assim puxar o navio. A primeira experiência, feita do lado esquerdo, falhou. Aproveitei a demora para embarcar na canoa e saltar num banco de areia, onde se viam muitos talha-mares e gaivotas pousados ou voando. Chegados lá, encontramos alguns ninhos ou, antes, grupos de três a quatro ovos, colocados na areia em pequenas covas, alguns já com os pintos para sair. Tinham a cor de areia com riscos pretos, sendo de dois tamanhos. Havia também um ovo de tamanho maior e com fundo quase branco. Vimos também uns maracanãs azuis, e atirei no meio do bando voando, mas não tive felicidade de obter um desses pássaros raros. Durante esse tempo conseguiram livrar o navio pelo ferro deitado do outro lado. Continuamos a viagem, roçando no fundo de vez em quando, até que encalhamos de novo. Repetiu-se a manobra da âncora, porém sem resultado, mas afinal, pouco antes das 5 horas, o vapor livrou-se por meio das alavancas. Depois de outros vinte minutos de viagem com algumas ameaças de encalhe, apareceu a igreja de Centocé à direita, por trás dum carnaubal. Pouco depois chegamos ao porto, onde havia uma fileira de casas, pela maior parte muito ordinária, onde pelas informações existe a Triatoma sordida. Depois do jantar, aproveitei o luar bonito para ir, em companhia do comandante, a pé até a vila, distante dois quilômetros. Por muita areia e passando umas pequenas lagoas chegamos lá. Soubemos que atualmente não havia casos de torce, mas que já tinha vitimado muitos cavalos. O mofo (durina) também parece existir nesta zona. Há bastante impaludismo. Depois de várias conversas voltamos outra vez para bordo, um tanto cansados pelo andar na areia.

25 de junho – Partimos às 5h40. O rio era agora largo e muito calmo, mostrando do lado esquerdo algumas pedras acima da água. Do lado direito, viram-se muitas carnaubeiras; na frente, tabuleiros duma serra elevada. Encontramos o vapor “Carinhanha,” que seguia para o rio Corrente. Encostamos para esperá-lo, mas encalhamos outra vez, só saindo depois de muito trabalho. À direita via-se a Serra do Frade, com um pilar de pedra alto e completamente destacado, lembrando o Dedo de Deus na Serra dos Órgãos; a margem direita era completamente plana, mas avistavam-se agora algumas dunas bastante distantes do rio e quase cobertas de vegetação. Às 10 horas chegamos à vila Casa Nova, onde só demoramos para passar alguns telegramas. Entre as casas do porto e as da vila há uma lagoa ou braço do rio atualmente seco; o caminho passa por um aterrado, interrompido por uma ponte, que permite o escoamento da água. Depois de outro desencalhe seguimos pelo rio, que se tornou encapelado com o vento forte, enquanto o vapor principiava a jogar. Desprendeu-se a canoa que rebocávamos, e foi preciso apanhá-la de novo, o que causou trabalho e demora. O tempo estava coberto, parecendo ameaçar chuva; a temperatura ao meio-dia era de 25°, mas, por causa do vento forte, parecia muito menos.

Fig.89 – Dam in Casa Nova, Bahia. Image originally published in Plate 7.

Casa Nova, dique. Bahia. Imagem originalmente publicada em Estampa 7.

Fig.90 – Frade Mountains, São Francisco River. Image originally published in Plate 13.

Serra do Frade no rio São Francisco. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 14 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Depois das 2 horas chegamos a Sant'Anna, pequeno lugar, situado na margem esquerda, sobre terreno arenoso no alto e formado na margem do rio por pedregulho, com muitas cascas vazias de melancia. Pude contar umas cinqüenta casas, quase todas de barro. Aqui, como em alguns outros lugares em que passamos, existe uma pequena indústria de rendas, pouco rendosa. Aqui experimentamos, pela primeira, as célebres uvas de Juazeiro. Têm as bagas alongadas e carnosas, ficando roxas quando maduras, parecidas às que entre nós, erroneamente, se chamam moscatel. Eram de aspecto bonito e de gosto bom, quando não estavam ainda verdes.

Algum tempo depois conseguiu-se livrar o vapor, que encalhara no porto, e partir. Começou agora uma parte do rio onde havia muitas pedras e cachoeiras; apenas um canal estreito, na maior parte artificial, fica livre para a navegação. Acostamos abaixo deste e voltei em canoa com dois marinheiros e um empregado. Conseguimos alcançar algumas pedras no meio das corredeiras muito fortes. Havia aqui muitas podostemáceas de duas espécies, e nestas encontrei os casulos de pium em número bastante grande e sem mistura com outra espécie. Enquanto os marinheiros apanhavam alguns pacus com a nossa tarrafa, colhi bastante material. Era o primeiro criadouro maior de pium que encontrei nesta zona; apenas no rio das Ôndias, que era muito distante, tinha encontrado alguns casulos. Parece curial21 que deste criadouro os piuns adultos se espalhem sobre um terreno muito extenso onde são encontrados, embora lá faltem completamente as condições necessárias para o desenvolvimento das larvas.

De volta trabalhei até tarde para aproveitar o material colecionado.

26 de junho – Seguimos às 5h40. A paisagem aqui é muito pitoresca. Do lado esquerdo ergue-se a Serra da Cachoeira, com rochedos de cor muito clara; do lado direito há uma ilha. A navegação continua a ser difícil. No rio há muitas pedras, e em vários pontos só se pode aproveitar um canal muito estreito; também se anda só com meia força. Depois de entrar no grande rio, encontram-se ainda muitas ilhotas e recifes. Num ponto aparece no meio do rio uma pedra alta, decorada com bromeliáceas, que é uma imitação perfeita, em escala reduzida, de muitos morros que temos visto ultimamente.

Pouco abaixo dessa ilha desaparecem as pedras, e o rio, largo e calmo, corre por uma planície coberta de árvores. As margens são em parte cultivadas, principalmente à direita. Há capim, milho, feijão, mandioca, batata-doce etc., tudo plantado em terrenos que eram inundados. Passamos pelo lugar chamado Pau de História, que faz parte da margem esquerda, estado de Pernambuco. Por um momento chuviscou, mas não caiu água bastante para molhar o convés. Às 7h30 tomamos lenha num lugar chamado Lagoa, onde havia uma roça bem tratada e umas parreiras doentes. Creio que se tratava de brown rot. Abaixo deste lugar recomeçam os obstáculos à navegação, formados por numerosas pedras no rio.

Às 9 horas, avistou-se a cidade de Petrolina, na margem esquerda e, pouco depois Juazeiro, do lado direito. Depois de dar uma volta para apreciar a vista das duas cidades, paramos em frente à estação do Juazeiro às 9h20. Saltamos depois do almoço, visitando o correio, o telégrafo, o engenheiro das obras contra a seca, a casa do comandante e um colega, procurando e obtendo várias informações. A cidade é grande e dá uma impressão boa, que podia ser melhor ainda, se as ruas fossem calçadas e as casas mais altas. Sofreu bastante com a grande inundação de 1906, e os prejuízos ainda não foram todos reparados. O edifício mais bonito é a estação da estrada de ferro, que é muito superior a qualquer dos que vimos durante a viagem.

O tempo, todo o dia, foi chuvoso e, com o vento contínuo, tornou-se pouco agradável. Depois de tantos dias de tempo bom, tivemos, realmente, uma recepção bastante fria. Os habitantes, todavia, foram mais amáveis que o tempo. Na casa do comandante experimentamos as uvas célebres, que eram da qualidade já descrita, porém mais maduras e muito boas. Ofereceram-nos também mangas excelentes. Passamos a noite a bordo.

Fig.91 – Juazeiro seen from the Fogo Island. Photo not published in the 1915 report.

Cidade de Juazeiro vista da Ilha do Fogo. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.92 – Juazeiro Station. São Francisco Railroad. Photo originally published in Plate 17.

Estação de Juazeiro. Estrada de Ferro S. Francisco. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 17 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fig.93 – São Francisco River seen from Fogo Island, Juazeiro, Bahia. Image originally published in Plate 6.

Rio São Francisco, visto da llha do Fogo, Juazeiro, Bahia. Imagem originalmente publicada em Estampa 6.

Fig.94 – Fogo Island, between Juazeiro and Petrolina. Image originally published in Plate 12.

Ilha do Fogo, entre Juazeiro e Petrolina. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 12 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

27 de junho – O tempo hoje foi um pouco melhor, mas ainda bastante triste. Já na véspera principiou-se a tratar da mudança, hoje continuou-se o trabalho. Ocupou-se a maior parte do dia em preparação de correspondência, que devia seguir no dia seguinte pelo trem misto. Destes há dois por semana, alternando com dois rápidos. Estes gastam dois dias e aqueles três para chegar à capital, mas andam só de dia. Às 6h40 fomos à estação esperar o rápido que devia trazer várias pessoas mais ou menos conhecidas, mas nem todos chegaram.

28 de junho – Fui cedo para o campo de experiência, hoje Horto Florestal, onde encontrei o Sr. Alberto Loefgren e vi as culturas. À tarde, examinamos as plantas que tinha colecionado durante a viagem, procurando determinar ao menos as famílias, e li alguns livros encontrados no Horto Florestal.

29 de junho – Saímos cedo para fazer com o Sr. Loefgren uma excursão à Serra da Primavera ou de Ribeirão do Sal, distante umas duas léguas. É um morro formado em grande parte de rochedos íngremes, de granito ou de gnaisse, com cerca de 200 metros de altura, parecendo-se muito com aquele que galgamos em Traíras. A vista abraça uma grande planície de aspecto queimado e triste, relevado pelas numerosas serras que aparecem no horizonte. O caminho passava por um grande terreno coberto por canudos (Ipomea fistulosa) e depois por um campo muito árido com arbustos que, em grande parte, estavam sem folhas. Com poucas exceções, a flora era composta de espécies que já tínhamos encontrado ultimamente.

30 de junho – De manhã visitei a pitoresca llha de Fogo, situada quase no meio entre as duas cidades, passando numa barca a vela, das que chamam aqui paquete. Encontramos na ilha uma vegetação muito característica e galgamos, com algum custo, a rocha que suporta, num poste de ferro, o fio telegráfico que atravessa o rio. Gozamos duma vista boa das duas cidades, do rio e das terras longínquas; quanto às riquezas mineralógicas, que se deviam encontrar nesta ilha, talvez os nossos predecessores as tivessem levado, ou o tempo não foi suficiente para achá-las. Esta ilha mais tarde será aproveitada, quando houver necessidade de ligar as duas cidades por uma ponte.

De volta da ilha almoçamos na casa do Sr. Gaget, um dos engenheiros da comissão das obras contra as secas. Vimos lá um tatu-bola novo, muito manso, que acudia quando se chamava e alimentava-se com leite. Depois atravessamos o rio em companhia do Sr. Gaget e subimos na torre da igreja, para ter a vista de Petrolina. A cidade é formada por três ruas de bom aspecto, mas, apesar de ser domingo, parecia morta. A margem do rio está, em parte, coberta com pedregulho, e em parte consiste em pedra. Dentro do rio vêem-se algumas pedras enegrecidas um tanto distantes; atualmente estavam expostas, mas, nas enchentes, devem ficar debaixo d’água. De volta ao hotel, fomos esperar o trem em que vinha o engenheiro residente da estrada de ferro e o Sr. Zehntner, diretor do Horto Florestal, que pouco antes percorrera a região de Xiquexique em estudos sobre a maniçoba.

Parte do diário de viagem de Lutz que deu origem ao relatório publicado nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Os comentários manuscritos em 3 e 4.7.1912 correspondem aos fatos relacionados aos dias 2 e 3 no trabalho publicado (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

30 de junho22 – Hoje ofereceram-nos para comprar dois exemplares vivos de tatu-bola, que parece comum nesta zona. Tem apenas três cintas e o rabo curto, e, quando se enrola, forma uma bola fechada do tamanho dum pequeno coco-da-baía (com a casca exterior). No mesmo dia apareceu no hotel um mandi de 65 centímetros de comprimento que foi fotografado, por ser muito maior que qualquer exemplar encontrado na viagem. Passei a manhã no hotel e a tarde no Horto Florestal.

1° de julho – A patologia da região não oferecendo assunto para estudos, resolvemos não demorar mais no lugar. Empregamos o dia de hoje em preparativos de viagem e despedidas das pessoas do lugar. Tínhamos uns trinta volumes para levar.

2 de julho – Tomamos o rápido que parte às 6 horas, e chegamos a Vila Nova (Estação de Bomfim) ao meio-dia, com 30 minutos de atraso. A viagem foi agradável e não sofremos do calor, nem de pó. Passa-se em primeiro lugar por um vasto campo, coberto de caatinga, tendo já perdido a maior parte das folhas. Depois aparecem serras áridas, cheias de pedras que, pela maior parte, parecem cristalinas. Aqui predominam cactos de várias formas, prevalecendo os Cereus. Aproximando de Vila Nova a vegetação torna-se viçosa.

Os morros da direita, que formam o princípio da Serra de Jacobina, apresentam-se cheios de verdura, formando um verdadeiro oásis no deserto. Fomos recebidos na estação pelo Sr. Manoel A. Lisboa, engenheiro da terceira seção da Inspetoria das Obras contra as Secas, com quem almoçamos. Depois acompanhei-o numa excursão a cavalo, até um lugar na serra, onde se projeta a represa dum pequeno rio. Encontrei aqui material interessante de borrachudos e uma espécie de mosquito-pólvora. A flora também apresentava muitas espécies, ainda não encontradas.

3 de julho – De manhã cedo chuviscou. Mais tarde fizemos uma excursão para a serra, mas só chegamos até a represa dum córrego, captado pela Companhia da Estrada de Ferro, onde colhi um pouco de material. De lá tivemos de voltar, às pressas, por causa de nova pancada de chuva, e chegamos ao hotel bastante molhados. Mais tarde, tendo o tempo melhorado fizemos outra excursão, encontrando o córrego da véspera em alguns pontos mais para baixo.

Num lugar chamado Cachoeirinha, achei um pouco de material de borrachudos. Depois de termos chegado à estação de Cariacá, voltamos à cidade, já noite fechada.

4 de julho – De manhã choveu outra vez. Ficamos no hotel ocupados com vários trabalhos. Nos animais inoculados com peste de cadeiras verificou-se a existência de tripanossomos no sangue. Aqui e no Juazeiro encontramos um número assaz grande de Stegomyia, tanto no hotel, como em casas particulares, de modo que estes lugares, ligados por estrada de ferro, correm o risco da importação da febre amarela.

Fig.95 – Vila Nova and the Jacobina Mountains, Bahia. Photo originally published in Plate 16.

Vila Nova e serra de Jacobina, na Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 16 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.96 – Vila Nova, Bahia. Photo originally published in Plate 16.

Cidade de Vila Nova, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 16 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.97 – Street market in Vila Nova, Bahia. Photo originally published in Plate 18

Feira de Vila Nova, Bahia. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 18 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

5 de julho – Hoje choveu bastante; todavia fizemos à tarde outra excursão para a serra, apanhando uns borrachudos nos cavalos.

6 de julho – O tempo continuou chuvoso; fizemos os nossos preparativos para continuar a viagem.

7 de julho – Partimos às 6 horas. Perto de Itiúba, passamos por umas serras de pedra cristalina, onde havia muitas cactáceas. Paramos em Queimados, conhecido pela guerra de Canudos, e atravessamos depois o rio diamantífero Itapicuru, que tinha ainda alguma água. Passamos a noite em Santa Luzia, lugar sem interesse, como a planície em que está situado. Estava chovendo e a noite era completamente escura.

8 de julho – Partimos às 5 horas da manhã e chegamos a Alagoinhas à 1 hora. A cidade é bastante grande e a região não mostra mais vestígio da seca. Conversamos com os médicos do lugar. Nesta zona reaparece o barbeiro, embora com menor freqüência. Quanto à tripanose, não pode ser freqüente; suspeitamos, todavia, da existência de casos isolados. Fiz um passeio e colhi material de borrachudos em dois lugares, encontrando casulos duma espécie ainda não descrita, mas já colecionada por mim em São Felix (estado da Bahia) em 1912.

9 de julho – Fizemos uma excursão até Mata de São João, onde o barbeiro já tinha sido encontrado por colegas da Bahia. Na viagem fomos detidos por um desarranjo da máquina. Conversamos com o médico e o farmacêutico do lugar, mas as casas que este indicou como infestadas de barbeiros eram afastadas demais para podermos ir até lá. Deixamos, todavia, uma encomenda de exemplares. Tendo recebido telegrama, anunciando um bom vapor para o dia 13 ou 14, resolvemos abandonar excursões ulteriores e seguir logo para a capital.

10 de julho – Deixamos Alagoinhas às 5h25 e chegamos à Bahia [Salvador] pouco antes de 11 horas, tendo ainda uma viagem bastante comprida até o nosso hotel, onde encontramos o Dr. Pires do Rio, engenheiro e chefe da terceira seção da Comissão. Aproveitei a tarde para fazer algumas compras necessárias.

11 de julho – Ficamos na cidade, onde vimos vários casos clínicos interessantes e o museu particular do Sr. Adolpho Diniz.

No dia 14 tomamos o vapor “Itapura,” que tocou em Vitória no dia 16. No dia 17, um pouco depois das 3 horas, estávamos de volta ao Rio de Janeiro.

Fig.98 – City Council, Alagoinhas. First seen is the canalized river. Photo originally published in Plate 17.

Câmara Municipal da cidade de Alagoinhas; em primeiro plano vê-se o rio canalizado. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 17 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.99 – Alagoinhas railroad station, Bahia, July 1912. Photo not published in the 1915 report.

Estação ferroviária de Alagoinhas, Bahia, julho de 1912. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série Atividades Científicas, subsérie Expedições, AC-E 1-57).

Fig.100 – View of Salvador Harbour, Bahia. Photo not published in the 1915 report.

Vista do porto de Salvador, Bahia. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Fig.101 – Vitória Island Port, Espírito Santo. Photo not published in the 1915 report.

Porto da ilha de Vitória, Espírito Santo. Foto não utilizada no relato publicado em 1915 (COC, DAD, SI, série atividades científicas, subsérie expedições, maço FOC).

Lista dos dípteros sugadores de sangue

(l. significa larvas, p. pupas, im. imagos, M. e B. estados de Minas e Bahia. As procedências entre parênteses foram observadas em outras ocasiões ou referem-se a exemplares recebidos)

Simulium

1 – amazonicum Goeldi (= minusculum Lutz) (Lassance M. im.), rio das Ôndias e rio Grande perto de Barreiras M. im, no Rio São Francisco abaixo de Barra, principalmente perto de Tabuleiro Alto e em Catella abaixo de Remanso B. im.; cachoeira de Sant'Anna acima de Jazeiro B. l. p.

2 – brevibranchium n. sp. (São Felix B. l. p.), Alagoinhas B. l. p.

3 – diversifurcatum Lutz Alagoinhas B. p.

4 – incrustatum Lutz Cachoeira de Jatobá M., Ribeirão e Rio das Ôndias (Barreiras) B., Vila Nova B. l., p., im.

5 – orbitale Lutz (Cachoeira de Pirapora M. p.), c. de Jatobá M. p., im.

6 – paraguayense Schrottky (?) (Lassance M.), Rio das Ôndias B. p., im.

7 – pruinosum Lutz (Lassance), Cach. do Brejinho M. p., im.

8 – rubrithorax Lutz (Lassance), Serra de Guacuí M. L., p.

9 – spinibranchium Lutz Brejinho, Pirapora M. p.

10 – subviride Lutz (Lassance), Brejinho, Pirapora M. p., Rio das Ôndias, Barreiras, Vila Nova B. p.

Ceratopogoninae

Culicoides

1 – debilipalpis Lutz Campos de Januária M., im. ♀

2 – guttatus Coq. Boqueirão e Santa Luzia no rio Grande e rio São Francisco B. im. ♀ ♀

3 – paraensis Goeldi Paulista (Urubu) B., im. ♀ ♀. Rio Grande B. im. ♀

Cotocripus

4 – stylifer Lutz (Lassance) Vila Nova B. im. ♀ ♀

5 – pusillus Lutz Paulista (Urubu) B. im. ♀

Psychodidae

Durante a viagem no São Francisco foram apanhados dois Phlebotomus na luz de bordo, escapando um terceiro exemplar no rio Grande. O dr. Chagas observou um exemplar em Pirapora. Os exemplares examinados eram:

Phlebotomus intermedius Lutz

Fica assinalada a existência desta espécie nas margens do São Francisco, parecendo todavia rara e pouco conhecida.

Tabaninae

Diachlorus

1 – bimaculatus Wied. Buriti das Mulatas M.

2 – immaculatus

Chrysops

3 – laetus F. (Lassance), Buriti, Pirapora M.

4 – molestus Wied. Guacuhy M.

Erephopsis

5 – pubescens Lutz Serra de Guacuí M.

6 – pygmaea n. sp. Januária M.

7 – scionoides n. sp. (Xiririca B.)23

8 – xanthopogon Macq. (Lassance), Guacuí M., Barreiras. B.

Selasoma

9 – tibiale F. Pirapora M., (Xiririque B.)

Cryptotylus

10 – unicolor Wied. Januária M.

Tabanus

11 – miles Wied. Januária M.

Neotabanus

12 – comitans Wied. (Lassance), Buriti M.; Castela, abaixo de Remanso B.

13 – ochrophilus Lutz Buriti M., Urubu B.

14 – Triangulum Wied. Castela, abaixo de Remanso.

As mutucas apanhadas eram todas fêmeas; de larvas só se encontrou uma indeterminada, numa lagoa perto de Juazeiro. A estação e o modo de viajar não favoreciam o estudo deste grupo. Assim mesmo apareceram duas espécies novas que serão descritas oportunamente.

Notas sobre os mosquitos culicídeos

A fauna observada durante a nossa viagem é muito mais pobre que a da zona que cerca a Capital Federal, em primeiro lugar pela falta das numerosas espécies criadas exclusivamente em bromeliáceas ou bambus.

Quanto às espécies palustres e as que não entram nas categorias mencionadas, também eram pouco numerosas, em parte pela estação, e pelas limitações impostas por nosso modo de viajar; parece, todavia, que faltam muitas espécies, bastante freqüentes em outros lugares. O terreno inundado é certamente muito vasto, mas o número das lagoas permanentes é relativamente pequeno e em muitas delas, em conseqüência da insolação ativa e prolongada, a água chega a temperaturas que grande parte das larvas aquáticas não pode suportar. Mais prejudicial ainda deve ser a prolongada estação seca para as imagos, que, na maioria, só podem viver num ar um pouco úmido.

Pescamos várias vezes em lagoas cuja vegetação indicava que nunca secavam. As espécies encontradas eram pouco numerosas e idênticas às observadas em certos trechos dos rios onde a água estagnava, sendo a vegetação igual à das lagoas. Curou-se também de apanhar mosquitos na margem das lagoas, de dia e à noite, ou passando redes na vegetação em redor. Prestou-se também muita atenção às espécies que chegavam a bordo, seja de dia seja à noite, atraídas pela luz. Ficando o navio encostado quase todas as noites, deveríamos ter feito colheitas abundantes, como aconteceu com outros insetos, se a pobreza da fauna de culicídeos não fosse uma realidade.

As larvas, encontradas em lagoas ou rios, pertenciam aos gêneros Cellia, Mansonia, Culex, Melanoconion, Uranotaenia e Aedes, como se verificou, seja pela morfologia, seja por criação da imago adulta. As larvas de Aedes squmipennis, que não eram conhecidas ainda, se distinguem facilmente, por ter, de cada lado, um grande saco de ar na base da antena. As de Uranotaenia parecem-se com anofelinas, mas têm um tubo respiratório curto e ficam um pouco dependuradas, quando estão na tona d’água. Têm quatro cerdas grossas, colocadas no clípeo em dois pares, que bem os caracterizam. As larvas de Mansonia, que descobri, há já muitos anos, junto com as de Taeniorhynchus, só podem viver em água com vegetação na superfície. Ambas têm o tubo respiratório atrofiado e as antenas com as suas cerdas muito desenvolvidas, sendo as primeiras larvas de cor parda, as segundas de cor vermelha. Não se podem manter na superfície da água sem vegetação, mas esta pode ser substituída por fios de algodão, obtendo-se assim o desenvolvimento completo.

Encontramos a Cellia argyrotarsis em toda a viagem, sendo o navio, às vezes, invadido por ela nos portos. Pode ser considerada a única responsável pela malária da região. Em Xiquexique observamos o transporte pelo vento em condições especialmente favoráveis. A Cellia albimana foi encontrada em algumas lagoas, mas é comparativamente muito rara. A Mansonia titillans apareceu algumas vezes a bordo, como também algumas Uranotaenia e muitas Aedeomyia. Das primeiras apanhamos muitos machos, caçando com a luz, à noite, na margem de uma lagoa. De dia podem ser encontradas passando uma rede de vegetação em torno das lagoas. Observou-se freqüentemente a U. pulcherrima e raramente a geometrica. Estes mosquitos raras vezes atacam o homem, mas verificamos que não lhes faltam as mandíbulas, ao contrário do que se dá com Culex cingulatus e Aedeomyia squamipennis, como tivemos ocasião de verificar durante a viagem. O primeiro destes foi obtido de larvas de uma lagoa em Buriti M.

Apanhou-se um Melanoconion aparentemente novo. A bordo abundavam Culex fatigans e Stegomyia fasciata que se criavam na água do porão do navio.

Hemípteros sugadores de sangue

Além de percevejos comuns que correspondiam ao Cimex lectularius, observaram-se três espécies de Triatoma (Conorhinus):

1 – Triatoma maegista Burm. Ocorre nas margens do São Francisco, em Minas e em Mata de São João, perto de Alagoinhas.

2 – Triatoma maculata Erichs. llha do Cachorro M.

3 – Triatoma infestans Klug. Comum em quase toda a região.

4 – Triatoma rubrofasciata Degeer. Obtivemos um exemplar na cidade da Bahia [Salvador].

Lista dos moluscos terrestres e de água doce colecionados na viagem

Determinações feitas pelo Dr. H. Von Ihering, diretor do Museu de São Paulo

1 – Glabaris moricandi. Rio Grande.

2 – Diplodon rotundus Spix. Baixo São Francisco.

3 – Ampullaria lineata Wagner. Comum nas lagoas do São Francisco.

4 – Hemisinus spica Ih. Baixo São Francisco. Comum em Vila Nova.

5 – Bulimula pachys Pilsbry. Traíra B. Muitas cascas vazias na serra.

6 – Streptocheilus oblongus. Morrinho. Muitas cascas vazias.

7 – Odontostomus spec. Januária. Muitas cascas na margem de uma lagoa.

8 – Stenogyra spec. Um exemplar do mesmo lugar.

Peixes do Rio São Francisco

1 – Lophiosilurus alexandri, Steind. Pacamão

2 – Pimelodus clarias, (L.) Mandi

3 – Doras marmoratus, Lutk. Caborje

4 – Serrassalmo brandti, Lutk. Piranha branca

5 – Pygocentrus piraya, (Cuv.) Piranha amarela

6 – Tetragonopterus rivularis, Lutk. Piaba

7 – Tetragonopterus chalceus, Agass.

8 – Salminus brevidens, (Cuv.) Dourado

9 – Brycon lundii, Lutk. Matrinxã

10 – Chalcinus angulatus, Spix.

11 – Myleus micans (Rhtt.), Lutk. Pacu

12 – Leporinus taeniatus, Lutk. Piau

13 – Pachyurus squamipinnis, Agass. Corvina

14 – Sternopygus carapo (L.) Sarapó

15 – Curimatus gilberti Ansy & Sand. Curimbatá

List of molluscs collected by Adolpho Lutz and identified by Hermann von Ihering, director of the Museu Paulista, in a document hand-written by the latter.

Relação dos moluscos coletados por Adolpho Lutz e identificados por Hermann von Ihering, diretor do Museu Paulista, em documento manuscrito por este (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Fishes collected by Adolpho Lutz and classified by Alipio de Miranda Ribeiro, a zoologist at the Museu Nacional (Rio de Janeiro).

Peixes coletados por Adolpho Lutz e classificados por Alipio de Miranda Ribeiro, zoólogo do Museu Nacional (Rio de Janeiro) (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Nota sobre as esponjas-d’água-doce observadas em afluentes do rio São Francisco

No rio Carinhanha e depois no rio Grande encontramos em junho e julho esponjas-d’água-doce. Todas estavam completamente secas, sem vida, e aderentes a raízes e galhos de arbustos, sempre mais de um metro acima da água do rio que ainda não tinha caído ao nível mais baixo. Em tempo das águas deviam estar submergidas, a pouca profundidade, durante um tempo não excedendo cinco meses e em correnteza moderada. Apresentam-se em forma de corpos de forma esférica ou oval, podendo o diâmetro maior chegar a 15-20 centímetros para um diâmetro menor de 12 centímetros no máximo. A cor é enegrecida, quando não estão cobertas de uma crosta de barro branco-amarelada. A consistência é rija, mas, em conseqüência da sua grande porosidade que lembra as casas de cupim, o peso é fraco. O esqueleto alveolar é formado por trabéculas, cuja espessura maior não excede poucos milímetros e geralmente mal chega a um milímetro: terminam em pontas curtas, ramificadas com chifres de veado, cuja distância recíproca raras vezes alcança ou excede um milímetro. Incluem um número enorme de gêmulas arredondadas, de diâmetro pouco excedendo um milímetro; só faltam entre as pontas periféricas. Em distâncias maiores a superfície é interrompida pelos oscula, aberturas de canais de 1 a 2 centímetros de diâmetro. Colocada na água, a esponja deixa sair uma parte das gêmulas que bóiam na superfície da água. Todavia, a maioria se mantém no interior da esponja, onde devem dar origem à nova geração de protozoários, o que explica o grande tamanho de certos exemplares que não podiam ser formados durante um período de imersão de apenas quatro ou cinco meses. Infelizmente, as nossas tentativas de obter uma nova proliferação pela imersão das esponjas deram um resultado absolutamente negativo.

Fig.102 – Freshwater sponges in Muquém, Carinhanha River. Image originally published in Plate 9.

Esponjas d’água-doce de Muquém, rio Carinhanha. Cópia fotográfica que corresponde à imagem originalmente publicada em Estampa 9 (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).

Pelo microscópio vê-se que o esqueleto é formado de agulhas de sílica não ramificadas, cilíndricas e terminadas nos dois lados por ponta subcônica, com extremidades um tanto arredondadas. Geralmente são um pouco curvadas. Nas gêmulas o seu comprimento é de 0,07-0,08 e a grossura de 0,005 mm; têm as duas pontas afiadas e são cobertas de espinhos finos.

Pelos caracteres vê-se que se trata de uma espécie do gênero Spongilla, ainda não descrita. Há outra espécie de esponjas-d’água-doce no sistema fluvial do Amazonas, que não pertence ao mesmo gênero. Para a nossa espécie o nome Spongilla franciscana parece indicado, pelo fato de que até hoje só é conhecida do sistema fluvial do rio São Francisco.

Jararaca de Santa Maria no rio Corrente, Estado da Bahia

Descrição feita pelo Dr. Alípio Miranda Ribeiro

Lachesis lutzi

Cabeça relativamente pequena, curta, o focinho igualmente curto quase igualando a ½ da parte posterior da cabeça e ligeiramente arrebitado. Escamas da cabeça e do corpo fortemente carenadas, as da parte superior do alto do focinho maiores que as da posterior da cabeça; as carenas estendem-se por toda a extensão da escama. Há 5 séries entre as supra-oculares, 23 no corpo; 180 ventrais, 40 subcaudais (que são em duas filas). A rostral é heptagonal; a loreal é separada da labial, as supra-oculares são grandes; duas séries de escamas entre os olhos e as labiais, nasal bipartida; as três escamas que ficam mesmo no meio do diâmetro que separa as supra-oculares são igualmente maiores que as circunvizinhas. Labiais superiores 8. Coloração pardo-terrosa como a cascavel (Crotalus terrificus), com um ziguezague baio claro, indefinido, na parte superior; esse ziguezague, às vezes, forma losangos dessa cor, às vezes se interrompe para deixar máculas isoladas; na face abdominal as escamas são difusamente manchadas de escuro, com a orla clara. O focinho é escuro e não há nódoa nenhuma pós-ocular, antes esta região é mais clara. As escamas labiais têm o centro claro, o que é mais acentuado no lábio inferior; também as escamas do corpo têm a carena percorrida por uma estria clara, o que empresta ao desenho um aspecto muito particular.

Corpo 60 centímetros, cauda 75 milímetros.

É das jararacas brasileiras a que mais se assemelha à cascavel. Das jararacas propriamente ditas, a sua próxima vizinha é Lachesis picta, da qual é muito provavelmente uma variedade e se diferencia, apenas, pela ausência das manchas denegridas do corpo e da cabeça, que constituíram o motivo do nome daquela espécie peruana.

NOTA ADICIONAL DE LUTZ. Depois de comparar descrição, figuras e um exemplar de L. picta existente no Museu Nacional, não me parece que se possa filiar a esta espécie a nossa Lachesis de Santa Maria, cujo desenho é completamente diverso. É muito variegado, mas assaz indeciso, não formando figuras bem definidas, porque as cores são misturadas na maior parte das escamas e nos escudos. Também a cabeça difere bastante na forma, e, a julgar pelas indicações de Boulenger, o tamanho parece maior. Finalmente, também a procedência não é em favor da identidade.

The scientific names used by Adolpho Lutz in the travel report published in 1915 were updated in the 1950s by João Moogen de Oliveira, a zoologist at the Museu Nacional, probably as a request from Bertha Lutz, who was then preparing the new edition of her father's report.

Nomes científicos usados por Adolpho Lutz no relatório de viagem publicado em 1915 foram atualizados por João Moogen de Oliveira, zoólogo do Museu Nacional, nos anos 1950, provavelmente, a pedido de Bertha Lutz, que preparava, então, a reedição do relatório do pai (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa 35, pasta 244, maço 5).