IV

ANNABETH

ANNABETH QUERIA ODIAR NOVA ROMA. Mas, como aspirante a arquiteta, não podia deixar de admirar os jardins elevados, as fontes e os templos, as ruas sinuosas com calçamento de pedra e as villas brancas e reluzentes. Depois da Guerra dos Titãs no verão anterior, ela conseguira o emprego dos seus sonhos: redesenhar os palácios do Monte Olimpo. Agora, andando por aquela minicidade, ela ficava pensando: Eu devia ter feito um domo como aquele. Adoro a forma como aquelas colunas conduzem até o pátio. Quem quer que tivesse desenhado Nova Roma havia claramente dedicado muito tempo e amor ao projeto.

— Temos os melhores arquitetos e construtores do mundo — falou Reyna, como se lesse os pensamentos dela. — Sempre foi assim, desde a Antiguidade. Muitos semideuses vêm morar aqui depois de concluir seu tempo na legião. Eles vão para nossa universidade. Estabelecem-se para criar suas famílias. Percy pareceu interessado.

Annabeth se perguntou o que aquilo significava. Sua cara fechou-se mais do que pretendia, porque Reyna riu.

— Você é uma guerreira, de fato — disse a pretora. — Tem fogo nos olhos.

— Lamento. — Annabeth tentou suavizar sua expressão.

— Não lamente. Sou filha de Belona.

— Deusa romana da guerra?

Reyna assentiu. Ela se virou e assoviou como se estivesse chamando um táxi. Um momento depois, dois cães de metal correram até elas: galgos autômatos, um de prata e outro de ouro. Eles se esfregaram nas pernas de Reyna e fitaram Annabeth com olhos de rubi reluzentes.

— Meus bichinhos de estimação — explicou Reyna. — Aurum e Argentum. Você não se importa que eles nos acompanhem, não é?

Mais uma vez, Annabeth teve a impressão de que aquele não era um pedido. Ela percebeu que os galgos tinham dentes pontiagudos como setas de aço. O uso de armas podia ser proibido na cidade, mas os animaizinhos de estimação de Reyna ainda podiam fazê-la em pedaços se quisessem.

Reyna a conduziu para um café ao ar livre, onde o garçom claramente a conhecia. Ele sorriu, entregou-lhe um copo para viagem e então ofereceu outro a Annabeth.

— Aceita? — perguntou Reyna. — Eles fazem um chocolate quente maravilhoso. Não é uma bebida romana de fato…

— Mas chocolate é universal — observou Annabeth.

— Exatamente.

Era uma tarde quente de junho, mas Annabeth aceitou o copo, agradecida. As duas continuaram a caminhada, os cães dourado e prateado de Reyna rondando-as.

— Em nosso acampamento, Atena é Minerva — disse Reyna. — Você sabe qual é a diferença da forma romana?

Na verdade, Annabeth não havia pensado nisso até então. Lembrou que Término havia se referido a Atena como aquela deusa, como se ela fosse infame. Octavian havia agido como se a mera existência de Annabeth fosse um insulto.

— Suponho que Minerva não seja… hã… muito respeitada por aqui.

Reyna soprou o vapor de seu copo.

— Nós respeitamos Minerva. Ela é a deusa das artes e da sabedoria… mas não é de fato uma deusa da guerra. Não para os romanos. Ela também é uma deusa donzela, como Diana… a que vocês chamam de Ártemis. Você não vai encontrar nenhum filho de Minerva aqui. A ideia de que ela tivesse filhos… francamente, é um pouco chocante para nós.

— Ah.

Annabeth sentiu o rosto corar. Ela não queria entrar em detalhes sobre os filhos de Atena… que eles nasciam direto da mente da deusa, assim como a própria Atena havia surgido da cabeça de Zeus. Falar disso sempre constrangia Annabeth, como se ela fosse uma aberração. As pessoas lhe perguntavam se ela tinha umbigo, já que nascera de forma tão fascinante. É claro que tinha umbigo. Não sabia explicar como. Na verdade, não queria saber.

— Compreendo que vocês, gregos, não enxerguem as coisas da mesma maneira — continuou Reyna. — Mas os romanos levam os votos de castidade muito a sério. As Virgens Vestais, por exemplo… se quebrassem os votos e se apaixonassem por alguém, seriam enterradas vivas. Portanto, a ideia de que uma deusa donzela tivesse filhos…

— Entendi. — O chocolate quente de Annabeth de repente tinha gosto de poeira. Não era de admirar que os romanos a olhassem de modo estranho. — Eu não deveria existir. E mesmo que em seu acampamento existissem filhos de Minerva…

— Eles não seriam como você — completou Reyna. — Seriam artesãos, artistas, talvez conselheiros, mas não guerreiros. Não líderes de missões perigosas.

Annabeth começou a protestar, dizendo que não era a líder da missão. Não oficialmente. No entanto, ela se perguntou se seus amigos no Argo II concordariam. Nos últimos dias eles tinham lhe perguntado quais eram as ordens — até mesmo Jason, que poderia ter se valido de sua autoridade como filho de Júpiter; e o treinador Hedge, que não recebia ordens de ninguém.

— Tem mais. — Reyna estalou os dedos, e o cão dourado, Aurum, aproximou-se. A pretora coçou-lhe as orelhas. — A harpia Ella… aquilo que ela falou foi uma profecia. Nós duas sabemos disso, não é?

Annabeth engoliu em seco. Alguma coisa nos olhos de rubi de Aurum a deixava inquieta. Diziam que cães podiam farejar o medo, até mesmo detectar mudanças na respiração e no batimento cardíaco de uma pessoa. Ela não sabia se isso se aplicava a cães mágicos de metal, mas concluiu que seria melhor falar a verdade.

— Parecia uma profecia — admitiu ela. — Conheci Ella hoje, e nunca tinha ouvido aqueles versos exatamente.

— Eu sim — murmurou Reyna. — Pelo menos parte deles…

A alguns metros de distância, o cão prateado latiu. Um grupo de crianças saiu de um beco ali perto e se reuniu em torno de Argentum, acariciando o cão e rindo, sem medo dos dentes afiados.

— Vamos em frente — disse Reyna.

Elas subiram a colina pelo caminho sinuoso. Os galgos as seguiram, deixando as crianças para trás. Annabeth continuava olhando para o rosto de Reyna. Uma lembrança vaga começou a incomodá-la: a maneira como Reyna prendia o cabelo atrás da orelha, seu anel de prata com o desenho da tocha e da espada.

— Já nos encontramos antes — arriscou Annabeth. — Acho que você era pequena.

Reyna dirigiu-lhe um sorriso seco.

— Muito bem. Percy não se lembrou de mim. É claro que vocês falaram na maioria das vezes com minha irmã mais velha, Hylla, que agora é a rainha das amazonas. Ela partiu hoje de manhã, antes de vocês chegarem. De qualquer forma, quando nos vimos pela última vez, eu era uma simples criada na casa de Circe.

— Circe…

Annabeth lembrou-se da viagem à ilha da feiticeira. Na ocasião, tinha treze anos. Percy e ela haviam ido parar na praia depois de escapar do Mar de Monstros. Hylla lhes dera as boas-vindas. Ajudara Annabeth a se arrumar, dera a ela um lindo vestido novo e transformara seu visual por completo. Então Circe tinha vendido seu peixe: se Annabeth ficasse na ilha, poderia receber treinamento em magia e um poder incrível. Annabeth ficara tentada, talvez só um pouquinho, até se dar conta de que o lugar era uma armadilha e que Percy fora transformado em um roedor. (Essa última parte parecera engraçada depois; mas, na ocasião, fora aterrorizante.) Quanto a Reyna… ela era uma das criadas que penteara o cabelo de Annabeth.

— Você… — disse Annabeth, perplexa. — E Hylla é a rainha das amazonas? Como vocês duas…?

— É uma longa história — disse Reyna. — Mas eu me lembro bem de você. Uma garota corajosa. Eu nunca tinha visto alguém recusar a hospitalidade de Circe, muito menos derrotá-la. Não é de admirar que Percy goste de você.

Sua voz soava melancólica. Annabeth achou que talvez fosse mais seguro não responder.

Elas chegaram ao topo da colina, onde um pátio tinha vista de todo o vale.

— Este é meu lugar favorito — contou Reyna. — O Jardim de Baco.

Videiras em uma treliça formavam um dossel. Abelhas zumbiam em meio a madressilvas e jasmins, que enchiam o ar da tarde com uma mistura inebriante de perfumes. No meio do pátio havia uma estátua de Baco em algo semelhante a uma pose de balé, vestindo nada mais que uma tanga, as bochechas infladas e os lábios franzidos, lançando água pela boca em um chafariz.

Apesar de suas preocupações, Annabeth quase riu. Ela conhecia o deus em sua forma grega, Dioniso — ou sr. D, como o chamavam no Acampamento Meio-Sangue. Ver o velho diretor do acampamento imortalizado em pedra, usando uma fralda e cuspindo água, a fez se sentir um pouco melhor.

Reyna parou na beirada do pátio. A vista justificava a subida. A cidade inteira estendia-se abaixo delas como um mosaico em 3-D. Ao sul, além do lago, um grupo de templos empoleirava-se em uma colina. Ao norte, um aqueduto avançava na direção das Berkeley Hills. Equipes de trabalho consertavam um segmento quebrado, provavelmente durante a batalha recente.

— Eu queria ouvir de você — disse Reyna.

Annabeth voltou-se:

— Ouvir o quê de mim?

— A verdade. Convença-me de que não estou cometendo um erro ao confiar em vocês. Fale sobre você. Sobre o Acampamento Meio-Sangue. Sua amiga Piper tem magia nas palavras. Passei tempo suficiente com Circe para reconhecer o charme na voz de alguém. Não posso confiar no que ela diz. E Jason… bem, ele mudou. Parece distante, não mais tão romano.

A mágoa em sua voz era tão cortante quanto vidro quebrado. Annabeth perguntou-se se ela soava assim durante todos os meses que esteve à procura de Percy. Pelo menos tivera a sorte de encontrar o namorado. Reyna não tinha ninguém. Era responsável por governar sozinha um acampamento inteiro. Annabeth via que Reyna desejava ter o amor de Jason. Mas ele havia desaparecido e depois retornado com uma nova namorada. Enquanto isso, Percy tinha sido eleito pretor, mas havia rejeitado Reyna também. Agora Annabeth viera para levá-lo embora. Reyna ficaria sozinha outra vez, arcando com uma tarefa que deveria ser executada por duas pessoas.

Annabeth chegara ao Acampamento Júpiter preparada para negociar com Reyna ou até mesmo lutar, se necessário. Não havia se preparado para sentir pena dela e manteve esse sentimento oculto. Reyna não lhe parecia ser alguém que apreciasse piedade.

Em vez disso, Annabeth contou sua história. Falou sobre o pai, a madrasta, os dois meios-irmãos em São Francisco e como ela se sentia uma estranha na própria família. Contou que havia fugido com apenas sete anos, quando encontrou os amigos Luke e Thalia e percorreu o longo trajeto até o Acampamento Meio-Sangue, em Long Island. Ela descreveu o acampamento e os anos em que crescera lá. Falou sobre o encontro com Percy e as aventuras que tinham vivido juntos.

Reyna era uma boa ouvinte.

Annabeth ficou tentada a lhe falar sobre problemas mais recentes: a briga com a mãe, a moeda de prata como presente e os pesadelos — sobre um medo antigo tão paralisante que ela quase decidira que não podia vir naquela missão. Mas não podia se forçar a se abrir tanto assim.

Quando Annabeth parou de falar, Reyna olhou para Nova Roma. Seus galgos de metal farejavam o jardim, tentando abocanhar abelhas nas madressilvas. Por fim, Reyna apontou para o grupo de templos na colina distante.

— O pequeno prédio vermelho ali no lado norte, está vendo? Aquele é o templo de minha mãe, Belona. — Reyna voltou-se para Annabeth: — Diferentemente de sua mãe, Belona não tem equivalente grego. Ela é total e verdadeiramente romana. É a deusa da proteção da pátria.

Annabeth não disse nada. Sabia bem pouco sobre a deusa romana. Desejou saber um pouco a respeito, mas para ela latim não era tão fácil quanto grego. Lá embaixo, reluzia o casco do Argo II, que flutuava acima do fórum como um balão de festa de bronze maciço.

— Antes de os romanos irem para a guerra — prosseguiu Reyna —, visitamos o Templo de Belona. O interior é um pedaço de terra que representa o solo inimigo. Cravamos uma lança nesse solo, indicando que estamos em guerra. Sabe, os romanos sempre acreditaram que o ataque é a melhor defesa. Nos tempos antigos, sempre que nossos antepassados se sentiam ameaçados pelos vizinhos, eles invadiam para se proteger.

— Eles conquistaram todos ao redor — observou Annabeth. — Cartago, Gália…

— E os gregos. — Reyna deixou o comentário pairar no ar. — O que quero dizer, Annabeth, é que não é da natureza de Roma cooperar com outras potências. Todas as vezes que semideuses gregos e romanos se encontraram, nós lutamos. Conflitos entre nossos dois lados deram início a algumas das guerras mais horríveis da história da humanidade… principalmente as guerras civis.

— Não tem que ser assim — falou Annabeth. — Temos que trabalhar juntos ou Gaia destruirá todos nós.

— Concordo. Mas a cooperação é possível? E se o plano de Juno tiver falhas? Até mesmo deusas podem errar.

Annabeth esperou ver Reyna sendo atingida por um raio ou transformada em um pavão. Nada aconteceu.

Infelizmente, Annabeth tinha as mesmas dúvidas de Reyna. Hera de fato cometia erros. Annabeth tivera vários problemas por conta daquela deusa arrogante e jamais perdoaria Hera por ter levado Percy, mesmo tendo sido por uma causa nobre.

— Não confio na deusa — admitiu Annabeth. — Mas confio em meus amigos. Não é uma tramoia, Reyna. Nós podemos trabalhar juntos.

Reyna terminou seu copo de chocolate. Então o colocou no parapeito do pátio e olhou o vale, como se imaginasse frentes de batalha.

— Acredito em sua sinceridade — disse ela. — Mas, se for para as terras antigas, em especial para Roma, precisa saber uma coisa sobre sua mãe.

Os ombros de Annabeth ficaram tensos.

— Minha… minha mãe?

— Quando eu morava na ilha de Circe — falou Reyna —, recebíamos muitos visitantes. Certa vez, talvez um ano antes de você e Percy chegarem, um rapaz apareceu na praia, levado pela água. Ele estava meio ensandecido por causa da sede e do calor depois de dias à deriva. Ele não falava coisa com coisa, mas disse que era filho de Atena.

Reyna parou, como se esperasse uma reação. Annabeth não fazia a menor ideia de quem era o rapaz. Não sabia de nenhum outro filho de Atena que tivesse partido em uma missão no Mar dos Monstros, mas ainda assim sentia pavor. A luz que passava por entre as videiras formava sombras tremendo no chão como um enxame de insetos.

— O que aconteceu com esse semideus?

Reyna acenou a mão, como se a pergunta fosse trivial.

— Circe o transformou em um porquinho-da-índia, é claro. Ele se tornou um roedorzinho bem maluco. Mas, antes disso, ele ficava delirando sobre a missão fracassada. Afirmava que tinha ido a Roma, atrás da Marca de Atena.

Annabeth agarrou o corrimão para manter o equilíbrio.

— Sim — disse Reyna, vendo seu desconforto. — Ele ficava falando coisas sobre filho da sabedoria, Marca de Atena e a ruína dos gigantes se apresentando dourada e pálida. Os mesmos versos que Ella recitou. Mas você diz os ouviu pela primeira vez hoje…

— Foi… pelo menos da maneira como Ella recitou. — A voz de Annabeth soava fraca. Ela não estava mentindo. Nunca ouvira aquela profecia, mas sua mãe a incumbira de seguir a Marca de Atena; e, enquanto pensava na moeda em seu bolso, uma horrível suspeita começou a nascer em sua mente. Ela se lembrou das palavras severas de sua mãe. Pensou nos estranhos pesadelos que vinha tendo ultimamente. — Esse semideus… ele explicou a missão?

Reyna balançou a cabeça.

— Na ocasião, eu não tinha a menor ideia do que ele estava falando. Muito mais tarde, quando me tornei pretora do Acampamento Júpiter, comecei a desconfiar.

— Desconfiar… de quê?

— Há uma lenda antiga que os pretores do Acampamento Júpiter transmitem através dos séculos. Se for verdadeira, pode explicar por que nossos grupos nunca foram capazes de trabalhar juntos. Pode ser a causa de nossa animosidade. Até que essa questão antiga seja finalmente resolvida, assim diz a lenda, romanos e gregos nunca viverão em paz. E a lenda está centrada em Atena…

Um som agudo atravessou o ar. Uma luz brilhou no canto do olho de Annabeth.

Ela virou-se a tempo de ver uma explosão abrir uma cratera no fórum. Um sofá em chamas girou no ar. Semideuses dispersaram-se em pânico.

— Gigantes? — Annabeth levou a mão à faca, que logicamente não estava lá. — Pensei que o exército deles tivesse sido derrotado!

— Não são os gigantes. — Os olhos de Reyna ferviam de raiva. — Vocês traíram nossa confiança.

— O quê? Não!

Assim que ela disse essas palavras, o Argo II lançou uma segunda saraivada. A balista de bombordo disparou uma lança imensa envolta em fogo grego, que seguiu direto para o domo danificado do Senado, atravessou-o e explodiu lá dentro, iluminando o edifício como uma abóbora de Halloween. Se alguém estivesse lá dentro…

— Deuses, não. — Uma onda de náusea quase fez os joelhos de Annabeth se dobrarem. — Reyna, não é possível. Nós nunca faríamos isso!

Os cães de metal correram para junto de sua dona. Eles rosnaram para Annabeth, mas se mostravam hesitantes, como se relutassem em atacar.

— Você está dizendo a verdade — julgou Reyna. — Talvez não soubesse dessa traição, mas alguém terá que pagar.

Lá embaixo no fórum, o caos se espalhava. A multidão se empurrava e se acotovelava. Brigas irrompiam por toda a parte.

— Derramamento de sangue — disse Reyna.

— Precisamos impedir!

Annabeth teve uma horrível sensação de que aquela talvez fosse a última vez que Reyna e ela concordariam, e juntas correram colina abaixo.

* * *

Se armas fossem permitidas na cidade, os amigos de Annabeth já estariam mortos. Os semideuses romanos haviam se unido no fórum em uma multidão furiosa. Alguns atiravam pratos, comida e pedras no Argo II, o que era inútil, já que quase tudo caía de volta nas pessoas.

Dezenas de romanos haviam cercado Piper e Jason, que tentavam acalmá-los, sem muita sorte. O charme de Piper era inútil contra tantos semideuses gritando, furiosos. A testa de Jason sangrava. Sua capa roxa havia sido rasgada e agora não passava de farrapos.

— Eu estou do lado de vocês! — insistia ele.

Mas sua camiseta laranja do Acampamento Meio-Sangue não ajudava em nada — tampouco o navio de guerra no alto, disparando lanças de fogo contra Nova Roma. Uma delas caiu ali perto e explodiu uma loja de togas, que virou entulho.

— Pela armadura de Plutão! — praguejou Reyna. — Olhe.

Legionários armados corriam na direção do fórum. Duas equipes de artilharia haviam montado catapultas ao lado da Linha Pomeriana e se preparavam para disparar contra o Argo II.

— Isso só vai piorar as coisas — disse Annabeth.

— Eu odeio o meu trabalho — grunhiu Reyna e então correu na direção dos legionários, acompanhada por seus cães.

Percy, pensou Annabeth, esquadrinhando desesperadamente o fórum. Cadê você?

Dois romanos tentaram agarrá-la. Ela se esquivou, escapando deles, e se misturou à multidão. Além da grande confusão que eram romanos furiosos, sofás em chamas e prédios explodindo, ainda havia centenas de fantasmas roxos flutuan­do pelo fórum, atravessando o corpo dos semideuses e gemendo incoerentemente. Os faunos se aproveitaram do caos e se apinharam em torno das mesas, pegando comida, pratos e xícaras. Um deles passou trotando por Annabeth com os braços carregados de tacos e um abacaxi inteiro entre os dentes.

Em meio a uma explosão à frente de Annabeth surgiu uma estátua de Término, que gritou com ela em latim, sem dúvida chamando-a de mentirosa e infratora, mas ela empurrou a estátua e continuou correndo.

Enfim avistou Percy. Ele e os amigos Hazel e Frank estavam no meio de uma fonte enquanto Percy repelia os romanos furiosos com jatos d’água. A toga de Percy também estava em farrapos, mas ele parecia ileso.

Annabeth gritou por ele no momento em que outra explosão sacudiu o fórum. Dessa vez o clarão de luz ia para cima. Uma das catapultas romanas havia disparado, e o Argo II gemeu e inclinou-se para um lado, chamas formando bolhas no casco de bronze.

Annabeth avistou uma figura agarrando-se desesperadamente à escada de corda, tentando descer. Era Octavian, com a túnica fumegando e o rosto preto de fuligem.

Na fonte, Percy lançava mais água contra a multidão romana. Annabeth correu para ele, desviando-se de um punho romano e de uma travessa de san­duíches que fora arremessada.

— Annabeth! — gritou Percy. — O quê…?

— Eu não sei! — berrou ela.

— Vejam o que aconteceu! — gritou uma voz acima deles. Octavian tinha alcançado a base da escada. — Os gregos dispararam contra nós! O garoto Leo apontou suas armas contra Roma!

O peito de Annabeth se encheu de hidrogênio líquido. Ela teve a sensação de que iria se estilhaçar em milhões de pedaços congelados.

— Você está mentindo — rebateu ela. — Leo nunca…

— Eu estava lá! — guinchou Octavian. — Vi com meus próprios olhos!

O Argo II respondeu com fogo. No campo, os legionários se espalharam quando uma de suas catapultas explodiu em lascas.

— Estão vendo? — gritou Octavian. — Romanos, matem os invasores!

Annabeth grunhiu, frustrada. Não havia tempo para descobrir a verdade. A tripulação do Acampamento Meio-Sangue estava em desvantagem numérica, na proporção de cem para um, e, mesmo que Octavian tivesse conseguido executar um truque (o que, para ela, era bem provável), eles nunca conseguiriam convencer os romanos antes de serem atacados e mortos.

— Temos que ir embora — disse ela a Percy. — Agora.

Ele assentiu sombriamente.

— Hazel, Frank, vocês têm que escolher. Vocês vêm?

Hazel parecia aterrorizada, mas pôs o capacete de cavalaria na cabeça.

— É claro que vamos. Mas vocês nunca chegarão ao navio, a menos que a gente ganhe algum tempo para vocês.

— Como? — perguntou Annabeth.

Hazel assoviou. No mesmo instante um borrão bege atravessou o fórum em disparada. Um cavalo majestoso se materializou ao lado da fonte. Ele empinou, relinchando e dispersando a multidão. Hazel subiu em suas costas, como se tivesse nascido para cavalgar. Uma espada de cavalaria romana estava presa à sela.

Hazel desembainhou sua lâmina dourada.

— Mandem uma mensagem de Íris quando estiverem em segurança longe daqui, e irei ao encontro de vocês — disse ela. — Arion, vamos!

O cavalo disparou pelo meio da multidão com uma velocidade incrível, forçando os romanos a recuarem e causando pânico em massa.

Annabeth vislumbrou um brilho de esperança. Talvez conseguissem sair vivos dali. Então, quase do outro lado do fórum, ela ouviu Jason gritar:

— Romanos! Por favor!

Uma saraivada de pratos e pedras era atirada nele e em Piper. Ao tentar protegê-la, um tijolo atingiu Jason acima do olho. Ele se curvou e a multidão avançou.

— Recuem! — gritou Piper.

Seu charme envolveu a turba, fazendo-a hesitar, mas Annabeth sabia que o efeito não duraria. Percy e ela não conseguiriam alcançá-los a tempo de ajudar.

— Frank — disse Percy —, é com você. Pode ajudá-los?

Annabeth não entendia como Frank poderia fazer aquilo sozinho, mas ele engoliu em seco, nervoso.

— Oh, deuses — murmurou ele. — Certo, claro. Subam pela escada. Agora.

Percy e Annabeth correram para a escada. Octavian ainda estava agarrado ali na base, mas Percy o puxou e o lançou na multidão.

Eles começaram a subir no momento em que legionários armados invadiram o fórum. Flechas passavam assoviando ao lado da cabeça de Annabeth. Uma explosão quase a derrubou da escada. A meio caminho da subida, ela ouviu um rugido lá embaixo e olhou.

Os romanos gritaram e se espalharam quando um dragão em tamanho natural atacou o fórum: uma fera ainda mais assustadora que a figura de proa do Argo II, um dragão de bronze. Tinha a pele áspera e cinza de um dragão-de-komodo e asas com aparência de couro, como as dos morcegos. Flechas e pedras ricochetea­vam inofensivas em sua couraça enquanto ele se arrastava na direção de Piper e Jason. Ele os agarrou com as patas dianteiras e saltou para o ar.

— Aquele é…? — Annabeth sequer conseguiu verbalizar o pensamento.

— Frank — confirmou Percy, alguns degraus acima dela. — Ele tem alguns talentos especiais.

— Não me diga — murmurou Annabeth. — Continue subindo!

Sem o dragão e o cavalo de Hazel para distrair os arqueiros, eles nunca teriam conseguido subir a escada; mas finalmente passaram por uma série de remos aéreos quebrados e alcançaram o convés. O cordame estava em chamas. A vela de traquete fora rasgada ao meio, e o navio adernava seriamente para boreste.

Não havia sinal do treinador Hedge, mas Leo estava no meio do navio, calmamente reabastecendo a balista. O estômago de Annabeth contorceu-se de horror.

— Leo! — gritou ela. — O que você está fazendo?

— Destruí-los… — Ele encarou Annabeth. Seus olhos estavam vidrados. Os movimentos pareciam os de um robô. — Destruir todos eles.

Ele virou-se para a balista de novo, mas Percy o agarrou, derrubando-o. A cabeça de Leo bateu com força no convés, e seus olhos reviraram, ficando à mostra apenas a parte branca.

O dragão cinzento veio planando. Ele circulou o navio uma vez e aterrissou na proa, colocando Jason e Piper no chão, onde ambos desabaram.

— Ande! — gritou Percy. — Tire a gente daqui!

Com um choque, Annabeth percebeu que ele estava falando com ela.

Então ela correu para o leme e cometeu o erro de olhar por cima da amurada. Viu legionários armados cerrando fileiras no fórum, preparando flechas incendiá­rias. Hazel esporeou Arion, e deixaram a cidade a galope, com uma turba em seu encalço. Mais catapultas estavam sendo levadas e enfileiradas. Ao longo de toda a Linha Pomeriana, as estátuas de Término reluziam roxas, como se reunissem energia para algum tipo de ataque.

Annabeth olhou para os controles. Xingou Leo por tê-los feito tão complicados. Não havia tempo para manobras sofisticadas, mas pelo menos um comando básico ela conhecia: Para cima.

Ela agarrou a alavanca de aceleração e a puxou para trás. O navio gemeu. A proa empinou em um ângulo assustador. Os cabos de amarração se romperam, e o Argo II disparou para o meio das nuvens.