DUAS TARDES
A cozinha do restaurante recendia a especiarias. Pedro parou diante de um dos panelões, destampou-o, esperou a nuvem de vapor se desfazer no ar e observou o guisado lá dentro. De súbito, a porta rangeu e um vulto se esgueirou sorrateiramente. O cozinheiro fechou o panelão, girou o corpo num voleio brusco e se deparou com o inesperado visitante.
– Toninho! – exclamou, aturdido.
– Eu mesmo, mano – disse o outro.
– Que susto!
– Foi sem querer…
– Não acredito!
Antônio sorriu, os cabelos longos, a barba crescida, os olhos verdes cor de garrafa. Numa das mãos, a maleta de couro amarrada por uma cinta elástica; na outra, nada.
Pedro surpreendeu-se não por ser descoberto naqueles confins, mas porque via no irmão seu próprio retrato quando jovem.
– Posso entrar? – perguntou Antônio.
– É claro.
– Desculpe a invasão.
– Deixe de besteira.
Lá fora, a cidade vibrava sob o sol, um redemoinho agitava a terra vermelha; na cozinha, os dois se abraçaram.
– Você não mudou nada! – disse Pedro e se afastou.
– Nem você – disse Antônio e retrocedeu um passo.
– Por onde andou?
– Viajando.
– Como me achou aqui?
– Procurando.
– E esse cabelão?
– O seu era bem maior.
– É, a gente muda.
– Quanto tempo, hein?
– Quanto tempo!
O cozinheiro retirou o avental, ajeitou a gola da camisa, puxou um tamborete ao redor da mesa de mármore.
– Senta, você parece cansado – disse Pedro.
– O mormaço me deixa mole – disse Antônio.
– Veio de onde?
– De Bom Jesus.
– É aqui pertinho.
– Peguei uma venda por esses lados.
– E então?
– Coisa pequena.
– Essa região é pobre.
– Os coronéis não…
– Eles é que mandam.
– Mas não compram o que eu vendo.
– Ferragens?
– Pois é. Continuo no ramo.
Antônio se sentou no tamborete; Pedro apanhou a maleta do irmão, ajeitou-a num canto da mesa, admirado com seu peso, parecia haver nela madeiros para mais de uma cruz.
– Dá azar deixar no chão, a mãe dizia.
– Ela era supersticiosa…
– Como anda a vida?
– Vou indo.
– Nada de novo?
– Quase nada.
– Fala.
– Casei.
– Quando?
– Tem cinco anos.
– A moça é de Boa Vista?
– É.
– Eu conheço?
– Acho que não.
– Tem filhos?
– Tivemos dois, mas…
– Mas?
– Agora só o menino.
– O que aconteceu?
– A menina se foi.
– Como?
– Pneumonia.
De pé, o cozinheiro olhou furtivamente o irmão. Podia ler em seu silêncio a escrita das perdas. Haviam aprendido juntos a decifrá-la, desde cedo conheciam a sua gramática.
– Que calor! – disfarçou Antônio, enxugando o suor da testa com a manga da camisa.
– Aqui é sempre assim – disse Pedro e se sentou.
Podiam ouvir um a respiração do outro, os braços quase se tocavam, como nas noites chuvosas da infância quando encostavam as camas e rezavam baixinho para seus anjos da guarda.
– Quer um refresco? – perguntou Pedro.
– Pode ser água mesmo – disse Antônio.
O cozinheiro foi até a geladeira. O irmão abriu a maleta, tirou dela um retrato. Pelo vitrô empoeirado podia ver o céu ardidamente azul, como naquele domingo de pescaria.
– Tem de graviola e de caju – disse Pedro.
– Tanto faz – respondeu Antônio.
– Pena que não tem tamarindo…
– A gente ia roubar no sítio do Manezão.
– Você sempre gostou.
– A mãe adorava. Bebia uma jarra inteira…
– E os passarinhos, lembra?
– Aquele alvoroço danado.
– Você ainda tem algum?
– Dei todos.
– É uma pena.
– Eu ia armar uma arapuca, pegar um canário pro menino – disse Antônio. – Mas desisti.
– É ele? – perguntou o cozinheiro.
– É – respondeu o irmão, entregando-lhe o retrato. – Peguei pra você ver.
– Forte, hein!
– Tinha um ano e meio.
– E agora?
– Três.
Pedro ficou com o retrato entre as mãos. Antônio bebeu um gole do refresco e disse:
– É a cara da mãe.
– Os olhos são seus – disse o outro.
– E você, mano? O que me conta?
– Vou indo.
– Casou?
– Tenho uma companheira.
– É daqui?
– Não, veio do sul.
– Já tem criança?
– Ainda não.
– Há quanto tempo veio pra cá?
– Cinco anos e pouco.
– Mês passado passei por Bom Jesus – disse Antônio. – Nem sabia que estávamos tão perto.
– O mundo é pequeno demais – disse Pedro.
– A gente pensava que era grande.
– É verdade.
– Você sempre pintava o mapa-múndi pra mim, lembra?
– Lembro.
– Outro dia mesmo, encontrei um.
– Pensei que tinha sumido tudo com a cheia.
– Dei pro menino.
– Fez mal. Não servem pra nada.
– Por que não?
– Muitos países não existem mais – disse Pedro.
– Surgiram outros – disse Antônio. E de súbito sentiu uma fisgada no abdome, curvou-se, as feições contraídas, os olhos semicerrados.
– O que foi? – perguntou Pedro.
– Estômago – respondeu o outro. – Quase tive uma úlcera.
– Você é jovem demais pra essas coisas.
– Fico horas sem comer. Cada dia almoço num horário.
– Está com fome?
– Tomei um lanche no caminho.
– Precisa se alimentar melhor.
– Às vezes não dá.
– Vou fazer um prato.
– Não precisa.
– Precisa sim.
– Deixa pra lá.
– Faço questão.
– Não tem problema?
– Aqui jogamos comida fora todo dia.
Pedro andou até um dos armários, abriu-o, retirou um prato. Depois pegou garfo e faca numa gaveta.
Antônio foi atrás dele, as varas de marmelo sobre o ombro, a lata de minhocas no alforje. O sol avermelhado pulsava no céu de verão. Tiraram as camisas, penduram-nas num arbusto e desceram a ribanceira. Acomodaram-se nos rochedos, à sombra do bambuzal.
– Ali não é melhor?
– Não. Melhor perto das pedras.
– Por quê?
– Dá pra ver se tem cobra.
O rio fluía, sereno. Em meio às águas, despontavam aqui e ali galhos de árvores, troncos podres, animais mortos, dejetos tão comuns e belos que sem eles um rio não era rio.
– Olha, uma capivara!
– Quieto. Assim você espanta os peixes.
– E a…
– Psiu! A linha tá puxando…
– Vou recolher!
– Calma. Espera fisgar outra vez.
– Tá bom.
– Vai, agora!
– Peguei!
Antônio bebeu mais um gole de refresco, enquanto Pedro fazia seu prato. O silêncio gritava pela cozinha, como se espetado por um arpão.
– O trem vai sair às cinco.
– Dá tempo.
– A mulher reclama, sempre sozinha com o menino…
– Está bom de arroz?
– É muito.
– O menino gosta de bicho?
– E não? – sorriu Antônio. – Segue trilha de formiga, prende vaga-lume em caixa de fósforos, vive abraçando cachorro.
– Já levou ele no rio?
– Uma vez.
– Gostou?
– Ficou lá olhando. Igual a gente naquele tempo…
– Num minuto estará quente – disse Pedro, colocando o prato no forno de microondas.
– Eu não queria incomodar…
O peixe se contorcia no ar, louco para voltar ao rio, dono do que é seu quando a vida o habita. Antônio tentava segurá-lo, era um dourado pequeno, grande para a primeira pescaria de um menino.
– Vamos, tira do anzol!
– De que jeito?
– Segura firme.
– Assim?
– Mais pra cá.
– Tira pra mim.
– Se eu tirar, você não aprende…
Contorcendo-se, úmido de rio, o dourado caiu ao chão. Aquietou-se um instante e voltou a se debater. O que para Antônio parecia ser a vitalidade do peixe era a vida que lhe saía.
– O anzol rasgou a boca dele.
– É assim mesmo.
Vieram outros peixes, mandis e bagres, tilápias, lambaris, mais douradinhos. E no renovar de iscas a tarde foi progredindo, o alforje se enchendo, as nuvens negras cobrindo o sol.
– Quer lavar as mãos? – perguntou Pedro.
– Sim – disse Antônio.
– Ali na pia.
– Outro dia fui lá no sítio.
– E aí?
– Está abandonado. O dono quase não aparece.
– E a roça?
– Acabou. Virou tudo pasto. O homem não planta nada.
Pedro retirou o prato fumegante do forno. Antônio voltou à mesa e se sentou novamente.
Trovões ecoavam ao longe, o vento assobiava, as árvores dançavam, enlouquecidas, curvando-se sobre o rio que corria, indiferente.
– O cheiro está bom – comentou Antônio. – O que é?
– É dourado – respondeu Pedro.
– Senta aqui, mano.
– Acostumei a ficar de pé.
– Agora não precisa…
O cozinheiro se sentou. O irmão se pôs a comer vorazmente, um naco de pão a cada duas garfadas de comida.
– O que é aquilo no rio?
– Uma tora de eucalipto.
– E ali?
– Parece uma panela da mãe.
– E lá?
– As roupas do pai!
Meteram-se pela vereda, assustados, Antônio com as varas, Pedro com os peixes a pulular no alforje. O rio margeando-os, como se eles rio e o rio meninos. Quando chegaram, as águas haviam arrastado quase tudo: as cercas, as tábuas do chiqueiro, as paredes da casa…
O cozinheiro descansou os braços no mármore frio, inclinou-se para frente, aproximou-se do irmão que raspava o prato.
– Está bom?
– Bom demais. Você se superou.
– Que nada!
– Lembro do primeiro almoço que o mano fez.
– Queimou tudo.
– Nem os porcos quiseram.
Riram, cúmplices.
– Alguém tinha de fazer a comida.
– Quem diria que você ia virar um cozinheiro de mão-cheia…
– Quer mais um pouco?
– Não, obrigado – disse Antônio.
– Deixa de cerimônia – disse Pedro.
Levantou-se, renovou o prato do irmão e o levou ao forno. O outro media seus movimentos, os olhos verdes cor de garrafa brilhavam, longe.
– Você devia aparecer em Boa Vista.
– Pra quê?
– O menino ia gostar.
– Ele nem me conhece.
– Sempre falo de você…
– Um dia eu apareço.
Pedro retirou o prato do forno e serviu Antônio outra vez. Depois andou de lá para cá, abrindo e fechando as panelas, enquanto o irmão comia de cabeça baixa.
– Mais um pouco?
– Não, estou satisfeito.
– E o estômago?
– Melhorou.
– Era fome!
Antônio limpou a boca, sacudiu as migalhas de pão. Puxou a maleta para si. Ergueu-se, a outra mão sobre o abdome dolorido. Lá fora o vento levantou uma nuvem grossa de poeira. Pelas frestas da janela, viu o sol no horizonte ensanguentado. Apanhou a maleta, abraçou Pedro timidamente e partiu às pressas, sem que nada mais pudessem dizer um ao outro. O cozinheiro recolheu o prato e o copo e os colocou na pia. Debruçou-se à janela e observou lá fora, os olhos borrados pelo céu em tumulto, o irmão seguindo para a estação ferroviária, como um menino rumo ao rio.