POENTE
Quando o homem entrou na sala, a mulher estava à janela contemplando o mar que ondulava calmamente seu azul pela baía.
O sol engolia com voracidade os restos das sombras: seu fulgor era uma ordem para que a felicidade tomasse o leme do dia. Como se naquela manhã luminosa fosse difícil, quase impossível, morrer.
O homem se aproximou da mulher, sorrateiro, igual a maré que às vezes vinha dar a seus pés sem que percebesse. Mesmo de costas, presa à tanta luz que envolvia os espaços lá fora, ela sabia que ele se acercava, não porque pudesse sentir uma vibração no ar, nem por conhecer a suavidade de sua ancoragem. Mas porque a areia na praia pressente quando a água lhe vem tocar.
Ele parou atrás dela e aguardou que se virasse, para abraçá-la. Ela fez o que o momento pedia: voltou-se e o mirou, mais fundo que o mar agora atrás de si, embora o rosto dele fosse um borrão em seus olhos inundados de sol. A mulher abriu os braços lentamente, e seu gesto dizia,
Venha e se aninhe em mim pra sempre,
mas os braços do homem a enlaçaram de um jeito desesperado, como se dissessem,
Pena que seja a última vez,
e quando, no instante seguinte, ambos se soltaram, o gesto de afastar-se dela dizia,
Pena mesmo,
assim como o passo dele, em recuo, dizia,
Não conheço mais as leis de seu corpo.
Sentaram-se no sofá, lado a lado, como tantas vezes haviam feito para falar da vida – os assuntos fixos e os fugazes –, ou assistir a TV, ou brincar com o menino,
sem perceber que daquela maneira, distraídos para o mundo, estavam decidindo seus destinos.
Mas agora também estavam e o sabiam, o que tornava a percepção do momento solene, apesar de ser apenas mais um momento, como outros.
A mulher colocou as mãos sobre os joelhos unidos, enquanto o homem curvava a cabeça e olhava os próprios pés.
O silêncio de um se aglutinou ao do outro, e os dois ouviram o ruído distante do menino no quarto, despertando para seus brinquedos, acima do som das marés. O menino, emergido deles. Reconheciam-se nos seus trejeitos; viam-se, em susto, na cor de seus olhos, no contorno de seu nariz; os cabelos da mulher, o sorriso do homem, em outra vida. Água e areia num inusitado desenho. A mistura de dois sonhos transformada em carne. O menino, em sua face raiavam as boas descobertas.
A mulher inclinou-se e perguntou,
E então?
O homem suspirou e respondeu,
Então acabou.
O dia novo se expandia, ainda sujo de noite. Uma harmonia enganadora se adensava no ar.
O homem ergueu a cabeça e sussurrou,
Não pensei que fosse acabar assim;
a mulher, os lábios trêmulos, ia dizer,
Não pensei que fosse acabar,
mas engoliu o seu agudo desencanto
e não disse nada.
Seus olhos se agarravam à paisagem que transbordava da baía para a sala, como se a imensidão do oceano, a lavar os grandes rochedos, pudesse convencê-la de que não havia dor capaz de resistir à selvageria daquele azul.
E como se sentissem que só as palavras podiam impedi-los de se afundar, permitiram que subissem à tona, não como peixes solitários, mas em cardumes, beliscando as lembranças.
Foi ela quem iniciou,
Por que deixamos que chegasse a esse ponto?
Ele,
Não sei.
Ela,
Você podia ter me falado.
Ele,
Você também.
Ela,
Cada um cuidou de si e se esqueceu do outro.
Ele,
A gente só percebe o erro quando já o cometeu.
Ela,
Se soubéssemos quando as coisas começam a terminar, talvez pudéssemos fazer algo.
Ele,
Mas não sabemos.
Ela,
Nunca saberemos.
Uma onda morreu na baía, levemente, e o braço do mar acolheu a água em refluxo, como se a ninasse.
Ela continuou,
Só descobrimos o mal quando é tarde demais.
Ele,
Se nada acontece é porque não estamos percebendo o mal agindo.
Ela,
Dez anos pra terminar assim,
e cobriu o rosto com as mãos, o calor das primeiras lágrimas,
como dois desconhecidos.
O homem abaixou novamente a cabeça e mirou os sapatos. Lembrou-se de que fora a mulher quem os comprara. Também a roupa que ele vestia. E o relógio em seu pulso. E a carteira em seu bolso. E a corrente de ouro em seu pescoço. E o pão que comeria no café da manhã. Tudo ao seu redor estava ali, pelas mãos dela.
A mulher respirou fundo, enxugou as lágrimas com as costas da mão e a secou na calça. Lembrou-se de que fora o marido quem lhe dera o dinheiro para comprá-la. Também os brincos em suas orelhas. O xampu que ela usava. O café há pouco coado. Os anéis, todos presentes dele. A dor que a espetava o coração, também.
Quieto, nas suas profundezas, o homem se agarrava a umas recordações; a mulher, igualmente, a outras. Tudo que acontecera a ele nesses anos tinha a estampa de cumplicidade dela. E cada minuto vivido por ela trazia a marca abrasiva da presença dele. Doía mais saber da fratura que os vitimara do que a fratura em si, o fim se infiltrando.
A mulher,
(era dela a capacidade maior de suportar a tormenta),
como criatura aparelhada para fabricar dentro si, pacientemente, a esperança,
sentia um fio de dúvida, e se havia um tijolo inteiro em meio à ruína, sabia-se capaz de reerguer uma nova cidade a partir dele,
e, por isso,
retomou a conversa,
Não há mesmo o que fazer?
O homem,
se pudesse, tentaria represar o sentimento de malogro, a expandir-se com a impiedosa vazante dos dias,
mas,
mesmo se unhas crescessem em seu pensamento para facilitar a escavação nos monturos,
ele não conseguiria encontrar senão tijolos pulverizados e só teria uma resposta a dar:
Não.
Ela,
mordendo os lábios diante do deserto à sua frente, perguntou,
Nem tentar?
Ele,
usando toda a sua ternura para não parecer brutal, disse,
Um remo quebrado é um remo quebrado.
Ela,
então,
fechou os olhos com força,
as segundas lágrimas queimando-lhe a face.
O sol escalava lentamente as paredes da sala, acendendo a manhã nos móveis e objetos diante do casal.
O gosto dos dois estava ali, como duas tintas, tão bem diluídas que resultavam numa textura única. Ele e ela fundidos na cor das paredes, no estilo da estante, nas pinturas figurativas, nos bibelôs. Assim também nos cantos dos quartos, os chumaços de seus sonhos; nas gretas do assoalho, as cinzas das horas felizes.
E agora a correnteza solapava tudo.
A mulher soluçou baixinho, enfiada até o pescoço no instante, como se dentro do oceano, embora no seu fundo só visse escuridão, nenhuma de suas maravilhas, nenhum búzio, nenhuma água-viva.
Não sei se vou conseguir,
ela disse, a voz estreita,
e o homem,
abatido,
sim,
por não ter evitado com ela o naufrágio, mas já mais avançado no luto,
areia a secar na ventania,
disse,
Vai.
Sabiam, a vida se vivia aos trechos. E para se inteirar dela cada um tinha de conquistar regiões do outro ou entregar as suas. Mas havia a retirada. O perigo de ser só alegria já passara – porque era sempre efêmero. Agora fluiriam os dias doloridos, e não haveria como deter o seu derrame.
Ele prosseguiu,
Vai ser melhor pra todos.
A mulher segurou nos olhos as águas novas, que vinham, ferventes. Disse,
Como vamos fazer?
O homem respondeu,
Amanhã eu saio de casa. Alugo uma quitinete.
Ela,
E as coisas?
Ele,
Dividimos depois. Temos tão pouco…
Ela,
Antes, ao menos, tínhamos um ao outro.
Ele,
Nem isso temos mais.
Ela,
É, nem isso.
Os raios de sol continuavam deslizando pela sala, as sombras móveis, em desenho. Na avenida beira-mar, o vaivém das pessoas se intensificava.
A mulher suspirou,
E o menino? Quando contamos a ele?
O homem viu pela janela a paisagem estourada de luz.
Já!,
respondeu,
pra que adiar?
O mar acariciava a amurada rente à praia, onde um e outro transeunte caminhavam, alheios, pela orla azulada.
Ela moveu a cabeça num sinal afirmativo.
Suspirou e, elevando a voz, chamou, com vigor,
um vigor que a si mesma assustou, pelo seu inesperado, pela sua contundência,
Filho, venha aqui!
O homem completou, num disfarce de coragem,
Vamos conversar um pouquinho.
Os dois então se entreolharam
enquanto o silêncio alagava vagarosamente as paredes ao redor, a sala, a casa inteira.
E, em seguida, partindo-o, vibrou o grito alegre do menino, que vinha do quarto,
Tô indo.
Num instante, eis que ele surgiu à frente dos pais, um brinquedo na mão, o sorriso fulgurante como a manhã na baía.
O menino, tão cedo para o sol se pôr de seu rosto.