Notas
7Os movimentos de rebelião, sobretudo de jovens, no mundo atual, que necessariamente revelam peculiaridades dos espaços onde se dão, manifestam, em sua profundidade, esta preocupação em torno do homem e dos homens, como seres no mundo e com o mundo. Em torno do que e de como estão sendo. Ao questionarem a “civilização do consumo”; ao denunciarem as “burocracias” de todos os matizes; ao exigirem a transformação das universidades, de que resultem, de um lado, o desaparecimento da rigidez nas relações professor-aluno; de outro, a inserção delas na realidade; ao proporem a transformação da realidade mesma para que as universidades possam renovar-se; ao rechaçarem velhas ordens e instituições estabelecidas, buscando a afirmação dos homens como sujeitos de decisão, todos estes movimentos refletem o sentido mais antropológico do que antropocêntrico de nossa época.
8“Talvez dês esmolas. Mas, de onde as tiras, senão de tuas rapinas cruéis, do sofrimento, das lágrimas, dos suspiros? Se o pobre soubesse de onde vem o teu óbolo, ele o recusaria porque teria a impressão de morder a carne de seus irmãos e de sugar o sangue de seu próximo. Ele te diria estas palavras corajosas: não sacies a minha sede com as lágrimas de meus irmãos. Não dês ao pobre o pão endurecido com os soluços de meus companheiros de miséria. Devolve a teu semelhante aquilo que reclamaste e eu te serei muito grato. De que vale consolar um pobre, se tu fazes outros cem?” São Gregório de Nissa (330-395), “Sermão contra os usurários”.
9Este medo da liberdade também se instala nos opressores, mas, obviamente, de maneira diferente. Nos oprimidos, o medo da liberdade é o medo de assumi-la. Nos opressores, é o medo de perder a “liberdade” de oprimir.
10The truth of the independent consciousness is (accordingly) the consciousness of the bondsman. Hegel, op. cit., p. 237.
11Referindo-se à consciência senhorial e à consciência servil, diz Hegel: the one is independent, and its essential nature is to be for itself; the other is dependent and its essence is life or existence for another. The former is the Master, or Lord, the latter the Bondsman. Op. cit., p. 234.
12“A ação Libertadora implica um momento necessariamente consciente e volitivo, configurando-se como a prolongação e a inserção continuadas deste na história. A ação dominadora, entretanto, não supõe esta dimensão com a mesma necessariedade, pois a própria funcionalidade mecânica e inconsciente da estrutura é mantenedora de si mesma e, portanto, da dominação.” De um trabalho de José Luiz Fiori, a quem o autor agradece a possibilidade da citação.
13Karl Marx e Friedrich Engels, La sagrada familia y otros escritos. México: Grijalbo, 1962, p. 6. (O grifo é nosso.)
14György Lukács, Lenine.Paris: Études et Documentation Internationales, 1965, p. 62.
15La teoria materialista de que los hombres son producto de las circunstancias y de la educación, y de que, por tanto, los hombres modificados son producto de circunstancias distintas y de una educación distinta, olvida que las circunstancias se hacen cambiar precisamente por los hombres y que el proprio educador necesita ser educado. Karl Marx, “Tercera Tesis sobre Feuerbach”, in Karl Marx e Friedrich Engels, Obras escogidas. Moscou: Editorial Progresso, 1966, v. II, p. 404.
16Este nos parece ser o aspecto fundamental da “revolução cultural”.
17Este enrijecimento não se confunde, pois, com os freios referidos anteriormente e que têm de ser impostos aos antigos opressores, para que não restaurem a ordem dominadora. É de outra natureza. Implica a revolução que, estagnando-se, volta-se contra o povo, usando o mesmo aparato burocrático repressivo do Estado, que devia ter sido radicalmente suprimido, como tantas vezes salientou Marx.
18Erich Fromm, El corazón del hombre, breviario. México: Fondo de Cultura Económica, 1967, p. 41.
19Fromm, op. cit., p. 30. (Os grifos são nossos.)
20A propósito das “formas dominantes de controle social”, cf. Herbert Marcuse, L’Homme undimensionel e Eros et Civilisation. Paris: Éditions de Minuit, 1968-1961, obras já traduzidas para o português.
21A propósito de “cultura do silêncio”, cf. “Paulo Freire: ação cultural para libertação”, Cambridge, Massachusetts, Center for the Study of Development and Social Change, 1970. Este ensaio apareceu primeiramente em Harvard Educational Review, nos seus números de maio e agosto de 1970; é publicado no Brasil em 1976, pela Paz e Terra, no livro Ação cultural para a liberdade e outros escritos.
22“O camponês, que é um dependente, começa a ter ânimo para superar sua dependência quando se dá conta de sua dependência. Antes disto, segue o patrão e diz quase sempre: ‘Que posso fazer, se sou um camponês?’” — Palavras de um camponês durante entrevista com o autor, no Chile.
23Cf. Cândido Mendes, Memento dos vivos: a esquerda católica no Brasil. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1966.
24Frantz Fanon, Los condenados de la tierra. México: Fondo de Cultura Económica, 1965: […] el colonizado no deja de liberarse entre las nueve de la noche y las seis de la mañana. Esa agresividad sedimentada en sus músculos va a manifestarla al colonizado primero contra los suyos. (p. 46)
25How could the colonizer look after his workers while periodically gunning down a crowd of the colonized? How could the colonized deny himself so cruelly yet make such excessive demands? How could he hate the colonizers and yet admire them so passionately? (I too felt this admiration, diz Memmi, in spite of myself).Albert Memmi, The Colonizer and the Colonized. Boston: Beacon Press, 1967, p. X. Em português, Retrato do colonizado precedido pelo retrato do colonizador, 2a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
26“O camponês se sente inferior ao patrão porque este lhe parece como o que tem o mérito de saber e dirigir.” (Entrevista do autor com um camponês.)
27Cf. a este respeito o livro citado de Albert Memmi.
28“Por que o senhor (disse certa vez um camponês participante de um ‘círculo de cultura’ ao educador) não explica primeiramente os quadros (referia-se às codificações)? Assim (concluiu) nos custará menos e não nos dói a cabeça.”
29“O camponês tem um medo quase instintivo do patrão.” (Entrevista com um camponês.)
30Recentemente, num país latino-americano, segundo depoimento que nos foi dado por sociólogo amigo, um grupo de camponeses, armados, se apoderou do latifúndio. Por motivos de ordem tática, se pensou em manter o proprietário como refém. Nenhum camponês, contudo, conseguiu dar guarda a ele. Só sua presença já os assustava. Possivelmente também a ação mesma de lutar contra o patrão lhes provocasse sentimento de culpa. O patrão, na verdade, estava “dentro” deles…
31Neste sentido, cf. Regis Debray, Revolução na revolução. São Paulo: Centro Ed. Latino-americano, 1967.
32“O camponês é um dependente. Não pode expressar o seu querer. Antes de descobrir sua dependência, sofre. Desabafa sua ‘pena’ em casa, onde grita com os filhos, bate, desespera-se. Reclama da mulher. Acha tudo mal. Não desabafa sua ‘pena’ com o patrão porque considera um ser superior. Em muitos casos, o camponês desabafa sua ‘pena’ bebendo.” (Entrevista.)
33Referimo-nos à redução dos oprimidos à condição de meros objetos da ação libertadora que, assim, é realizada mais sobre e para eles do que com eles, como deve ser.
34No capítulo IV voltaremos detidamente a estes pontos.
36No Capítulo IV voltaremos pormenorizadamente a este tema.
37Álvaro Vieira Pinto, Ciência e existência, 2a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. Deixamos aqui o nosso agradecimento ao mestre brasileiro por nos haver permitido citá-lo antes da publicação de sua obra. Consideramos o trecho citado de grande importância para a compreensão de uma pedagogia da problematização, que estudaremos no capítulo seguinte.