Notas

89 Vladimir Lenin, “What is to be Done?”, in Henry M. Christman (org.), Essencial Works of Lenin. Nova York: Bantam Books, 1966, p. 69.

90Mais uma razão por que a liderança revolucionária não pode repetir os procedimentos da elite opressora. Os opressores, “penetrando” os oprimidos, neles se “hospedam”; os revolucionários, na práxis com os oprimidos, não podem tentar “hospedar-se” neles. Pelo contrário, ao buscarem, com estes, o “despejo” daqueles, devem fazê-lo para conviver, para com eles estar e não para neles viver.

91Mesmo que haja — e explicavelmente — por parte dos oprimidos, que sempre estiveram submetidos a um regime de espoliação, na luta revolucionária, uma dimensão revanchista, isto não significa que a revolução deva esgotar-se nela.

92“Se algum benefício se pudesse obter da dúvida (disse Fidel Castro ao falar ao povo cubano, confirmando a morte de Guevara), nunca foram armas da revolução a mentira, o medo da verdade, a cumplicidade com qualquer ilusão falsa, a cumplicidade com mentira.” Fidel Castro, Gramma, 17/10/1967. (Os grifos são nossos.)

93Sublinhemos mais uma vez que este encontro dialógico não se pode verificar entre antagônicos.

94The epochs during which the dominant classes are stable, epochs in which the worker’s movement must defend itself against a powerful adversary, which is occasionally threatening and is in every case solely seated in power, produce naturally a socialist literature which emphasizes the “material” element of reality, the obstacles to be overcome, and the scant efficacy of human awareness and action. L. Goldmann, op. cit., pp. 80-1.

95Fernando Garcia, hondurenho, aluno nosso, num curso para latino-americanos em Santiago, Chile, 1967.

96R. Niebuhr, op. cit., pp. 118-9.

97Às vezes, nem sequer esta palavra é dita. Basta a presença de alguém (não necessariamente pertencente a um grupo revolucionário) que possa ameaçar ao opressor “hospedado” nas massas, para que elas, assustadas, assumam posturas destrutivas. Contou-nos um aluno nosso, de um país latino-americano, que, em certa comunidade camponesa indígena de seu país, bastou que um sacerdote fanático denunciasse a presença de dois “comunistas” na comunidade, “pondo em risco a fé católica”, para que, na noite deste mesmo dia, os camponeses, unânimes, queimassem vivos os dois simples professores primários que exerciam seu trabalho de educadores infantis.
Talvez esse sacerdote tivesse visto, na casa daqueles infelizes maestros rurales, algum livro em cuja capa houvesse a cara de um homem barbado…

98Salientamos, mais uma vez, que não estabelecemos nenhuma dicotomia entre o diálogo e a ação revolucionária, como se houvesse um tempo de diálogo, e outro, diferente, de revolução. Afirmamos, pelo contrário, que o diálogo é a “essência” da ação revolucionária. Daí que na teoria desta ação, seus atores, intersubjetivamente, incidam sua ação sobre o objeto, que é a realidade que os mediatiza, tendo, como objetivo, através da transformação daquela, a humanização dos homens. Isto não ocorre na teoria da ação opressora, cuja “essência” é antidialógica. Nesta, o esquema se simplifica. Os atores têm, como objetos de sua ação, a realidade e os oprimidos simultaneamente e, como objetivo, a manutenção da opressão, através da manutenção da realidade opressora.

99No livro já citado, Ação cultural para a liberdade e outros escritos, discutimos mais detidamente as relações entre ação cultural e revolução cultural.

100Cf. Mao Tsé-Tung, “On Contradictions”, in Four Essays on Philosophy. Pequim: Foreign Languages Press Edition, 1968.

101A free action (diz Gajo Petrovic) can only be one by which a man changes his world and himself. […] A positive condition of freedom is the knowledge of the limits of necessity, the awareness of human creative possibilites. […] The struggle for a free society is not a struggle for a free society unless through it an ever greater degree of individual freedom is created. Gajo Petrovic, “Man and Freedom”, in Erich Fromm (org.), Socialism Humanism. Nova York: Anchor Books, 1966, pp. 274-6. Do mesmo autor, é importante a leitura de Marx in the Mid-Twenteth Century. Nova York: Anchor Books, 1967.

102Isto não significa, de maneira alguma, segundo salientamos no capítulo anterior, que, instaurado o poder popular revolucionário, a revolução contradiga o seu caráter dialógico, pelo fato de o novo poder ter o dever ético, inclusive, de reprimir toda tentativa de restauração do antigo poder opressor.

103Mater et magistra.

104By his acusation (diz Memmi, referindo-se ao perfil que o colonizador faz do colonizado), the colonizer establishes the colonized as being lazy. He decides that laziness is constitutional in the very nature of the colonized. Op. cit., p. 81.

105Não criticamos os meios em si mesmos, mas o uso que se lhes dá.

106É desnecessário dizer que esta crítica não atinge os esforços neste setor que, numa perspectiva dialética, orientam no sentido da ação que se funda na compreensão da comunidade local como totalidade em si e parcialidade de uma totalidade maior. Atinge aqueles que não levam em conta que o desenvolvimento da comunidade local não se pode dar a não ser dentro do contexto total de que faz parte, em interação com outras parcialidades, o que implica a consciência da unidade na diversificação, da organização que canalize as forças dispersas e a consciência clara da necessidade de transformação da realidade. Tudo isto é que assusta, razoavelmente, os opressores. Daí que estimulem todo tipo de ação em que, além da visão focalista, os homens sejam “assistencializados”.

107“Se os operários não chegam, de alguma maneira, a ser proprietários de seu trabalho (diz o bispo Franic Split), todas as reformas nas estruturas serão ineficazes. Inclusive, se os operários às vezes recebem um salário mais alto em algum sistema econômico, não se contentam com estes aumentos. Querem ser proprietários e não vendedores de seu trabalho. Atualmente (continua Dom Franic), os trabalhadores estão cada vez mais conscientes de que o trabalho constitui uma parte da pessoa humana. A pessoa humana, porém, não pode ser vendida nem vender-se. Toda compra ou venda do trabalho é uma espécie de escravidão. A evolução da sociedade progride neste sentido e, com segurança, dentro deste sistema do qual se afirma não ser tão sensível quanto nós à dignidade da pessoa humana, isto é, o marxismo.” “15 obispos hablan en prol del Tercer Mundo”, CIDOC Informa, México, Doc. 67/35, 1967, pp. 1-11.

108A propósito das classes sociais e da luta entre elas, de que tanto se acusa Marx como uma espécie de “inventor” desta luta, cf. a carta que escreve a J. Weydemeyer, a 1º do março de 1852, em que declara não lhe caber “o mérito de haver descoberto a existência das classes na sociedade moderna nem a luta entre elas. Muito antes que eu (comenta Marx) alguns historiadores burgueses haviam já exposto o desenvolvimento histórico desta luta de classes e alguns economistas burgueses, a sua anatomia econômica. O que acrescentei (diz ele) foi demonstrar: 1) que a existência das classes vai unida a determinadas fases históricas de desenvolvimento da produção; 2) que a luta de classes conduz à ditadura do proletariado; 3) que esta mesma ditadura não é, por si, mais que o trânsito até a abolição de todas as classes, para uma sociedade sem classes.” Marx-Engels, Obras escogidas.

109Aos camponeses, por isto mesmo, é indispensável mantê-los ilhados dos operários urbanos, como estes e aqueles dos estudantes que, não chegando a constituir, sociologicamente, uma classe, se fazem, ao aderirem ao povo, um perigo pelo seu testemunho de rebeldia. É preciso, então, fazer ver às classes populares que os estudantes são irresponsáveis e perturbadores da “ordem”. Que o seu testemunho é falso, pelo fato mesmo de que, como estudantes, deviam estudar, como cabe aos operários das fábricas e aos camponeses trabalhar para o “progresso da nação”.

110Os pactos só são válidos para as classes populares — e neste caso já não são pactos — quando as finalidades da ação a ser desenvolvida ou que já se realiza estão na órbita de sua decisão.

111Na “organização” que resulta do ato manipulador, as massas populares, meros objetos dirigidos, se acomodam às finalidades dos manipuladores, enquanto na organização verdadeira, em que os indivíduos são sujeitos do ato de organizar-se, as finalidades não são impostas por uma elite. No primeiro caso, a “organização” é meio de massificação; no segundo, de libertação.

112Francisco Weffort, “Política de massas”, in Política e revolução social no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, p. 187.

113Getúlio Vargas, em discurso pronunciado no Estádio C.R. Vasco da Gama em 1º de maio de 1951, in O governo trabalhista no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, pp. 322-4. (Os grifos são nossos.)

114Para este fim, os invasores se servem, cada vez mais, das ciências sociais e da tecnologia, como já agora das ciências naturais.
É que a invasão, na medida em que é ação cultural, cujo caráter induzido permanece como sua conotação essencial, não pode prescindir do auxílio das ciências e da tecnologia com que os invasores melhor atuam. Para eles se faz indispensável o conhecimento do passado e do presente dos invadidos, através do qual possam determinar as alternativas de seu futuro e, assim, tentar a sua condução no sentido de seus interesses.

115A propósito de dialética da sobredeterminação, cf. Louis Althusser, Pour Marx. Paris: Maspero, 1967.

116O autoritarismo dos pais e dos mestres se desvela cada vez mais aos jovens como antagonismo à sua liberdade. Cada vez mais, por isto mesmo, a juventude vem se opondo às formas de ação que minimizam sua expressividade e obstaculizam sua afirmação. Esta, que é uma das manifestações positivas que observamos hoje, não existe por acaso. No fundo, é um sintoma daquele clima histórico ao qual fizemos referência no primeiro capítulo deste ensaio, como caracterizador de nossa época, como uma época antropológica. Por isto é que a reação da juventude não pode ser vista a não ser interessadamente, como simples indício das divergências geracionais que em todas as épocas houve e há. Na verdade, há algo mais profundo. Na sua rebelião, o que a juventude denuncia e condena é o modelo injusto da sociedade dominadora. Esta rebelião, contudo, com o caráter que tem, é muito recente. O caráter autoritário perdura.

117Talvez explique também a antidialogicidade daqueles que, embora convencidos de sua opção revolucionária, continuam, contudo, descrentes do povo, temendo a comunhão com ele. E que, sem o perceber, ainda mantêm dentro de si o opressor. Na verdade, temem a liberdade, na medida em que hospedam o “senhor”.

118Cf. Paulo Freire, ¿Extensión o comunicación? ICIRA, Santiago do Chile, 1969 [Extensão ou comunicação?, trad. Rosiska Darcy de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1971].

119Cf. L. Althusser, op. cit.

120Considerando esta questão, diz Althusser: Cette réactivation serait proprement inconcevable dans une dialectique dépourvue de surdétermination. Op. cit., p. 116.

121No capítulo anterior citamos a opinião de Guevara a este propósito. De Camilo Torres, disse Germano Guzman: “Jogou-se inteiro porque entregou tudo. A cada hora manteve com o povo uma atitude vital de compromisso, como sacerdote, como cristão e como revolucionário.” Germano Guzman, Camilo, el cura guerrillero. Bogotá: Servicios Especiales de Prensa, 1967, p. 5.

122Uma coisa são as necessidades de classe; outra, a “consciência de classe”. A propósito de “consciência de classe”, cf. G. Lukács, Histoire et conscience de classe.Paris: Les Éditions de Minuit, 1960.

123Cf. F. Fanon, op. cit.

124Em conversa com um sacerdote chileno, de alta responsabilidade intelectual e moral, que esteve no Recife em 1966, ouvimos dele que “ao visitar, com um colega pernambucano, várias famílias residentes em Mocambos, de condições de miséria indiscutível, e ao perguntar-lhes como suportavam viver assim, escutava sempre a mesma resposta: ‘Que posso fazer? Deus quer assim, só me resta conformar-me.’”

125Importante a leitura de Erich Fromm, “The Application of Humanist Psychoanalysis to Marxist Theory”, in Socialist Humanism. Anchor Books, 1996; e Reuben Osborn, Marxismo y psicoanálisis. Barcelona: Ediciones Península, 1967.

126El diário de Che en Bolívia. México: Siglo XXI, pp. 131-52.

127Cf. Martin Buber, Yo y tú. Buenos Aires: Nueva Visión, 1969.

128Ernesto Guevara, Relatos de la guerra revolucionaria. Buenos Aires: Editora Nueve 64, 1965.

129Id., ibid., p. 81. (Os grifos são nossos.)

130A propósito da defesa do homem frente a “sua morte”, “depois da morte de Deus”, no pensamento atual, cf. Mikael Dufrenne, Pour L’homme. Paris: Éditions du Seuil, 1968.

131“A maioria deles, diz Gerassi, referindo-se aos camponeses, se vende ou vende membros de sua família para trabalharem como escravos, a fim de escapar à morte. Um jornal de Belo Horizonte descobriu nada menos de 50 mil vítimas (vendidas a Cr$ 1.500,00), e o repórter, continua Gerassi, para comprová-lo, comprou um homem a sua mulher por 30 dólares. ‘Vi muita gente morrer de fome’, explicou o escravo, ‘e por isto não me importo de ser vendido’. Quando um traficante de homens foi preso em São Paulo, em 1959, confessou seus contatos com fazendeiros de São Paulo, donos de cafezais e construtores de edifícios, interessados em sua mercadoria — exceto, porém, as adolescentes, que eram vendidas a bordéis.” John Gerassi, A invasão da América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, p. 120.

132O.P. Chenu, Temoignage chrétien, abril de 1964. Apud André Maine, Cristianos y marxistas después del concilio. Buenos Aires: Editorial Arandu, 1965, p. 167.

133Enquanto processo, o testemunho verdadeiro que, ao ser dado, não frutificou, não tem, neste momento negativo, a absolutização de seu fracasso. Conhecidos são os casos de líderes revolucionários cujo testemunho não morreu ao serem mortos pela repressão dos opressores.

134Certa vez, em conversa com o autor, um médico, dr. Orlando Aguirre, diretor da Faculdade de Medicina de uma universidade cubana, disse: “A revolução implica três ‘P’ — Palavra, Povo e Pólvora. A explosão da Pólvora, continuou, aclara a visualização que tem o povo de sua situação concreta, em busca, na ação, de sua libertação.”
Pareceu-nos interessante observar, durante a conversação, como este médico revolucionário insistia na palavra, no sentido em que a tomamos neste ensaio. Isto é, palavra como ação e reflexão — palavra como práxis.

135O antagonismo entre ambas se dá na situação objetiva de opressão ou de licenciosidade.

136Na verdade, o que faz que a estrutura seja estrutura social, portanto, histórico-cultural, não é a permanência nem a mudança, tomadas absolutamente, mas a dialetização de ambas. Em última análise, o que permanece na estrutura social nem é a permanência nem a mudança, mas a duração da dialeticidade permanência-mudança.