Era impossível escapar do calor e da ferocidade das moscas, mas o cenário da imensidão desértica da Austrália Ocidental era belo e agreste. Fazia um mês que Katie perambulava de ônibus com a mochila às costas, seguindo a rota do diário de Mia. As intermináveis extensões de estradas retilíneas e ladeadas de mato eram reconfortantes. Katie era embalada pelo estado mental do esquecimento, a cabeça pendida na janela quente do ônibus.
Agora, acabava de chegar a Lancelin, uma pequena cidade costeira ao norte de Perth, onde pela tarde os barcos de lagostins aportavam para descarregar. Sentou-se à sombra de um guarda-sol à beira de uma piscina de concreto e abriu o diário. Ainda não eram dez horas, mas o calor estava forte e não havia sequer sinal de vento.
Um avião traçou uma linha aguda no azul do céu sem nuvens, deixando um rastro branco que a fez olhar para o alto até que aquilo sumisse no ar. Certa vez Mia tinha dito que os traços deixados pelos jatos eram nuvens que os próprios jatos inspiravam e expiravam em longos suspiros brancos. Katie não a corrigiu. Intrigava-se com todos aqueles lugares mágicos por onde a imaginação de Mia vagava e pensou que, se os seguisse mais de perto, também poderia vislumbrá-los.
Meias-irmãs, ela pensou. Como poderia ser uma das metades se passara uma vida inteira irremediavelmente ligada à outra metade?
Empurrou uma mecha de cabelo pelo rosto enquanto refletia sobre o termo. Claro que ela e Mia eram bem diferentes, mas agora a diferença ganhava um rótulo: meias-irmãs. Bem que Mia poderia estar conversando ali com ela. Bem que ela poderia estar enroscada no lado oposto do sofá do apartamento de ambas, conversando e degustando um chá com a irmã. Juntas, talvez encontrassem um sentido para o fato e até acabassem rindo da situação. Acontece que Mia já tinha partido, e agora o conhecimento do fato só aumentava o distanciamento entre elas.
Katie passou o dedo ao longo de uma frase do diário, na tentativa de sentir cada palavra de Mia. Os relatos já não cintilavam com descrições dos lugares por onde ela passava da mesma forma que cintilavam quando ela passou pela Califórnia; agora, fervilhavam em silenciosa fúria. Uma fúria inicialmente dirigida à mãe por ter escondido a verdade sobre Harley. A própria mãe ensinara um código moral de verdade e honestidade para as filhas, e a transgressão desse código era uma traição às crenças de Mia.
Mas o que mais preocupava é que nos últimos relatos Mia transparecia uma crescente fixação no Harley. E agora, na página que tinha à frente, Mia transcrevia a letra de uma música encontrada numa página obscura da internet, com círculos em volta de palavras e versos, como se quisesse descobrir uma conexão com o pai que até então desconhecia. A outra página estava pontilhada de perguntas: “Como ele era?” “O que era importante para ele?” “Qual era o lugar que ele mais amava?” Para Katie, no entanto, a pergunta ainda não feita e que orbitava em torno das outras era a seguinte: eu sou como ele? Harley se suicidara aos 24 anos: a mesma idade de Mia. Talvez essa fria coincidência tivesse atormentado os pensamentos de Mia, da mesma forma que agora atormentava os de Katie. Tentava apagar a voz interior que sussurrava com insistência a mesma história, mas era uma inegável e perturbadora coincidência.
Soaram passos súbitos no piso de cimento, seguidos por mãos frias que a agarraram pela cintura. Ela soltou um grito enquanto era erguida, e o diário escorregou do colo e caiu aberto no chão em forma de uma barraca.
Ela ouviu a gargalhada estridente de Ed ao pé do ouvido e depois ele a apertou contra o próprio colo molhado e saiu correndo da piscina em direção à praia. Enquanto corria, a areia levantava e a pinicava nas pernas soltas no ar. Ele a abraçava com tanta força que o osso do punho a comprimia dolorosamente contra as coxas. De repente ela se viu com a parte superior do biquíni enrolada e a borda rosa escura do mamilo exposta.
Katie começou a espernear e se debater no colo de Ed quando a beira da praia surgiu à frente. Isso o fez rir mais alto, gratificado pela resistência que recebia. Ela perdeu o fôlego quando ele entrou na água salgada do mar. Logo ela se viu com a água batendo contra o corpo, de repente de costas e o mundo girou. O sol se refletiu intensamente na água, deixando-a atordoada por alguns segundos e com as pontas do cabelo à superfície da água.
– Por favor, Ed! – sussurrou, mortificada de medo.
Uma onda espumante veio em direção aos dois e a água entrou pelas narinas dela. Só lhe restou fechar os olhos e se deixar beijar pela água no rosto enquanto saboreava o gosto salgado do mar. Até que Ed a ergueu com um movimento repentino e a levou de volta à beira da praia. Colocou-a delicadamente na areia.
Ela apertou o peito, engasgada.
– Katie? – ele disse, observando-a. – Você está bem? Sabia que eu estava brincando, não sabia?
Ela balançou a cabeça sem olhar para ele, dissimulando as lágrimas que rolavam dos olhos. Nunca tinha dito a ele que tinha medo do mar.
Ele a apertou ligeiramente no ombro com a mão molhada.
– Perdão; foi irresistível. Você estava tão linda e tão serena à beira da piscina que tive o impulso de capturá-la.
– Tudo bem – ela disse. – Você me pegou de surpresa. Foi isso.
Fazia cinco dias que Ed estava na Austrália. Conseguira duas semanas de férias no trabalho. Ela o esperara no aeroporto de Perth, onde ele a abraçara com tanto entusiasmo que a levantou no ar.
– Que tal uma caminhada para nos secar? – ele perguntou.
Ela o olhou de relance: ele ainda estava com água escorrendo do rosto e os olhos refletiam alegria e esperança. Ficaria feliz se caminhasse com ela, ambos precisavam de momentos ocasionais de leveza e sustentação. Mas ocorreu-lhe que o diário de Mia ainda estava aberto à beira da piscina. A poeira poderia entrar pelas dobras das páginas e o sol poderia descolorir a capa.
– Adoraria tomar uma chuveirada – disse Katie, sorrindo e caminhando de volta à piscina, onde recolheu o diário e soprou a poeira das páginas.
Ela se enrolou na macia toalha cor de creme e depois fez um círculo com a palma da mão no espelho embaçado de vapor. O rosto ainda estava úmido. O nariz, salpicado de sardas pela ação do sol, mas as faces estavam magras e o sol não agira debaixo dos olhos. Já estava usando maquiagem desde a chegada de Ed, mas de certo modo era uma rotina que agora não fazia muito sentido.
– Querida? – Ele estava esparramado na cama, os tornozelos cruzados e um jornal largado ao lado.
Os dois estavam hospedados em um hotel e não no modesto albergue descrito por Mia. Katie o tinha feito passar a primeira noite no albergue, mas ele estava exausto pela viagem de avião e não apreciou o dedilhar de uma guitarra que se estendeu até as duas da madrugada no dormitório ao lado.
– Vem aqui.
Ela atravessou o quarto e empoleirou-se ao lado dele. Na mesinha de cabeceira, um par de tampões de ouvido.
– Você ouviu os outros hóspedes? – ele perguntou de sobrancelha arqueada. – Deve ser o mar. As ondas são incessantes.
O mar?
– Em Londres você cai no sono com toda cacofonia do tráfego.
– Ah, os sons melódicos da cidade. – Ele sorriu. – Por falar em Londres, acredita que seus amigos querem que a leve de volta comigo? Todos estão preocupados com você.
– Eles não precisam se preocupar.
– Não precisam?
– Não precisam. – Ela insistiu, correndo os dedos pelo cabelo molhado. – Eu estou bem. – Fossem quais fossem os comentários a respeito da atitude dela, isso não importava. Continuar naquele lugar era uma necessidade. – Faz algum tempo que quero lhe perguntar sobre aquela orquídea que mandaram para o funeral da Mia. Mostrou a foto para sua mãe?
Ed sentou-se e a cama soltou um estalido.
– Mostrei. Mamãe olhou a foto e disse que era uma orquídea da lua.
– Orquídea da lua – repetiu Katie pausadamente. – E o que ela disse sobre essa espécie?
– São originárias dos trópicos – ele respondeu, desviando os olhos.
– Como assim? Ela não disse mais nada?
– Não acho isso importante. – Ele suspirou. – Mas a orquídea da lua é a flor nacional de Bali.
Ela piscou os olhos de surpresa.
– Bali?
– Sim.
Ela passou o dedo no lábio inferior.
– Não acha estranho que alguém tenha mandado justamente essa flor?
– Na verdade, não. Talvez tenha sido alguém que gosta da aparência da flor e que não sabe nada a respeito.
– Mas por que mandá-la de modo anônimo? E por que escrever “desculpe”?
Ele abriu a palma das mãos.
– Não sei. Talvez a floricultura não tenha transcrito a mensagem direito.
– Talvez – disse Katie, sem deixar de pensar se a mensagem tinha outra relevância para o remetente ou se era mesmo um pedido de desculpas.
– Por que você não se deita um pouco? – sugeriu Ed, abrindo espaço na cama.
Ela se deitou de barriga para cima e o cabelo umedeceu o travesseiro.
Ele se apoiou no cotovelo e olhou fixamente para ela.
– Mal posso acreditar que em três meses estaremos casados.
Ela sorriu, mas a observação a fez sentir uma ansiedade que tratou logo de reprimir.
Ele percorreu a clavícula dela com o dedo indicador.
– Sra. Katie Louth – disse para si mesmo, como se provando o gosto da situação. – Muito sexy.
– Ainda não decidi se quero adotar o seu sobrenome.
Ele levantou uma sobrancelha.
– Sério?
– Preciso pensar mais um pouco. Nem toda mulher adota o sobrenome do marido.
– Não me diga que você prefere um daqueles sobrenomes horrorosos separados por hífen? Greene-Louth soa como uma empresa!
Ela sorriu.
– Está bem, sem a separação do hífen!
Ele a olhou atentamente.
– Você é a última Greene, não é?
Ela balançou a cabeça enquanto uma onda de emoção subia pela garganta.
– Então, talvez seja melhor manter o seu sobrenome. Não preciso que adote o meu. O que me interessa é que toda noite a levarei para a cama pelo resto de minha vida. – Ele puxou a ponta da toalha úmida, desembrulhou-a como se fosse um presente e beijou-a longamente no pescoço. Estimulada pelos lábios quentes dele, ela se deixou ser abraçada e puxada para mais perto do corpo dele.
Ele passou os lábios pelo pescoço abaixo, atravessou o osso do ombro e percorreu o caminho dos seios com um beijo, até que a língua atingiu os mamilos. Ela não reagiu enquanto ele viajava com a língua pela caixa torácica e pela maciez do estômago, até rodear o umbigo e alcançar os quadris. Só então fechou os olhos, relaxou e se concentrou no toque que recebia. Antes da morte de Mia, as relações entre os dois eram frequentes e apaixonadas, mas depois o desejo de Katie arrefeceu.
Ele roçou os lábios no alto do osso púbico.
– Ed.
Ele murmurou alguma coisa embaixo do lençol e seguiu roçando os lábios mais para baixo.
– Preciso me vestir. – Ela se desvencilhou dele. – Precisamos sair o quanto antes.
Ele afastou as cobertas e saiu da cama. Caminhou até a escrivaninha, puxou a cadeira e abriu o laptop.
Ela se vestiu de costas. Eles fariam uma visita ao Slade Plains, onde Mia e Finn haviam praticado paraquedismo seis meses antes. Katie não pretendia saltar, mas queria ver onde a irmã encontrara coragem para mergulhar no ar contando apenas com um paraquedas.
A essa altura seguia a rotina de ler apenas um relato do diário de Mia por dia, o que estabelecia um propósito para a viagem. Cada página lida aprofundava ainda mais a compreensão das viagens da irmã. O diário era agora um companheiro honesto e fiel que a acompanhava.
Katie acabou de se vestir e se voltou para Ed, que ainda estava às voltas com o laptop.
– Precisamos sair agora se quisermos pegar o ônibus.
– Não estou a fim – ele disse sem erguer os olhos.
– Mas você disse que me acompanharia.
– Não estou nem um pouco a fim de ir até o deserto para ver um bando de viciados em adrenalina jogando-se de um avião. – Ele afastou a cadeira. – Gostaria muito mais de passar a tarde tomando um vinho num restaurante elegante com minha noiva.
– Eu tenho que fazer isso. Faz parte do diário.
– Você não se dá conta do quão ridículo isso soa? Não passa de uma droga de um diário! Não é um livro de regras.
– Sei que não é um livro de regras. Mas eu quero ir até lá – ela disse, elevando a voz em desafio. – Não menospreze o que estou fazendo, Ed. Isso é muito importante para mim. – Pegou a bolsa que estava em cima da mesinha de cabeceira, fechou os dedos em torno dos tampões de ouvido e os enfiou dentro do bolso. Ele que escute o mar!
– Não consigo entender como é que alguém pode gastar dinheiro só para se lançar de um avião. Isso, além de não ser natural, é contrário a qualquer instinto de sobrevivência – ele disse quando ela chegou à porta.
– É isso que eu quero entender.
Katie assistiu ao vídeo de segurança, assinou a autorização e vestiu um macacão azul desbotado e roto nos joelhos. E depois se sentou na traseira de um avião de seis lugares, com um complicado cinto preso ao redor de sua cintura. A raiva e a adrenalina a tinham levado longe, mas agora estava arrependida. Tremia dos pés à cabeça e respirava com dificuldade. Era o pavor. Estava dentro do avião e agora era impensável pular para fora.
O piloto gritou alguma coisa e o instrutor aproximou-se da porta, soltou um trinco e abriu-a.
Ela engasgou. Era uma barulheira incrível, o mesmo estrondo de quando se mergulha na arrebentação das ondas. As lufadas de ar definiam todas as terminações nervosas. Ela teve que lutar para prender o cabelo que batia contra o rosto.
Na sua frente, um homem magro, com cicatrizes de espinhas no rosto, levantou-se enquanto um instrutor acoplou-se às suas correias, checando-as minuciosamente. A dupla caminhou em direção à porta aberta como prisioneiros desajeitados em seus macacões. Ela desviou os olhos por um segundo e, quando voltou a olhar, os dois já tinham desaparecido.
Em seguida sentiu uma tapinha firme no ombro.
– É sua vez – gritou o instrutor, um jovem de cabelos louros bastante ondulados e com dentes tortos.
– Eu não vou pular.
Ele arrumou-a, prendeu-se às costas dela e fez uma checagem nas fivelas para se assegurar de que estavam bem seguras.
A barulheira o impedira de ouvi-la.
– Eu não vou pular! – ela gritou.
– Você não gosta de se alimentar? – ele gritou de volta, escancarando um sorriso e ajeitando os óculos no rosto dela. Claro que a provocava. Mas logo se encaminhou até a porta do avião.
– Não! – Ela abriu os braços. – Eu! Não vou! Pular!
– Tudo bem, a escolha é sua. Mas quero que olhe a vista antes de decidir.
Já com a pulsação acelerada, ela respirou profundamente e disse para si mesma que podia fazer aquilo.
– Eu vou olhar – disse, balançando a cabeça para o instrutor.
– Vamos sentar – ele disse e ela obedeceu, sentando-se entre as pernas dele, e depois os dois escorregaram juntos ao longo do piso do avião até a porta. O vento se intensificou e soprou as palavras, os pensamentos e a respiração para longe.
– Coloque o braço na alça – gritou o instrutor. – É mais seguro!
Ela se esticou e agarrou a alça. Que barulheira! O coração pulou dentro do peito. Lá embaixo, a aridez dos campos e o brilho do mar a distância.
– Está vendo aquele degrau? Vou pôr o pé direito nele e quero que você faça o mesmo depois.
Ela balançou a cabeça.
– Eu não consigo.
– Você consegue, sim – ele disse ao pé do ouvido dela, como se a voz estivesse saindo de dentro dela.
Será que ela conseguiria? Definitivamente, pular de aviões não tinha nada a ver com ela. Mas seria emocionante sair da mesmice. O que Ed pensaria se me visse agora? A sensação arrebatadora de desafio a fez esticar o pé lentamente até o degrau. A perna do macacão esvoaçou furiosamente e a fez se arrepiar por todo o corpo.
– Quer mesmo fazer isso? – ele gritou.
– Eu não sei! Eu não sei!
– Cruze os braços no peito.
Ela fez o que ele mandou. Parecia que estava fazendo uma prece com o corpo. Em seguida ela sentiu que ele se curvava para agarrar uma alça superior. A bandana que prendia o cabelo dela soltou-se e açoitou os óculos.
– Não! Não! – O pânico bateu de maneira pesada e ácida no estômago. Cada músculo do corpo contraiu quando ela se arqueou para se afastar da saída aberta.
De repente, o instrutor inclinou-se para a frente e deixou-a suspensa debaixo do corpo dele.
Ele projetou-se.
Os lábios de Katie se abriram de lado a lado ao impacto da queda livre e se ressecaram por dentro, como a terra lá embaixo. Ela se viu arremessada em meio a correntes frias de ar e fiapos de nuvens. O sangue pulsou nos ouvidos.
Um grito longo e mudo queimou a garganta de Katie. Era o pavor de que o paraquedas não se abrisse e de que as cordas embaralhassem e ela se machucasse no pouso, mas se apavorou ainda mais porque, à medida que mergulhava no ar, se dava conta com terrível clareza do terror vivido pela irmã no instante em que soltou os pés precipício abaixo.