Ela mergulhou novamente. O corpo, uma deslizante seta subaquática; os dedos dos pés, apontados; os dedos da mão, unidos; e o cabelo, uma suave trilha negra. Atravessou o mar como um peixe, os olhos abertos, a ferroada do azul embaçado da água salgada e os ouvidos entupidos de zumbidos e ecos marinhos. Depois, posicionou os braços nos lados, arqueou as costas e impulsionou o corpo para cima, emergindo com o sol no rosto.
Em volta, o mar sem brisa era sereno; a praia, vazia, e a floresta de eucaliptos ao longe, sossegada. Ela então boiou de costas e de olhos fechados. Com o ar espesso podia sentir o peso do calor circundante. Seria tão bom se estivesse boiando ao lado de Katie, ambas totalmente sem peso pela ação do mar. Foi pega de surpresa por esse pensamento. Fazia anos que não nadavam juntas, e ela se perguntou com uma pontada de dor por que ainda sentia tanta falta disso.
Girou o corpo na água e nadou de volta. Caminhou pela areia, com a água escorrendo pelo corpo. Depois de torcer o cabelo, sacudiu a areia da toalha de praia e enrolou-se nela.
Caminhou de volta ao albergue e deixou um rastro de areia no corredor em direção ao dormitório de Noah. Não havia previsão de ondas, talvez pudesse passar o dia inteiro com ele. Zani comentara sobre uma enseada deserta a vinte quilômetros da costa que era regularmente visitada pelos golfinhos. Mia achara um link na internet com orientações do percurso até a enseada e planejava fazê-lo com Noah.
Ao bater na porta se imaginou desenrolando a toalha e deitando na cama ao lado do corpo quente dele. Sem resposta, girou a maçaneta e entrou.
O quarto estava vazio e sem os pertences dele, e a cama, desfeita. O sangue pulsou no pescoço dela.
Saiu correndo pelo corredor em direção ao dormitório de Jez. Bateu duas vezes na porta e entrou. Uma fileira de beliches desfeitos emoldurava o ambiente. Engoliu em seco, pensando que haveria uma explicação.
Apertou a toalha no peito, foi para o lado de fora e seguiu o perímetro do albergue que levava à garagem. Entrou em meio à penumbra mofada e se deu um tempo para adaptar os olhos. O galpão estaria vazio se não fosse pela enorme prancha comunitária sem barbatana do albergue.
Mia saiu atrás da caminhonete que estaria na vaga de cascalho debaixo dos eucaliptos.
A camionete de Noah não estava lá.
Saiu correndo de volta em direção ao balcão de recepção.
– Olá, o que aconteceu? – perguntou Karin, a metade alemã do casal que dirigia o lugar.
– Cadê o Noah? Ele estava no quarto 4.
Karin fechou um olho e olhou para o teto com o outro.
– Fechou a conta – disse, abrindo os dois olhos. – E os caras do dormitório 7 também.
– O quê? E quando saíram?
– De manhã cedinho.
– E para onde foram?
– Não faço a menor ideia – respondeu Karin, pegando uma caneca de café e soprando-a para esfriar. – Falaram alguma coisa sobre uma boa previsão. Não estão sempre à procura disso?
– E eles vão voltar?
– Já teriam feito reservas se estivessem pensando em voltar. – Karin puxou um livro de reservas azul com uma das mãos e folheou as páginas casualmente. – Não, o mês que vem está vago.
Ele não podia ter partido. Dois dias antes estavam deitados na relva enquanto ele descrevia os lugares por onde já tinha passado: ilhas sem estradas, ondas que quebravam em florestas, peixes alados, baleias cantantes. E ela se empolgara com essas aventuras e projetara outras em praias franjadas com as pegadas de ambos.
– Alguma mensagem pra mim?
Karin abriu a palma das mãos.
– Sinto muito, querida. Não deixaram nada comigo.
– Mia!
Ela girou o corpo, com renovada esperança. Mas era Finn que chegava, segurando uma torrada que escorria geleia pelo dedo polegar.
– Foi bom o mergulho? – perguntou, lambendo os lados do dedo.
– Noah fechou a conta – ela disse. – Ele foi embora.
Finn olhou fixamente para Mia, que estava com o cabelo molhado e puxado para trás e com os cílios colados em triângulos negros. Ela puxou a ponta da toalha do peito e deixou entrever um rastro seco de água salgada que percorria o colo e o punho.
Até parecia aquela Mia dos anos de adolescência que ele aguardou do lado de fora da sala de aula de matemática para dizer que a BMX dela tinha sido roubada. Ainda se lembrava daquele dia. Ele a viu tão perturbada que depois da escola gastou as economias que tinha para comprar uma velha bicicleta com o aro da roda amassado em uma loja de bicicletas usadas. Passou o fim de semana consertando-a. Raspou a ferrugem, substituiu os grampos dos freios e repintou-a de azul-celeste – a cor que ela mais gostava. Ela chorou de tanto rir quando ganhou a bicicleta de presente no anoitecer do domingo. Resolver aquele problema o tinha gratificado demais, mas não fazia a menor ideia de como resolver esse novo problema.
– Vocês se encontraram? Ele disse alguma coisa pra você?
Uma pequena nota de esperança na voz de Mia arranhou o coração de Finn. Mas o que poderia dizer para ela? Que Noah entrara na cozinha enquanto ele estava fazendo café e disse que estava partindo para Bali? Será que devia contar para ela que ele perguntou “Mia já sabe?”, e que Noah respondeu, “não a encontrei. Pode dizer a ela por mim?”.
A indiferença daquele cara era um insulto. Isso não podia ser dito. Finn preferiu dizer o que acabou dizendo:
– Sinto muito, também não o vi.
Abaixou os olhos.
Antes, porém, olhou as sardas delgadas marcadas no nariz de Mia pelo sol. Morreu de vontade de tomá-la nos braços, mas sabia que não era ele que ela queria.
– Noah partiu para surfar.
Ela mordeu o lábio inferior. Finn não suportaria se ela chorasse.
– Ele devia ter me contado. Não consigo acreditar que fez isso comigo.
Nem eu, Finn pensou.
Fazia semanas que trilhavam a mesma rota de Noah, e observava de longe o romance entre os dois. De noite, mantinha-se acordado no quarto e ouvia o movimento dos outros mochileiros enquanto esperava por ela. Ouvia o clique da porta que se abria e mirava o triângulo de luz que banhava o quarto, até que soavam passadas suaves que atravessavam o linóleo. A silhueta da sombra de Mia subia a escada do beliche e depois ela se mexia na cama de cima, ajeitava travesseiros e lençóis e se acomodava. E a cada noite que ela voltava para o quarto, ele se fazia a mesma pergunta, como é que esse cara a deixa de lado?
Finn se distraía com um grupo de europeus que passava uma temporada em Margaret River. Juntou-se a eles para uma empreitada de quinze dias de colheita de uvas numa vinha local e dobrou o dinheiro em jogos de pôquer com eles à noite. Não era difícil evitar Noah – o cara passava o dia inteiro na água e não saía da praia antes de escurecer.
Certa tarde, Finn se deteve no meio de uma caminhada pela península para assistir às grandes ondas que se quebravam no pontal. Uma camionete estacionou e Noah saiu de dentro. Ele o cumprimentou com um aceno de cabeça e depois pegou a prancha e mergulhou do pontal da península. Finn o observou por alguns minutos. O talento de Noah com as ondas era notório, mas o que o tornava excepcional era o destemor. Finn o admirou por isso enquanto o observava pegando uma onda atrás da outra, e se deu conta de que nunca iria gostar dele. E não simplesmente porque Noah era amado por Mia, mas porque ele não tinha o menor carinho por ela. O cara não conseguia enxergar que era o sujeito mais sortudo do mundo quando retornava da água e a encontrava esperando na praia de braços enlaçados nos joelhos bronzeados e sorrindo para ele. Quando entrava no quarto e ela o olhava, ele nem a beijava nem a abraçava. E quando empacotou a prancha e se mandou para Bali, nem se deu conta do que estava deixando para trás.
Mia deitou-se de barriga para baixo no colchão do beliche e escreveu:
Seis dias. Nenhuma palavra ainda. Amanhã voaremos para Nova Zelândia. Uma parte minha está desesperada para partir, mas a outra parte quer ficar porque a patética verdade é que quero estar aqui se por acaso ele voltar.
Outro casal se mudou para o quarto 4. O sujeito pendura shorts insípidos no parapeito da varanda onde a roupa de Noah secava, e minha vontade é tirá-los dali e esfregá-los na poeira. A namorada me provoca ainda mais raiva: é ela que agora deita na cama de casal e sente o rangido e o movimento das molas debaixo do corpo quando faz amor. Quero jogá-la para fora daquela cama, selar o quarto e impedi-los de atropelar minhas lembranças.
Talvez seja hora de ir para a Nova Zelândia.
Fechou o diário, colocou-o debaixo do travesseiro e depois deitou de barriga para cima, com os olhos perdidos nas rachaduras da pintura do teto. Aos 7 anos costumava descer a escada do beliche para se deitar na cama de baixo, a de Katie, cujo cintilante dossel a fazia se imaginar uma princesa. Mas isso nunca parecia real. Faltavam-lhe os passos graciosos, as inclinações corteses e os trajes maravilhosos, de modo que ela voltava para a cama de cima feliz em ser a exploradora de um céu de estrelas inteirinho para navegar.
A porta abriu-se. Soou um arrastar animado de sandálias de dedo, seguido pelo rangido da armação do beliche enquanto Finn subia os dois lances da escada. Ele inclinou a cabeça pelo lado do beliche e sorriu com os olhos faiscantes.
– Eu tenho um plano.
Mia piscou e precisou de um instante para encontrar a frase certa.
– Do que preciso?
– Só de um saco de dormir.
Ela respirou profundamente e sentou-se na cama.
– Você quer fazer isso?
– Está bem. – Ela se sacudiu para entrar em ação e desceu a escada com um saco de dormir.
Eles saíram do albergue em direção a Reds. Finn seguiu à frente e Mia sentiu-se aliviada sob o sopro da brisa ao ar livre. Os grilos cantavam nas moitas e o ar cheirava a eucalipto. Chegaram ao rochedo ao anoitecer, com uma lanterna iluminando o caminho e os pés descalços grudados nas curvas de giz das rochas.
O vento que soprava na costa enrolou o vestido de verão nas coxas de Mia. Ela soltou o casaco de moletom amarrado à cintura e o vestiu. Eles seguiram em frente até que Finn localizou uma rocha onde cabiam os dois sacos de dormir.
– Ainda não contemplamos o céu da Austrália até agora. Achei que poderíamos fazer isso em nossa última noite aqui.
– Ótimo plano – ela disse, acomodando-se em cima do saco de dormir.
Finn tirou uma garrafa de rum da mochila que tilintou em cima da rocha.
– Realmente, um ótimo plano.
Começaram a beber e a ouvir o estrondo das ondas que quebravam no mar, e de vez em quando contemplavam o amplo céu estrelado. Mia agradecia pelo doce líquido escuro que descia pela garganta e lavava as arestas da tristeza.
Passado algum tempo, ela se deitou de costas na rocha e as costelas se sobressaíram quando fez dos braços travesseiro. Lá no alto, as estrelas piscavam e cintilavam.
– Quantas terão lá em cima?
Finn sorveu um gole de rum e deitou-se ao lado dela.
– Li em algum lugar que há mais estrelas no universo que grãos de areia na Terra.
– Em Londres nunca reparei nas estrelas. São obscurecidas pelas luzes das ruas, pelos faróis dos carros, pela excessiva iluminação dos prédios comerciais e pelo brilho de milhões de casas. – Katie estava em algum lugar de Londres. Lá devia ser de manhã, e ela devia estar à escrivaninha, de cara séria e colada ao computador. – Gostaria que minha irmã visse isso.
Finn apoiou-se nos cotovelos.
– Sente falta dela?
– Às vezes – respondeu Mia, surpreendida por um aperto no coração.
– Vai contar o que soube de Harley para ela?
Mia balançou a cabeça e se deu conta de que já estava tonta com o rum.
– Não quero que saiba que somos meias-irmãs.
– Por quê?
– Isso nos diluiria.
– Como assim?
O álcool sempre encontrava um jeito de romper o canal fechado das emoções, e com isso os sentimentos escoavam em palavras com mais facilidade.
– Mamãe teve um caso. Acha que Katie ficará feliz em saber disso? Isso significa que temos pais diferentes. Isso poderia dividir o que restou da família. – Ela suspirou. – Além do mais, Katie me bombardearia com perguntas sobre Harley.
– E aí?
– E aí eu teria que contar tudo para ela... que ele bebia, que consumia drogas, que às vezes era incomunicável e outras vezes era selvagem e sem controle algum, e que acabou perdendo a confiança dos amigos e da família. E ela acabaria me identificando demais com ele.
– Você precisa esquecer tudo isso, Mia. Você não tem nada a ver com ele.
– Não tenho? – Ela pensou em outra semelhança sombria que partilhava com o pai. – Harley teve um caso com a mulher do irmão.
– Exatamente! E você...
– Transei com Ed.
– O quê? – Finn se pôs de pé. – Quando?
– Um mês e pouco antes de partirmos.
– Você... tomou cuidado com...
– Não!
– Katie sabe?
Mia balançou a cabeça em negativa.
– Vai contar pra ela?
Mia levantou-se; a cabeça girou e ela apertou a testa como se para segurar os pensamentos.
– Ela o ama.
Fez-se uma pausa.
– E por que você fez isso?
– Por raiva.
– Raiva?
– De Katie. De você.
– Mia?
A raiva ferveu dentro dela e borbulhou na garganta.
– Você faz alguma ideia do que significa ter Katie como irmã mais velha? É como estar perpetuamente à sombra. Tudo quanto é cara da escola era apaixonado por Katie. Ela era a popular, a inteligente e a que sempre fazia as escolhas certas.
– Espere aí, isso não é...
– Lembra-se do Frank Hayes dos tempos de escola? Aquele que estava dois anos à nossa frente e que ganhou uma bolsa desportiva para a Ranford Manor?
– Lembro.
– Ficou comigo durante quatro semanas, até que foi lá em casa e ficou babando por Katie. E eu deixei.
Finn não disse nada.
– Você era o único que olhava pra mim antes de olhar pra qualquer outra pessoa quando entrava em algum lugar. – O vento serpenteou do mar e as pontas do cabelo de Mia ondularam. – E de repente lá estava você com minha irmã.
Ele abaixou os olhos até as mãos.
– O meu melhor amigo. A minha irmã. E nenhum dos dois me contou nada. Ficaram calados durante um mês.
– Desculpe, nós não...
– Odiei Katie por isso. Essa é a verdade.
Mia lembrou-se do dia em que se sentou no sofá xadrez da casa depois de receber a notícia de que a mãe estava com câncer. Enquanto ela estava de olhos enxutos, Katie entregava-se a um mar de lágrimas e as enxugava com os lenços de papel que carregava na bolsa. Depois, Finn chegou e se manteve de pé ao lado da lareira, um terceiro canto de um estranho triângulo; ele mexeu o pé para cima e para baixo enquanto ouvia o diagnóstico, e em meio ao silêncio absoluto passeou com os olhos pelas duas irmãs sem saber a quem daria conforto primeiro: se a Katie, com os olhos lacrimejantes, ou a Mia, com os olhos de pedra.
No final, Finn nem precisou escolher: Mia saiu de casa e bateu a porta com tanta força que os quadros tremeram nas paredes.
E agora ele se defrontava de novo com ela.
– Mia, a primeira pessoa que enxergo quando entro em qualquer lugar é sempre você.
O tom da voz era sério e ela podia jurar que ele queria dizer algo mais. Algo bem maior do que ela se permitia ver.
Não era Katie que ele via primeiro. Era ela. Mia então se deu conta de que ele só tinha olhos para ela.
Ela o olhou com um estonteante sentimento de nostalgia, como se ainda estivessem em plena infância e isso pudesse ser alcançado e tocado – como se ela pudesse acariciar os anos de lembranças compartilhadas e usufruir a felicidade simples de outrora.
Ela ouviu o quebrar das ondas e olhou para as estrelas que brilhavam mais acima. O mundo girou e resvalou ao longe, e ela estendeu a mão e o pegou pelo braço, como se para se agarrar em algo sólido e firme. E depois se curvou e colou os lábios nos lábios dele.
– Mia...
O tom da voz dizia tudo por si mesmo – ele queria e sempre imaginara esse beijo. Ela o beijou novamente e dessa vez com mais intensidade, como se quisesse se afundar dentro dele para se conhecer melhor.
Eles se deitaram no saco de dormir com as estrelas como pano de fundo. O cabelo dela se espraiou e roçou nos ombros e no rosto dele. Ela tocou no cós do short dele e ele entrelaçou os dedos com os dela para detê-la.
– Não, Mia. Só se você tiver certeza disso.
Claro que havia o calor do rum por dentro do corpo, mas ela sabia que também havia algo mais entre eles. Ela não sabia o que era; só sabia que queria isso.