Mia estava totalmente imóvel. De costas retesadas, cabelos à frente dos ombros como um lenço negro e pés descalços sobre o apoio de madeira debaixo da mesa do computador. Apenas os olhos se moviam pela tela enquanto lia o e-mail de Finn pela segunda vez.
De repente, piscou os olhos e libertou-se da imobilidade com um rompante. Apressada, empurrou a cadeira para trás, pegou a bolsa e saiu da lan house.
Era uma noite amena e a rua estava repleta de turistas e camelôs balineses que vendiam bugigangas. Meteu-se na corrente de transeuntes de olhos abaixados. Uma roda apertada de ansiedade girava por dentro e a cada passo o e-mail de Finn ganhava impulso e girava nos pensamentos. Alheia ao ritmo das passadas dos próprios pés bronzeados e da delicada corrente de prata que dançava no tornozelo, só tinha olhos para as palavras que ecoavam do cérebro e grudavam por dentro das pálpebras: “Se não tomar cuidado, Mia, pode acabar sozinha, suplicando para saber o que aconteceu com todos que estavam ligados a você. Assim como seu pai.”
A respiração encurtou e não se deixou acompanhar. A poluição do trânsito e a doçura pesada das frutas apodrecidas sufocaram a garganta. Mia desviou-se de um sujeito que passou fumando um cigarro de cravo enjoativo e a calçada pareceu inclinar debaixo dos pés. Esbarrou em um sujeito magro que girava um ioiô no dedo e que arregalou os olhos de curiosidade.
Ela saiu correndo. Era uma rua desigual cujos sulcos profundos atrapalhavam os passos. Passou correndo por um par de olhos felinos que olhou desconfiado do capô de um carro estacionado, contornando vasos de plantas quebrados e sacos de lixo largados. Enfiou-se por uma rua lateral que levava ao albergue e passou zunindo pela entrada, pela recepção e pelo longo corredor escuro.
Só quando chegou ao quarto é que se deteve. O estômago embrulhou e o pulso disparou de ansiedade. E só então se deu conta de que não devia ter entrado e de que não devia ficar sozinha.
Retrocedeu os passos e chegou diante da porta do quarto de Noah. Estava destrancada. Entrou pela escuridão abafada enquanto tentava estabilizar a respiração.
A voz dele soou sonolenta e questionadora.
– Mia?
– Sim. – Ela fechou a porta, com um empurrãozinho de dedos. – Está tudo bem. Volte a dormir – sussurrou enquanto tirava a roupa e se metia na cama ao lado dele. O coração ainda batia descompassado. Se pudesse se encaixar na curva quente do corpo dele, o batimento cardíaco se reduziria ao ritmo do dele.
Mas ela continuou imóvel, os braços dobrados nos lados como asas e os tornozelos levemente encostados na perna dele – Apenas o bastante para uma conexão. Noah murmurou alguma coisa – talvez uma questão ou uma observação. Mia não respondeu. Simplesmente esperou, até que ele respirou raso e retornou às dobras confortáveis do sono. Só então ela suspirou aliviada. O ventilador de teto cortou o ar quente do alto e ela contou as rotações para esvaziar a mente.
Ao chegar às trinta e duas rotações, o e-mail de Finn cravou-lhe na mente com raízes profundas. Ela o imaginou digitando a mensagem à luz esmaecida da tela do computador e sangrando de calor pelos olhos. Escolhia as palavras de maneira premeditada a fim de estripá-la até os ossos e enunciar o que ela mais temia: acabar igual ao pai.
Mia sentiu o gosto amargo e verdadeiro da advertência de Finn. Sentiu uma simetria entre a vida que levava e a vida que Harley também levava. Isso corria nas veias dela como sangue. Ela também era prisioneira de uma espiral de autodestruição que a afastava de si mesma e das pessoas que a amavam, tal como o pai. Mordeu o lábio e pensou no sofrimento que causara a Finn. Era uma crueldade abandoná-lo por Noah e imperdoável enganá-lo com a mentira de que estava de volta. Ela queria se colocar cara a cara com Finn e dizer que estava muito arrependida. Mas sabia que era tarde demais para isso. O tráfego, as vozes da rua e o ritmo das ondas que quebravam ao longe entraram pela janela aberta.
Mia não soube estimar o tempo que passou depois que caiu no sono, mas acordou com um forte golpe no peito e caiu da cama sem fôlego. Noah se debatia com a força de um atleta, como um animal encurralado debaixo do lençol.
– Noah!
Seguiu-se uma sequência de murmúrios ininteligíveis enquanto ele se contorcia aprisionado nas garras de um pesadelo.
Ela procurou o interruptor de luz na parede. Acendeu a lâmpada fluorescente e piscou os olhos, protegendo-se da luminosidade.
Ele acordou agitado e arrancou o lençol. Levantou-se e saiu cambaleando. O corpo estava empapado de suor e ele respirava com dificuldade. Até que girou o corpo de olhos arregalados e assustados.
– O que foi que eu fiz?
Ela estava encostada na parede como uma lagartixa.
– Você teve um pesadelo.
– Por acaso machuquei você?
Ela estava com uma dor forte no peito pelo golpe recebido.
– Não. Estou bem.
– O que está fazendo aqui? Não devia estar aqui. – Ele girou o corpo de novo e se dirigiu à janela. Apoiou-se com as palmas das mãos nas extremidades do vidro, como um prisioneiro desesperado prestes a fugir. Já não estava com o curativo na parte superior das costas e o ferimento agora estava rosado e molhado.
Ela cruzou o quarto em passos lentos e apoiou as mãos por cima da suave fenda das nádegas dele. A pele estava em fogo.
– Noah? – disse, mas ele nem se virou, ainda agarrava-se à trama do pesadelo. Ela pensou a respeito das objeções que ele fazia quanto a passar a noite com ele. – Isso acontece muitas vezes, não é?
Ele trincou os dentes e ela pôde ver, pelo reflexo na janela, que também estava de olhos apertados. Algo extremamente vulnerável acompanhava aquela trilha fina de sangue que vertia do ferimento. Ela pousou a mão no antebraço dele e passeou os dedos de um lado para o outro, seguindo as bordas escuras da tatuagem.
– Está tudo bem – ela disse baixinho.
O gesto o desarmou. Ele abaixou a cabeça, os ombros trêmulos.
– Oh, Noah. – Ela o enlaçou pela cintura e o tomou nos braços, colando-se no suor frio que escorria da pele dele. Foi assustador vê-lo daquela maneira. – O que aconteceu no pesadelo?
Ele retesou o corpo.
– Noah?
Ele não respondeu.
– Foi com Johnny, não foi?
Ele se afastou.
– Converse comigo.
Ele não disse nada e ela se deu conta de que eles eram muito semelhantes, suportavam o peso da própria dor à parte. Mas poderiam se ajudar mutuamente.
– Já sei que você perdeu seu irmão. Fale-me dele. Eu quero ajudar.
– Por favor, vai embora.
– O quê?
– Não consigo lidar com isso.
– Noah, eu só quero...
Mas ele já tinha cruzado o quarto e apanhado as roupas de Mia.
– O que está fazendo? – ela perguntou. A ansiedade pulsou como um beijo sombrio no peito. – Noah, por favor...
– Você está forçando a barra, Mia. Tentando entrar na minha cabeça. Não posso fazer isso. Nunca deveria ter começado isso. Foi um erro. Lamento, Mia, mas foi um erro.
Ele entregou as roupas. Ela se vestiu e, ao se virar, notou que a mochila dele estava toda arrumada e encostada na escrivaninha.
– Você está indo embora?
– Estou.
– Quando?
– Amanhã.
– Ia me contar?
Ele a olhou com olhos escuros que ocultavam segredos e abriu a porta para o corredor.
Ela saiu do quarto.
– Sinto muito. – Foi tudo que ele disse.