Juntos, leram o restante das páginas do diário. Foi um pedido de Katie para Finn – ela não enfrentaria a leitura sozinha. Sentaram-se na beira da cama do hotel, separados por um centímetro, assentaram as solas dos pés limpas no piso de madeira polida e curvaram a cabeça em direção ao diário.
A lâmpada do abajur projetou um brilho quente e alaranjado nas páginas, clareando os traços precisos e as curvas meticulosas da caligrafia de Mia. Entraram fundo nos relatos finais e Finn retesou as costas quando leu a reação de Mia ao e-mail: “É verdade o que Finn escreveu – simplesmente nunca percebi que ele também via isso.” Ficaram sabendo dos violentos pesadelos de Noah e da decisão de Mia de telefonar para Katie – mas sobre o telefonema derradeiro, nenhuma palavra escrita.
Katie prendeu a ponta do espesso papel creme entre o dedo polegar e o indicador e o virou.
– É isso? – perguntou Finn.
– Sim. – O último relato. Preenchia apenas um lado da página dupla. Ela já tinha visto aquela página uma vez em Londres: era um esboço da cabeça de uma mulher, com um emaranhado de outros desenhos por dentro. Pôs a página sob a luz para ver as diminutas imagens com mais clareza.
– Entende o que querem dizer?
Ela não tinha entendido o desenho quando o viu pela primeira vez alguns meses antes. Mas agora observava mais a fundo e as imagens começavam a fazer sentido. O desenho de um antebraço tatuado com uma onda. As duas figuras agarradas em um corredor. Uma forca com seis traços minúsculos em branco, iniciando com a letra H maiúscula. As estrelas despencando do céu como rochas flamejantes. A mão que segura um passaporte com força. Um rosto cujos lábios soltam um grito pingando sangue. Um telefone pendurado por um fio.
Katie passou os olhos atentamente ao longo de cada desenho, como se para preservar as imagens. A poucos centímetros da base do desenho, notou três palavras escritas por Mia em letras miúdas: “Como eu sou.”
Ela engoliu em seco.
– É assim que Mia se via.
Arrastou o dedo polegar pela página até o centro do diário. Faltava a página ao lado, e ela tocou na borda áspera que restara.
– Por que essa página perdida? – perguntou Finn.
– Não sei. – Ela já tinha pensado nisso e se perguntado se ali havia outro desenho ou se Mia simplesmente cometera um erro e arrancara a página. Em outros momentos mais sombrios, chegou a considerar que Mia teria escrito uma nota de suicídio e depois removido, e que por isso mesmo o bilhete nunca tinha sido encontrado.
Katie então se deu conta de que algumas perguntas jamais seriam respondidas.
– É isso aí – ele disse. – Fim do diário.
Ela balançou a cabeça.
– Como se sente?
Ela estava com as palmas das mãos úmidas e o corpo enrijecido pela tensão do que tinha nas mãos. Já tinha lido tudo de cabo a rabo e agora se sentia vazia. Uma brisa entrou pelo quarto e levantou a margem da página. Ela olhou de novo para a trama sombria de imagens.
– Eu não estava com você para ajudá-la. Não quando isso realmente importava.
Folheou o diário e a foto rasgada de Mia montada no cavalo-marinho do parque soltou-se. Observou Mia: 8 anos, rostinho corado pelo sol da primavera, feições iluminadas, carinhosa, ávida de vida. Sua irmã do mar.
– Eu também estava nesta fotografia – disse.
Finn pegou a foto e deixou-a na palma da mão.
– Não sei quando me rasgou. Talvez depois de nossa briga. Talvez meses antes.
– Katie – ele disse suavemente –, ela sabia que você a amava.
Mas o amor por Mia não era sempre marcado por uma pitada de ódio?
– Eu tinha ciúmes da minha irmã. Ela era corajosa, destemida e amante da paz, e nunca ligava para o que pensavam dela. Eu sempre quis ser parecida com ela. – Katie olhou fixamente para ele. – E eu também tinha ciúmes da amizade entre vocês.
Ele arregalou os olhos.
– Tinha mesmo?
– Nós duas éramos muito chegadas quando meninas. Juntas, fazíamos de tudo. Talvez você não saiba, mas eu é que ensinei Mia a nadar.
– Sério?
– Depois da escola, pedalávamos até a praia quando o tempo estava bom. Nadávamos na baía enquanto mamãe ficava lendo. Mia nunca reclamava da água fria e nunca se assustava quando o mar estava agitado. Ela não tinha medo da água.
– Acredito.
– Já lhe falei que quase me afoguei em Porthcray?
– Falou.
– Foi Mia quem me salvou.
– Como foi?
– Ela queria nadar até uma boia que marcava uma criação de lagosta a uns 900 metros da praia. Ela só tinha 11 anos. Falei que era muito longe, mesmo assim ela nadou até a boia e fez a empreitada parecer muito fácil. Quando retornou e subiu nas rochas, decidi também nadar até lá.
– Por quê?
– Talvez para provar a mim mesma que também podia. É uma sensação estranha ser a irmã mais velha e de repente perceber que a irmã mais nova é quase tão alta quanto você e não precisa mais de uma cabeça de vantagem para uma corrida ao longo da praia. Eu não queria ficar para trás. – Katie alisou o cabelo atrás das orelhas e continuou: – Então, nadei até a boia. Cheguei lá numa boa, mas a maré virou quando eu estava de volta à praia. Você sabe como é a água de Porthcray... Quando corre mar adentro carrega as correntes junto. Fui estúpida e tentei nadar contra a corrente. Mas acabei sendo arrastada cada vez mais para fora. – Lembrou-se da corrente enrolando-se e apertando os músculos e das cãibras nas panturrilhas. Às vezes ainda sonhava com isso e acordava encharcada de suor.
– Mia viu tudo lá das rochas. Pegou uma velha prancha de windsurf que usávamos para brincar na beira da praia e a empurrou pela água rasa, e depois se deitou em cima e remou em minha direção. Se não fosse ela, sinceramente acho que teria me afogado. Lembro que deitei de barriga sobre a prancha e me agarrei nela. Mia comentou: “Era uma corrente. Não se pode nadar contra a corrente.” Era uma das primeiras lições sobre o mar que eu mesma tinha ensinado a ela.
Katie suspirou.
– Nunca agradeci a Mia. Talvez tenha me sentido humilhada. Sei lá. Só sei que depois deixei de ir à praia e de passar o tempo com ela. Não sei como explicar, mas era como se alguma coisa tivesse mudado entre nós. Lembro que Mia entrou na escola secundária na semana seguinte. Nem sequer sentei ao lado dela no ônibus no primeiro dia de aula. – Ela olhou nos olhos de Finn. – Foi você quem preencheu esse lugar vazio. Lembra?
Ele aquiesceu com a cabeça.
– Vocês dois se ligaram no momento em que você pisou naquele ônibus. Isso era visível. Ela já não precisava mais de mim.
– Precisava, sim. Mia adorava você.
Katie sorriu.
– Eu era a chata, a segura... lembra?
– Isso é em que você quer acreditar, mas não é assim que vejo. Você diz que Mia era destemida e ousada. E quanto a você? Você saiu de casa e fez uma nova vida em Londres enquanto Mia continuava na Cornualha. E agora você está viajando pelo mundo. Vocês duas não eram tão diferentes como você pensa.
Ela ouviu a própria respiração.
– Fomos tão terríveis uma com a outra...
– Vocês eram irmãs.
O tempo verbal no passado – “eram” – deteve os pensamentos de Katie. Ela nunca mais seria irmã.
Nunca mais.
Nunca mais dançaria com Mia, descalças na sala. Nunca mais boiaria no mar, ouvindo canções de sereias junto com Mia. Nunca mais teria Mia nos braços. Nunca mais sentiria o doce perfume de jasmim de Mia. Katie se deu conta de que ao perdê-la também perdera parte de si mesma.
– Achei que teríamos mais tempo... Achei que as coisas entre nós amadureceriam ao longo dos anos. Nutria a ridícula fantasia de que um dia voltaria para a Cornualha e teríamos casas uma ao lado da outra. Cheguei a achar que criaríamos nossos filhos juntos. Mia dizia que não queria filhos, mas eu a via com três capetinhas de cabelos negros que corriam descalços pela casa e faziam a maior bagunça. – Ela fez uma pausa, engolindo um nódulo duro na garganta. – Nós perdemos muito tempo.
Katie chegava ao fim da jornada de Mia, sem nenhum lugar para onde ir. Cabia a ela decidir a verdade sobre o que tinha acontecido. A palavra “suicídio” ainda vibrava nos pensamentos como uma mariposa a ser espantada. As asas da mariposa se abriam e se roçavam empoeiradas no coração. Será que não era preciso pressionar o consulado britânico a fazer mais investigações se de fato acreditava que Mia não tinha pulado do penhasco? Não teria que se valer de todos os recursos e contatos disponíveis para descobrir a verdade dos acontecimentos na noite da morte de Mia? Talvez ainda não tivesse feito nada disso porque no fundo acreditava na possibilidade de suicídio.
– Finn, eu preciso que me responda uma coisa. Ainda não lhe fiz essa pergunta, mas agora preciso fazer. E preciso de uma resposta honesta. – Ela tomou fôlego. – Você acha que Mia se suicidou?
– Nenhum de nós pode saber isso com certeza...
– Mas temos opiniões baseadas em algum conhecimento. E preciso saber o que você pensa. Você viajou com ela e a conhecia como ninguém mais. Era o melhor amigo dela. Preciso saber se você acha que Mia se matou.
Finn se levantou e se dirigiu à varanda.
Katie deixou o diário de lado e o seguiu. A lua brilhava no meio do céu, banhando a terra com luz fria e prateada. O vento soprava forte e ela se enlaçou pelo peito.
Ele enfiou as mãos nos bolsos.
– Você realmente quer saber? – disse.
– Preciso saber.
– Não acreditei quando soube que Mia tinha morrido. Pelo que conhecia dela, achava impossível que tivesse pulado. – Ele balançou a cabeça em negativa. – Mas havia Harley. Ela ficou chocada quando soube do suicídio dele. Era como se a morte dele a tivesse jogado em um curso inalterável. E o meu e-mail agravou isso.
Ele chutou levemente a base da grade da varanda.
– Passei a entender muito mais sobre Mia depois que cheguei a Bali e conversamos. Acho que ela se sentiu deixada de lado por todos de quem mais gostava... Grace, Noah, você, eu. E aquela foto no diário. – Ele suspirou, cuspindo o ar pelos lábios. – Acho que deixou de gostar até de si mesma. Prefiro acreditar que não pulou, porque do contrário eu teria falhado com ela.
Katie agarrou-se com força ao corrimão da grade da varanda, deixando os pequenos ossos das mãos à vista. Olhou para ele, cujas feições eram definidas pelo mesmo luar que deixavam os olhos à sombra.
– Sinto muito, Katie. Mas acho que Mia se suicidou.
O chão pareceu ondular e inclinar, como se ela estivesse de pé na proa de um barco. Por meses a fio procurara respostas. E agora a esperança e a tensão que a consumiam a cada dia da viagem se desvendavam vertiginosamente. Desprendeu os dedos do corrimão à medida que as pernas bambearam.
Sentiu-se conduzida pelas mãos de Finn até uma cadeira. Sentiu que uma almofada afundava debaixo e ouviu o arranhão de outra cadeira sendo puxada para o lado. Ele acreditava que Mia se suicidara.
E de repente ela própria também acreditou.
Soluços desesperados de dor escaparam pela garganta afora. Seguiu-se a aparição de Mia à beira do penhasco, à beira de uma decisão. Estava de pés descalços, os ombros puxados para trás e os olhos verdes cintilando de medo. Sem bilhete porque talvez ainda não tivesse decidido fazer o que fez. E enquanto estava à beira do penhasco, talvez tivesse ouvido os sussurros solitários do vento e se lembrado das palavras silvadas de Katie... E deu um passo à frente.
– Foi minha culpa! – gritou Katie compulsivamente.
– Katie – disse Finn em tom firme, pegando-a pelas duas mãos e apertando-as até forçá-la a olhar para cima. – Nenhum de nós jamais saberá plenamente as razões de Mia. Foi uma escolha dela. Não foi culpa sua. Entendeu? Não foi culpa de ninguém.
Ela engoliu as lágrimas e balançou a cabeça.
– Superaremos isso, juntos.
Ela concentrou-se nessa última palavra, como uma ilha em mar solitário. E depois o procurou com a boca e agarrou-se a ele. Sentiu o gosto salgado das lágrimas no encontro dos lábios que se beijaram, e acalmou-se. Precisava se agarrar firme nele para não se afogar.
Sentiu ar fresco nos lábios quando ele se pôs de testa a testa com ela.
– Sinto muito – ele disse. – Não posso fazer isso.
Ela afastou-se e cobriu o rosto com as mãos.
– Não é o momento certo. As coisas...
– Por favor. Não se explique. – Ela não suportaria discutir o assunto. Levantou-se abruptamente. – Vou tomar um banho e ir pra cama.
– Não faça isso. Não torne as coisas estranhas entre nós. Cristo, nós passamos por tantas coisas. Não posso beijá-la, Katie, simplesmente porque não sabemos o que estamos sentindo.
– Eu sei – ela disse calmamente.
– Tudo bem. Então, vamos apenas...
– Não, faço questão de dizer que sei o que estou sentindo. Eu sempre soube.
Nada a impedia de ser honesta. Nem que fosse para mascarar que se sentia patética depois da conversa que acabavam de ter.
– Eu te amo.
Finn arregalou os olhos, pego de surpresa pela declaração.
– Mas você rompeu...
– Com você. Pois é.
– Por quê?
– Mia.
Ele franziu a testa.
– Precisava de você mais do que eu.
– Mas pensei... você disse que tudo não tinha passado de mera diversão.
– Eu tinha que dizer alguma coisa. – Ela ajeitou o cabelo atrás das orelhas, e olhou no fundo dos olhos dele. – Eu estava apaixonada por você. E ainda estou.
– Não sei o que dizer.
Isso foi um soco no estômago. Já não tinha dito tudo que podia dizer?
– Gostaria de ficar sozinha.
– Não vamos...
– Por favor.
Ele considerou o pedido em silêncio por um segundo.
– Se é do que você precisa. Podemos continuar conversando de manhã.
– Está bem.
Os dois atravessaram a sala em direção à porta.
Katie abriu a porta e Finn entrou no corredor.
– Nos veremos então no café da manhã?
– Sim – ela disse, desenhando um sorriso para tranquilizá-lo. Mas não tinha a intenção de aparecer.