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Em 1521, o soldado espanhol Cortés liderou seiscentas tropas em um cerco para dominar a capital dos astecas. O México e os vastos domínios dos indígenas dos arredores caíram todos aos pés da Espanha. Dez anos depois, um índio ignorante e comum que morava em Tepeyac, Juan Diego, converteu­-se ao catolicismo. Depois da missa, certa manhã bem cedo, ele ouviu alguém chamar seu nome do alto do monte de Tepeyac. Subiu até lá, onde soava uma linda música e uma mulher trajada com roupas esplêndidas e irradiando todas as cores do arco­-íris aguardava por ele. Essa mulher misteriosa, de pele morena e cabelos negros, disse a Juan Diego: “Construa uma igreja neste local”. Juan Diego não duvidou nem sequer um instante de que aquela mulher, a verdadeira imagem de uma índia asteca, era a manifestação divina da Santa Virgem Maria. Correu morro abaixo e transmitiu a ordem da Santa Mãe ao bispo Juan de Zumárraga. Contudo, o bispo recusou­-se a acreditar que o que havia aparecido diante dos olhos de um homem daquele povo ignorante que fora conquistado dez anos antes pelos espanhóis e que até então havia se devotado aos sacrifícios humanos — ainda por cima um homem completamente sem importância daquele povo — pudesse ser a Santa Virgem. Sem falar que ela havia aparecido com pele morena! Então a Santa Virgem era indígena, por acaso? Ele ignorou a mensagem.

Desapontado, Juan Diego voltou para casa e, no caminho, encontrou a mesma mulher. Quando contou a ela sobre a descrença do bispo, Santa Maria disse que lhe daria um sinal definitivo e que ele deveria subir ao alto do morro no dia seguinte. Porém, aguardando por ele em casa estava seu tio, jazendo de febre. Na manhã seguinte, depois de muito hesitar, aquele homem de coração bom foi procurar um padre que pudesse fazer a extrema-unção para seu tio em vez de subir ao morro para encontrar Nossa Senhora. Porém, a misteriosa mulher aguardava por Juan Diego em um beco. Ela lhe disse para não se preocupar, que seu tio se curaria e que ele deveria levar o sinal dela para o bispo. Ao dizer isso, encheu o tilma (uma vestimenta tradicional dos índios, semelhante a um xale) de Juan Diego com rosas. Ali não existia uma única roseira, e além do mais era dezembro. Animado, Juan Diego levou as rosas até o bispo. Quando ele lhe entregou o tilma cheio de rosas, o bispo ficou em choque, caiu de joelhos e se curvou. A imagem da mulher que havia aparecido diante de Juan Diego, a Nossa Senhora morena, estava impressa no tilma como uma foto.

Enquanto Juan Diego estava com o bispo, a mulher misteriosa apareceu para o tio dele, curou sua doença e deu­-lhe instruções de que deveria ser chamada de Nossa Senhora de Guadalupe. Os índios ficaram maravilhados com aquele acontecimento e, nos oito anos seguintes, mais de oito milhões deles se converteram ao catolicismo. Chamavam­-na de Tonantzin — Nossa Senhora. Era o nascimento de uma nova santa.

Três anos depois desse milagre, Ignacio de Loyola, que na juventude fora um soldado de guerra e se tornara um contrarreformista zeloso após ser ferido em uma batalha contra a França, fundou a Companhia de Jesus. Aos olhos desse apóstolo ambicioso, que resolvera expulsar os protestantes e expandir à força o poderio do catolicismo, o Novo Mundo era o lugar ideal para levar a cabo seus ideais. Treinou como soldados do papa jovens cujo julgamento estava nublado pelo ouro e pela prata que brotavam das Américas, jovens que tinham energia e paixão abundantes (os mais parecidos consigo mesmo quando jovem) e jovens que não cogitavam reformar o sistema religioso herdado de seus pais. Ignacio enviou esses jovens para a Ásia, a África e o Novo Mundo.

José Velásquez foi um deles. Enviado ao México como padre jesuíta, não se emocionou com a aparição de Nossa Senhora de Guadalupe. Na verdade, desde o início não acreditou nesse milagre. Pensar que a Santa Virgem surgiria na forma de uma índia medíocre! Na visão dele, o bispo Juan de Zumárraga era um homem surpreendentemente realista e inteligente que havia imitado a história de Tomás na Bíblia, o apóstolo descrente. Tratava-se, obviamente, de uma paródia da cena em que Jesus conta a Tomás que, se este duvidava de sua ressurreição, deveria colocar a mão no lado do corpo dele, de Jesus. A transformação da descrença em crença, mais o milagre, eram o suficiente para iludir os índios tolos. O primeiro bispo do México devolvera aos indígenas sua mãe perdida. Nossa Senhora de Guadalupe estava também muito bem inserida na tradição do culto à deusa da Península Ibérica. Milagres e ícones... não eram esses os dois verdadeiros pilares que apoiavam o catolicismo? Se não fosse por eles, essa antiga religião do Velho Mundo não teria durado muito tempo.

José Velásquez amava o México de modo diferente do bispo. O México não gostava do seu modo de amar, mas pelo menos o amor dele jamais arrefeceu. Velásquez rapidamente compreendeu que Nossa Senhora de Guadalupe, que os indígenas insistiam em chamar de Tonantzin, era bastante diferente da Nossa Senhora que ele conhecia. A maioria dos índios demonstrava interesse em conversar sobre a Virgem Maria, mas não se interessava pelas doutrinas fundamentais, como a Santíssima Trindade. Entendiam tudo de um modo ligeiramente diferente. Ou seja, viravam tudo de cabeça para baixo. Teimavam em enxergar os discípulos de Jesus e os santos como deuses independentes. Para eles, Nossa Senhora era uma deusa, e Jesus, meramente o seu filho. Além disso, emprestavam um significado grande demais à morte desse filho. Gostavam de esculpir imagens dele deitado em um caixão ou pregado na cruz, sangrando. Sempre acrescentavam automutilações severas e penitências horrendas aos rituais da Igreja, transformando­-os em cerimônias complexas e solenes ao estilo gótico e semelhantes ao antigo sistema asteca de sacrifício humano. José Velásquez passava muito tempo tentando convencê­-los de que não precisavam celebrar o dia santo em que Jesus carregava a cruz até o alto do morro enfiando pregos em suas próprias mãos nem se pendurando em cruzes. Ele foi obrigado a admitir que seu chamado era para combater o xamanismo tradicional dos índios astecas. Quando tomou consciência desse chamado, percebeu que havia adversários demais ao seu redor. Em todas as tribos, os magos curavam os doentes e presidiam rituais. Somente aos domingos os índios sucumbiam à influência da Igreja, no entanto a maioria continuava fiel aos xamãs da tribo. Havia muitos ídolos e totens que José precisava destruir. O costume atávico de consumir bebidas tóxicas, como aquelas à base de cogumelo agárico das moscas, para mergulhar toda a tribo em um transe era mais forte do que nunca. Primeiro o mago bebia a infusão, e, depois que entrava em transe, a pessoa seguinte bebia a urina dele e também entrava em transe. A bebida à base de cogumelo se tornava mais potente depois de ser filtrada pelo corpo. Após passar por três corpos, levava toda a tribo a um êxtase intenso. Nesse processo, os índios diziam haver encontrado o Pai, o Filho e o Espírito Santo, mas na verdade o que viam muitas vezes era um grande dragão, ou cultuavam uma serpente com penas.

A fim de combater de modo efetivo aquela religião antiga, José abdicou de suas obrigações de padre e organizou um exército mais forte do que o dos jesuítas. Invadiu vilarejos indígenas, destruindo ídolos e queimando­-os. Assassinou pessoas tomadas pelo êxtase, ainda que estivessem indefesas como estavam, e levantou cruzes vermelhas. Seu nome inspirou o terror nos platôs mexicanos. Mesmo em meio às inúmeras batalhas e à ameaça de assassinato, viveu até a idade de noventa anos, e no final morreu de modo pacífico em seu próprio leito. Jamais se casou oficialmente, mas deixou para trás inúmeros filhos ilegítimos, que se devotaram em conjunto ao movimento da Contrarreforma e à conversão dos índios. Eles também tiveram muitos filhos. Com o tempo, o zelo violento de José Velásquez se diluiu enormemente, mas de vez em quando ainda surgiam escravos de sua fé fanática.

Ignacio Velásquez poderia ser considerado adequadamente uma prova do atavismo. Proprietário tanto da fazenda Bela Vista quanto de um pequeno banco, levantou­-se às cinco da manhã e seguiu até uma saleta de orações situada a um canto da sua casa. Ajoelhou­-se sobre uma tábua de madeira preparada para este fim e, como sempre, ofereceu suas orações matinais mais sinceras. Então, com todo o cuidado, limpou os rifles pendurados na parede de sua sala com um oleado. Era a única coisa que ele não deixava seus servos fazerem. Aqueles rifles eram uma espécie de legado que comprovava que Ignacio era filho legítimo de José Velásquez. Ele havia brigado com os numerosos descendentes de José e reclamado os rifles para si. Eram um registro da história da luta da sua família contra a idolatria sem sentido e contra o satanismo do Yucatán. Seu coração se encheu de emoção enquanto ele limpava os canos repletos de marcas, e mais de uma vez ele precisou se acalmar. Depois que terminou de polir os rifles, montou em seu cavalo e rodeou a fazenda. Havia muito tempo que não fazia isso. Rumou em direção às habitações dos coreanos que ele contratara meio ano atrás. Havia dois anos que ele vencera na base do chicote os maias da fazenda, que haviam pintado as cabeças de ídolos de pedra com seiva, feito um pequeno círculo de pedrinhas, queimado incenso e dançado ao redor daquele círculo. Ao fim de tudo, não só os maias iam à missa na igreja todo domingo como também pararam com suas atividades noturnas suspeitas. Entretanto, ele não tinha ideia do que os cerca de cinquenta coreanos recém­-chegados podiam estar fazendo. Havia ouvido falar que alguns eram protestantes (é claro que esses também seriam alvos de conversão) e dizia­-se que um deles (graças ao Senhor por Sua misericórdia ter sido derramada até mesmo naquele fim de mundo) era católico. O resto não se sabia. Portanto, era apenas natural que aquele descendente de padre apóstata, que acreditava no dever sagrado da sua família de obliterar a superstição, decidisse converter todos os coreanos de sua fazenda.

Olhou ao redor das pajas dos coreanos, que estavam agora trabalhando nos campos. À primeira vista, não avistou nenhum ídolo. Panelas, chaleiras, roupas imundas e um fedor horrendo foram as únicas coisas encontradas. Mesmo assim, alguma religião eles deviam ter. Levantou o nariz e inspecionou as pajas uma a uma. Finalmente, na última ele encontrou um altarzinho inscrito com letras estranhas e o retrato de um homem de chapéu desenhado em cores em um papel. Continuou procurando, mas não descobriu mais nada, além de umas poucas imagens esculpidas em madeira. Depois de descobrir que alguns coreanos cultuavam ídolos, Ignacio ficou perdido em pensamentos por algum tempo, porém o cheiro era tão ruim, que ele não conseguiu mais permanecer ali e voltou direto para casa. Os ídolos dos coreanos eram completamente diferentes dos ídolos maias. As letras pareciam chinesas e estavam grafadas em vermelho, a cor do demônio. Mais uma vez ele ouviu o som do seu sangue, ordenando que ele agisse.

Chamou o capataz e o intérprete coreano e disse:

— Deste domingo em diante, todos os coreanos devem ir à missa. Em troca, não terão de trabalhar nos domingos. O México é um país católico, portanto o ato de cultuar e servir ídolos é proibido. — Era mentira. Havia muitos católicos no México, mas o país não era uma teocracia. — Do mesmo modo, que eles saibam que se mantiverem ídolos em suas casas ou cultuarem superstições, serão expulsos sem receber um único peso. Caso se convertam e se batizem, vou aumentar o salário.

O intérprete Gwon Yongjun, que tinha sido convocado à fazenda Buena Vista, transmitiu as intenções do fazendeiro para os coreanos. A maioria recebeu de bom grado aquela notícia. Não teriam de trabalhar se fossem à igreja e ficassem sentados por algum tempo, o que não era nada assim tão difícil de fazer. Alguns disseram que iriam estudar as doutrinas e se batizar. Seu pagamento seria aumentado em um décimo, e eles poderiam talvez até descansar um pouco enquanto aprendiam a doutrina. Contudo, apenas o padre Paul entendeu exatamente o que o fazendeiro quis dizer com não cultuar ídolos. Quando o padre Paul ouviu o que Gwon Yongjun tinha a dizer, virou­-se para o xamã e lhe disse amargamente:

— Acho que você terá de tirar as coisas que estão na nossa sala.

O xamã olhou para ele, surpreso:

— Sr. Bak, o que elas têm a ver com o fazendeiro?

— O deus dessa religião é muito ciumento e não gosta que seus seguidores acreditem em outros deuses.

O xamã retrucou:

— Meu deus e o deus dele são diferentes. E se eu não quiser servir o deus dele?

O padre Paul raspou o chão com o pé.

— Não importa, é nisso que ele acredita. Sua religião não olha com bons olhos o nosso culto ancestral, e este fazendeiro parece ser um crente até a medula. Tome cuidado.

O xamã pareceu de início preocupado, mas depois logo assumiu uma atitude de indiferença.

— Não vou atirar uma maldição em ninguém, então o que pode dar errado? Mas me diga uma coisa, você não era católico?

No domingo, os coreanos vestiram suas roupas mais limpas e foram assistir à missa em um lugarzinho preparado para isso, na fazenda. Um padre de Mérida veio a cavalo para celebrar a missa. O fazendeiro e os capatazes se sentaram em bancos de igreja feitos de mogno em Belize, mas os trabalhadores coreanos e maias se sentaram no chão para escutar o latim incompreensível. Levantaram­-se e sentaram­-se algumas vezes e depois a missa acabou, e então o fazendeiro mandou abrir melancias. As crianças ficaram animadas por comer melancia depois de tanto tempo e começaram a correr pela fazenda.

O coração do padre Paul sofreu ao ouvir o latim e os hinos. Kyrie Eleison. Senhor, tenha piedade de nós. Observou o padre branco recitar as preces em latim e se lembrou de como ele celebrara a missa na Coreia. Talvez eu jamais fique de pé em um altar. Já nem me lembro direito de como é. Porém, quando chegou a hora da eucaristia, ele sentiu uma tentação forte de aceitá­-la. Não fez isso, contudo. Provavelmente nenhum padre mexicano ofereceria a eucaristia a um estrangeiro com roupas imundas. E todos achariam difícil de acreditar que ele um dia foi padre.

Choe Seongil havia olhado tudo sem expressão e sem dizer nem uma palavra toda a manhã, mas foi incapaz de resistir aos apelos dos capatazes e ir ao local onde estava sendo celebrada a missa. Olhara sem dizer nada o padre mexicano de pé no altar até quase o final da cerimônia, mas então se levantou de um salto e correu para frente. O bem­-vestido Gwon Yongjun e um jovem coreano, Yi Jinu, também se levantaram de um salto. Gwon Yongjun e os capatazes correram em direção a Choe Seongil, mas ele já havia fugido pela plataforma. Então se ajoelhou na frente da cruz, imolou seu corpo e gritou em uivos, como se estivesse louco. Não era nem coreano, nem espanhol, e sim uma língua estranha. Os capatazes, feitores e Gwon Yongjun tentaram levantá­-lo, mas Choe Seongil resistiu com uma força de meter medo. Lágrimas desciam pelo seu rosto e ele gritava com o padre.

O fazendeiro se levantou e fez o sinal da cruz. Depois se aproximou do padre e lhe sussurrou alguma coisa. Disse aos feitores e capatazes que deixassem Choe Seongil em paz e declarou:

— Aqueles que estavam possuídos pelos demônios se aproximaram de nosso Senhor e gritaram: “Filho de Deus, por que veio interferir em nossos assuntos? Veio nos atormentar antes de chegar a hora?” E ele os enviou para um bando de porcos. E esse bando de porcos desceu uma encosta e se afogou no mar. Este camarada é apenas um deles.

Quando o fazendeiro olhou de soslaio para o padre, o padre umedeceu a escova com água-benta e borrifou­-a sobre Choe Seongil. Choe Seongil se contorceu como se lhe tivessem borrifado ácido, depois espumou pela boca e desabou no chão.

— Isso não é um ataque de epilepsia? — perguntaram os coreanos, inclinando a cabeça, mas o fazendeiro e o padre assumiram ar solene.

— Em nome de Jesus, que você seja salvo!

O padre continuou aspergindo água-benta sobre Choe Seongil, depois derramou copos e mais copos de água-benta sobre ele. Só então Choe Seongil abriu os olhos inchados, como se tivesse acabado de despertar de um sonho. Olhou ao redor como se quisesse descobrir onde estava. Ignacio o abraçou de modo exagerado.

Ignacio, que acreditava que eles haviam expulsado o demônio com água-benta e orações, mais uma vez tomou consciência do nobre chamado que lhe havia sido confiado. Depois da missa, Choe Seongil almoçou com o fazendeiro na sua casa. Foi um banquete suntuoso que parecia um sonho. Porco ensopado à moda do Yucatán, com feijão­-preto, coentro, cebola e tomate, e sopa de lima, preparada com limão e cebola, esperavam por ele. Comeu como um glutão. Gwon Yongjun, que estava sentado ao seu lado, transmitiu as palavras do fazendeiro.

— Sr. Choe. O fazendeiro acredita que expulsou um espírito do seu corpo.

Choe Seongil balançou a cabeça e expressou seus agradecimentos.

— Agora que você falou isso, lembrei que me disseram que havia um velho sentado sobre meus ombros.

Porém, aquelas palavras, quando traduzidas, foram embelezadas e saíram assim:

— Ele diz obrigado ao senhor por ter expulsado Satanás.

O fazendeiro incitou Choe Seongil a se juntar ao exército de Jesus e a lutar contra Satanás ao lado dele. Choe Seongil concordou incondicionalmente.

Gwon Yongjun e Choe Seongil entraram em uma carroça e deixaram a fazenda. A partir daquele dia, o destino de Choe Seongil mudou. Diligentemente ele escreveu em coreano fonético as preces em latim e as memorizou, embora não soubesse seu significado. Frequentava a missa com todo o empenho e importunava quem não queria ir:

— Se nós sofrermos por sua causa, você vai se sentir arrependido. Você só precisa ir e ficar lá sentado em silêncio. O que pode haver de tão difícil nisso?

As pessoas começaram a evitar Choe Seongil, que estava sempre balbuciando alguma coisa, mas isso não o preocupou.

Certa noite, Choe Seongil foi até a paja do padre Paul.

— Sr. Bak, acorde.

Padre Paul abriu os olhos. Choe Seongil o chamou para fora. A lua estava quase cheia. À luz clara do luar, Choe Seongil retirou a cruz do padre Paul do seu pescoço.

— Já viu isto antes? — padre Paul olhou de relance para Choe Seongil. — Escute, sinto muito. Eu era ignorante e sempre me perguntei o que seria isto, mas agora finalmente eu sei. É uma cruz, e tem algo a ver com o catolicismo que o fazendeiro pratica, portanto o feitiço virou contra o feiticeiro. Aqui, tome.

Ele estendeu a cruz com tanta sinceridade, que Paul não foi capaz de estender a mão para apanhá­-la.

— Não pode aceitar o que é seu? — Choe Seongil pôs a cruz na mão de Paul. — Eu estava com fome naquele momento, só isso. Mas sempre tive a intenção de devolvê­-la a você um dia. — Choe Seongil sentou­-se em um toco de árvore e meteu um cigarro na boca. O cigarro não acendia, e sua pederneira faiscou várias vezes na escuridão. Depois que ele deu uma tragada, perguntou a padre Paul, que estava de pé pouco à vontade: — Afinal de contas, o que você é? É só um católico, ou... — Padre Paul não disse nada. — Tudo bem, então. Seja lá o que tenha acontecido em seu passado, me ajude aqui. Em coreano curto e grosso, me explique que coisa é esse catolicismo e o que ele tem de tão sensacional para deixar o fazendeiro tão empolgado.

— Não posso — padre Paul sacudiu a cabeça. — Não sei nada sobre o catolicismo. E essa cruz não é minha.

Choe Seongil se levantou do toco e chegou mais perto de padre Paul.

— Vamos nos ajudar um ao outro. Não precisa ser nada assim tão difícil. Eu lhe devolvi a sua cruz, não devolvi?

Padre Paul falou em voz baixa:

— Eu já sabia da cruz desde o navio. Quando você ficou doente com disenteria...

Choe Seongil apertou a garganta de padre Paul.

— Quê? Quer dizer então que você enfiou as mãos nos bolsos de um camarada tão doente que não conseguia nem sequer se mexer? — Padre Paul não conseguia respirar e ofegou, então Choe Seongil teve pena dele e soltou sua garganta. — Você parece saber bastante coisa; vi quando matraqueou um monte de coisas para o tal xamã sobre o catolicismo. Seja bonzinho comigo. Se não... Não me importa o que aconteceu com você para que queira esconder isso, mas vou procurar o fazendeiro e dizer a ele: esse aí é um dos católicos de que o senhor tanto gosta! — Choe Seongil deu uma risadinha e entrou na paja. Padre Paul ficou perturbado com suas palavras, que lhe trouxeram de volta lembranças da repressão ao catolicismo na Coreia. Aqui era o contrário: os católicos eram recompensados. Mas ele não tinha nenhuma vontade de ser arrastado até a presença do fazendeiro e testemunhar sua abjuração, tampouco desejava fingir uma falsa fé como o ladrão. Padre Paul inclinou a cruz à luz do luar. A safira incrustada no seu centro cintilou com um brilho azulado sinistro.