“What’s your name?”, ela perguntou, enquanto o despia — primeiro, desenrolando o cachecol em torno do pescoço com pontas de barba escura, logo, desabotoando e tirando o sobretudo úmido de neve, depois o paletó, em seguida, o boné —, na quarta língua em que tentava se comunicar. Ele não entendia sueco, como a maioria dos sul-americanos na reunião da Anistia Internacional em que o tinha conhecido, há algumas horas. Francês e alemão, os outros idiomas em que ela se movimentava com facilidade, tampouco tinham funcionado.
“What’s your name, Brazilian guy?”, ela insistiu, com um sorriso de dentes perfeitos e hálito de cigarro.
“Nelson”, ele mentiu, dizendo um dos muitos codinomes que utilizara nos últimos anos, enquanto dobrava o corpo para ela puxar o suéter demasiado largo, como as outras roupas de frio que lhe tinham sido doadas ao desembarcar em Estocolmo.
“Nelson, Nelson, Nelson, Nelson”, ela repetiu, enquanto abria sem pressa cada um dos botões da camisa branca amarfanhada, lançada junto às outras peças na cadeira próxima à cama. “Nelson. Nelson like the British admiral.”
Parou antes de abrir seu cinto. Afastou-se um pouco e mirou longamente o tronco do homem moreno à sua frente. Era magro, mas se percebia nele um passado atlético. Uma cicatriz recente, grossa e comprida, descia do lado direito do pescoço até perto do ombro. Anna encostou ali o indicador, percorreu-a, como ao afluente de rio no mapa antigo de um continente desconhecido. Levou as duas mãos a seu peito, sentindo a aspereza dos cabelos que o cobriam, tão diferentes dos suaves pelos dos homens de seu país.
Acariciou, com a ponta dos dedos de unhas roídas, os mamilos escuros como jamais conhecera. Viu que intumesciam.
Começou então a despir-se.
“Não.”
“No?”, ela se deteve.
“Sim”, ele apontou, indicando a blusa que ela já abrira. “Yes. Tire. Não sei como se diz roupa em inglês. Nem em sueco. Clothes no”, tentou. “Naked”, lembrou-se. “Naked yes.”
Ela sorriu: “The British admiral wants me naked.”
“No.”
“No? Not naked?”, ela estranhou, ainda sorrindo.
“Yes. Yes naked. Not admiral.”
Chegando mais perto dele desafivelou seu cinto e o primeiro botão das calças que, folgadas depois dos vários quilos perdidos desde a fuga do Chile, quatro meses antes, caíram-lhe aos pés. Seu pênis, endurecido, pulsava nas cuecas, também largas demais.
“Not British admiral”, sussurrou, segurando a cabeça dela entre as mãos, enfiando os dedos nos seus cabelos, presos em coque. “Nelson cantor. Não sei como se diz cantor em inglês. Music, understand?”
Puxou-a para mais perto de si, tentou beijá-la. Ela se afastou, sorrindo levemente.
“No.”
“Sem beijo? Kiss no?”
“No means I don’t understand what you are saying”, respondeu, logo percebendo que ele igualmente não atinava com o que lhe havia sido dito. “Music for admiral Nelson?”
“Almirante Nelson, não. Nelson cantor, understand? Cantor. Muito famoso no meu país. Foi o primeiro cantor cujo nome eu aprendi. Music. Music do meu país. Music of Brazil.”
A mulher loura sorriu novamente. Soltou os cabelos, sacudiu-os.
Pareceu-lhe bonita como se estivesse iluminada por dentro.
Mais uma vez se aproximou dele, puxou sua cueca até o meio das coxas, recuou ligeiramente para que ele se livrasse da última peça que o cobria.
Esfregando o corpo de pele clara no corpo escuro dele, tirou os sapatos de couro vermelho, a blusa azulada, a saia xadrez, o sutiã, as meias e, só então, a calcinha. Pegou-o pela mão, levou-o até a cama.
“Music”, ele murmurou, aspirando o perfume dela.
Enquanto se despia e depois, enquanto o acariciava, lambia, beijava e mordiscava, Anna dizia palavras que o rapaz moreno não entendia. Ele nunca ouvira palavras de amor em sueco. Imaginava que fosse sueco. Imaginava que fossem palavras de amor. Gostaria que fossem palavras de amor. Queria que fossem palavras de amor. Queria que ela percebesse que aquele momento mitigava inúmeras dores, mas não sabia como dizê-lo. Sem compreender por quê, como nunca fizera diante de alguém, muito suavemente, pouco a pouco, em voz baixa, mais como um sussurro, se ouviu entoando:
A camisola do dia,
tão transparente e macia,
que eu dei de presente a ti,
tinha rendas de Sevilha,
a pequena maravilha,
que o teu corpinho abrigava…
Parou, sem se lembrar dos outros versos da canção, ouvida tantas vezes nos rádios dos botequins do subúrbio carioca para onde se mudara aos doze anos, na primeira vez em que fora expulso de onde vivia. A música de seu primeiro exílio.
“Music”, tentou explicar. “Nelson Gonçalves. Not admiral. Not British. Cantor. Very famous cantor of Brazil.”
“You are crying”, ela notou, enxugando a lágrima que escorria pelo canto de um dos olhos do homem jovem, de cabelos encaracolados. “Why are you crying, Brazilian guy? Don’t. Don’t cry. It’s not worth it. It’s never worth it.”
“Tinha rendas de Sevilha,/ a pequena maravilha…”, ele tentou de novo, com a voz embargada, sem conseguir prosseguir.
Ela acariciou os lábios grossos dele, escorregou na cama, colocou seu pênis na boca e o sugou, com delicadeza, primeiro, logo com sofreguidão cada vez mais intensa, enquanto Paulo murmurava o restante do que se lembrava da melodia, até gemer alto, involuntária e aliviadamente, quando gozou em sua boca e entendeu, ou pensou que entendia, que amava aquela mulher cujo nome não lembrava como nunca amara nenhuma mulher em seus 25 anos de vida.