Nem se dão ao trabalho de checar atentamente seu passaporte. Tudo é anódino na jovem que chega no voo lotado do Brasil: os cabelos castanhos presos em rabo de cavalo, o rosto pálido por trás dos óculos arredondados, as roupas em tons de cinza, o suéter de lã acrílica azul-marinho, o cachecol preto, o sapato baixo de couro preto, a bagagem de náilon preto na mão, a única mala de roupas, também preta, igualmente de náilon.

Carimbam o visto de entrada, chamam o brasileiro seguinte na fila, ela contorna a cabine, caminha na direção que indica Exit, a primeira palavra que abafa o medo de ser pega antes mesmo de entrar no país para o qual foge, escorraçada por tudo o que a faz sentir-se irrelevante e esmagada no Brasil.

Assim, carregando sua mala de marca falsa comprada na rua 25 de Março, Barbara — agora com sobrenome de origem italiana, mais aceitável do que o brasileiro Costa, agora filha de Abelardo e Laura Jannuzzi, e não mais de Carlos Roberto e Kátia da Costa, agora nascida em Buenos Aires, em 1970, e não mais em São Paulo, no dia 25 de janeiro de 1974, agora não mais assistente de serviços gerais do Smart English Course da rua Maria Paula, no Centro de São Paulo, mas estudante de biologia chegada para um intercâmbio ali mesmo no estado da Geórgia — vê as portas automáticas do aeroporto de Atlanta se abrirem e, à sua frente, dentro de um casaco verde-azul-vermelho que parece inflado, debaixo de um boné do Boston Patriots, o rosto sorridente de Luís Claudio.

Ele avança, abraça-a e, indicando o homem corpulento a seu lado, apresenta:

— Meu irmão, Leonardo.

Apertam-se as mãos, ela aproxima o rosto para o beijo na face, como é costume no país que deixou para trás, mas Leonardo afasta-se, mantendo a distância usual entre os habitantes do país aonde ela acaba de chegar, levando dois dedos à aba do boné igual ao do irmão mais novo, quase uma saudação militar. Diz alguma coisa em voz baixa e rouca. Ela não entende. Após uma breve hesitação, percebendo que a fitam aguardando uma reação, responde o que lhe parece adequado.

— Obrigada.

Luís Claudio pega sua mala. Seguem Leonardo. Atravessam o estacionamento. Ela sente frio e pensa no frio, pensa que nunca lhe ocorrera que fizesse tanto frio no sul dos Estados Unidos, pensa que deveria parar de pensar no frio e ficar atenta ao que lhe diz o namorado, a quem não vê desde outubro. Não consegue. Está muito cansada. Não dormiu durante o voo. Estava tensa, temia ser barrada, temia perceberem o passaporte falso, temia parecer amedrontada, temia tremer. Outro tanto por conta da turbulência intensa e intermitente desde o início do serviço de bordo. Não comeu nada, mas não tem fome. Está mesmo um pouco enjoada. Tenta responder às perguntas que Luís Claudio lhe faz. Falam da mãe e do padrasto dela, da família do padrasto no interior de Mato Grosso, da loja que o padrasto e a mãe pretendem abrir, da loucura dos preços que não param de subir nos supermercados, do trânsito em São Paulo, do verão em São Paulo, do calor em São Paulo, das chuvas em São Paulo, dos alagamentos em São Paulo, tudo, qualquer assunto, qualquer um, menos sobre o pai dela, as acusações contra o pai dela, as fotos do pai morto junto aos corpos dos traficantes envolvidos no sequestro do filho de um publicitário. Era terreno proibido. Ele sabia.

Chegam junto a uma van cor de vinho. A placa é de Framingham, a cidade de Massachusetts onde vivem Luís Claudio, Leonardo e mais alguns milhares de brasileiros. Uns 10 a 12 mil, a maioria ilegais, lera em uma revista. É onde vou morar o resto da minha vida, ela pensa, antes de entrar e sentar-se no banco traseiro, conforme lhe é indicado.

Luís Claudio senta-se ao lado do irmão, ambos colocam os cintos de segurança, o veículo parte. Vão atravessar os estados da Geórgia, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Virgínia, Delaware, Maryland, Nova Jersey, Nova York, Connecticut e Rhode Island, até chegar ao destino. Serão mais de 1.700 quilômetros. Vinte horas de estrada, no mínimo. Sem parada para dormir. Os irmãos se alternarão ao volante. É um longo caminho. Porém, mais seguro. Eles têm uma brasileira com passaporte falso a bordo. O green card de Luís Claudio também é falso. Só os documentos de Leonardo são genuínos, obtidos com os 6 mil dólares pagos à americana com quem se casou em agosto do ano passado, economizados centavo a centavo em trabalhos de faxineiro, entregador de pizza, lavador de carro, frentista, pedreiro, vigia noturno, jardineiro, padeiro, balconista, ensacador em supermercado, motorista, carpinteiro, pintor, açougueiro, eletricista, porteiro de boate, auxiliar de fotógrafo de casamentos, bombeiro hidráulico, até, finalmente, abrir seu próprio negócio made in USA: Leo’s Jobs You Need It We Do It. Seu primeiro negócio na América. Por enquanto, apenas um miúdo retângulo nas Páginas amarelas de Boston. Breve, ele confia, uma loja de verdade em Framingham, com nome pintado na vitrine e o irmão por trás do balcão, pois que fala inglês sem sotaque, é despachado e sabe organizar tarefas ainda melhor do que ele. A legalização dos papéis e registros no condado ficará mais azeitada quando arrumar uma mulher americana para se casar com Luís Claudio. Os planos vêm sendo meticulosamente delineados e construídos nos últimos quatro anos. Até surgir essa menina. Filha de um motorista de madame metido com sequestradores, morto, junto com os comparsas, num confronto com a polícia. Luís Claudio tentou esconder a história, mas ele acabou descobrindo. Nenhum segredo dura muito tempo entre fechadas comunidades de imigrantes, onde informação pode significar proteção.

Entram na autoestrada.

Barbara observa, quieta, a manhã cinza, as árvores sem folhagem, a rodovia larga, com muitas pistas e muitos carros grandes passando em alta velocidade. Aqui e ali há sinais de Exit, seguidos de trevos e novamente pistas triplas, quádruplas, sêxtuplas, repletas de carros e vagos sons longínquos, abafados pelas vidraças fechadas e uma música country tocando no rádio.

Então isso é os Estados Unidos, ela pensa.

Recosta a cabeça, fecha os olhos.

Sem perceber, adormece.

Logo escorrega e se deita no banco, encolhida, ainda com frio, mas amparada na sensação de acolhimento e paz.

Não tinha ideia de como estava enganada.