CENÁRIO: Uma sala no palácio. Três anos depois. A sala é decorada com tapeçarias coloridas penduradas. Há uma entrada à D.
Tyi e Akhenaton estão sentados em cadeiras douradas lado a lado. O Sumo Sacerdote está sentado um pouco mais distante. O Escriba Real segura um rolo de papiro. Akhenaton parece entediado e desatento.
Tyi: (para o Escriba) Continue.
Escriba: Além disso, assim escreve Dushratta de Mitanni. “Com o pai de seu filho eu mantinha uma relação amigável. Permita que seu filho agora aproxime nossa amizade dez vezes mais. Que tudo corra bem com ele, sua casa, suas carruagens, seus cavalos, seus encarregados, sua terra e todas as suas posses, que tudo vá bem de verdade. O pai dele me enviava muito ouro, permita que este meu irmão me envie ainda mais. Pois na terra de meu irmão do Egito, o ouro é tão comum quanto a poeira...”
Tyi: (para o Sumo Sacerdote) O que diz, meu senhor?
Sumo Sacerdote: O Rei de Mitanni nos escreve em amizade. Uma resposta amigável deve ser enviada.
Tyi: E ouro?
Sumo Sacerdote: Dez talentos de ouro.
Tyi: (para Akhenaton) E você o que diz, meu filho?
Akhenaton: Não estava escutando.
Tyi: (para o Escriba) Leia a carta novamente para o rei.
Akhenaton: Não há necessidade.
Tyi: Mas, meu filho...
Akhenaton: Não foi escrita para mim.
Tyi: Foi escrita para mim como regente, mas é dirigida a você.
Akhenaton: Consulte o Sumo Sacerdote. Ele não controla tudo que acontece no Egito?
Sumo Sacerdote: Eu me empenho em servi-lo.
Akhenaton: Sua nobreza desinteressada me enche de admiração!
Sumo Sacerdote: (frio) Aconselho que palavras afáveis sejam escritas para Dushratta com dez talentos de ouro.
Akhenaton: E o Deus pode prescindir de todo esse ouro? Não seria melhor dar o ouro para os templos de Amon?
Sumo Sacerdote: Não é uma questão de dinheiro do templo.
Akhenaton: Não, o que vai para o tesouro de Amon não retorna jamais! Vossa Santidade é o tesoureiro, creio.
Sumo Sacerdote: Faz parte de meu santo ofício.
Tyi: (para Akhenaton) O que gostaria que respondêssemos a Dushratta?
Akhenaton: Responda como quiser. Estou fazendo um poema. Gostaria de ouvir?
Sumo Sacerdote: Permita que este vosso servo escute as palavras do faraó.
Akhenaton: Quando a galinha grita na casca do ovo
Dás a ela alento para que se preserve viva
Quando enfim a aperfeiçoaste
Que consegue romper a casca
Ela sai desse ovo
Para piar com toda sua força
Corre sobre seus dois pés
Quando daí emerge...
(Sorri indulgente.)
Sumo Sacerdote: (sem muita certeza de como reagir) Um... um poema encantador, tenho certeza, Vossa Alteza.
Akhenaton: Mas, naturalmente, prefere os clássicos. O Deus Amon, se me lembro bem, dirigiu algumas linhas inspiradas para meu tataravô, o poderoso lutador Tutmósis III. (Declama.)
Creta e Chipre estão aterrorizadas
Aqueles que estão no meio do mar escutam teus rugidos
Fiz com que enxergassem tua majestade como um vingador
Surgindo por detrás de suas vítimas assassinadas.
(Balança a cabeça.) Sinto muito. Minha galinha saindo do ovo não tem importância nenhuma.
Tyi: (decidida) Não temos nenhum outro assunto a tratar?
Sumo Sacerdote: Nada de importância urgente.
Tyi: (levantando-se) Então, meu senhor, está dispensado, sabemos que tem muitas questões importantes para resolver. (O Sumo Sacerdote acena sua saída. O Escriba o segue.)
(Furiosa para Akhenaton.) Por que se comporta dessa forma tola?
Akhenaton: De que forma, mãe? (Repetindo para si.) Piando, com toda a sua força...
Tyi: Por que antagoniza Meriptah? Ele tem muito poder.
Akhenaton: Ele tem poder demais.
Tyi: Quieto, Amon é um grande Deus. Levou o Egito à grandeza.
Akhenaton: E seus sacerdotes à riqueza!
Tyi: Todos os homens desejam a riqueza.
Akhenaton: Não todos.
Tyi: Por que se comporta como uma criança? Para lidar com esses sacerdotes é preciso habilidade, malícia. Não essa grosseria desbocada e tola!
Akhenaton: A senhora também não gosta dos sacerdotes, mãe.
Tyi: Mas não me comporto como uma idiota.
Akhenaton: (pensativo) Não, a senhora é uma mulher esperta, uma mulher de grande poder. Meu pai a amava. Ele a fez a Esposa Real, a Grande Rainha. E mesmo a Grande Rainha, a Esposa Real, se verga e precisa usar de astúcia com os sacerdotes.
Tyi: Porque são mais fortes do que eu.
Akhenaton: Odeia a tirania de Amon. A senhora me ensinou esse ódio quando eu era criança. A senhora me dedicou não a Amon, mas a Rá Harakte, o deus de Heliópolis. E, no entanto, usa de palavras suaves, sorri, disfarça seu ódio!
Tyi: O ardil da serpente consegue mais do que o rugido do leão!
Akhenaton: Mentiras! Sempre mentiras! Estou farto de mentiras. Queria viver na verdade. A verdade é bela.
Tyi: O que é a verdade?
Akhenaton: Essa é uma pergunta curiosa. (Resmunga.) O que é? Por que eu sou? Quem sou eu? De onde... Para onde?
Tyi: (ansiosa) Menino... menino...
Akhenaton: Não sou um menino.
Tyi: Será sempre uma criança para mim.
Akhenaton: É por isso que é minha inimiga.
Tyi: (ferida) Eu... sua inimiga!
Akhenaton: O pássaro canta na gaiola, mas cantaria melhor ao ar livre. Entre a senhora e os sacerdotes estou bem amarrado.
Tyi: Não é assim. Busco apenas protegê-lo. Oh, meu filho, meu filho, seja orientado por mim, pela minha sabedoria, que foi amarga no aprendizado, mas que nunca me falhou. Minha sabedoria me levou, eu, uma mulher do povo, a ser a Grande Rainha. Os sacerdotes me temem, não ousam me ofender. Deixe seu destino comigo, vou fazer de você um rei mais grandioso que seu pai.
Akhenaton: (como um místico) Só eu conheço a vontade de meu pai no que diz respeito a mim. Preciso fazer o que ele manda.
Tyi: Seu pai sempre foi guiado por mim.
Akhenaton: Não falo do meu pai o rei, falo de meu pai, Rá. Rá, Aton (estendendo as mãos), cuja luz ilumina o mundo, cujo calor é alegria, cujo fogo jaz em meu coração secreto.
Tyi: Não compreendo.
Akhenaton: (irônico, de repente) É um título, não é, dos faraós do Egito? Filhos de Rá? Filhos do Sol?
Tyi: Claro.
Akhenaton: Mas não significa nada... É uma expressão bonita? (Reflexivo.) Pela primeira vez, quem sabe, não seja uma expressão, mas a pura verdade. Conte-me de novo, mãe, sobre os dias que antecederam meu nascimento.
Tyi: As outras crianças que eu gestara morreram. Comecei a envelhecer. Havia um medo em mim de que eu não conseguisse ter um filho para herdar o trono do Egito. Imaginei que os sacerdotes de Amon estavam felizes com minha infertilidade. Então fui para o templo de Rá Harakte, Senhor das Visões e Sonhos. Jurei a ele que, se eu tivesse um filho, esse filho lhe seria dedicado.
Akhenaton: A Rá Harakte, Senhor das Visões. E eu nasci... Eu... Eu... Eu... (Embriagado de exaltação.)
Tyi: (atemorizada) Meu filho, meu filho.
Akhenaton: (controlando-se) Não foi nada. Deixe-me a sós, mãe. Mande que Ay, o sacerdote, venha até mim.
Tyi: Ay? Está sempre pedindo por Ay. O que quer com ele?
Akhenaton: É um homem muito culto em teologia. Ele me ensina a história dos deuses do Egito.
Tyi: Está bem. Agarre-se aos seus estudos do passado.
Akhenaton: (irônico) Deixando o governo do presente para a senhora, mãe?
Tyi: É por você que eu governo. Tudo que faço é feito por você.
Akhenaton: Que crença mais conveniente!
Tyi: No que está pensando?
Akhenaton: Governa há tanto tempo, faz maquinações de maneira tão habilidosa há tantos anos... Está no seu sangue agora essa paixão pelo poder.
Tyi: Você é cruel, injusto.
Akhenaton: Mande Ay para mim. (Sai Tyi. Akhenaton é deixado sozinho e repassa seus poemas.)
Quando a galinha grita na casca do ovo
Dás a ela alento para que se preserve viva
(meditando) Alento... (Suspira) Doce alento...
(Entra Ay, um sacerdote de meia-idade, homem de simplicidade e cultura. Ele se prostra.) Veio com muita rapidez, isso é bom.
Ay: Estou às suas ordens sempre.
Akhenaton: Você me ama, Ay?
Ay: Amo a verdade, a qual reside em vós.
Akhenaton: A verdade... De novo a verdade... Diga-me, Ay, a verdade é importante?
Ay: É a única coisa que importa.
Akhenaton: Então me fale mais dos deuses do Egito.
Ay: (explicando com prazer) Havia uma grande confusão aí, mas em meio à confusão, a verdade. Na mente do povo, o povo simples que trabalha a terra, existe apenas a capacidade suficiente para apreciar a forma externa da verdade. Com eles, existe apenas o nascimento, a morte e a fecundidade da terra. Também existe o medo. Sekhmet, a Deusa-crocodilo*, Hathor, a Deusa da Reprodução, Osíris, o Deus que fala pelos mortos; Set, o destruidor... esses todos são deuses do começo da compreensão humana.
Akhenaton: Prossiga. E o que diz da mente?
Ay: Existe Ptah de Mênfis, que fala pela mente e a língua dos homens.
Akhenaton: E sobre (com dificuldade) Amon?
Ay: (desdenhoso) Amon não passa de um deusinho inferior do rio. É um arrivista que ganhou poder!
Akhenaton: Quem então é o maior Deus do Egito? (Anima-se.)
Ay: Rá. Rá Harakte de Heliópolis. Não é o primeiro título do Faraó, Filho de Rá? O próprio Amon, para manter seu título, não se chama de Amon Rá? Rá é o regente do Mundo.
Akhenaton: (cada vez mais animado) E Rá é o Aton, o sol.
Ay: O disco do sol é sua expressão externa.
Akhenaton: (com fervor e uma exaltação crescente) Sim, eu sinto isso, eu sei. Não é o sol que deve ser adorado, é o calor que está dentro do sol, a luz que ilumina o sol, é isso... isso... (Animado.) aquela força interior... o fogo divino, eu o sinto... Sinto agora... (Estremece. Suas órbitas reviram, ele cambaleia, se agarra à cadeira e senta, então baixinho e quase num tom profissional) Não vai mais haver reverências a imagens esculpidas em pedra. Não vai mais haver exploração dos fracos, vão acabar as indulgências e amuletos e escaravelhos vendidos pelos sacerdotes para extorquir dinheiro dos pobres. Em vez disso, vai existir liberdade e amor, o amor do Aton. Em um mês, eu atinjo a maioridade. Minha mãe não vai mais ser regente. Vou governar sozinho. E não vou mais me chamar de Amenhotep, que quer dizer “Amon repousa”. Serei chamado de Akhenaton, “espírito de Aton” (Levanta com suas mãos abertas.) Eu sou o filho de Rá, não um título vazio, mas a verdade verdadeira! (Olha para o céu.)
Estais em meu coração
Ninguém mais vos conhece
Exceto vosso filho Akhenaton...
(Uma pausa) Tudo bem, velho amigo?
Ay: Está tudo certo. A terra geme sob as extorsões dos altos sacerdotes de Amon. Eles esmigalham os pobres. Liberte-os, filho, leve a paz e o descanso aos humildes que cultivam a terra e geram os alimentos.
Akhenaton: Haverá paz para todos. Felicidade. Os homens viverão lado a lado em amor, o amor de meu pai, Aton.
Ay: Muito bem colocado.
Akhenaton: E construirei uma nova cidade. A Cidade do Horizonte. Haverá pássaros, árvores em flor e córregos de água. Viverei com simplicidade, não como rei. Haverá risos lá, amor e os gritos felizes das crianças. Haverá beleza de novo no Egito... Beleza.
Ay: (comovido) Meu filho, meu filho.
Akhenaton: Haverá a verdade. (Uma longa pausa.) Dê as ordens de que minha barcaça real deve ser preparada para uma viagem e ordene que Horemheb venha falar comigo.
Ay: Como ordena Vossa Majestade.
(Sai. Akhenaton fica absorto em pensamentos. As cortinas se abrem atrás dele, e Nefertiti entra devagar por elas. Para por alguns instantes emoldurada pelas cortinas.)
Akhenaton: Alguém chegou. (Sorri.) Quem é?
Nefertiti: É a Esposa Real, Nefertiti. (Faz uma pose, rindo.)
Akhenaton: Recite seus títulos.
Nefertiti: Magnânima Esposa Real, Amada pelo Rei, Senhora das Duas Terras – Vivente – Próspera...
Akhenaton: (virando-se) Amada. (Vai até ela, ajoelha-se.)
Nefertiti: (pondo a mão na testa dele) Sua testa está quente...
Akhenaton: Tive visões...
Nefertiti: Não veja mais essas. Veja a mim.
Akhenaton: Quando olho para você, vejo beleza. Uma beleza perfeita...
Nefertiti: Meu amado.
Akhenaton: O que mais vê quando olha para mim, seu rei?
Nefertiti: Vejo meu amor...
Akhenaton: Ah! Sua voz é como música...
Nefertiti: Está cansado, sente aqui, vou segurar sua cabeça no meu peito e você descansa. (Sentam.)
Akhenaton: (murmurando) Tem olhos de pombo, seus seios são macios, e suas mãos... (Ergue-as.) Suas duas lindas mãos! Vou fazê-las em argila, as duas belas mãos de Nefertiti...
Nefertiti: Um dia estarão enrugadas e velhas.
Akhenaton: Nunca. A beleza verdadeira não morre nunca.
Nefertiti: É um poeta.
Akhenaton: Escute, Esposa Real. Vou construir uma grande cidade, longe daqui. Velejaremos descendo o Nilo e escolheremos um lugar bonito. Será chamada a Cidade do Horizonte.
Nefertiti: Que nome lindo...
Akhenaton: A cidade será linda... Será construída por jovens arquitetos trabalhando com o meu projeto. Não vão copiar a arte velha e desgastada do Egito, dura e simbolizada. Vão desenhar os peixes saltitantes, o pássaro que voa e o cervo assustado... Sim, e vão esculpir em pedra Akhenaton e Nefertiti, sua esposa, com os lábios grudados assim... apaixonados. (Beija a esposa.) Vão esculpir nossos filhos ao nosso lado.
Nefertiti: Nossa filhinha dorme. Em seu sono, virou e murmurou o nome do pai dela.
Akhenaton: Nossos filhos vão crescer nessa cidade, nossas filhas e... nossos filhos.
Nefertiti: (sua serenidade perturbada) Que Deus permita que eu logo possa lhe dar um filho.
Akhenaton: Ele se chamará Realização da Vontade de Aton. (Seus lábios se movem.)
Nefertiti: O que está dizendo?
Akhenaton: Estou fazendo um poema.
Nefertiti: (contente) Para mim?
Akhenaton: Não, para meu pai, o Aton. É um hino que será cantado no Templo do Aton na Cidade do Horizonte. Parte dele será assim. (Canta.) Sois aquele que cria o filho na mulher. Que faz a semente no Homem. Que dá a vida ao filho no corpo da mãe. Que consola para que ele não chore... Gosta disso, Nefertiti?
Nefertiti: Gosto.
Akhenaton: (canta)
Fazeis a beleza da forma baseada em vós mesmo
Cidades, vilarejos e assentamentos
Na estrada ou no rio
Todos os olhos vos veem diante de si
Pois sois o senhor do dia sobre a terra.
(Salta, com as mãos erguidas.)
Estais em meu coração
Ninguém mais vos conhece
Exceto vosso filho Akhenaton...
(Nefertiti levanta, dá uns passos para trás, se encolhe. Ao virar e ver a mulher.) O que houve?
Nefertiti: Às vezes você me assusta. Esquece de que estou aqui.
Akhenaton: Esquecer de você? Jamais.
Nefertiti: Seus poemas são sempre para Deus. Faça um para mim.
Akhenaton: Não vou te escrever um poema, mas vou te construir um palácio.
Nefertiti: Na Cidade do Horizonte?
Akhenaton: Sim.
(Entra Horemheb.)
Horemheb: A barca está pronta, faraó, como ordenou.
Akhenaton: Então faça com que todos se aprontem. Que minha tenda multicolorida seja levada, todo tipo de provisões, cantores e dançarinos. Também convoque meu arquiteto Bek.
Horemheb: Será providenciado. E eu, meu senhor, devo acompanhá-lo?
Akhenaton: Posso ir a algum lugar sem meu fiel Horemheb?
Horemheb: Que eu sempre possa estar ao lado direito de Vossa Majestade.
(Akhenaton acha graça da formalidade de Horemheb.)
Akhenaton: Creio, Horemheb, que esteja torcendo por inimigos para matar. Vamos, confesse.
Horemheb: Claro que não.
Akhenaton: (afetuoso) Não tive a intenção de aborrecê-lo. Em um mês, quando eu me tornar rei, você estará no comando de meus exércitos. Venha, vamos passear pelos jardins. Adeus, ó rainha.
Nefertiti: Adeus, ó rei.
(Saem Horemheb e Akhenaton. Nefertiti permanece absorta em pensamentos. Rainha Tyi entra de repente.)
Tyi: Onde está o rei?
Nefertiti: Foi passear nos jardins com Horemheb.
Tyi: (aliviada) Horemheb nos é fiel. Vem de uma casa leal.
Nefertiti: Algo errado?
Tyi: Tenho medo...
Nefertiti: Por quê?
Tyi: Vejo perigo para meu filho.
Nefertiti: Perigo para o rei? Onde?
Tyi: No coração dele.
Nefertiti: Não a entendo.
Tyi: O que é um rei?
Nefertiti: Um que governa... aquele que tem o poder supremo.
Tyi: Não.
Nefertiti: O faraó não está acima de tudo?
Tyi: No nome... no nome. Oh, eu sentia que essa hora estava chegando há muito tempo. Na minha juventude as nuvens se congregavam.
Nefertiti: (aturdida) Que nuvens?
Tyi: As nuvens de um sacerdócio ditatorial! Em toda parte foram construídos templos para Amon. Seus sacerdotes tornaram-se ricos e poderosos. Quem recolhe os impostos? Os sacerdotes. Para cada vitória sobre os inimigos que o rei conquistava, grandes presentes e sacrifícios eram feitos a Amon. Hoje, na terra do Egito, é Amon e seus sacerdotes quem detêm o poder real.
Nefertiti: (tímida) Mas certamente... não pode ser assim.
Tyi: Criança, criança, como fala com inocência! A injustiça não deveria existir, a opressão dos servos não deveria existir, o choro de crianças e animais não deveria existir... isso é fácil de falar, mas as coisas não funcionam dessa forma.
Nefertiti: (confiante) O rei vai varrer embora toda a injustiça.
Tyi: Minha nora, você é uma criança, assim como o rei também é. Não conhecem a realidade. Nos palácios, a gente escuta apenas as frases que quer ouvir! Mas eu, Tyi, Grande Rainha de Amenhotep III, não vivi sempre nos palácios. Conheço os homens, sei da amargura da verdade... Sei que por trás da palavra cortês, das frases elogiosas, há mentiras, o ardil da serpente e a ferocidade do tigre! Lucro, lucro... é tudo pelo lucro. (Pausa.) Sei o que meu filho tem em seu coração, que Rá me perdoe, eu ajudei passando isso para ele. A ideia dele é destruir o poder do sacerdócio. Não é mesmo?
Nefertiti: Quer os homens felizes e livres.
Tyi: Em seu coração, odeia Amon. Há o mesmo ódio no meu, mas sou mais astuciosa em minha obra. A provocação aberta é perigosa, é necessário se trabalhar em segredo, nos subterrâneos, soltando uma pedra aqui, um tijolo lá, até que o edifício firme e forte ameace ruir.
Nefertiti: O que acha que ele deveria fazer?
Tyi: Dissimular. Falar bem dos sacerdotes. Esconder o que lhe vai no coração.
Nefertiti: Não vai fazer isso. Akhenaton ama a verdade.
Tyi: Akhenaton?
Nefertiti: É para ser esse o nome dele de agora em diante. Ele que disse.
Tyi: É imprudente, vai alarmar os sacerdotes.
Nefertiti: E vai construir uma cidade, uma grande cidade, a Cidade do Horizonte, para ser a cidade de Aton, a cidade de Rá.
Tyi: Deixe que construa uma cidade. Todos os grandes reis fazem isso. Que construa nela um templo para Rá Harakte, isso os sacerdotes não podem desautorizar, mas que também construa um templo menor para Amon.
Nefertiti: Pode ser que faça isso, não sei. Escreve poemas, lindos poemas para Rá, sob o nome de Aton.
Tyi: Está louco.
Nefertiti: Não, ele tem pensamentos grandiosos.
Tyi: (amarga) Dá no mesmo! Quem se importa com a beleza dos pensamentos? Não são os servos, esses se preocupam apenas com o pão e as cebolas. Os soldados? Pensam somente no avanço da carreira militar. Os sacerdotes querem saber apenas de riqueza e poder. Os artistas e artesãos se importam só com o que eles mesmos produzem. E saiba de uma coisa, minha nora, tudo que é novidade é sempre suspeito.
Nefertiti: E o que quer que eu faça?
Tyi: Ele não vai me ouvir. Minha sabedoria recai sobre ouvidos surdos. (Olha para Nefertiti com atenção.) Mas você, minha filha, tem o poder da beleza. Quando sua voz falar, Akhenaton escutará.
Nefertiti: O que quer que eu diga?
Tyi: Deixe que construa sua cidade, que convoque os artistas e escultores, mas direcione o pensamento dele para os palácios, não para os templos. Fale com ele da beleza, a beleza da arte. Conduza os pensamentos dele para o prazer.
Nefertiti: Conduzir os pensamentos dele para longe de Deus?
Tyi: Conduza os pensamentos dele para longe do perigo. Pois existe perigo. Quer ver seu marido se destruir?
Nefertiti: Não, não.
Tyi: O caminho que Akhenaton quer traçar leva à destruição. Ele se colocaria contra o poder de Amon, e Amon é mais forte do que ele. Amon vai destruí-lo.
Nefertiti: Mesmo que... (Interrompe.)
Tyi: Como? O que ia dizendo?
Nefertiti: (atrapalhada) Não sou inteligente. Não consigo dizer de maneira adequada o que me vai no coração.
Tyi: Prossiga. Fale...
Nefertiti: Akhenaton é o Filho de Deus. Ele diz isso.
Tyi: Todos os reis do Egito são Filhos de Rá. É um título, não quer dizer nada.
Nefertiti: Mas acho que, com Akhenaton, é diferente... Acho que com Akhenaton pode ser... verdade...
Tyi: Não o encoraje com essa ideia. É loucura. Vai levar à morte.
Nefertiti: Eu o amo.
Tyi: Então o salve...
Nefertiti: Não está entendendo, não é tão simples assim. Quando penso na minha criancinha, nossa filha, que dorme ali (acena com o queixo), eu entendo você. Eu também gostaria de protegê-la de qualquer coisa. Mas com o rei é diferente, ele é maior do que eu... Ele precisa fazer a vontade dele, e a mim cabe acompanhar...
Tyi: Está louca, é uma tola, Akhenaton lhe enfeitiçou com sua mania por religião.
Nefertiti: Não é isso.
Tyi: (levantando-se com fúria e dominando a cena) Vou lhe dizer uma coisa, menina, o perigo é muito real. Conheço o temperamento da gente comum desta nossa terra. No fim, vão retornar para aquilo que conhecem, o serviço dos Deuses, Deuses confortáveis, talhados em pedra, não vão seguir formas estranhas de adoração. O clero de Amon Rá tem a base muito sólida. Reis foram feitos e desfeitos pelo clero. É para nossa dinastia, a maior dinastia conhecida na história das Duas Terras, a dinastia que conquistou um império, perecer e se desfazer em pó? Tudo pela loucura que encampa a mente de um homem enquanto ele é jovem? Você e eu, filha, somos mulheres. Temos a sabedoria das mulheres, todos os homens são crianças, nada além de crianças, precisam ser guiados, influenciados com palavras suaves e beijos. Para que possamos salvá-los das consequências de suas tolices.
Nefertiti: Akhenaton não é uma criança.
Tyi: Os homens são crianças a vida inteira. Sei do que estou falando.
Nefertiti: Quem sabe é porque escolhemos deixá-los assim.
Tyi: Você é uma tola, uma linda tola, não entende nada.
(Sai furiosa. Depois de um minuto, Nezzemut espia cautelosa pelas cortinas ao centro.)
Nezzemut: Está sozinha, irmã? (Entra.) Pensei ter ouvido a voz da rainha velha.
Nefertiti: (desatenta) Ela já saiu.
Nezzemut: Sempre tenho medo dela. Todo mundo diz que é uma mulher muito esperta. Governou o reino por anos. Era capaz de enrolar o velho rei no mindinho, todo mundo sabe disso. Imagino que um dia ela foi bonita. É horrorosa agora. Que terror pensar que a gente precisa envelhecer e enfear. (Alisa o rosto. Chama suas criadas.) Para, Reneheh...
(A anã negra, Para, aparece) Traga meu espelho. (Percebendo que Nefertiti olha para o lado oposto.) Odeia minhas anãs... por quê?
Nefertiti: São feias demais.
Nezzemut: Para é muito sábia. Ela conhece a feitiçaria da terra de Punt. E pode fazer encantamentos, poções do amor e tem o suco de uma planta que causa morte rápida e que nunca é detectada. (Para traz o espelho e sai.) (Examinando seu rosto.) Ainda assim, quem sabe você esteja certa de não olhar para ela ainda agora. Não daria certo se o novo Rei do Egito fosse aleijado. Como estou sem graça... Claro que você sempre foi a beleza da família, Nefertiti. Mas eu tenho o cérebro. E também sou ambiciosa. De fato, eu deveria ter sido a Rainha do Egito, lembra de quando Para fazia suas adivinhações na areia e previu que eu me casaria com o Rei do Egito e me tornaria uma Grande Rainha. Acreditei mesmo nela e, então, no fim das contas... você foi escolhida! Fiquei muito brava com Para, ela resmungou e rastejou e jurou que as areias nunca mentem. Quem sabe o rei gostaria de mim como segunda esposa? Ele tem umas ideias tão estranhas sobre as mulheres, não se parece nada com o velho rei. O que há com você, Nefertiti, por que não responde?
Nefertiti: (incomodada) Estou pensando.
Nezzemut: É um desperdício você ser a Rainha do Egito. Eu teria me saído muito melhor. O rei é tão sonhador e temperamental, precisa de alguém que o desperte para... alguém para... governá-lo!
Nefertiti: Quieta, irmã.
Nezzemut: Querida, sei que sou sempre terrivelmente indiscreta nas coisas que digo. Faz parte da minha personalidade. É por isso que Akhenaton e eu jamais teríamos nos entendido. Não acredito que ele tenha nem um pingo de senso de humor. É de assustar o quanto ele é religioso também. A religião sempre me entediou, todas aquelas coisas de pedra com cabeça de animal, pensa, não dá pra ninguém levar eles a sério, dá, como as pessoas comuns fazem? É bom pra eles, claro, ter algo em que acreditar. (Pausa.) Nefertiti, não acredito que você não esteja ouvindo uma única palavra do que estou falando.
Nefertiti: Sinto muito, irmã.
Nezzemut: É mesmo muito doce, querida. Não me admira que Akhenaton seja tão louco por você e não tenha montes de outras mulheres. Ah, bem, ele não seria suficiente para mim. (Pausa.) Aquele capitão da guarda que vocês têm é pra lá de bonitão, como é o nome dele, Horemheb?
Nefertiti: Isso.
Nezzemut: Agora, aquilo sim é o que eu chamo de homem. Falei com ele uma vez. Foi muito respeitoso, claro, e tudo o mais, mas não pareceu nem interessado. Simplesmente é devotado ao rei, não é?
Nefertiti: Sim, é o servo mais devotado ao rei.
Nezzemut: E o rei gosta muito dele. Os homens são tão chatos quando gostam um do outro, eu acho. Ficam falando de caçadas – ou de batalhas. Não conversam animadamente sobre outras pessoas como a gente faz.
Nefertiti: (levantando) Preciso ver minha filha.
Nezzemut: (enquanto Nefertiti sai) Não sei o que há de errado com você hoje. Está terrivelmente insossa. (Entra Para, enquanto Nezzemut boceja.) Faça alguma adivinhação na areia para mim.
(Para apanha duas garrafas de formato irregular cheias de areia, entrega para Nezzemut, que derrama a areia no piso. Para se acocora sobre a areia, balançando-se para frente e para trás sobre os calcanhares e enunciando uns grunhidos mecânicos até parecer entrar numa espécie de transe.)
Para: Estou vendo, estou vendo... aqui a areia sobe, mas primeiro baixa... muitos dias devem se passar... muitos dias... a grandeza está vindo, vindo... Vejo a serpente dupla, vejo a coroa do Egito... na sua cabeça e na cabeça dele, o Senhor das Duas Terras, do Alto e do Baixo Egito. Ruínas... Ruínas de pedra, trabalhadores arrancando um nome da pedra... Ele vem, seus passos pesam sobre os montes... tum... tum... milhares de pés, os pés dos soldados... Vejo o templo, vejo os touros sagrados, eu vejo... eu vejo... (Sua voz esmorece. Ela se sacode e senta.)
Nezzemut: Que bela fraude que você é, Para.
Para: Não sou uma fraude, senhora. O que eu digo acontece.
Nezzemut: Essa é a questão... não acontece. Está sempre me prometendo um marido e sigo sem nenhum.
Para: Dois maridos vai ter... dois!
Nezzemut: Imagino que serão decepcionantes quando eu enfim conseguir agarrá-los.
(Horemheb entra pela D.)
Horemheb: (cumprimentando) Alteza.
Nezzemut: (olhando favoravelmente) O que foi, Horemheb?
Horemheb: Ordens do rei. Para a Grande Rainha, a Esposa Real, a barca do rei está sendo preparada juntamente com as barcas da casa real. O rei descerá o rio com a rainha em busca de um local para a Cidade Nova.
Nezzemut: Vou avisar minha irmã. (Quando ele se vira para sair.) Fique um momento, Horemheb. Conte-me um pouco sobre a Síria e suas campanhas por lá. Devem ter sido muitíssimo interessantes.
Horemheb: Com seu perdão, Dama Real, os assuntos do rei esperam por mim. Preciso supervisionar o carregamento das barcas. (Sai.)
Nezzemut: (desapontada) Grosso.
(Para puxa o manto de sua senhora.)
Para: Senhora... senhora... (Aponta para a porta por onde Horemheb saiu.)
Nezzemut: (como quem fala a um cachorro) Que foi?
Para: Na cabeça dele... na cabeça dele... (Faz um gesto descritivo da serpente na coroa)
Nezzemut: (mirando fixo) Na cabeça dele...
Para: (assentindo) Sim, isso...
Nezzemut: Na cabeça dele... (Nezzemut olha fixo para a porta onde Horemheb passou. Um fluxo de ideias totalmente novas surgem em sua expressão. Ela se torna fria e calculista.)
CAI O PANO
* A autora aqui confunde a deusa egípcia Sekhmet, sempre representada como leoa ou como uma mulher com cabeça de leão, com o deus egípcio Sobek, um deus-crocodilo do Nilo. (N.T.)