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O reino de Ndongo e a invasão portuguesa

Jinga, nascida em 1582, descendia de uma linhagem real que remontava à fundação do reino de Ndongo. Seus antecessores consolidaram Ndongo como uma força poderosa na África Central e lutaram contra a chegada de uma missão portuguesa em 1560 e uma subsequente força militar, em 1575. Eles estabeleceriam fortes tradições de governo, que ela mais tarde manteria, ao mesmo tempo que enfrentariam um desafio assustador vindo do exterior, que ela por sua vez combateria.

A história inicial de Ndongo

O fundador e o primeiro rei da história de Ndongo, Ngola Kiluanje kia Samba (reinado c . 1515-56), tomou o poder apenas poucas décadas antes do nascimento de Jinga. [1] Ngola Kiluanje kia Samba promoveu o consenso pacificamente, mas chegou ao poder graças a uma mistura complexa de intrigas políticas e guerras. Ele preparou o cenário para o domínio da dinastia ao restaurar um reino fragmentado que testemunhara o assassinato de seu filho por um tio ciumento, do qual ele e a esposa haviam se vingado.

De acordo com a tradição, Ngola Kiluanje kia Samba começou seu governo um pouco antes de 1515. Ele consolidou o poder em Ndongo mantendo a paz interna, ao mesmo tempo que expandia significativamente as fronteiras mediante a conquista de muitos Estados vizinhos. Em 1518, buscando aumentar seu poder para competir com o poderoso reino do Congo, ele enviou dois embaixadores a Portugal em busca de comércio e relações culturais mais amplas, mas uma missão portuguesa que visitou seu reino em 1520 não teve impacto duradouro. Seus sucessores mantiveram o modelo que ele estabelecera, sujeitando pequenas províncias independentes à soberania de Ndongo, ao mesmo tempo que continuavam a fazer alianças diplomáticas com Estados vizinhos, bem como com os portugueses.


Antônio de Oliveira de Cadornega, Manuscrito Vermelho 78, v. 3, frontispício. Academia das Ciências de Lisboa, Portugal.

Rei do Congo e rei de Angola, frontispício de uma obra de Antônio de Oliveira de Cadornega, c. 1680.

Os reis que sucederam a Ngola Kiluanje kia Samba foram hábeis líderes militares e estadistas, embora, de acordo com a história oral, a coesão política tenha sido minada durante o breve e brutal reinado de seu sucessor, Ndambi a Ngola (1556-61). Ndambi a Ngola teria ascendido ao trono depois de assassinar todos os seus irmãos, exceto dois; os dois sobreviventes escaparam por pouco de tal destino fugindo para os reinos vizinhos. [2] Ndambi a Ngola manteve o trono mediante terror e intimidação e, de acordo com o missionário capuchinho Giovanni Antonio Cavazzi, quando morreu, foi homenageado com o sacrifício de “inumeráveis vítimas humanas”. [3] Governantes posteriores, inclusive Jinga, consideravam esse costume de sacrifício humano uma parte essencial dos rituais funerários em honra aos reis de Ndongo e outros membros da elite.

Os relatos históricos detalhados e tradições orais de Ndongo começam com o reinado de Ngola Kiluanje kia Ndambi (1561-75), que assumiu o poder após a morte de Ndambi a Ngola. Um século após a sua morte, membros idosos da elite ambundo e seus contemporâneos portugueses ainda regalavam missionários capuchinhos com histórias de seus impressionantes feitos militares, que resultaram em manter sob o controle de Ndongo todas as províncias ao longo dos rios Dande, Zenza e Lucala, até Luanda. Seu legado foi duradouro. Durante os anos 1650, o forte português de Muxima, no baixo rio Kwanza, era chamado de Isandeira em homenagem à isanda (embondeiro ou baobá) que Ngola Kiluanje teria plantado lá para marcar suas conquistas militares na região. [4]

Ngola Kiluanje kia Ndambi começou seu reinado em 1561, após a morte de seu pai e logo após a chegada da primeira missão oficial de Portugal, na primavera de 1560. Essa missão era comandada pelo capitão Paulo Dias de Novais, que desempenharia um papel importante na conquista militar de Ndongo. Os relatos dos membros dessa delegação fornecem-nos uma imagem vívida do reino logo antes do início da conquista, durante a transição do reinado de Ndambi a Ngola para o de Ngola Kiluanje.

Ao saberem que os reis de seu poderoso vizinho Congo haviam aberto suas terras para estrangeiros do outro lado do oceano, os governantes de Ndongo enviaram seus próprios emissários a Portugal para solicitar missionários, a partir de 1518 até 1556, quando Ngola Kiluanje kia Samba mandou representantes a Lisboa. [5] Uma missão portuguesa foi finalmente enviada para Ndongo em 22 de dezembro de 1559. Os portugueses que partiram de Lisboa naquele dia tinham instruções da regente dona Catarina, que reinava em nome de seu neto dom Sebastião, de ir a Ndongo para começar o trabalho missionário naquela região. A delegação, que contava com quatro missionários jesuítas, fez uma parada em São Tomé para apanhar portugueses que tinham conhecimento de Ndongo, e chegou à foz do rio Kwanza em 3 de maio de 1560. Dois membros ambundos do grupo que tinham ido a Portugal com os emissários originais foram imediatamente enviados ao interior para avisar o rei Ndongo da chegada da delegação. De acordo com Antônio Mendes, um dos jesuítas do grupo, eles esperaram quatro meses ancorados na baía até que chegassem as autoridades que lhes concederam permissão para fazer a longa viagem à capital. [6] A espera foi penosa. Ndongo sofria uma seca severa, o calor era intenso e abundavam mosquitos transmissores de doenças; os suprimentos de água e comida também eram baixos. Dez membros do grupo, entre eles um dos sacerdotes, morreram. Os sobreviventes foram salvos somente quando o chefe local da região forneceu ao grupo gado, cabras e produtos da região.

Com a chegada do emissário do rei, à frente de um destacamento militar, Dias de Novais e o resto do grupo puderam começar a jornada que os levaria rio Kwanza acima e, depois, por terra até Kabasa, a capital de Ndongo. Eles deixaram sua grande caravela e transferiram seus suprimentos para botes e canoas. Viajaram 160 quilômetros pelo rio Kwanza até chegarem ao ponto em que corredeiras e ilhas impediam a viagem a montante. A autoridade local encarregada do porto nesse ponto do rio atendeu às suas necessidades. No mês seguinte, seguiram por terra para Kabasa. Durante a viagem, o grupo passava de um território para outro, e cada líder territorial tratava de alimentar, alojar e proteger os viajantes, como era seu dever. Quando o grupo chegou finalmente a Kabasa, o rei havia preparado três chalés para os visitantes em seu próprio complexo residencial. [7]

Cerca de cinco dias depois de chegarem a Kabasa, os portugueses foram autorizados a entrar na residência do rei, situada numa área bem irrigada da cidade e protegida por grandes palmeiras. Uma das primeiras coisas que chamaram a atenção dos portugueses foi o intrincado sistema de segurança pelo qual precisaram passar antes de chegar à residência do rei, que exibia um grande pátio e estava rodeada por enormes colunas pintadas.

O padre Mendes, um dos jesuítas, ficou impressionado com a aparência física imponente do rei Ndambi a Ngola, que estava no último ano de seu reinado. De acordo com o sacerdote, ele era “um dos mais altos do lugar, como um gigante, e muito forte”. [8] É provável que Ndambi a Ngola estivesse vestido com as roupas e os adornos que se tornariam a insígnia oficial da realeza de Ndongo nos anos a seguir: uma pena vermelha (muito provavelmente de um pavão) [9] no cabelo, um pano vermelho sobre o peito e o ombro e uma roupa feita de pele de carneiro com manchas pretas e brancas que o cobria da cintura para baixo. [10] Seu corpo estaria salpicado de pó, o que significava a consideração espiritual e militar que alcançara graças a sua coragem no campo de batalha. [11] Sua aparência física impressionante refletia seu imenso poder. Na época do encontro com os portugueses, consta que Ndambi a Ngola controlava quinhentos “principados”, cujos líderes lhe pagavam tributo e chefiavam esquadrões de seus próprios subordinados nas muitas guerras que ele travou. Quase mil pessoas dependentes o acompanhavam na capital, número que subia para cerca de trinta mil durante festividades públicas. [12] De acordo com os missionários portugueses, Ndambi a Ngola era considerado divino por seus súditos; ele “fazia-se adorar como a um deus” e se vangloriava abertamente de que era “o senhor da chuva”. [13]

De seu majestoso assento feito de folhas de palmeiras, Ndambi a Ngola ouviu as explicações dos padres portugueses sobre os princípios da fé cristã, que esperavam que ele e seu povo adotassem. Apesar de suspeitar de seus motivos, ele acabou por dar permissão ao grupo para começar o trabalho missionário em Kabasa e selecionou entre quinze e vinte de seus filhos e de seus principais conselheiros para serem os primeiros discípulos dos estrangeiros.

A chegada dos portugueses, com seus planos religiosos e políticos, criou um dilema para os governantes de Ndongo. Os missionários jesuítas praticavam uma religião que tinha o potencial de minar o poder espiritual e legal do rei e de seus conselheiros. Além disso, as relações políticas que, conforme Dias de Novais, o monarca português desejava com Ndongo poderiam potencialmente diminuir a poderosa posição política que o rei mantinha em relação aos líderes provinciais e territoriais, bem como aos governantes dos Estados vizinhos, como Congo e Matamba. Além disso, havia a ameaça que os recém-chegados representavam para todo o tecido social de Ndongo. Antes da chegada dos portugueses, o ngola era, sem dúvida, a pessoa mais poderosa em um Estado mantido unido pelo pagamento de tributo de entidades políticas menos poderosas, mas autônomas. Esses pagamentos eram impostos pelo exército do ngola . Os portugueses traziam não apenas armas, mas também valores culturais diferentes em relação à espiritualidade, à justiça, às noções de posição social e status herdado com direitos de mando, liberdade e escravidão, servidão e cativeiro, hospitalidade, comércio e similares.

Assim, embora Ndambi a Ngola permitisse que os visitantes portugueses permanecessem em Kabasa e até que os jesuítas abrissem uma escola, essa boa recepção não durou. Quando ele morreu, em 1561, e seu filho Ngola Kiluanje kia Ndambi (Ngola Kiluanje) assumiu o poder em Ndongo, a situação mudou. Ngola Kiluanje voltou-se contra os portugueses, convencido de que os verdadeiros motivos do grupo eram “espionar sua terra”. [14] Ele aprisionou Dias de Novais e vários outros membros da delegação, bem como alguns ambundos que haviam ajudado os portugueses, e expulsou o resto, mandando-os de volta à costa sob escolta militar. Ngola Kiluanje acabou por libertar um dos padres e mais tarde, em 1565, Dias de Novais foi libertado. Apenas um dos sacerdotes, o padre Francisco de Gouveia, ficou em Kabasa, onde morreu dez anos depois. [15]

Embora tenha deixado Dias de Novais partir, Ngola Kiluanje manteve reféns na capital alguns membros da delegação portuguesa por quase cinco anos, decisão que tinha tanto a ver com a política estatal como com suas suspeitas sobre a motivação dos portugueses. [16] Um capitão da segunda expedição de Dias Novais sustentou mais tarde que Ngola Kiluanje e Dias de Novais fizeram um acordo pelo qual o comandante português retornaria a Lisboa para usar a suposta situação de reféns como estratagema para conseguir armas para o ngola , que estava ameaçado pela revolta de um poderoso nobre provincial. Em troca da ajuda militar de Dias de Novais, Ngola Kiluanje pode ter prometido assinar um tratado comercial com os portugueses. [17]

Ngola Kiluanje fazia uso estratégico do poder tanto em assuntos internos como em externos. Por exemplo, garantia a fidelidade de seus subordinados mantendo reféns jovens mulheres das principais famílias nos distritos onde viviam sua esposa principal, as esposas secundárias e concubinas. Em 1564, mudou a sede para a cidade de Angoleme, não muito longe de Kabasa. Ali morava com sua esposa principal, Quilundonanboa, mais de quatrocentas concubinas e pelo menos setenta filhos. [18] Exercia seu poder com habilidade, mas também foi lembrado como um rei bom e justo; de acordo com os jesuítas, até seus inimigos se submetiam a ele sem resistência. [19] O padre Gouveia observou que os procedimentos judiciais eram ordeiros e abertos ao público. Embora admirasse a transparência do rei, o sacerdote católico ficou consternado diante de alguns de seus “costumes pagãos”, como distribuir justiça no tribunal por meio de sentenças de morte. [20] Entretanto, esses atos não diminuíram a reputação do governante entre seus súditos; aos olhos deles, Ngola Kiluanje era semelhante a um deus. [21] Ao final de seu reinado, as fronteiras do país haviam se expandido significativamente. Ndongo transformara-se de uma pequena província localizada a mais de trezentos quilômetros do porto de Luanda em um Estado que abrangia todos os povos de língua quimbundo que viviam entre as fronteiras meridionais do reino do Congo e as terras ao sul do rio Kwanza.

O governante seguinte desse poderoso reino foi o avô de Jinga, Ngola Kilombo kia Kasenda (1575-92). Kasenda começou seu governo com várias desvantagens políticas, não sendo a menor delas a sua fraca reivindicação ao poder. Ele não era descendente direto de Ngola Kiluanje kia Samba, o fundador de Ndongo, mas de uma linhagem diferente. [22] Ele e seus partidários triunfaram graças a um golpe sangrento, mas não estavam interessados em mudar a direção do país. Durante seu reinado, Kasenda pegou em armas contra seus inimigos; alguns foram intimidados e obrigados a voltar para o rebanho, enquanto outros se sentiram alienados e nunca perdoaram a ele ou seus descendentes sua ascensão ao trono. [23] Ele também conquistou novas províncias, de modo que o número de governantes territoriais submetidos a Ndongo (a maioria dos quais era obrigada a pagar tributo a Kasenda) chegou a dois mil em 1586. [24] Ndongo se estendia por um território tão vasto que um observador europeu da época confundiu as três maiores províncias com um “reino por direito próprio”. [25]

A invasão portuguesa de Ndongo

Embora Kasenda tenha expandido as fronteiras de Ndongo e obtido o poder em várias regiões, o início de seu reinado coincidiu com o retorno dos portugueses e com uma prolongada crise militar, econômica e espiritual que culminaria décadas mais tarde nas desafiadoras campanhas da rainha Jinga, no início do século XVII .

Os portugueses estreitram suas relações com o Congo entre 1565 e 1575, e, em 1574, o rei do Congo deu-lhes permissão para construir uma pequena colônia na ilha de Luanda, que o Congo reivindicava. A primeira coisa que fizeram foi construir uma igreja provisória na ilha. Em 1575, o pequeno grupo de portugueses de Luanda recebeu de volta Paulo Dias de Novais, que chefiara a primeira missão portuguesa a Ndongo em 1560. Dessa vez, trazia consigo uma significativa força militar e civil. Desse modo, começou a conquista militar portuguesa de terras que Ndongo reivindicava havia muito tempo. Como Ngola Kiluanje suspeitara, a verdadeira intenção dos portugueses era conquistar Ndongo e integrá-lo ao império português. Os missionários jesuítas sustentavam a conquista dando suas bênçãos às suas ações militares e civis.

Dias de Novais partira de Lisboa em 23 de outubro de 1574, trazendo o significativo título de primeiro governador e “capitão-mor da conquista do reino de Angola” e uma armada de nove navios, setecentos homens, “muita artilharia” e quatro padres. As ordens que recebera do rei de Portugal eram de “subjugar e conquistar o reino de Angola”. [26] A frota chegou ao porto de Luanda em 20 de fevereiro de 1575. [27] Depois de ter sido alertado para a chegada dos portugueses, Kasenda não demorou a entrar em contato com eles. Em 29 de junho, um de seus funcionários chegou a Luanda com uma delegação e entregou uma mensagem do rei numa igreja que os portugueses construíram. [28] Kasenda oferecia-lhes escravos, provisões, gado e outras mercadorias. Em troca, Dias de Novais ofereceu a Kasenda presentes do rei dom Sebastião de Portugal. Posteriormente, Kasenda e Dias de Novais uniram forças em campanhas contra líderes provinciais recalcitrantes, e portugueses ganharam livre acesso às feiras de Ndongo. [29] Porém, após um curto período de cooperação, as relações se deterioraram depois que Kasenda, convencido de que os portugueses pretendiam conquistar seu reino, prendeu e matou quarenta portugueses em Kabasa, confiscando suas mercadorias e muitos escravos. As suspeitas de Kasenda eram bem fundamentadas. Dias de Novais vinha conduzindo as próprias campanhas militares na região, tendo conquistado mais de trezentos quilômetros de território de Ndongo e subordinado muitos dos vassalos que pagavam tributo a Kasenda. [30] Em março de 1582, ano do nascimento de Jinga, Dias de Novais informou ao rei dom Sebastião sua conquista de “setenta cavaleiros” tão poderosos que “cada um deles pode resistir a todo o poder do rei de Angola”. [31] Ao longo dos anos 1580, os portugueses e seus aliados africanos obtiveram ganhos significativos em muitas partes do reino.

O primeiro forte no interior foi erguido em Massangano, na confluência dos rios Lucala e Kwanza, em 1582. O padre Baltasar Afonso, um dos quatro sacerdotes da delegação de Dias de Novais, gabou-se para o rei dos sucessos dos portugueses. Escrevendo em outubro de 1582 a fim de solicitar mais materiais e homens para as campanhas de Dias de Novais, ele observou que, com apenas cem homens, o governador havia tomado “metade do reino de Angola, submetendo muitos grandes senhores [... e] em três meses ganhara três guerras contra o rei de Angola, matando e capturando um número infinito de pessoas”. [32] Embora não tenhamos confirmação independente do número de vítimas a partir de fontes de Ndongo, os registros portugueses estão repletos de descrições do devastador custo humano e físico dessas primeiras campanhas contra Kasenda. Supõe-se que em apenas uma campanha de 1583, Kasenda tenha perdido quarenta mil homens, enquanto as perdas portuguesas não passaram de sete. Em outra batalha, consta que as forças portuguesas chegaram tão perto da capital que, depois de darem apenas dois tiros, o rei “sem demora fugiu com seu pessoal”. Jinga, ainda criança, estaria nesse grupo. [33]

O avanço contínuo dos portugueses e a perda de alguns de seus vassalos obrigaram Kasenda e membros da corte a fugir novamente de Kabasa, dois anos depois. Durante a fuga, ele construiu vários fortes provisórios, cada um à distância de um dia de jornada do outro, para evitar a captura pelos portugueses e seus aliados africanos que o perseguiam. [34] Em 1585, na batalha de Talandongo, na província de Museke, a apenas quatro dias de distância de Kabasa, Kasenda enviou um grande exército, “a flor de Angola”, para enfrentar os portugueses, mas ele não foi páreo para o inimigo. No final da luta, as forças portuguesas tinham diante delas um campo de batalha onde eram visíveis apenas as cabeças cortadas, pois “os homens fugiram para salvar suas vidas!”. Entre os mortos estavam muitos oficiais militares do alto escalão de Kasenda. Outros altos funcionários e parentes do rei foram capturados vivos. [35] Kasenda enfrentou uma perda ainda mais desastrosa em 1586, quando apenas vinte de setecentos soldados de Ndongo não se afogaram ao tentar atravessar o rio Lucala. [36]

Muitas das regiões vizinhas e territórios subordinados de Ndongo sofreram destruição, brutalidade e humilhação nas mãos dos portugueses. Em 1581, numa operação perto da província rica em sal de Kissama, 150 soldados portugueses invadiram as terras de um senhor do lugar para vingar a morte de seus companheiros. Eles aprisionaram cem escravos e queimaram as aldeias. Uma testemunha missionária observou que as provisões que eles levaram ou destruíram — entre elas, animais domésticos, óleo, mel e também “casas cheias de sal”, a principal exportação da província — eram tão abundantes que “se podem encher com elas dois navios da Índia”. [37] Em outra campanha, um chefe provincial que fora capturado ofereceu aos portugueses cem escravos como resgate. Eles aceitaram os escravos, e mesmo assim decapitaram o chefe em praça pública. [38]

Durante essas operações, os portugueses começaram a macabra prática de cortar o nariz das pessoas que matavam nas guerras e enviá-los aos acampamentos portugueses como troféus. Numa batalha, 619 narizes foram cortados de soldados de Ndongo; em outra, foram tantos os soldados inimigos mortos que os portugueses empregaram vinte carregadores para levar todos os narizes cortados ao seu quartel-general. [39] Em outra ocasião, as forças portuguesas mataram tanta gente que soldados não tinham por onde andar, senão “por cima deles”. [40]

As campanhas contra Ndongo não eram apenas guerras de conquista, mas também operações de captura de escravos. Milhares de ambundos não combatentes foram escravizados e enviados para o trabalho em fazendas criadas nos arredores de Luanda, ou, como vinha acontecendo em outros países da África havia cerca de setenta anos, foram vendidos para as Américas. Entre 1575 e 1590, os portugueses exportaram cerca de cinquenta mil ambundos para o Brasil graças a suas guerras e operações de escravização em Ndongo. [41]

Apesar de todos os reveses enfrentados por Kasenda, os grandes exércitos que ele pôs em campo lutaram bravamente contra os portugueses e obtiveram alguns sucessos. Em 1581, ele enfrentou um exército composto por uma pequena força portuguesa de 120 homens e um grande número de soldados do Congo. [42] O exército de Kasenda prevaleceu, e o exército do Congo, em retirada, teria deixado “milhares de feridos e mortos no campo”. [43]

Kasenda e seus partidários atacavam habitualmente os chefes provinciais que se aliavam aos portugueses. Em 1582, por exemplo, seu exército invadiu as terras de Popo Ngola, que se tornara vassalo dos portugueses. [44] No ano seguinte, ele reuniu um grande exército que testemunhas oculares portuguesas estimaram em centenas de milhares de soldados. As forças de Ndongo, organizadas em três grandes esquadrões e comandadas por nobres importantes, eram tão grandes que se espalhavam por muitos quilômetros. [45] Às vezes, chefes provinciais que tinham passado para o lado dos portugueses voltavam atrás quando calculavam que sua segurança estava mais com Ndongo do que com os forasteiros. Isso aconteceu durante uma batalha travada em 1581 contra as forças combinadas de portugueses e congos, quando “alguns senhores” que já estavam do lado português “ficaram tão desconfiados” que se recusaram a ajudá-los. [46] Poucos anos depois, “um grande número de senhores” rebelou-se contra as forças de Dias de Novais e, em outras ocasiões, os chefes provinciais e seus povos chegaram a fingir que se rendiam, mas depois voltavam-se contra as forças portuguesas na primeira oportunidade. [47] Em 1588, alguns dos aliados mais próximos de Kasenda convenceram Dias de Novais de que o ajudariam a dominar Kabasa, mas conduziram os portugueses a uma emboscada. [48] No ano seguinte, os portugueses executaram alguns aliados ambundos depois de descobrir um complô que haviam tramado contra eles. [49]

As habilidades militares e diplomáticas de Kasenda possibilitaram que ele reunisse uma confederação militar centro-africana que infligiu uma grande derrota aos portugueses na batalha de Lucala, em 1589-90. Nessa campanha, que envolveu tropas dos reinos de Matamba e do Congo, a aliança atacou primeiramente o forte português em Massangano e depois levou a luta até o porto de Luanda. [50] Luís Serrão, que assumira o controle das forças portuguesas depois da morte de Dias de Novais, viu suas forças serem derrotadas quando vinte ou trinta chefes provinciais, antes aliados seus, se voltaram contra ele. Serrão teve de fugir rapidamente. [51] Um novo governador, Francisco de Almeida, chegou a Luanda em 1592 com quatrocentos soldados brancos e “cinquenta cavaleiros africanos” e a ordem de “expandir a conquista e pôr as minas sob nosso domínio completo”. Ele levantou forças adicionais e iniciou uma campanha, mas a erupção de uma epidemia o forçou a retornar à cidade. Almeida abandonou a colônia em 1593, deixando o irmão em seu lugar. [52]

Mas Kasenda não conseguiu manter a integridade de Ndongo, apesar de algumas vitórias impressionantes. Quando morreu, em 1592, ele já havia perdido o controle de muitos macotas e sobas. Na visão desses chefes locais, Dias de Novais e os portugueses não eram piores do que os governantes de Kabasa, uma vez que ambos exigiam que pagassem tributos e oferecessem homens para o serviço militar. Alguns desses líderes reivindicaram descendência de linhagens reais e questionaram a legitimidade de Kasenda. Outros aproveitaram o caos causado pela guerra para deixar de enviar tributo ou apoio militar, privando assim Kasenda de recursos valiosos. O caso do soba Muxima Kitangombe ilustra particularmente bem a situação em que Kasenda se viu. Em 1581, Muxima ofereceu ajuda aos portugueses se eles o ajudassem a subjugar “um de seus inimigos”, prometendo que “ele na companhia de todos os seus vassalos ajudaria [Dias de Novais] contra o rei de Angola [Kasenda]”. Ele tornou-se vassalo dos portugueses e enviou ao exército “muitas provisões, porcos e gado”. [53] O soba de Bansan também abandonou sua fidelidade a Kasenda e passou para o lado dos portugueses, levando consigo outros membros de sua linhagem, inclusive seu irmão, seu filho e seu genro. [54] Entre os que se tornaram aliados dos portugueses destacam-se indivíduos da linhagem Hari, que reivindicavam o trono porque eram descendentes de uma das concubinas de Ngola Kiluanje kia Samba, o fundador de Ndongo. [55]

O sistema de estados tributários que Kasenda herdara de seus antecessores iniciou uma lenta agonia durante seu reinado. No passado, os chefes provinciais haviam enfrentado a ameaça interna de conquista. Após a derrota para o rei de Ndongo, os sobas não eram removidos de suas terras, mas forçados a enviar tributos a Kabasa, bem como contingentes de soldados quando necessário. Mesmo quando os reis de Ndongo decidiam remover os sobas vencidos de suas terras, instalando seus “filhos” no lugar deles, esses novos chefes deviam enviar tributo periodicamente. Se não o fizessem, seriam também removidos pelo exército. [56]

Agora, o inimigo era externo. O sistema que os portugueses estabeleceram, tanto em terras conquistadas como nas terras de sobas que ofereciam voluntariamente sua lealdade ao poder colonial, baseava-se na propriedade de terras, bens e pessoas pelos jesuítas e pelos soldados e mercadores portugueses. Em 1581, por exemplo, Dias de Novais deu ao padre Baltasar Barreira, chefe da comunidade jesuíta, terras que incluíam os “escravos liberados, aluguéis e terras [pensões]” que pertenciam a oito chefes poderosos da região dos rios Lucala, Zenza e Kwanza, bem como “porções de terras e lagos que os reis de Angola deram a Francisco de Gouveia [...] e todo o resto que ele possa possuir e que lhe pertença”. [57] Seguiram-se outras distribuições à medida que as conquistas avançavam. Em 1587, Dias de Novais deu as terras de um poderoso soba da província de Museke a um colonizador português. [58] Àquela altura, os objetivos portugueses estavam claros: conquistar Ndongo e entregar as terras às ordens religiosas e aos colonos portugueses.

Conquistas religiosas

A penetração religiosa e os avanços espirituais dos portugueses foram tão influentes em minar a autoridade de Kasenda quanto as conquistas militares. Em 1575, quando chegou a Luanda, Dias de Novais estava totalmente preparado para usar as armas religiosas com que o rei de Portugal lhe municiara. Seu grupo desembarcou em Luanda com pompa e ostentação. Ao lado das centenas de soldados portugueses estavam quatro jesuítas que levavam relicários dedicados às lendárias onze mil virgens martirizadas de santa Úrsula. Um dos padres carregava os relicários sob um dossel ornamentado, enquanto o resto do grupo cantava hinos acompanhados por um corpo de trompetistas. [59] Ao final do reinado de Kasenda, 26 missionários jesuítas já haviam se reunido às forças portuguesas. [60]

Dias de Novais não tomava nenhuma decisão sem primeiro consultar os jesuítas. Em 1575, por exemplo, adiou a reunião com o embaixador de Kasenda até que tivesse tempo de rezar na pequena igreja que seus soldados haviam construído. Durante o encontro, dois padres ficaram de guarda de cada lado de seu assento recoberto de veludo. [61] Ele acreditava que, para ganhar no campo de batalha, os soldados deveriam estar “armados com o sacramento da confissão e da comunhão” e precisavam realizar exortações religiosas. Os soldados eram encorajados a “ir à igreja cinco vezes para fazer devoções” antes de seguir para uma campanha, e os padres que acompanhavam o exército “rezavam missa e ladainhas para eles”. [62] Os ícones religiosos também tinham uma imensa importância. Quando um pequeno retábulo portátil adornado com a imagem da Virgem Maria desapareceu, todas as atividades habituais cessaram até ele ser encontrado. Depois que foi localizado, consta que os homens rezaram muitas ladainhas diante dele para mostrar sua reverência. [63] Dias de Novais e seus seguidores atribuíam seus sucessos militares à orientação da “Virgem Nossa Senhora”. [64]

Embora carregassem obviamente a fé católica no coração, Dias de Novais e seus homens também tinham outros objetivos em mente. Decidido a completar não só a conquista militar de Ndongo, mas também sua conversão religiosa ao cristianismo católico, o comandante português fazia com que todos os rituais religiosos fossem realizados em público, como forma de atrair a população local. Seus primeiros alvos seriam a elite de Ndongo, seguida pelos feiticeiros, sacerdotes (gangas) e crianças. [65]

No início de sua campanha, Dias de Novais e os missionários fizeram avanços significativos entre elementos cruciais da liderança regional. Numa elaborada cerimônia realizada em Luanda no início de 1581, o padre Barreira batizou um dos genros de Kasenda, um nobre poderoso, e Dias de Novais foi seu padrinho. O nobre, vestido com opulentos trajes portugueses, adotou o prenome de Dias de Novais, passando a chamar-se dom Paulo. [66] O processo de conversão era semelhante ao de um cortejo amoroso. No caso de dom Paulo, Dias de Novais o encheu de presentes, atenção, privilégios e, o que talvez fosse mais significativo, conferiu-lhe o direito de empunhar o “arco real”, uma marca de realeza em Ndongo, que indicava sua posição de líder militar e sua legitimidade como descendente da linhagem real. [67] Dias de Novais concedeu-lhe outra honra, permitindo que se sentasse “numa cadeira coberta com um tapete” sempre que se encontravam. [68] Não há dúvida de que dom Paulo foi cooptado. Seis meses após sua conversão, agora aliado aos portugueses, ele comandou um exército de cinco mil a seis mil de seus soldados para sufocar uma revolta em Cambambe. [69] Um ano depois, voltou a entrar em batalha contra as forças de Ndongo. Ele e seus homens atribuíram a vitória contra Kasenda ao surgimento apocalíptico de uma cruz no céu durante a batalha. Os portugueses referiam-se à batalha como “a guerra do céu e de Deus” e a chamaram de Nossa Senhora da Vitória em homenagem à Virgem Maria. [70]

Mas dom Paulo não era nem de longe a única história de sucesso na campanha portuguesa para ganhar convertidos e aliados. Muitos outros líderes provinciais de Ndongo e seus seguidores foram batizados em rituais semelhantes aos usados na cerimônia de dom Paulo. O soba Songa, por exemplo, junto com seu filho e um irmão, foi batizado numa luxuosa cerimônia realizada em Luanda na presença de 216 testemunhas, e Dias de Novais mandou que voltassem para suas terras a fim de servirem de exemplo ao seu povo. [71] Acompanhados por um jesuíta em seu retorno, Songa e seu filho, batizados respectivamente com os nomes de dom Constantinho e dom Tomás, deram aos jesuítas permissão para batizar centenas de aldeões e erguer cruzes no lugar dos ídolos. Eles flagelaram o campo, incendiando publicamente os santuários e as cabanas onde os gangas e os aldeões mantinham sua parafernália religiosa. Também recrutaram meninos para coletar os ídolos e queimá-los em grandes fogueiras. Em troca de sua colaboração, Dias de Novais designou Songa capitão-mor das tropas africanas e, como fizera com dom Paulo, deu-lhe o “arco real” e um assento “diante dos governadores sobre um tapete”. [72] Um nobre de Ndongo estava tão ansioso pelo batismo que jogou fora seus “ídolos” e se apresentou para o batismo com suas “esposas, seus filhos e seus amigos”. Depois da cerimônia de batismo, casou-se legalmente com uma de suas esposas e desistiu das outras, aderindo à proibição da poligamia imposta pela Igreja. Em 1586, o padre jesuíta Diogo da Costa calculou que havia batizado não menos que cem nobres provinciais a pedido deles mesmos. Ele especulou que esses nobres estavam ansiosos para garantir uma aliança com os portugueses devido à “crueldade do rei [de Ndongo]”. [73] A quantidade de ambundos batizados cresceu de forma constante, aumentando de pouco mais de mil em 1584 para vinte mil até 1590. [74]

Essa dimensão religiosa da estratégia portuguesa foi devastadora para o prestígio de Kasenda. Seu papel espiritual sempre fora um elemento essencial no seu estadismo e os profissionais religiosos desempenhavam um papel importante no reino. Em 1585, Kasenda vangloriou-se de que sabia que havia apenas três reis no mundo — ele mesmo, o rei de Portugal e o rei do Congo —, mas que ele, “o rei da terra, do mar e do céu”, era o mais importante. [75]

Os jesuítas concentraram boa parte de seu esforço em enfraquecer a fé do povo nos gangas, os sacerdotes do Ndongo, facilmente identificados por suas roupas e pela aparência física. Os jesuítas os tratavam como a feiticeiros que falavam com o diabo. As descrições detalhadas que os jesuítas deixaram de suas conversas com esses “feiticeiros” e de sua aparência física, parafernália religiosa e santuários públicos não deixam dúvidas de que eles eram uma força poderosa em Ndongo. [76] Muitos deles eram figuras públicas que dirigiam as principais cerimônias religiosas durante as secas ou a guerra, ao mesmo tempo que oficiavam nas aldeias os nascimentos, rituais de batismo, doenças e óbitos. Em regiões conquistadas pelos portugueses, os gangas foram forçados à conversão. Os jesuítas prendiam aqueles que ainda estavam em seus santuários e os forçavam a aprender “as coisas de Deus”. [77] Em 1582, o padre Barreira entrevistou um funcionário religioso muito antigo e importante, que era a autoridade espiritual de uma província aliada aos portugueses. Acreditava-se que esse homem tinha o poder de controlar o clima, garantir a saúde da população e fornecer outros serviços importantes. Barreira ficou alarmado com a aparência do ganga, observando que ele parecia estar vivendo como uma mulher, pelo menos exteriormente — seus cabelos eram longos e soltos, e ele se vestia com um longo manto “feito de seu cabelo”, envolto em muitas camadas de panos normalmente usados somente por mulheres. Questionado por Barreira, o ganga revelou que havia nascido homem, mas o “demônio” dissera à sua mãe que ele morreria imediatamente se não “se tornasse uma mulher”. [78] Barreira obrigou-o a cortar o cabelo e confiscou sua parafernália religiosa “supersticiosa”. E foi ainda mais longe: cravou uma cruz onde o ganga executava suas funções e começou imediatamente a construir uma igreja no próprio local onde ficava o santuário dele. [79]

Apesar das muitas tentativas que os jesuítas fizeram de acabar com o poder dos gangas, o número deles pode ter aumentado durante o reinado de Kasenda. Existem muitos indícios de que as crenças religiosas tradicionais continuaram a exercer uma forte influência sobre a população. Por exemplo, como já era costume muito antes da chegada dos portugueses, o povo continuava a seguir os ensinamentos dos gangas, usando nos braços e pernas pulseiras de ferro e cobre limpas ritualmente (como Jinga faria mais tarde), acreditando que esses adereços os protegiam de doenças. [80] Acreditava-se que os principais curandeiros que davam assistência à corte e às capitais provinciais tinham a capacidade de entrar em contato com governantes falecidos, que provavelmente possuíam os sacerdotes e falavam através deles em tempos de crise política. Em 1586, um nobre de Ndongo capturado desculpou a perda da importante província de Ilamba com relatos de uma visão desse tipo. Ele alegou que os soldados fugiram aterrorizados dos portugueses devido a “uma mulher de muita autoridade que viram no céu, acompanhada por um velho com uma espada de fogo na mão”. [81] A veneração de guerreiros mortos também era um elemento central da prática religiosa de Ndongo. Os soldados vitoriosos faziam túmulos dos esqueletos e crânios de camaradas mortos no local das batalhas. [82] O sacrifício humano talvez tenha também aumentado durante o reinado de Kasenda, pois quando ele morreu, em 1592, várias pessoas foram mortas e enterradas com ele. [83]

Durante seu reinado, Kasenda promoveu as tradições e os rituais religiosos de Ndongo, talvez como contrapeso às facções da corte que aderiram ao cristianismo e aos portugueses. Isso talvez explique por que ele enviou seu principal representante religioso, em vez de seu tendala (a principal autoridade administrativa da corte), para supervisionar a visita de Dias de Novais e dos jesuítas em 1575. Quando suas suspeitas sobre os motivos dos portugueses aumentaram, Kasenda não hesitou em agir contra os cristãos africanos e europeus em sua corte. Em 1580, quando deu a ordem de matar quarenta portugueses em Kabasa, também aprovou o assassinato de mil escravos cristãos de Ndongo que estavam por lá negociando em nome dos portugueses. [84]

A situação dos gangas e de outros profissionais religiosos era paradoxal. Embora fossem alvos de ataque, a liderança de Ndongo — até mesmo membros que se tornaram aliados dos portugueses — punha grande fé na eficácia desses sacerdotes tradicionais, nos rituais que supervisionavam e nos conselhos que davam. Em 1581, um chefe provincial que se tornara aliado dos portugueses e planejara assassinar Kasenda pediu a proteção de seus sacerdotes antes de atravessar o rio para um encontro com Dias de Novais. [85] Em 1588, Kafuxi ka Mbari, outro senhor de Ndongo que era inicialmente aliado dos portugueses, pôs a culpa de suas perdas militares na ausência de chuvas. [86] Para melhorar suas chances, convocou “seus sacerdotes chamados gangas em todas as suas terras” para realizar as cerimônias necessárias. [87]

Os rituais que os gangas e outros líderes espirituais praticavam eram considerados vitais para o sucesso nas guerras e em outras ocasiões importantes. Nenhum rei ou chefe provincial realizava um evento público importante sem incluir profissionais religiosos em sua comitiva. Eles também estavam presentes nas cerimônias religiosas realizadas a cada cinco dias após a morte de um governante provincial, nas quais criados pessoais poderiam ser enterrados com seus senhores. [88]

Desde o início de seu governo, Kasenda ouvia o conselho de seus orientadores religiosos. Em 1585, por exemplo, mandou sua mãe e “muitos gangas homens e mulheres” para proteger seu exército. [89] Mas seu governo não teve um final feliz. Anos mais tarde, ele foi aclamado por fortalecer Ndongo e prevalecer contra chefes provinciais e membros de linhagens rivais que se aliaram aos portugueses. [90] Mas Kasenda percebeu que suas guerras e seus sacerdotes falharam a expulsar os invasores. Incapaz de aceitar que as conquistas portuguesas o deixaram com apenas uma fração do reino que herdara, ele abandonou a luta e recuou para Kabasa. Em seus últimos anos de vida, viveu com a ignomínia de uma cidade portuguesa em expansão na costa e fortes portugueses permanentes que controlavam a maioria do povo e das terras que anteriormente estavam submetidos ao seu poder. [91] Kasenda morreu em 1592, quando Jinga se aproximava dos dez anos. Embora o filho e o neto que sucederam a ele tenham continuado a tradição das guerras e da resistência, seria sua neta Jinga quem finalmente teria sucesso em resistir aos portugueses.