i. Transformando Marx em “Marx”1

O contexto em que os leitores — acadêmicos ou não — vieram a conhecer Marx como “Marx” não foi descoberto postumamente por diligentes biógrafos vasculhando arquivos. Foi construído em primeiro lugar pelo próprio Marx, em seguida por outros, enquanto ele ainda era vivo, e depois postumamente, após um intervalo de cerca de trinta anos. Esse contexto — biográfico e bibliográfico — agora exerce um profundo efeito sobre o Marx que imaginamos ao lermos sobre quem ele “era”. Basta dizer que seus biógrafos e bibliógrafos — que se seguiram a ele nesse papel — exercem sobre o que sabemos hoje sobre Marx uma influência muito maior do que a dele próprio, mesmo quando estava tentando criar renome. Ou melhor, o que ele nos contou sobre si mesmo em diversas fases de sua vida foi assimilado de várias maneiras seletivas, a fim de reforçar o que os biógrafos mais ou menos autorizados — desde a Primeira Guerra Mundial — pensam que devemos saber sobre “a vida e o pensamento” de Marx.2

E é claro que, enquanto Marx vivia sua vida, pensava seu “pensamento” e escrevia seus escritos, havia ali um contexto “cotidiano” de incerteza e contingência. Marx ainda não sabia que ele era Marx, o “grande homem” e o “grande pensador” na acepção posterior. Mesmo quando ele se apresentava aos leitores e repassava sua vida até aquela data, olhava em frente e agia voltado para o público que pretendia atingir, em vez de olhar para trás, voltado para algo já “feito” e, portanto, “a ser conhecido”, que é o olhar próprio do biógrafo. As biografias adotam um gênero que não é o cotidiano contingente, pois o que se apresenta aos leitores é uma história de vida que já terminou, e tampouco é a exposição autobiográfica e política com vistas à publicidade, como certamente eram as autocaracterizações de Marx.

Este capítulo examina o que pensamos saber sobre Marx à luz da análise perspectiva acima apresentada. Mas, e nisso o capítulo escapa um pouco ao costumeiro, ele começa com Marx apresentando pessoalmente sua vida, enquanto vivia. Então vemos a distância entre sua visão “cotidiana” de si mesmo e as “versões de Marx” que foram construídas pelos biógrafos. O maior acesso mundial aos escritos de Marx numa infinidade de versões também lhe dá — incluindo imagens autênticas e imagens imaginadas — uma visibilidade maior do que nunca,3 porém como “grande homem” e “grande pensador” com uma variedade de traços muitas vezes incompatíveis entre si. Essas versões de Marx serão detidamente examinadas aqui, com a devida consideração pelos dados biográficos “básicos”, de forma que teremos alguma ideia de sua vida e de sua época ao vermos o tratamento que ele e outros lhe deram. Desse modo, o que lemos de Marx e sobre Marx e, ao mesmo tempo, o que podemos pensar a respeito da política hoje em dia, poderão travar um diálogo com bases bem informadas, nos capítulos conceituais posteriores.

“Selfie” de Marx: n. 14

A primeiríssima caracterização autobiográfica de Marx raras vezes é mencionada pelos biógrafos e comentadores, mas ela assinala um momento interessante em suas atividades iniciais, quando, aos 29 anos de idade, ele revê sua vida até então e se apresenta ao público almejado. Embora os dados biográficos expostos a seguir sejam — desde meados do século xx, em todo caso — talvez bastante familiares a muitos leitores,5 meu enfoque sobre a visão do próprio Marx a esse respeito lhes confere um significado um tanto distinto. Esses dados não são pequenos degraus rumo a obras de maior importância, nem referências a obras-primas filosóficas displicentemente postas de lado mas à espreita num arquivo. Pelo contrário, ele menciona esses pontos de referência autobiográficos como marcadores na carreira de um escritor/ativista que começa a ter alguma projeção, anunciando a si mesmo e seu livreto (o primeiro de sua autoria exclusiva) como um projeto político-intelectual de alcance europeu.

Nascido em Trier, na Renânia (então Prússia renana), em 1818, Marx teve no liceu uma educação germânica clássica, que o levou a cursar direito (e também a se envolver em alguns episódios “estudantis” infelizes) na Universidade de Bonn e depois (com maior comedimento) na Universidade de Berlim, a capital do reino prussiano. Marx estava seguindo em linhas gerais aquilo que, em termos novecentistas, veio a ser conhecido como uma pauta liberal imbuída de valores iluministas, a saber, a defesa da soberania popular e das disputas eleitorais, do governo representativo que deve responder à sociedade e da igualdade perante a lei com um Judiciário independente. Qualquer um que adotasse essa pauta fazia-o sob rigorosa censura do Estado, no clima político hostil do autoritarismo monárquico anticonstitucional e de uma instituição religiosa de perfil semelhante. Esse liberalismo e esse republicanismo refletiam, sem dúvida, valores que ao menos algumas pessoas abraçaram em Trier, onde Heinrich, pai de Marx, e Ludwig von Westphalen, amigo do pai e futuro sogro de Marx — ambos profissionais liberais —, estavam sob certa suspeita e vigilância devido a possíveis tendências subversivas.6

No entanto, são direitos e liberdades civis que só foram (em certa medida) instaurados em regimes constitucionais após a Primeira Guerra Mundial e, por isso, não recebem caracterização suficiente entre os primeiros biógrafos de Marx no contexto inicial dos anos 1820 e 1830. Na virada para o século xx, a profunda e opressiva hostilidade das autoridades e do sistema dominante diante de qualquer mínima participação popular nas instituições representativas havia em boa parte desaparecido. Mas, nos dias do Vormärz (isto é, antes dos acontecimentos revolucionários da Europa Ocidental e Central na primavera de 1848), esses direitos e liberdades civis eram tidos como muito, muito mais radicais do que cinquenta anos depois, mesmo que fossem formulados na época em termos reformistas bastante brandos. Nos primeiros tempos de Marx, o liberalismo estava longe de ser respeitável; era, na verdade, tido como sedição e traição. Para os regimes religioso-políticos estabelecidos, o liberalismo era a ladeira íngreme e escorregadia que levava aos extremismos e terrorismos das sucessivas revoluções francesas, então muito recentes, de apenas algumas décadas antes. De fato, a ocupação napoleônica da Renânia e a implantação de valores e princípios republicanos foram totalmente rejeitadas e anuladas pelo regime prussiano restaurado após 1815, mesmo que “aqueles dias” de instituições republicanas fossem discretamente reverenciados por alguns como — na memória viva — uma introdução progressista e “iluminista” da modernidade.

Marx desistiu de seguir a carreira paterna de advogado e preferiu se dedicar à filosofia, lendo tanto autores clássicos quanto as obras do finado G. W. F. Hegel, então renomado na Europa Central como o principal filósofo moderno, a quintessência da filosofia germânica. Aos 23 anos, Marx enviou pelo correio uma tese de doutorado sobre a filosofia grega clássica para a Universidade de Iena, que nunca frequentara, e depois abandonou qualquer esperança de seguir carreira acadêmica, dada a hostilidade do governo ao radicalismo revolucionário e a ações potencialmente traidoras. Naquele momento crucial, ele optou pelo jornalismo político, escrevendo reportagens impactantes para o Rheinische Zeitung, um jornal de classe média da Renânia, durante um breve período (1842-3) de relativo abrandamento da censura na Prússia. Entre suas contribuições havia artigos sobre a pobreza rural local, editoriais raivosos defendendo a liberdade de imprensa, a lei do divórcio e outras questões civis similares, bem como críticas ad hominem dirigidas a “escolas de pensamento” de orientação política, inevitavelmente disfarçadas como matérias de mero interesse intelectual a fim de conseguir passar pela censura. Quando outros editores e financiadores do jornal se acovardaram, Marx assumiu a editoria e “endureceu” a linha do jornal contra o constante assédio da polícia.

Depois que o governo prussiano fechou esse jornal liberal (para a época) em Colônia, e depois de se casar e passar a lua de mel num balneário da Renânia, Marx se aventurou outra vez, no outono de 1843, no mesmo território político/intelectual, coeditando o “número especial” (só saiu um número) do Deutsch-Französische Jahrbücher de 1844, um volume de ensaios políticos de diversos colaboradores, agora muito raro. Afastando-se do clima opressor e das repressões policiais dos Estados germânicos, Marx e a esposa haviam se estabelecido, com outros radicais alemães, em Paris, onde — assim esperavam eles — suas atividades não atrairiam tanta atenção oficial. Editado por Arnold Ruge e Karl Marx (nessa ordem), o “número” dual do periódico trazia uma troca de correspondência sobre assuntos políticos entre os dois editores;7 contribuições políticas dos poetas radicais Heinrich Heine e Georg Herwegh; “Cartas de Paris” de Moses Hess, o teórico comunista cosmopolita; ensaios do jornalista Ferdinand Coelistin Bernays (também conhecido como Karl Ludwig, colega de Marx) e do liberal (radical) da Prússia Oriental Johann Jacoby, além de um ensaio do promissor Friedrich Engels de Manchester e outro do coeditor Karl Marx, que, afora isso, ainda não tinha qualquer ligação efetiva com Engels.8 A intenção era contornar a censura nos Estados germânicos e fazer o volume chegar aos germanófonos “em casa”, a fim de anunciar e tentar ampliar um coletivo radical de intelectuais que, em alguns casos, dividiam a moradia em alojamentos baratos no estrangeiro. O projeto político era, em termos amplos, derrubar as monarquias e as instituições religiosas do Antigo Regime a leste do Reno e, assim, liberalizar a ordem política e modernizar as economias locais, instituindo os direitos civis, o regime republicano e o livre-comércio.

Trabalhando em conjunto com o novo amigo e colaborador Friedrich Engels, Marx lançou a seguir um pequeno livro, publicado em 1845 em Frankfurt-am-Main, sob censura germânica. Era A sagrada família, ou A crítica da crítica crítica: Contra Bruno Bauer e consortes.9 No livro, os dois fizeram uma polêmica tentativa de radicalizar contra os liberais radicais que permaneciam nos Estados germânicos, os quais, em termos de origens e educação universitária, não eram muito diferentes do próprio Marx. Com efeito, o Bauer do subtítulo tinha sido professor e confrère político de Marx — lançando ataques racionalistas e ateístas quase indisfarçados contra o cristianismo e, assim, contra a monarquia prussiana — em seus dias na Universidade de Bonn. Não admira que Bauer tenha sido demitido do cargo universitário. Em vista da censura e do restritíssimo público visado, a obra satírica de Engels e Marx levantou alguma poeira, mas num minúsculo perímetro, marcando pontos contra intelectuais que só pareciam moderados em comparação à ala radical que morava no exterior.

Tendo se instruído nos escritos comunistas da época — que eram utópicos sob vários aspectos —, Marx fundiu seu interesse jornalístico pelos trabalhadores pobres10 com as resoluções políticas bem mais abstratas, e bem menos “cotidianas”, então disponíveis. Talvez não surpreenda muito que ele e a família tenham sido expulsos da França na primavera de 1845, e então voltado a se instalar — em outra colaboração liberal/radical/comunista — em Bruxelas, onde a polícia era um pouco menos paranoica e certamente menos eficiente.

De 1845 a 1846, os dois ativistas e agora autonomeados comunistas11 Marx e Engels — junto com outros colaboradores — se dedicaram a redigir uma continuação e uma ferina tréplica a seus objetos de crítica — em especial Bauer —, que tinham ousado responder ao ríspido A sagrada família em termos pouco adequados. Segundo eles, essas respostas eram meras críticas filosóficas que não levavam em conta os problemas prementes colocados pela realidade econômica da miséria e do sofrimento que se faziam claramente visíveis (como o jornalismo de Marx conseguira demonstrar, dentro dos limites impostos pela censura sobre esse assunto). Mas então, após algumas difíceis e incômodas experiências com diversos coautores e editores, das quais não resultou quase nada (além de uma caixa cheia de manuscritos inacabados), Marx resolveu vir a público para apresentar aos leitores algo sobre si mesmo. Enviou uma nota pública de 8/9 de abril de 1847,12 que saiu no Deutsche-Brüsseler Zeitung, um jornal de émigrés em Bruxelas, e no Trier’sche Zeitung, jornal de sua cidade natal, Trier. Os detalhes que ele apresenta na nota são agora um tanto obscuros, e mesmo na época eram tortuosos, mas o projeto de autodivulgação de Marx estava em visível andamento. Em meio à sua raivosa denúncia de um correspondente de jornal que lhe atribuíra obras e comentários que desmentiu vivamente, Marx apresentou pela primeira vez ao leitor desinformado um perfil sobre sua pessoa e suas atividades. A essa altura, ele estava claramente convencido de que tinha algo a dizer, tanto sobre suas realizações anteriores (de meros quatro anos) quanto sobre suas expectativas futuras — ou, pelo menos, assim pretendia que os leitores pensassem.

A salva com que inicia a nota, então sem título, informa aos leitores de língua alemã que ele está com um livro no prelo em francês,13 no qual trata de uma figura importante na vida intelectual e política europeia, Pierre-Joseph Proudhon. O Sistema das contradições econômicas, livro de Proudhon lançado no ano anterior, fora amplamente resenhado e comentado; além disso, para os alemães letrados, a língua francesa, sua literatura e seu pensamento político eram verdadeiramente internacionais e inigualáveis. Ademais, quanto a obras referentes à “questão social” — que incluíam análises das desigualdades de riqueza e poder, ou seja, das divisões de classe nas sociedades em modernização —, os autores franceses, inclusive e sobretudo pensadores agora classificados como socialistas utópicos,14 constituíam verdadeiras autoridades. Nesses jornais, Marx estava anunciando sua próxima réplica: Miséria da filosofia: Resposta à “Filosofia da miséria” do sr. Proudhon.

Num interessante lance publicitário, Marx anuncia Proudhon como importante autor de renome europeu e, assim, anuncia a si mesmo como autor de um importante contragolpe de título espirituoso, rebaixando um desventurado alemão, o Karl Grün do tema e do título editorial posterior. Grün era o autor de um exame supostamente abrangente dos movimentos sociais que haviam lutado contra a injustiça econômica e política (como variadamente a entendiam) na França e na Bélgica em 1845. Em data recente, Grün também acabara de traduzir para o alemão a própria obra de Proudhon a que Marx estava respondendo. Depois de descartar uma autoridade rival sobre os movimentos sociais e sobre a mais recente obra de Proudhon, Marx informa aos leitores sem qualquer rodeio:

Minha crítica a Proudhon está escrita em francês. O próprio Proudhon poderá responder. Uma carta que ele me escreveu logo antes de publicar seu livro não mostra absolutamente qualquer disposição de deixar sua defesa a cargo de Herr Grün e seus associados, no caso de uma crítica de minha parte.15

Os leitores agora sabem que o “editor do antigo Rheinische Zeitung”, título e fato que Marx teve o cuidado de repetir em seu texto, era a fonte a que deviam recorrer para as últimas notícias e resenhas sobre a famosa e polêmica obra de Proudhon. Também podem deduzir que o famoso francês estivera — como de fato esteve — em correspondência com o autonomeado principal jornalista alemão sobre o assunto, a saber, Marx. Além disso, também ficava evidente que, ao contrário de outros alemães menos dinâmicos e menos talentosos, ele (Marx) não só era plenamente proficiente em francês, mas estava se estabelecendo como igual e rival de uma importante figura europeia na vida intelectual e política.

Insistindo na mesma tecla, Marx então não só descarta Herr Grün como concorrente sequer remoto, mas também desmerece seu próprio contexto alemão e seus supostos associados, pelo ridículo atrevimento de pensarem que teriam mais competência do que ele para comentar o “socialismo estrangeiro” para o bem do “mundo germânico”. Numa aguilhoada final, Marx então comenta que Grün tem mais credulidade do que credibilidade como fonte de esclarecimento, comparado aos artigos de jornal do próprio Marx — que os aponta claramente como marcos intelectuais de interesse geral.

Tal era o caso em relação à “economia” de Proudhon. A caracterização que Marx faz da obra hegeliana de Proudhon sobre um “sistema das contradições econômicas” como economia está longe de ser uma mera simplificação fortuita. É antes um sinal para que os leitores fiquem atentos e leiam sua crítica ao grande francês, a sair em breve, sobre o grande assunto, que assinalou uma mudança importante no pensamento socialista, afastando-se do utopismo e passando para questões práticas modernas. Era, acima de tudo, uma crítica da má filosofia hegeliana — isto é, alemã nativa — de Proudhon, tema sobre o qual, de todo modo, os leitores haveriam de supor que o jovem Marx tinha um domínio superior.16

“Selfie” de Marx: n. 2

O episódio seguinte a transformar Marx em “Marx” coincidiu com seu anunciado envolvimento com a “economia”, isto é, a economia política17 da época, conforme era publicada e debatida ao longo dos anos 1840, e o pano de fundo teórico e intelectual para seu jornalismo entusiasticamente (e seus ocasionais discursos) engagé durante os caóticos eventos revolucionários de 1848-9. Com Engels, Marx ressuscitou seu jornal radical em Colônia, agora com o título Neue Rheinische Zeitung, fazendo viagens como “correspondente” que se estendiam até Viena. O objetivo era manter os falantes de alemão atualizados com as grandes notícias da França, onde a “Monarquia de Julho” fora violentamente derrubada e se instaurara uma “Segunda República”. Outros colaboradores do jornal tratavam de revoluções e revoltas antimonárquicas similares nos vários Estados germânicos e no extenso Império Austríaco, e por fim o jornal noticiou o retrocesso político e a repressão sobre alvos específicos que se seguiu ao longo de 1849. A essa altura, Marx e família — junto com muitos outros — tinham fugido, no caso dele para Londres, e, tal como outros, estavam praticamente sem um tostão e precariamente apátridas.

No período até 1859 — e em proximidade com a economia industrializada mais avançada no mundo e com recursos intelectuais de primeira categoria no Gabinete de Leitura do Museu Britânico —, Marx manteve minucioso contato com fontes gabaritadas sobre a modernidade econômica, nos originais em francês e inglês. Essas autoridades eram bem mais interessantes do que Proudhon, mesmo que não tivessem o mesmo destaque político que o suposto radical tivera nos dias turbulentos do Vormärz continental. Os interlocutores de Marx em sua Contribuição à crítica da economia política, como Adam Smith, David Ricardo e figuras semelhantes, estavam quase todos mortos e — salvo raras exceções — não eram conhecidos como intelectuais especialmente preocupados com a “questão social” (a não ser de modo decididamente não socialista), apesar de suas ocasionais dúvidas e apreensões sobre “os pobres”.

No entanto, esses economistas políticos eram — como Marx tentou evidenciar — muito mais influentes nos termos práticos colocados pelas sociedades modernas de produção de mercadorias e de livre-comércio do que jamais os socialistas e comunistas tinham conseguido ser: o argumento socialista era que o controle público devia prevalecer sobre as supostas propriedades autorreguladoras das relações de mercado. Mais uma vez, ele trocou de idioma — de um modo que parece um tanto bizarro, em vista de seu exílio político pós-revolucionário na Inglaterra desde 1849 —, voltando ao alemão e, assim, necessariamente ao público germanófono. Dadas as dificuldades que a família Marx émigrée enfrentou durante os anos 1850, essa opção pelo alemão é compreensível. Mas, frente à sua autoimagem anterior, como o próximo socialista de interesse geral europeu — o francófono de mesma estatura de Proudhon —, o retorno ao alemão é surpreendente.

Além disso, nessa altura — começo de 1859 —, Marx também recorreu a Engels para apresentar sua persona ao mundo sob a forma de resenhas do livro plantadas na imprensa alemã. O prefácio autobiográfico e autobibliográfico de Marx a Contribuição à crítica da economia política de 185918 e a resenha de Engels com um resumo do livro de Marx, no mesmo ano,19 tiveram um público germanófono contemporâneo um pouco maior do que o restante do livreto, sem maiores sinais de qualquer grande impacto. Tanto o prefácio quanto a resenha (em grau bem menor) só vieram a receber tratamentos acadêmicos e populares — em contato direto ou em forma de paráfrase — em publicações do século xx.

A primeira e única autobiografia de Marx20 apresentada é rascunhada nesse prefácio em alguns poucos parágrafos avulsos, estando ele evidentemente premido pelos prazos do editor, e, ao contrário da nota pública de 1847, mostra uma certa preocupação em contar a história de sua vida até aquela data de maneira bastante completa, mas com um enfoque muito preciso. Esse prefácio fazia parte, claro, de uma publicação sujeita à censura, e, de todo modo, o gênero da Contribuição era o de rigorosa (wissenschaftlich) crítica de um assunto extremamente sério e até notoriamente sombrio.21 Mas, para Marx, essa crítica, em termos de método, era mais filosófica e crítica do que empírica e quantitativa (essa “guinada” metodológica no estudo acadêmico data do final dos anos 1870).22

O texto do prefácio era ainda recente quando Franz Mehring escreveu a primeira biografia de Marx, na época da Primeira Guerra Mundial, e os detalhes biográficos e a listagem bibliográfica são hoje talvez muito familiares a alguns leitores, devido à sua constante reprodução em diversas biografias populares e acadêmicas posteriores. Aqui é o caso de remover um pouco a pátina de familiaridade dessas passagens: vale notar o extenso tratamento que Marx dá à sua produção jornalística inicial, agora pouco lida, mesmo pelos especialistas;23 sua ênfase na “Introdução”24 à Crítica da filosofia do direito de Hegel (mas não em “Sobre a questão judaica”,25 sua outra contribuição ao Deutsch-Französische Jahrbücher, agora meticulosamente estudada); seu deliberado cuidado em evitar incursões polêmicas, como seu primeiro livro em coautoria, A sagrada família.

Muitos leitores atuais também podem se perguntar o que aconteceu com os Manuscritos econômico-filosóficos de 1844,26 que não recebem absolutamente qualquer menção (embora gozem de fama mundial desde os anos 1970), e com o extenso estudo A ideologia alemã,27 não citado no texto de Marx. Hoje impresso, o título é mencionado apenas em nota pelos editores novecentistas do prefácio, preocupados em reconciliar o texto de 1859 com o que os leitores esperariam ver em meados do século. Marx, pessoalmente, menciona um manuscrito abandonado, que consistia numa crítica à “visão ideológica da filosofia alemã”. As duas “obras” agora não só são canônicas mas costumam ocupar os primeiros lugares na lista de excertos de “leitura obrigatória” para os estudantes, embora ambas sejam artefatos criados pelos procedimentos de recortar e colar da indústria editorial do século xx, coincidentemente publicadas “na íntegra” em 1932, em volumes separados.28

Claro que Marx queria direcionar os leitores para textos — mesmo curtos — a que teriam acesso efetivo ou pelo menos possível: ele menciona especificamente o “Manifesto do Partido Comunista”,29 que agora também está no topo da lista canônica e não raro é o primeiro item em coletâneas ou “manuais”. Mas, em 1859, esse texto parecia estar em pé de igualdade com o “Discurso sobre o livre-comércio”,30 escrito em francês, agora raramente reproduzido e pouquíssimo lido.31 Miséria da filosofia, também escrito em francês, recebe destaque, mas vem acompanhado pela ressalva de ser polêmico, em contraste com a crítica wissenschaftlich, portanto muito sóbria, de uma obra, e não de uma pessoa, que, além do mais, andava um tanto eclipsada àquela altura.

O longo parágrafo seguinte de informações bibliográficas é bastante surpreendente: Marx observa que sua obra no Neue Rheinische Zeitung, de linha liberal revolucionária e classe média radical, em 1848-9 constitui uma interrupção em seus estudos econômicos, e trata sua volumosa produção (parte dela escrita por Engels) para a New-York Daily Tribune nos anos 1850 em termos bastante similares. Mas, entusiasmado com esse tema jornalístico, ele comenta que os

artigos sobre as atuais condições econômicas na Inglaterra e no Continente [em 1857-8] formavam uma parte tão significativa de minha produção [no jornal] [que] se fez necessário que eu me familiarizasse com detalhes práticos que escapam ao âmbito da economia política propriamente dita.32

Visto que Marx estava se promovendo como crítico estudioso da economia política, a presumível hierarquia aqui reflete seu interesse em contar com um público intelectualmente sério e politicamente ativo. Assim — se lermos esses comentários em ordem inversa —, sua menção ao jornalismo aponta uma questão relevante. Em termos de seus objetivos ativistas, são escritos importantes e significativos.

Os leitores atuais também notarão a ausência dos Grundrisse,33 uma compilação editada de manuscritos “econômicos” desse mesmo período, agora tão canônica que costuma ser citada como livro — coisa que nunca foi, nem mesmo em sua primeira publicação bastante obscura como coletânea de manuscritos em dois volumes em 1939-41. Note-se ainda que a “Introdução (1857)”,34 que foi deixada de lado, também mencionada no prefácio de 1859, nunca foi uma introdução à Contribuição, mas sim um rascunho anterior do que veio a ser (em forma truncada) o fascículo publicado.35 No geral, Marx define e conclui essa brevíssima autobiografia declarando que suas opiniões pessoais e seus variadíssimos escritos, como ele próprio diz, resultam de uma “extensa e conscienciosa pesquisa”,36 o que, sem dúvida, parece bastante acertado. Mas seu foco sobre as obras publicadas e o jornalismo com circulação de massa, ao explicar quem ele é e em que consiste seu projeto, certamente forma um expressivo contraste com o que, nos anos seguintes, veio a torná-lo um “grande homem” e um “grande pensador”.

Transformando Marx em ícone37

Nos anos 1860, Marx voltou a se lançar ao trabalho de organização como socialista e comunista, em paralelo aos artigos “de esquerda” que escrevia para jornais nos Estados Unidos e no continente europeu. Embora não tenha sido um dos fundadores da Associação Internacional dos Trabalhadores em Londres, em 1864, aderiu a ela desde o começo e se tornou um membro importante do conselho. Desde os primeiros tempos das aspirações comunistas internacionais — por exemplo com as duas reuniões semiclandestinas em Londres dos integrantes internacionais do “Partido Comunista” ainda em fase embrionária e de mera aspiração, no final de 1847 —, Marx se notabilizou como vigoroso escritor, tremendo pensador e um tipo verdadeiramente irritante quando se tratava de questões econômicas. Assim, participava de comitês, procedia a alianças, era um correspondente e comentador incansável. Mas constituía, no máximo, uma tendência isolada, consistindo apenas em si mesmo, e não liderava nem mesmo uma facção. Como organização internacional, porém, a ait era por definição desunida, abrigando as mais variadas orientações, inclusive em termos de prioridades nacionalistas e disputas transnacionais, sem falar das diferentes versões de comunismos, socialismos, reformismos ou utopismos. No decorrer dos anos 1860, o que veio a se equiparar com ela — em alguns locais — foi a força crescente dos protossindicatos e dos protopartidos políticos, lutando em posição de grande desvantagem pela tolerância (estágio anterior à legalidade) e avançando nos Estados germânicos — na ausência de Marx e Engels, que estavam na Inglaterra.

Em 1872, vários indivíduos — mais do que o próprio Marx ou do que Engels em seu papel de agente publicitário — se lançaram deliberadamente, e de modo talvez um tanto surpreendente, a um processo político de construir uma persona para a dupla (e esse emparelhamento é, por si só, notável). Esse processo visava a converter Marx no icônico pai fundador do socialismo, em especial de uma importante tendência dentro do movimento socialista alemão. Também pretendia aproveitar a breve notoriedade de Marx no palco internacional como defensor dos chamados “terroristas” da Comuna de Paris, do ano anterior, e como autor (em inglês) de um encômio de grande circulação sobre esses acontecimentos, encomendado pela ait.38 Esse projeto de criação política icônica estava associado ao informal “partido de Marx” — um vago agrupamento de revolucionários alemães de 1848-9 que tinham voltado do exílio após a anistia de 1862, embora nem Marx nem Engels tenham participado dele. Depois disso, desenvolveu-se a facção em torno de Wilhelm Liebknecht, quase contemporâneo de Marx e ex-amigo seu, e, um pouco mais tarde, em torno de outra figura mais jovem, August Bebel.39 Não havia nada de inevitável na decisão do grupo em publicar um texto pouco conhecido, de 25 anos antes.

Foram essas decisões que criaram Marx, o “grande homem” (se não tanto o “grande pensador”) que conhecemos. O “Manifesto do Partido Comunista” (com o novo título de Manifesto comunista), que retornou em circulação maciça em 1872, numa edição “especial”, com prefácio assinado pelo autor, teve ao longo dos anos uma quantidade enorme de reedições e traduções. Esse processo transformou Marx em figura histórica mundial.40 Até aquele momento, ele era pouco conhecido, aliás nem sempre sob um prisma favorável, fora dos círculos limitados do socialismo alemão, e mesmo então seu “partido” (grupo de fãs, na verdade) era uma facção dentro de um movimento muito maior.

No prefácio para a edição “especial” do Manifesto de 1872 — que Marx e Engels foram instados a escrever —, ambos parecem realmente um tanto confusos com a republicação de um textinho meio descomposto de 23 páginas. Afinal, haviam escrito várias coisas que tiveram pertinência em determinados momentos da luta; o texto em questão fora escrito para um comitê de existência efêmera; como a luta política para eles ainda estava em andamento, que sentido fazia olhar para trás? Se o Manifesto afinal não manifestara grande coisa, não seria o caso de escrever outro?

A aplicação prática dos princípios [do Manifesto] dependerá […] de haver condições históricas, e por essa razão não se dá qualquer destaque especial às medidas revolucionárias propostas no final da seção ii. Essa passagem […] seria hoje formulada de maneira muito diferente […]. Além disso, é evidente que a crítica da bibliografia socialista está defasada em relação ao presente, porque vai apenas até 1847; é evidente também que os comentários sobre a relação dos comunistas com os vários partidos de oposição (seção iv) […] estão ultrapassados […]. No entanto, o Manifesto se tornou um documento histórico […].41

Entre todos os materiais à escolha para divulgar Marx e pôr as pessoas a par da política contemporânea, esse velho textinho esquecido não era, nem mesmo para Marx e Engels, a escolha mais evidente. Os “princípios gerais” supostamente presentes no texto, embora endossados em termos amplos pelos autores — mas não enumerados ali nem no novo prefácio —, só eram mencionados em relação com os acontecimentos recentes da Comuna de Paris, e a seguir o leitor era encaminhado para um documento de fato atualizado, a saber, “A guerra civil na França”.

Todavia, Liebknecht, Bebel e outros colegas no começo dos anos 1870 se saíram bem melhor na tentativa de criar a “marca” Marx do que Engels em 1859 (ou o próprio Marx em 1847), e a “isca” para o público era, de fato, olhar para trás. Mas esse olhar retrospectivo não se dirigia a Marx como pessoa nem ao que ele fizera na revolução, visto que o objetivo era outro. A intenção era divulgar amplamente Marx, e a organização partidária socialista, e a tendência do “partido de Marx”, mesmo com seus conflitos internos, e criar uma identificação mútua no presente. Em 1872, os acontecimentos e os personagens de 1848 já haviam se apagado na história em grau suficiente para permitir uma ressurreição dos gloriosos dias das revoluções. Por esse ângulo, aquele pequeno conluio precisava de algo chamativo que desse rumo a seu projeto, mas que não fosse uma narrativa heroica sobre um indivíduo (que poderia se tornar inconveniente) e mesmo assim criasse uma identificação de alguém vivo (convenientemente morando no estrangeiro) com os dias gloriosos e as verdades socialistas. Eram pouquíssimos os que tinham algum conhecimento do Manifesto, e era quase impossível encontrar e ler o texto. Mas era uma boa opção. E, felizmente, devido a um processo judicial então recente por traição, o texto fora parar nos arquivos públicos, assim escapando ao alcance da censura.42

Mesmo nos anos 1870, praticamente nenhum dos ensaios longos, dos livros curtos e do único volume substancial de Marx, O capital: Crítica da economia política, de 1867,43 estava disponível aos leitores, exceto em edições muito limitadas de pequenas tiragens para germanófonos, embora certamente restassem alguns em sebos e circulassem de mão em mão, mesmo que não se saiba muito bem por que eram lidos. Marx e seus escritos estavam muito longe de se tornar objeto de estudo (para além da resenha bastante ocasional e apenas vagamente respeitosa), e seu “pensamento” — como demonstra a própria referência no prefácio de 1872 — se concentrava nas circunstâncias políticas em curso e era avaliado dentro desse quadro. Isso ocorria inclusive nas produções mais “acadêmicas” de crítica de viés científico [wissenschaftlich] e (aparentemente) não polêmico. Como o sujeito ainda vivia e era politicamente engajado — em correspondência e assuntos internacionais —, não podia ser uma figura cult de transcendência atemporal, coisa que ele sabidamente recusava. Em duas cartas após a morte de Marx,44 Engels repete de duas maneiras ligeiramente diferentes o comentário que entreouvira de Marx, “Não sou marxista” (dito em francês), mas essa citação condiz com o mais que sabemos sobre o (então ainda não) “grande homem” Karl Marx.

A escolha de algo extemporâneo (isto é, “fora do tempo”), como era o Manifesto naquela época, tem a vantagem de deslocar o debate interno às tendências sobre as questões contemporâneas. Isso se dá ressaltando uma suposta herança comum a uma distância suficiente no passado para não gerar controvérsias no presente. O foco sobre Marx como autor principal cumpriu basicamente a mesma função da republicação do texto pelo “partido de Marx”, apesar de sua condição até certo ponto voluntária de eLivros, de sua inacessibilidade estilística como autor de O capital e de sua temível fama de ativista político. Engels, que tivera uma carreira e uma persona pública muito mais brilhantes até 1845, em 1872 já se eclipsara um pouco, recolhendo-se ao papel voluntário de autoproclamado “segundo violino”.

A republicação do Manifesto não criou Marx, o “grande homem”; mas de qualquer forma Marx, o “grande homem”, tampouco existia antes da republicação desse opúsculo então bastante outré. Nos vinte anos seguintes, o texto de fácil leitura cumpriu sua função de engrandecer o homem, mas de forma alguma pelas razões que ele — até onde sabemos — e tampouco Engels realmente queriam. Seja como for, as imagens simples são as mais fáceis de “pegar” — o homem se tornou grande porque escreveu o manifesto do povo, e o manifesto do povo lança grandeza sobre seu autor. Os dois se tornaram icônicos juntos.

Post mortem, resurrexit

A ait chegou quase a desaparecer nos anos 1870, e Marx pouco produziu de substancial, afora uma tradução em francês de O capital (com revisões, 1872-5),45 e passou a ter problemas de saúde e transtornos familiares. Mas a situação mudou drasticamente de duas maneiras após sua morte, em 1883. Ao republicar algumas obras de Marx com novos prefácios e introduções, Engels seguiu em larga medida as linhas políticas acima esboçadas. Mas em suas próprias obras, com introduções suas e grande sucesso de circulação, Engels promoveu seus projetos, ideias, dívidas e glosas como diretamente decorrentes e deliberadamente suplementares ao “pensamento” de Marx. Engels era um sistematizador e, assim, apresentou Marx, o “grande pensador”, como cientista e filósofo tal como essas atividades eram concebidas nos anos 1870 e 1880.46 Seu “Discurso junto ao túmulo” de Marx, registrado em notas manuscritas e em matérias da imprensa,47 deu o tom à “vida” de Marx como “grande homem”, ao passo que suas obras — como Anti-Dühring,48 Do socialismo utópico ao socialismo científico,49 A origem da família, da propriedade privada e do Estado50 e Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã51 — recriaram a “marca” Marx como “pensador” acima e além da “grandeza” política com que fora agraciado em 1872. Engels capitalizou em cima de seu status similar, mas não em proveito próprio. A confusão canônica que poderia ter ocorrido entre os dois foi atenuada com grande eficiência pelo marxismo que surgiu do cânone conjunto, mas só depois da morte de Engels, em 1895. Esse processo avançou notavelmente com Karl Kautsky, Geórgui Plekhânov, Antonio Labriola e muitos outros, a despeito das diferenças políticas e das rixas partidárias, e no final dos anos 1890 nascera um “-ismo”.

O outro elemento fundamental para transformar Marx em “Marx” foi o estudo de Franz Mehring sobre o Nachlass, os legados arquivísticos de Marx-Engels, guardados à solta em caixas e variadamente conservados ou “fornecidos em empréstimo” por parentes e apoiadores socialistas.52 A catalogação de Mehring, de 1902, lançou as bases para sua biografia intelectual de Marx como “grande pensador”, que — fiel ao gênero — faz de Marx um homem de “obras” que constituem seu “pensamento”. A seguir, essa construção é contextualizada com uma narrativa política e o interesse pela “vida”.

Os capítulos subsequentes deste livro, porém, adotam uma abordagem dos conceitos que partilhamos com Marx, concentrando-se na atualidade, e o apresentam como ativista em seu “cotidiano”, mais do que como um “pensador” um tanto isolado às voltas com o “pensamento”. Outros aspectos de sua “grandeza” serão tratados dentro dessa estrutura conceitual, assim evitando misturar diferentes versões de Marx com as realidades de seu engajamento ativista, mas fornecendo um guia para as inspirações intelectuais e as ideias políticas muito variadas que resultaram em “Marx”.