Marx é geralmente reconhecido como o maior — no sentido de “o mais cabal” — crítico do capitalismo até os dias de hoje. Isso não significa que muita gente hoje aceite suas críticas ao sistema ou que sua definição e caracterização do sistema tenham grande sustentação, em primeiro lugar. Até agora, a abordagem de Marx neste livro é a de ver como seus conceitos se sobrepunham aos de seus contemporâneos e aos utilizados atualmente: classe, história, progresso, democracia, socialismo.1 Essa abordagem se contrapõe à ideia de que o que torna Marx interessante é o que ele mesmo e vários outros selecionaram como caracteristicamente marxiano, de uma maneira ou outra, ou seja, “o que transforma Marx em ‘Marx’”.2 A falha dessa segunda estratégia não é historicizar Marx — afinal, ele é histórico —, mas sim afastá-lo de nós e obscurecer sua política. E, como vimos, era sua política que dava impulso a seus textos, escritos como intervenções para fomentar alianças com revolucionários de ideias parecidas, que eram ou podiam ser liberal-democráticos, pelo menos até certo grau. E — como apontado em capítulos anteriores — ser liberal-democrático em qualquer grau nos Estados germânicos até os anos 1860 era ser revolucionário, ou pelo menos altamente suspeito, e se arriscar a perseguições e punições. Na verdade, muito depois dos anos 1840, os partidos socialistas voltaram a ser proibidos no Império Alemão, de 1878 a 1891 — e as mulheres eram proibidas de participar de qualquer reunião política.3
Assim, o que Marx tinha em comum com seus contemporâneos, e ainda tem conosco, parece ser um bom ponto de partida, realista e proveitoso. De modo geral, o capitalismo — como prática assim nomeada e como sistema econômico — hoje em dia só é incontroverso como termo descritivo. Sem dúvida passou a fazer parte da linguagem, mesmo que em grande medida o discurso econômico atual fale menos em capitalismo e mais em mercados “livres”, negociantes, especuladores, investidores, poupadores, bilionários, “indivíduos de alto patrimônio líquido”, empreendedores, capital de risco e similares. Há aqui um certo proveito político em decompor um sistema no discurso cotidiano em que o leitor pode ver como os termos e as práticas se entrelaçam em atividades corriqueiras. É aqui que se iniciam “os elementos básicos” de microeconomia, refinando e redefinindo esses termos cotidianos por meio da elaboração de definições, princípios e recomendações de políticas precisos e matematicamente operacionais. Esses “elementos básicos” microeconômicos cotidianos são o preço, a utilidade, a marginalidade, a preferência, a poupança, o investimento, a liquidez, o lucro, os gastos e o consumo, elevando-se para a política monetária, a política fiscal, as taxas de empréstimo interbancário, o pib, a balança corrente e a balança de capital como “balança de pagamentos”, e outros conceitos similares que os noticiários de melhor qualidade supõem que serão entendidos.
A terminologia de Marx para o sistema econômico mudou um pouco ao longo de sua carreira como ativista engajado na “questão social”. De início ele empregava “sociedade civil”, embora a expressão dele (e de Hegel) fosse bürgerliche Gesellschaft, usualmente vertida para o inglês como bourgeois Society [“sociedade burguesa”]. Mas agora dificilmente essa locução é usada fora dos círculos marxistas. Sociedade civil veio a designar o voluntariado ou o “terceiro setor”, isto é, atividades econômicas que não pertencem ao setor público e estatal (desenvolvidas por servidores públicos) nem ao setor privado (desenvolvidas dentro de empresas comerciais “com fins lucrativos”). Por outro lado, e num uso pós-marxista mais ligado ao século xx, a sociedade civil incluía empresas comerciais “com fins lucrativos” e excluía apenas as atividades sob controle ou propriedade do Estado. Por isso o uso atual da expressão é um pouco ambíguo, e pode gerar dúvidas se se refere apenas a organizações voluntárias ou se inclui também empresas do setor privado. Historicamente, claro, sociedade civil designava o que era “do conjunto de cidadãos”, em oposição a autoridades religiosas ou militares e suas respectivas atividades, embora essas atividades “estatais” fossem financiadas por tributos, por esmolas ou por impostos, e por isso civil = laico e paisano. E, nos Estados de língua alemã, o que era “do conjunto de cidadãos” era bürgerliche.4
A expressão “sociedade burguesa” só transpõe bürgerliche Gesellschaft por meio de um termo tomado de empréstimo ao francês, conotando um filistinismo arrivista em matéria de gosto. Tal conotação reflete as avaliações estéticas e morais correntes, na França, da aristocracia sobre o meramente comercial. O alemão da época de Hegel e de Marx refletia tanto o esnobismo anticomercial quanto uma distinção entre atividades comerciais, de um lado, e instituições estatais/militares/religiosas, de outro. Mas Marx não adotou a locução bürgerliche Gesellschaft para depreciar nem para legitimar uma classe em termos de bom ou mau gosto ou de caráter moral, tampouco para defini-la como uma “ordem” da sociedade distinta da vida familiar (meramente “biológica”) ou das burocracias estatais ou eclesiásticas (mais “racionais”). Adotou-a para apontar o vínculo, no contexto dos Estados alemães, das atividades comerciais aparentemente “sujas”, associadas ao ganho financeiro no comércio e na manufatura, com a introdução dos processos industriais movidos a energia e o potencial produtivo imensamente ampliado na geração de bens e serviços.
Em suas atividades jornalísticas iniciais, Marx defendia vivamente que os governos da época assumissem pelo menos alguma responsabilidade pelos pobres “artificiais”, visto que essa sua situação fora causada por atividades econômicas humanas, e não por algum processo “natural”, por “justo mérito” ou por algum destino cego.5 O outro lado da moeda era o argumento de que as próprias atividades econômicas eram “artificiais”, pois eram atividades humanas que faziam a economia mudar e se desenvolver. Disso se seguia que o entendimento da questão requeria exame e discernimento, em vez de mera e desculpável ignorância ou resignação. Marx parece ter chegado a isso em 1843, depois de — como diz ele — se sentir intrigado com os “interesses materiais” que via em suas relações com os financiadores comerciais e os editores de mentalidade empresarial do Rheinische Zeitung em Colônia, a capital econômica da Renânia.6
Intuitivamente Marx parece ter se posicionado no lado mais ativista do coletivo editorial e criado problemas para a administração do jornal — e depois para si mesmo — ao insistir na “questão social”. O lado menos ativista do grupo insistia apenas na “questão do comércio”,7 afirmando a necessidade de que o Estado se interessasse por todos os aspectos dela, e não apenas para fins de arrecadação tributária e regulação moralizante. O que surgiu de novidade para Marx, após o encerramento do jornal em março de 1843, não foi seu envolvimento com Hegel enquanto tal, mas sua iniciativa de fazer um estudo concentrado na economia política francesa e britânica por meio da inclusão hegeliana desses materiais em sua versão filosofizada de uma estrutura “ordenada” de classes. Em sua Filosofia do direito (1820), Hegel formulara essa visão idealizada em termos que ficavam a meio caminho entre as “ordens” ou “estamentos” medievais e as concepções mais modernas de indivíduos “civis” envolvidos em atividades comerciais — porém mais em “corporações” definidas pelo Estado do que em estruturas empresariais “de livre mercado”.8
Embora tivesse algum acesso às fontes de Hegel para essas passagens em livros em francês (nem Hegel nem Marx, na época, liam em inglês), nessa fase foi sobretudo por meio do texto e das notas do próprio Hegel que Marx veio a conhecer os economistas políticos. As fontes principais eram Pierre le Pesant, sieur de Boisguillebert, Jean-Baptiste Say, sir James Steuart, Adam Smith e similares, mas logo Marx foi presenteado com uma síntese muito mais sucinta da “economia política”. O curto ensaio foi redigido por Engels e submetido em novembro de 1843 à avaliação de Marx, como coeditor do dito “primeiro número” do Deutsch-Französische Jahrbücher.9
A economia política consistia na bibliografia descritiva e avaliativa sobre assuntos econômicos, datando do século xvii, escrita no gênero da arte de governar e, portanto, na modalidade de aconselhamento. Essa modalidade supõe, claro, que existam governantes interessados em conselhos e que seus Estados tenham dimensões suficientes para se lançarem à expansão, o que exige disporem de riquezas. Naquele contexto, a própria ideia de que o comércio gera riqueza, em vez de simplesmente transferi-la na troca de bens de igual valor, era em si mesma controversa. Era também objeto de ampla descrença e, assim, rejeitada por razões empíricas, filosóficas e morais. Além disso, a relação entre moeda e riqueza era, de todo modo, um tanto misteriosa e, relacionada com empréstimos e juros, também parecia meio abominável, em vista dos preceitos tradicionais da igreja sobre a usura, aos quais se sobrepunham as suspeitas aristotélicas clássicas quanto ao “uso do dinheiro para gerar dinheiro”.10
Havia na época — como há agora — uma política da ciência como tal, quer essa ciência social fosse “economia política” ou — como agora — simplesmente “economia”. E, voltando à nossa discussão anterior sobre a história,11 havia na época — como há agora — um considerável questionamento sobre a maleabilidade das práticas correntes na sociedade política e na vida social de modo mais geral. Essa questão, por sua vez, se refletia em diversas formas de conceber qual seria a melhor maneira de apresentar em termos simples as práticas atuais, tal como realmente são. Os que adotaram uma linha histórica geralmente sustentavam que as práticas comerciais modernas de produção de riqueza e acumulação financeira eram marcas de modernidade, civilização e progresso, vencendo a barbárie, o atraso e o retrocesso. Os que não se preocupavam com tais questões históricas pareciam se contentar com fábulas que supostamente demonstravam a atemporalidade e, portanto, a naturalidade das práticas comerciais correntes: em A riqueza das nações (1776), os fictícios “caçadores” de Adam Smith faziam um escambo de castores por cervos e então inventaram a moeda para conferir maior eficiência a essa prática trabalhosa. Havia versões parecidas nesse gênero de explicação e justificação à la Robinson Crusoé ou na linha do “simples-assim”.12
Contudo, Marx não entrou na briga com suas respostas pessoais, escrevendo como faria algum outro economista político, pois ainda não fizera uma leitura suficientemente cuidadosa dos originais que lhe permitisse estabelecer os elementos exatos das questões e debates. Fica claro, porém, que ele desconfiava do viés político desses autores, como defensores de uma nova classe comercial e empresarial. A apresentação concisa de Engels oferecia um tratamento muito prático dos “elementos básicos” da economia política, com a importante iniciativa de vertê-los para o alemão em seu curto artigo. E, melhor ainda, Engels extraía conclusões sobre a “questão social” e sobre a política da ciência da economia política, e não só sobre a política dos economistas políticos enquanto indivíduos. Essas conclusões espelhavam as experiências próprias de Marx com os “interesses materiais” burgueses e o sofrimento, objeto de preocupação sua, em cenários sociais divididos em classes, mas em processo de industrialização, tal como o descrevera a partir de relatos locais. Mais tarde, Marx declarou que o artigo de Engels era “inspirado” e, visto que esboçou logo a seguir um plano para uma “crítica da economia política”, é difícil não ver a inspiração direta fornecida pelo texto de Engels.13
O resumo ou “sinopse” de Marx sobre o artigo de Engels estava em seus chamados Manuscritos econômico-filosóficos, de 1844, que na maioria consistiam em excertos bastante literais dos livros que estava lendo na época, em geral obras de economia política em francês e alemão.14 De fato, Engels forneceu a Marx não só “elementos básicos” utilizáveis, como também um “olhar” político comunista sobre a situação (nos termos do próprio Engels). Comunista, nesse contexto, significava apenas uma crítica da propriedade privada e um compromisso com sua abolição em algum momento do futuro e num sentido mais ou menos especificado. A alternativa comunista consistia, em geral, na propriedade coletiva — aqui também dependendo, num sentido ou noutro, do escritor comunista em questão. Marx, com efeito, considerava insatisfatórios todos os escritores comunistas que conhecia, por serem vagos demais ou específicos demais, e por isso os estudos pormenorizados dos conceitos constitutivos e do “kit de ferramentas” definitórias que então começou a registrar.
Assim, em seu manuscrito “Resumo do artigo de Frederick Engels…”,15 a primeira medida de Marx é tomar o conceito de “propriedade privada”, que associa imediatamente ao “comércio”, como “uma fonte direta de ganho para o comerciante”. Na frase seguinte ele rastreia a economia política, passando do comércio para o valor, dividido entre valor real ou utilidade — isto é, qual o uso que se obtém realmente de alguma coisa — e valor de troca, o qual ele relaciona, numa interpretação alternativa dentro da economia política, aos preços. Estes, observa ele, não são equivalentes aos custos de produção, pois nesse caso, não haveria qualquer “ganho” ou lucro. E, num comentário talvez desconcertante, ele diz: “Apenas o que pode ser monopolizado tem preço”. Seja como for, para Marx a propriedade privada — o ponto de partida — é, em primeiro lugar, uma forma de controle monopolista sobre algumas coisas, privilegiando uns e excluindo outros.
A seguir, as anotações de Marx deixam o terreno das definições e passam a colocar problemas. De fato, ele propõe alguns quebra-cabeças para entender a relação entre capital e trabalho, entre lucro e capital e também entre juro e lucro. O lucro, conclui ele rapidamente, “é o peso que o capital coloca na balança depois de determinados os custos de produção” e “se mantém inerente ao capital”. Como se estivesse pensando em voz alta sobre a relação entre salários e custos de produção, Marx conclui que o “trabalho humano” foi “dividido em capital e trabalho”, seguindo a sumária versão da ciência fornecida por Engels.16
O texto efetivo de Engels, tal como foi aceito e publicado por Ruge e Marx, seguia em larga medida a retórica politizante e moralizante do jornalismo cartista, gênero em que Engels era grande perito. A frase inicial vincula a ciência (mais ou menos) nova da economia política à expansão do comércio e à produção mecanizada, observando que tanto a prática quanto a ciência nascem da “inveja e ganância mútuas” e trazem “a marca do mais detestável egoísmo”. Concluindo, ele pretende “expor em detalhes a desprezível imoralidade desse sistema [fabril]” e “desnudar impiedosamente a hipocrisia do economista que aqui aparece em toda a sua impudência”.17 No geral, Engels traça a história da produção e do comércio internacionalizados, conjugados com a economia política que acompanhou tais desenvolvimentos.
Vale notar uma vez mais que a economia política era entendida por seus praticantes como a arte de governar dentro de um arcabouço político, de modo que o exercício da arte de governar deveria, na prática, se tornar econômico, o que evidentemente incluía desmantelar os medievalismos que regulavam e limitavam o “livre-comércio”, nacional ou internacional. Ainda não ocorrera a separação entre a ciência política e a ciência econômica, que se daria no final do século xix, e de fato seria importante levar em conta essa separação agora corriqueira, visto que essas questões acadêmicas têm grandes consequências políticas na prática. As distinções entre fato e valor, entre positivo e normativo, entre objetividade científica e viés político são, em si mesmas, questões políticas, isolando algumas suposições, deduções e verdades em contraposição à crítica e desautorizando questões sobre as consequências políticas ou mesmo morais das práticas sociais sob análise. Quer os economistas políticos fossem mercantilistas, defendendo a acumulação nacional de riqueza às custas de outras nações, quer fossem “livre-cambistas”, defendendo a concorrência dos mercados para a mútua vantagem dos indivíduos, Engels tinha sentimentos amplamente críticos, pelas mesmas razões: a acumulação de riqueza financeira como capital permite que os proprietários se beneficiem às custas dos assalariados, que sofrem desigualdades individuais e transgeracionais, incluindo uma sórdida miséria. Assim, para Engels a economia política é uma “ciência” hipócrita que oculta ou justifica especiosamente essas consequências inaceitáveis.
Não é difícil encontrar sentimentos parecidos em qualquer protesto do Occupy ou em manifestações contra a mudança climática, embora explicações moralizadas como a de Engels acima — e depois de Marx — costumem ser descartadas como marxistas, pois hoje ressoam com as lutas, os fracassos, a ingenuidade e o horror da política ideológica e das “grandes potências” mundiais do século xx. Ou, por outro lado, a economia moderna, contraposta à economia política acima esboçada, se presta a expor os fatos econômicos em termos empíricos/estatísticos, dos quais então os juízos moralizados poderiam passar para a elaboração de políticas, quer fossem reformistas ou revolucionárias em algum sentido. Mas, quanto a uma aplicação direta — isto é, partindo dos textos e ideias de Marx — aos atuais entendimentos do que é o capitalismo, há uma espécie de anacronismo às avessas: os termos do passado, isto é, da economia política, não são os termos do presente, isto é, da economia moderna.
Dito de outra maneira, o problema aqui é que podemos ler a análise crítica do modo de produção capitalista no primeiro volume de O capital e em outras obras de Marx, mas sua terminologia nos parecerá muito frustrante. Isso porque, desde os anos 1870, a revolução marginalista que levou à transformação da economia política em economia moderna é posterior à sua obra, mas controla em larga medida nossa reflexão sobre as questões que temos em comum com ele. Além disso, qualquer tentativa de alinhar Marx diretamente com nosso presente se vê então assombrada por outro espectro, qual seja, a economia marxista. Essa forma híbrida de economia tenta fazer uma tradução exata e cientificamente robusta entre a economia moderna e a crítica da economia política de Marx. Aqui, uma estratégia possível para obter alguma clareza é mais uma vez voltarmos nossa atenção ao capitalismo como sistema, isto é, o que queremos tomar como tema, em primeiro lugar.
A terminologia do próprio Marx para esse nível de generalidade se desenvolveu em sua época, primeiro como bürgerliche Gesellschaft/sociedade civil/sociedade burguesa, como vimos, e depois como o moderno modo de produção burguês [bürgerliche Produktionsweise] ou relações de produção burguesas [die bürgerlichen Produktionsverhältnisse]. Mas vale notar uma vez mais que “burguês” [bourgeois] tem conotações que bürgerliche não tem: “comercial” funcionaria igualmente bem ou melhor. Marx modificou suas ideias sobre os exatos conceitos básicos de economia política que iria usar para organizar a crítica que planejava fazer, sobre a ordem em que os usaria e quanto da crítica planejada conseguiria colocar num volume: de início ocuparia um fascículo em 1859, e depois o primeiro volume de uma série truncada.18 Mas, sem dúvida alguma, ele considerava que os teóricos contemporâneos à sua vista estavam trabalhando dentro de um sistema. Na época da primeira edição de Das Kapital (1867), o uso do termo “capital” como conceito organizador central — e alvo primário de ataque — era bastante claro. A diferenciação histórica das sociedades em relação a esse conceito também ficava clara já na frase inicial de Marx: “A riqueza daquelas sociedades em que predomina o modo de produção capitalista […]”.19 E, evidentemente, as duas palavras andam juntas: capital e capitalista. Mas o termo “capitalismo”, agora usual, parece ter surgido apenas nos anos 1870, portanto, não aparecia como Kapitalismus na maior parte da obra publicada de Marx. E, de todo modo, ele foi cunhado para promover as mesmas práticas que Marx propunha criticar severamente e eliminar por meio da crítica-como-ativismo.
Depois da época de Marx, o termo “capitalismo” se estabeleceu como algo mais descritivo, muito embora o uso aparentemente descritivo tenda a ocultar as questões históricas que tanto o ocuparam. A saber: as características práticas que constituem esse sistema derivam de aspectos atemporais da natureza humana, operando sozinhas historicamente, salvo se reprimidas? Ou o sistema demarca sociedades civilizadas/progressistas/modernas/democráticas, diferenciando-as das sociedades atrasadas/primitivas/autoritárias/regressivas, quer do passado, quer do presente? O sistema evolui por si só (a menos que se o reprima) para um futuro melhor para todos? Para alguns? Apenas para os “industriosos e racionais”?20 Para alguém? Para o planeta? O sistema requer proteções políticas? Ou ajustes de equilíbrio? Ou aperfeiçoamentos? Ou agudas intervenções após as crises? Ou medidas de prevenção contra crises? Até que ponto os “ajustes do sistema” o destroem? Ou o convertem em outra coisa? Alguma dessas perguntas, ou todas elas, consiste exclusivamente em decisões políticas? Ou apenas em decisões técnicas, que podem ser tomadas “à ciência”?
O mundo de Marx não era apenas muito mais simples; sua tarefa não era nenhuma das acima citadas. Seu ativismo era necessariamente político, bem como a obra dos economistas políticos, no sentido de que os Estados e os governos — tal como existiam — precisavam ser persuadidos de que tais verdades sobre a produção, o consumo, a distribuição e a troca de bens e serviços eram pertinentes para a arte de governar, e que eles precisavam decidir em qual escola de pensamento, em quais tratados e em quais indivíduos iriam acreditar. Os temas e questões acima só existem porque essa batalha foi vencida faz mais de cem anos e segue conosco na forma de “É a economia, estúpido!”.21
Assim, nos anos 1870, o campo de batalha se afastou decisivamente da crítica de Marx, mas não por causa do tratamento dado à “questão social” por meio dos conceitos de luta de classes e ativismo da classe trabalhadora.22 Essa mudança se deu quando a economia se afastou da economia política em termos metodológicos e conceituais e assim se afastou — de modo inevitável — dos termos mais especificamente técnicos da crítica de Marx e dos detalhados argumentos e asserções mais intimamente associados a ele e a seu “pensamento”. A crítica da economia política de Marx era imanente: operava nos termos estabelecidos pelos economistas políticos como objetos e pressupostos básicos de seus debates e divergências. Tais termos eram utilizados metodologicamente pelos economistas políticos e por Marx, trabalhando dentro do arcabouço da “filosofia natural”. Trabalhar com esses pressupostos e conceitos, transmitidos pelas fontes clássicas e medievais, constituía um exercício basicamente narrativo. Esse exercício consistia num exame dos conceitos gerais de riqueza e valor a fim de fornecer explicações — e estabelecer regras — para atividades referentes ao comércio e à moeda, quer o contexto moral fosse o de uma construção patriótica da nação, quer fosse o de trocas individualistas no mercado.
A grande pergunta se referia à riqueza: provinha da terra ou do trabalho? Se da terra, derivava em última instância da renda sobre um recurso escasso, mas essencial e essencialmente limitado? Se do trabalho, como a labuta honesta do trabalhador estaria relacionada com o lucro do proprietário da fábrica? E, de maior pertinência, a riqueza monetária, quando se acumula a partir de qualquer fonte que seja, deriva da moeda como veículo neutro para a troca de valores equivalentes, entendida como preço “natural” que regula “naturalmente” as transações de mercado? Caso contrário, deriva de uma troca necessariamente desigual de valores? Neste caso, o que justifica isso? Como vimos, Aristóteles e pensadores religiosos e laicos sob sua influência nutriam profunda desconfiança perante a ideia de que é justificável que a riqueza derive do “uso do dinheiro para fazer dinheiro”, isto é, dos juros sobre os empréstimos. Mas os economistas políticos que apoiavam a circulação monetária, os investimentos de risco, a diversificação de bens e serviços e o constante aperfeiçoamento das manufaturas geralmente adotavam a linha oposta, invocando o fato — e a necessidade — do incentivo empresarial, do reinvestimento dos lucros em empreendimentos ainda mais produtivos e do pronto acesso ao crédito como serviço produtivo.
A revolução marginalista em economia eliminou essas questões excluindo os termos do debate. Preços eram pura e simplesmente valores, ou melhor, qualquer problema sobre o valor era pura e simplesmente filosófico; em termos científicos, o conceito aplicável era o de preço, que afinal era empírico (há preços em mercados existentes) e numérico (o que permitiu o desenvolvimento de uma metodologia muito diferente, a saber, a análise quantitativa). Então foi fácil explicar o comércio por meio de trocas no mercado, daí se inferindo como resultado lógico e benéfico a acumulação de riqueza em termos monetários. Assim, as questões filosóficas surgem apenas em discussões de filosofia, não de economia. As discussões econômicas partem de suposições, abstratas mas “do cotidiano”, sobre os indivíduos e as preferências de uso, e não de debates que criam questões morais que não vêm ao caso — o que significa aceitar a facticidade das relações de mercado, em vez de examiná-la. Do ponto de vista da economia moderna, a sociedade não está dividida de modo natural ou necessário entre “ordens” ou classes de latifundiários, pequenos proprietários e trabalhadores; ela se compõe de indivíduos que usam e trocam recursos a fim de obter mais, ao menos em princípio, ou como expediente heurístico e ideal social. No entanto, o objetivo de minha discussão aqui não é julgar os pontos fortes ou fracos do arcabouço conceitual da economia política ou da economia moderna, mas sim ressaltar a incomensurabilidade delas e, portanto, as dificuldades de intercomunicação e tradução para entender Marx, dados os pressupostos totalmente distintos.
Além disso, a revolução marginalista eliminou os conceitos dentro da crítica de Marx que ele mesmo e, claro, inúmeros críticos e comentadores tomavam como tipicamente marxianos e constitutivos do marxismo e da economia marxista. Marx, em sua crítica, reconhecia aos economistas políticos o mérito de estabelecerem um problema importante: de onde provém o lucro quando a troca monetária é, em teoria, uma troca de valores iguais. E também de oferecerem o germe de uma boa resposta: o trabalho deve ser, de alguma maneira, uma parte importante do valor, bem como — e tal foi o argumento original de Marx — a fonte de produção do “excedente” de valor ou mais-valia de onde surge o lucro nos sistemas de troca monetária. Os marginalistas e, com eles, a maioria dos economistas modernos simplesmente rejeitam a ideia de que o lucro constitui por si só algum tipo de problema, sendo antes um pressuposto dentro do sistema deles ou, diríamos, um novo paradigma23 para pensar a produção, o consumo, a distribuição e a troca que se realizam numa base monetária agora incontroversa. Desse modo, eles geraram uma ciência social levantando questões mais práticas do que filosóficas. Fez-se com que Marx, em contraste, parecesse antiquado, explicitamente político (em vez de “científico”) e não matemático (o que não era o caso). A conciliação, na economia marxista, tem sido defender as posições de Marx em relação ao trabalho, à mais-valia, aos preços e aos lucros por meio de elementos quantificáveis para chegar a uma conclusão política, a saber: os assalariados são explorados — mais do que tratados com equanimidade — e o capitalismo não consegue por si só anular essa exploração, visto que o sistema é estruturado para reduzir os custos de produção, como o trabalho, a fim de facilitar a acumulação de capital e o investimento na produção.24
Mas, então, por que Marx é tantas vezes reconhecido como o mais cabal crítico da sociedade capitalista, em especial do sistema capitalista, entendido como fenômeno empírico global e objeto de um ativismo político global? É um tanto surpreendente que isso nos leve de volta à burguesia ou às classes comerciais e a seu inesquecível retrato pintado por Marx e Engels no Manifesto, como atores históricos que abalam o mundo.25 Como afirmam os dois autores, cidades inteiras brotaram e continuam a brotar do solo, enquanto surgem tecnologias que produzem quantidades enormes de novos bens usando menos trabalho, de modo que praticamente tudo se transforma, inclusive os sistemas políticos e judiciários, a religião e a moral, as artes e as ciências. Em anos recentes, veio a se reconhecer esse texto como a primeira grande explicação da globalização, em especial pela forma como retrata o alastramento do desenvolvimento comercial e da financeirização por todo o globo, uma força irrefreável de desenvolvimento progressivo autodeterminante.26 Os benefícios das economias de mercado produzindo artigos de primeira necessidade a baixo preço e luxos jamais pensados decerto são exaltados; retiradas do contexto, essas passagens são como que um hino à burguesia.27
Muitos dos críticos atuais da globalização compartilham — sem necessariamente o saberem — a crítica do capitalismo como processo histórico, entendido em termos muito semelhantes aos de Marx e Engels. No Manifesto, ambos observam que as culturas e as tradições, bem como os sistemas políticos e econômicos, são quase impotentes para resistir às forças do comercialismo. Os produtos baratos acabam com os produtores locais e, por sua vez, criam consumidores locais que desejam mais do mesmo, incapazes de recorrer às fontes de abastecimento anteriores e aos prévios hábitos de consumo. As forças do mercado e as crises financeiras criam instabilidades na produção e no consumo, gerando desemprego e miséria. O sistema tende a gerar a acumulação de riquezas colossais nas mãos de uma reduzidíssima minoria, aumentando as desigualdades para a maioria, até a base da pirâmide dos paupérrimos. Os políticos e os sistemas políticos promovem panaceias hipócritas, afirmando que “estamos todos juntos nisso”, que “não há alternativa”, que os que recebem altas remunerações são (circularmente) “os merecedores” e moralmente admiráveis, e que os outros mais abaixo na escala de renda “não merecem” (circularmente) e são moralmente inferiores. Radicado no individualismo egoísta, o capitalismo cria o “efeito carona”, com os indivíduos egoístas “privados” se aproveitando dos benefícios gerados coletivamente, e um “problema de ação coletiva”, que é o inverso: indivíduos egoístas não sacrificarão os benefícios “privados” a um bem coletivo. Diagnósticos bem familiares ante as preocupações ecológicas em escala internacional e a mudança climática. A pior acusação de todas, e também a denúncia mais marxiana, talvez seja o argumento de que a democracia liberal representativa coincide de tal modo com o capitalismo que o dinheiro comanda tudo, e — como disse o satirista americano Will Rogers sobre os Estados Unidos — “temos o melhor Congresso que o dinheiro pode comprar”.28 Claro que isso inverte a defesa política liberal do capitalismo, qual seja, que a troca monetária e a escolha do consumidor são os casos paradigmáticos das liberdades individuais, sem as quais a democracia sofre uma derrocada total.29
Em suma, como processo histórico e como crítica política, a posição de Marx e Engels sobre o capitalismo tem uma base sólida razoável precisamente porque eles adotaram uma visão global e porque fizeram uma abordagem historicizante. Esta demolia os argumentos de que a “natureza humana” era a causa imutável de todos os efeitos prejudiciais produzidos pela história, mesmo que de diversas formas em diversos lugares, ou de que era necessariamente impossível qualquer mudança histórica de grandes proporções, visto que o capitalismo era, com toda a clareza, uma mudança histórica crucial que eliminava em larga medida os sistemas pré-modernos. Todavia, caracterizar um processo histórico como o surgimento das classes comerciais e o advento concomitante das instituições capitalistas atendendo a seus interesses é muito diferente de sustentar que o capitalismo é, de alguma maneira, um sistema com uma lógica interna que pode ser revelada pela análise filosófica. A economia moderna — com seus fundamentos nos cálculos individuais da utilidade marginal e suas concepções agregativas de tributação estatal, políticas monetárias e fiscais, regulação do mercado e gestão das crises — já barrara o caminho para a ideia de uma lógica interna, ao tratar o sistema de modo mais ou menos empírico e geralmente a-histórico como a mera soma de suas partes entrelaçadas e inter-relacionadas observáveis no momento. O que Marx supunha era que todas essas atividades econômicas constituíam fenômenos “de superfície”, embora complexamente relacionados, exigindo um exame e uma crítica política “em profundidade”.
Para Marx, porém, essas complexidades não abrangiam o sistema em si e por si, correspondiam apenas à maneira como a lógica do sistema operava partindo de fenômenos mais profundos e chegando ao que podia ser observado. Marx dedicou alguns esforços a deduzir e ilustrar essa lógica a partir das observações “de superfície”, mas a lógica já se encontrava em sua extensa análise conceitual sobre a mercadoria, a moeda e o capital, cujas relações eram deduzidas de verdades necessárias, segundo ele argumentava. Entre elas estavam as verdades sobre o trabalho, em especial sobre a força de trabalho, que foi sua retificação conceitual específica à economia política, e sobre o valor de troca, que ele considerava um regulador dos preços que observamos. De fato, o argumento dizia que estabilidades em fenômenos aparentemente inexplicáveis ou surgidos de modo aleatório resultam de processos “mais profundos” que podem ser desvendados pelo raciocínio conceitual. Para Marx, a economia moderna era como um fútil exercício indutivo, meramente traçando inter-relações em representações sempre mais complexas, mas sem as explicar a fundo. Por essa razão, ela lhe parecia — como parece a muitos críticos atuais — uma ciência social em total ou fundamental cumplicidade com os ricos e poderosos, ou, por outro lado, tão abstrata em suas autorreferências que não mostra qualquer contato fidedigno com as realidades humanas concretas.30 São, claro, críticas atuais, mas que poderiam ter sido feitas por Marx a partir de sua própria perspectiva, e de fato seus comentários sobre os economistas políticos da época, em particular John Stuart Mill, seguem em larga medida nesse sentido.31
No entanto, a crítica publicada de Marx — até onde dispomos dela — é de leitura notoriamente difícil e, para as finalidades presentes, de árduo entendimento como intervenção política, pelo menos à primeira vista (que é, sabidamente, até onde vão muitos leitores do primeiro volume de O capital).32 A situação nos anos 1840 era um pouco mais clara quanto a seus artigos publicados e a seu único livro de autoria exclusiva então lançado, Miséria da filosofia, escrito em francês para ter repercussão europeia. Seus artigos em alemão eram intervenções políticas num mundo sob cerrada censura, muito perigoso, onde o debate se dava em código e tinha um público forçosamente bem limitado. Embora alguns desses textos anteriores a O capital fossem bastante diretos em explorar as questões, por exemplo a liberdade de imprensa, e em polemizar contra indivíduos, por exemplo Proudhon, outros textos tratavam da “questão de Hegel” na política da época, com resultados muito mais obscuros, a não ser, claro, para os colegas Jovens Hegelianos. Desde a década de 1930, porém, e certamente desde os anos 1960, as obras e os manuscritos de Marx nesse veio “hegeliano” adquiriram grande fama, pelo menos nos círculos acadêmicos de filosofia e teoria política. Os seguidores políticos do marxismo, fossem soviéticos, chineses ou outros, demoraram muito mais para se interessar por esses escritos iniciais de Marx, que na época não faziam parte do cânone para os marxistas. Esse fascínio decorre, em parte, da dificuldade desses textos, que se deve tanto à falta de familiaridade dos círculos anglófonos com as escolas filosóficas hegelianas quanto à sofisticação filosófica das ideias de Marx. E uma parte dessa surpreendente adoção de posições aparentemente obscuras no e contra o idealismo alemão constituía, para o público acadêmico, um atraente contraste com o primeiro volume de O capital, com suas tremendas dificuldades, ao menos para os filósofos. De todo modo, os economistas do século xx (exceto os explicitamente marxistas) já desprezavam mesmo o volume e a crítica como um todo, conforme vimos acima.
Em suma, o primeiro volume de O capital não sobreviveu muito bem na recepção e no uso da obra de Marx, exceto nos elogios meramente verbais a essa primeira parte de um magnum opus. Mas, para entendermos a posição ainda controversa de Marx de que o capitalismo é um sistema dotado de uma lógica interna, precisaremos desenvolver uma estratégia de leitura que nos ajude a compreender sua obra mais plenamente elaborada, que ele publicou em duas edições alemãs (1867 e 1872) e uma tradução francesa (1872-5), na qual procedeu a revisões importantes que se refletiram na terceira edição alemã (1883).33
Como ativista, Marx teve um amplíssimo leque de estratégias de intervenção. Esse ativismo chegou filtrado para nós nas obras reunidas e completas, mas perdeu-se boa parte do parti pris e da natureza “de momento” desses escritos. Apenas uma ínfima parcela dos escritos jornalísticos de Marx, se tanto, tem recebido tratamento sério, muito embora grande parte dessa produção tenha sido redigida em inglês para a imprensa americana. Há algumas ocasionais coletâneas temáticas, e não jornalísticas, como, por exemplo, volumes sobre a Índia e sobre a Irlanda. O que quero dizer aqui é que, ao lado do primeiro volume de O capital (e dos manuscritos prévios para esse volume, junto com os manuscritos publicados postumamente, reunidos como volumes 2 e 3), há uma crítica paralela do capitalismo como sistema no próprio jornalismo de Marx. Se tomarmos como exemplo as crises econômicas e financeiras de 1857-8, teremos a clara percepção de uma lógica interna operando nas sociedades divididas em classes e a clara percepção do potencial político em termos de luta de classes como resultado. Mas o que não temos nem no primeiro volume de O capital nem nos artigos de jornal é a aplicação de uma teoria pronta aos acontecimentos à medida que se desenrolam, de modo que os eventos confirmem ou infirmem uma teoria preditiva. Em lugar disso, o que temos é uma sólida percepção de que o capitalismo é um sistema, dotado de uma lógica interna, e de que as crises econômicas e financeiras dão prova disso, visto serem — ao menos por imputação — endógenas e inevitáveis, mais ou menos como dissera Engels em seu “Esboço de uma crítica da economia política”.
Na correspondência com Engels, Marx monta resumos muito vívidos do que lê nos jornais:
O pânico monetário em Londres se acalmou em certa medida nos últimos dias, mas logo recomeçará […]. Porém os empréstimos do Banco [da Inglaterra] […] manterão em andamento um grande volume de transações que por fim deverão levar a outra quebra.34
Nas passagens seguintes Marx elabora uma sequência histórica plausível, baseada numa lógica interna do sistema capitalista:
À diferença de crises anteriores, o que ainda está sustentando em certa medida o chamado mercado monetizado em Londres é a existência de bancos de capital misto que não se expandiram realmente até os últimos dez anos […] se um desses bancos quebrasse agora, haveria um clamor geral.35
A lógica interna, porém, não opera em termos causais e cronológicos: “Por isso é de se lamentar muito que o royal british bank tenha quebrado prematuramente”.36
Nesse exato momento, Marx estava escrevendo um artigo para a New-York Daily Tribune com uma dose bem maior de teoria (coisa desnecessária ou simplesmente pressuposta na correspondência com Engels):
No entanto, a própria recorrência das crises a intervalos regulares, a despeito de todas as advertências do passado, proíbe a ideia de procurar suas causas finais na imprudência de indivíduos isolados. Se a especulação face ao encerramento de um determinado período comercial aparece como o precursor imediato da quebra, não se deve esquecer que a própria especulação foi gerada na fase anterior do período e, portanto, ela mesma é resultado e acidente,37 e não a causa final e a substância. Os economistas políticos que pretendem explicar os espasmos regulares da indústria e do comércio pela especulação se assemelham à extinta escola de filósofos naturais que consideravam a febre como a verdadeira causa de todas as doenças.38
Voltando ao primeiro volume de O capital, porém, o gênero e o estilo — pelo menos no começo e ao longo das seções teóricas — são muito diferentes. É um tanto difícil captar o próprio objeto da crítica de Marx, ao contrário dos acontecimentos relatados que constituem uma crise econômica. Estará ele fazendo objeções em termos políticos às sociedades em que domina o modo capitalista de produção, ou objeções em termos “científicos” ao que considera ser a teorização abstrata dessas sociedades, isto é, a economia política (tal como ele a sintetiza)? Ao contrário de alguns economistas modernos, que negam qualquer ligação necessária entre o pensamento e o comportamento dos seres humanos concretos e os conceitos abstratos utilizados para teorizar e explicar esse comportamento, Marx considerava claramente que os conceitos teóricos tomados à economia política eram constitutivos das sociedades que ela pretendia descrever, influenciar e, em muitos casos, justificar, pelo menos até certo ponto. Isso significa que podemos situar o discurso do primeiro volume de O capital dentro do quadro da performatividade, de modo que os conceitos da economia política — mercadoria, moeda, capital — não descrevem nenhuma outra realidade senão a realidade social que utiliza esses e outros conceitos similares em atividades que então são entendidas nesses mesmos exatos termos. Ou seja, sabemos o que é a moeda porque vemos as pessoas usarem a moeda de maneiras práticas, e assim — enquanto realizam essas ações práticas de compra e venda — elas estão criando uma realidade poderosa a partir de um metal ou de um papel que de outra maneira seria “morto”, o que portanto é uma realidade social que vivemos. A política comunista/socialista de Marx ressaltava forçosamente as experiências negativas dos trabalhadores, dos ditos trabalhadores e dependentes. Marx já subvertera o empirismo vulgar segundo o qual os conceitos simplesmente referenciam os objetos como o que são — por exemplo, moeda é apenas metal cunhado ou papel impresso autenticado ou um símbolo similar — e o racionalismo vulgar que define e explica relações em termos abstratos que não são os mesmos (ou não exatamente iguais) empregados nas próprias atividades — por exemplo utilidade marginal numa hierarquia das preferências do consumidor.
Visto desse ângulo, o problema do primeiro volume de O capital não é apenas que a própria economia política ficou ultrapassada poucos anos após a publicação, mas sim que a crítica de Marx a essa economia política era de concepção muito ambiciosa e ainda hoje desconcerta a maioria dos leitores. Todavia, vencida essa primeira dificuldade, a arquitetura do projeto — pelo menos do primeiro volume — se torna clara. Como disse Marx, ele partia da unidade individual para chegar ao fenômeno geral, um método corriqueiro na filosofia clássica.39 A unidade individual aqui era a mercadoria, e o fenômeno geral era o capital. Embora a lógica desse desenvolvimento conceitual fosse classicamente hegeliana, precisamente por traçar um desenvolvimento conceitual como um “movimento” abstrato, o texto oferece inúmeras ilustrações empíricas tomadas à vida real, em vez de se ater a ficções à la Robinson Crusoé. Essas notas e referências empíricas são incluídas para ajudar o leitor a entender o que se passa e instigar as devidas sensibilidades políticas ao longo da leitura. Ao seguir a exposição, o leitor então se depara com os conceitos constitutivos de mercadoria como objeto de valor, dividido em valor de uso e valor de troca, de moeda como representação do valor e, por último, de capital, o objeto da obra. Marx apresenta o conceito-título em termos descritivos e explicativos como um “valor que se expande por si”, numericamente ilimitado, mas limitado em última análise por uma lógica interna que ele se empenhara em descobrir e agora apresentava em sua exposição.40
Marx rendeu tributo aos economistas políticos cujas obras resumiu, citando-os em referências em notas de rodapé, algumas informativas, mas em geral mordazes. Elogiou-os pela intuição de que o valor e o lucro eram, de alguma forma, uma função do trabalho. Nem todos os economistas políticos se colocavam esse problema ou o abordavam nesses termos, mas Marx rejeitou suas diversas abordagens por considerá-las apenas superficiais, oferecendo meros reflexos do que se via nos fenômenos de superfície, como os preços de mercado. Sua divisão ciosa, porém altamente aristotélica, do trabalho como atividade e da força de trabalho como o potencial para essa atividade permitiu-lhe sustentar que a segunda tinha uma propriedade peculiar: a de que o tempo de trabalho despendido resulta num output maior do que o necessário para reproduzir seu potencial em termos de input — sendo o input medido como tempo de trabalho “objetificado”.41
O tempo de trabalho, seja o tempo despendido, seja sua forma “objetificada”, é aqui a medida comum de inputs e outputs e o excedente do tempo de trabalho do qual, segundo Marx, derivaria o lucro, em vista da suposição de uma troca igual. Assim, o trabalho era a única fonte de valor da qual poderia surgir o valor excedente ou mais-valia e, assim — na superfície econômica —, o lucro. É claro que, quando Marx e seus leitores avançavam na exposição para os fenômenos de superfície, aparentemente derivados dessa lógica interna e por ela controlados, a referência empírica para essa exposição bastante abstrata se tornava mais problemática. E os conceitos de tempo de trabalho, valor e mais-valia evoluem como reguladores virtuais ou inerentes dentro do sistema. Na exposição de Marx, o “tempo de trabalho socialmente necessário”42 surge como um regulador do valor e, portanto, dos preços ao longo do tempo, e não como inputs concretos de tempo de trabalho concreto de trabalhadores concretos em fábricas concretas num processo competitivo concreto de produção e troca.43
Por um lado, a exposição de Marx sobre o capitalismo como sistema dotado de uma lógica interna segue caminhos eminentemente lógicos passando pela observação, abstração, análise, dedução e síntese. Por outro lado, o capitalismo como sistema surge enquanto tal somente porque refletiria a lógica interna que lhe é atribuída. Quem quiser observar o funcionamento da lógica interna reunindo e analisando fenômenos de superfície, por exemplo estabilidades do mercado na precificação cotidiana ou, inversamente, instabilidades do mercado como quebras excepcionais ou periódicas, não encontrará nenhum vínculo evidente remontando aos “blocos de construção” inobserváveis da exposição de Marx. Isto é, a mensuração do output do tempo de trabalho socialmente necessário de um trabalhador e os inputs reprodutivos do tempo de trabalho “objetificado” socialmente necessário — supondo que isso fosse possível — não nos diria nada sobre o sistema, porque não é aí que se pode encontrar concretamente a lógica interna das identidades socialmente necessárias entre trabalhador e mercadoria. Os atuais defensores da “matéria escura” na astrofísica se encontram em posição muito semelhante e, tal como as pesquisas de Marx nas economias concretamente existentes, estão em busca de elementos que apoiem sua teoria, ela mesma derivada de inobserváveis.
Acima de tudo, porém, a sofisticação de Marx como escritor — e como humorista sardônico — gera outro quebra-cabeças interpretativo. Quando é que ele está citando os pontos de concordância com a economia política da época, a qual elogia por colocar problemas e procurar soluções? Quando é que está falando por si mesmo, como crítico convicto e ativista político da questão, esbravejando contra a economia política por causa de seu endosso acrítico ao poder de classe burguês? Aqui duas coisas trabalham contra Marx: ele era infatigável em expor a economia política de modo a derrubá-la, mas sua maneira de chegar a essa derrubada se confunde facilmente com um aperfeiçoamento da economia política em seus próprios termos. É um problema bastante conhecido, que ocorre quando o gênero sátira adota a forma de paródia.
Alguns comentadores não dão maior importância a Marx, reduzindo-o a um ricardiano menor, o que não admira, visto que é com a exposição conceitual do economista político David Ricardo que sua obra mais se assemelha. Outros comentadores e provavelmente muitos leitores consideram que Marx estava apenas expondo um “olhar” curiosamente equivocado — ou uma alternativa tediosamente rebuscada — sobre a economia marginalista que se sucedeu à sua obra e, a partir do final dos anos 1870, substituiu em larga medida a economia política. Uma boa parte da crítica de Marx consiste numa sátira muito sutil; e — no registro político censurado dos Jovens Hegelianos dos anos 1840, no qual ele persistiu por décadas seguidas — a sátira era a principal modalidade da crítica radical e do ativismo progressista. Com efeito, o primeiro volume de O capital tem algo de uma requintada paródia em suas passagens expositivas, abordando a economia política longamente e “com toda a seriedade”, mas então criando um ponto crítico político devastador e ao fim explosivo. Esse ponto era a conclusão dedutiva de que a lógica interna do sistema geraria uma taxa de lucro decrescente, de modo que uma restrição específica necessária aumentaria até forçosamente surgir um ponto de contradição sistêmica, porém solucionável em termos políticos.44 Uma imensa capacidade produtiva geraria quantidades enormes de bens invendáveis, precisamente porque as tecnologias mecanizadas intensivas teriam substituído os trabalhadores de carne e osso, a fim de cortar os custos e, com isso, ter preços competitivos. Mas, sem trabalhadores de carne e osso empregados na produção, não haveria salários e seria muito pequeno o número de consumidores, e daí decorreria um excesso de bens invendáveis.
No entanto, a ideia de que o capitalismo é, em certo sentido, um sistema dotado de uma lógica interna não se extinguiu por completo. Essa formulação surge, em particular, como uma problematização ao enfrentar as crises que ocorrem e então examinar as causas e estratégias de prevenção ou aprimoramento. Embora muito díspares e ad hoc, as reflexões a partir dos desastres econômicos geram uma reação para “ajustar o sistema”, o que, por sua vez, pressupõe um sistema. Certamente houve mudanças de caráter sistêmico: do padrão-ouro para os acordos de Bretton Woods, das taxas de câmbio fixas para as flutuantes, das restrições cartelizadas à comercialização de ações e títulos para a comercialização automatizada de instrumentos financeiros constituída agregando-se os riscos.45
Todavia, é possível argumentar que as crises são endêmicas, inevitáveis e cada vez piores sem ser preciso abraçar a proposição caracteristicamente marxiana de que há uma lógica no sistema que, quando exposta, desempenhará um papel importante num profundo processo político de mudança histórica em nossas relações sociopolíticas. Na posição apresentada por Marx, essa própria mudança seria de ordem diversa das anteriores, no sentido de que a humanidade — procedendo com deliberada racionalidade — tomaria controle de seu destino, formulado em termos sociais e políticos.46 Ou não: as lutas de classes, como observava o Manifesto, poderiam terminar na “ruína em comum das classes em conflito”.47 Em suas pesquisas históricas sobre a extensão da maleabilidade humana e das concomitantes maleabilidades estruturais, Marx sem dúvida estava ciente da regressão. O equivalente moderno é a ecocalamidade em escala planetária, seja devido à poluição e à mutação, seja devido à mudança climática e aos conflitos na disputa pelos recursos hídricos.
Os ajustes tecnológicos dos problemas humanos eram realmente — como deve estar claro — o ponto forte de Marx. A seu ver, o potencial produtivo das manufaturas modernas estava mal organizado por causa da exploração do trabalho e dos ciclos de desemprego em massa. No entanto, por intermédio de outras estruturas — com lógica interna muito distinta —, a humanidade poderia colher os benefícios de uma forma que poderia ser entendida e defendida como igualitária e, assim, democrática em termos propriamente ditos. Não há nenhuma razão particular para que essa visão política não seja capaz de enfrentar as externalidades da poluição e da mudança climática. A poluição, ao menos, aparece de modo explícito na crítica de Marx ao capitalismo como sistema, precisamente como o tipo de externalidade que os economistas modernos levam em consideração (pelo menos de vez em quando). Tais comentários surgem a propósito das condições de trabalho, dos problemas de saúde crônicos e da morte prematura dos pobres;48 passaram-se cem anos desde sua época até que as leis sobre a salubridade do ar começaram a melhorar substancialmente as condições nos principais países industriais. Como ativista, Marx apoiou numerosas medidas reformistas e não adotou a linha do “quanto pior, melhor”, segundo a qual as intervenções políticas deveriam piorar as coisas a fim de melhorá-las — o que é diferente de observar que outros poderiam piorar as coisas e assim, sem perceber, provocar mudanças progressistas. No entanto, Marx também observou ocasiões em que o reformismo falhou ou nem sequer foi tentado, e a violência revolucionária surgiu — o que, claro, nem sempre melhorou as coisas.49 Em suma, ainda está muito presente entre nós a ideia marxiana de que as criações humanas geram forças que, de modo muito direto, por exemplo através das relações de mercado, controlam a vida humana e acarretam consequências trágicas.
Em termos específicos, essa ideia encontra uma formulação impressionante no primeiro volume de O capital, tal como foi revisto por Marx após a primeira edição. Engels e decerto outros haviam argumentado que era difícil acompanhar a exposição introdutória do livro original e ela precisava ser desenvolvida para ajudar na leitura. Uma das correções de Marx foi incluir a seção agora famosa sobre “O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo”, embora infelizmente a forma precisa do argumento exposto por Marx seja amiúde mal entendida. A referência ao fetichismo diz respeito não a conceitos freudianos muitos posteriores, mas sim a uma obra do século xviii, Du Culte des dieux fétiches [Do culto dos deuses fetiches].50 O sentido não é o de um especial fascínio sexual por alguma coisa. Marx se refere à ideia muito específica de que os seres humanos têm práticas por meio das quais suas próprias criações passam a controlá-los, como os cultos de idolatria. Tais práticas nasceram e em alguns casos desapareceram ou foram desautorizadas. Assim, elas são historicamente maleáveis, e não traços necessários da existência social humana.
A cunhagem setecentista original do termo “fetichismo” apresentava o culto aos ídolos como realidade social e institucional em que objetos inanimados pareciam adquirir os poderes de seres animados. Na versão de Marx, as relações de mercado, que tinham poderes de vida e morte sobre muitos, eram analogamente históricas enquanto instituições maleáveis, e analogamente operacionais por meio de poderes como que divinos atribuídos à moeda em particular e às relações monetárias em geral.51 Marx deu colorido ao texto com diversas referências satíricas a religiões, inclusive com menções específicas ao cristianismo, a superstições e a charlatanices, sustentando que a crença na naturalidade, necessidade e imutabilidade das relações de mercado e, assim, no trio mercadoria, moeda e capital era flagrantemente irracional. Ao mesmo tempo, Marx não era ingênuo a ponto de supor que o desmascaramento do irracionalismo por um intelectual como ele próprio bastaria, por si só, para derrubar ou sequer reformar o capitalismo.52 Como em todas as formações sociais — fosse o culto aos ídolos, o culto ao mercado ou o comunismo como sociedade sem classes mas altamente produtiva —, o pressuposto de Marx era performativo: as pessoas precisam fazer as coisas acontecerem, e a política surge como um conjunto de intervenções, na e pela luta de classes, para conseguir ou, ao contrário, para impedir que as coisas aconteçam.53
A revolução estava longe de ser uma questão simples para Marx, e, com efeito, nunca houve uma discussão definitiva sobre seu significado para ele. Aqui há outro paradoxo: Marx era um convicto defensor de uma profunda revolução na história social humana, trabalhando em seu ativismo para criar consciência dessa possibilidade; no entanto, como, onde e quando surgiria tal possibilidade, e quais resultados teria, eram — até onde sabemos — questões em aberto para ele. O que Marx dizia geralmente seguia ou na linha da “revolução vindoura”, ou na linha da “revolução que falhou”. A primeira é mais exortatória do que preditiva, no sentido de que a retórica costuma anunciar uma situação como existente a fim de convencer os ouvintes ou leitores a agirem para que ela aconteça e, assim, se torne fato. Marx escreve como participante político, não como observador distanciado capaz de arriscar uma previsão à maneira de um cientista social ou, talvez, de um jornalista objetivo.54 Na linha da “revolução vindoura”, os exemplos mais citados ao longo dos anos provêm, claro, do Manifesto:
[…] traçamos a guerra civil mais ou menos velada dentro da sociedade existente até o ponto em que ela eclode em revolução aberta, e o proletariado estabelece seu domínio pela derrubada violenta da burguesia.55
Mas recentemente, tendo a “Introdução” à Crítica da filosofia do direito de Hegel voltado a circular em tradução para o inglês, a seguinte passagem é amiúde citada:
A única emancipação possível da Alemanha em termos práticos é a emancipação baseada na teoria única que sustenta que o homem é o ser supremo para o homem […]. A cabeça dessa emancipação é a filosofia, o coração é o proletariado. A filosofia não pode se realizar sem a superação [Aufhebung] do proletariado; o proletariado não pode se superar sem a realização da filosofia.56
A linha da “revolução que falhou” contém um dilema que já era de esperar, a análise dos fracassos de 1848-9 na Europa e de 1869-70 em Paris, mas logo passa à modalidade retórica esperançosamente performativa, acima esboçada. A evocação marxiana das “jornadas de junho” de 1848 em seu livreto contemporâneo O 18 de brumário de Luís Bonaparte, de 1852, não é citada com muita frequência, mas é um indicador do dilema: como descrever um fracasso político sem faltar à causa política. O texto de Marx faz uma interpretação peculiar — sem dúvida discutível — sobre o levante urbano de fevereiro de 1848, que derrubou o rei Luís Filipe de França:
A intenção original nos dias de fevereiro [de 1848] era a de uma reforma eleitoral que ampliasse o círculo do privilégio político entre as classes proprietárias […] assim surgiu a república [e] o proletariado lhe imprimiu sua chancela e a proclamou como república social. Assim ficou assinalado o conteúdo geral da revolução moderna.57
Seguindo o texto de Marx, ficamos sabendo que as outras forças políticas — das classes proprietárias em várias gradações e com vários compromissos simbólicos — puseram fim às reivindicações sociais feitas pelo “proletariado de Paris”, como nos diz ele. A “insurreição de junho” de 1848 foi, em resposta, “o acontecimento mais colossal na história das guerras civis europeias”, escreve Marx. O resultado, segundo suas estimativas, extraídas seletivamente das matérias da imprensa, foi que “3 mil insurgentes foram massacrados” e “15 mil foram degredados sem julgamento”. Quaisquer que tenham sido as circunstâncias e os números, foi decerto uma insurreição e decerto uma derrota para os insurgentes, constituindo assim um problema para Marx, ao escrever como ativista:
Sem dúvida, a derrota dos insurgentes de junho havia nivelado o terreno para a fundação e construção da república burguesa; mas, ao mesmo tempo, demonstrara que a questão de hoje na Europa não se dá entre “república ou monarquia”. Ela provara que a república burguesa significa o despotismo ilimitado de uma classe sobre as outras.58
Marx explica exatamente o que isso significa, mostrando como os “medos vermelhos” são usados para criar ditaduras, de modo que mesmo as classes proprietárias perdem sua segurança, porque perdem suas liberdades “burguesas”:
Mesmo a mais simples reivindicação por uma reforma financeira burguesa, pelo mais simples liberalismo, pelo mais formal republicanismo, pela mais básica democracia, é ao mesmo tempo punida como “ultraje à sociedade” e estigmatizada como “socialismo” […]. Por fim a escória da sociedade burguesa forma a sagrada falange da ordem e o herói Crapulinski [Luís Bonaparte] toma [o palácio real das] Tulherias como “salvador da sociedade”.59
A exposição bastante semelhante da insurreição urbana em Paris, em “A guerra civil na França”, é citada com mais frequência, embora geralmente pelo lado esperançoso,60 em que Marx vê nas efêmeras estruturas de um levante os contornos gerais de uma sociedade futura. Marx, porém, era perito em transformar em vitória uma derrota acachapante — sob forças muitíssimo superiores — usando sarcasmos muito expressivos, como, por exemplo, o seguinte:
A Paris dos trabalhadores, no gesto de seu heroico auto-holocausto, envolveu edifícios e monumentos em suas chamas […]. Se os atos dos trabalhadores parisienses foram vandalismo, foram o vandalismo de uma defesa desesperada […]. A Comuna sabia que seus oponentes não se importavam minimamente com a vida do povo parisiense, mas se importavam muito com seus edifícios parisienses.61
Passando, porém, para um conjunto de revoluções em andamento em 1848, vemos Marx trabalhando como jornalista/ativista não propriamente por uma revolução “vindoura”, pois ela já se iniciou. Mas tampouco se trata de uma revolução “que falhou”, visto que, nos acontecimentos em curso, não há conclusões previamente estabelecidas. Como editor-chefe do jornal que veio a retomar, agora como Neue Rheinische Zeitung — Organ der Demokratie, e com Engels no conselho editorial, Marx estava em casa. O jornal cobriu as “jornadas de junho”, em Paris, à medida que chegavam as notícias:
Colônia, 24 de junho, dez da noite. Cartas de Paris do dia 23 não chegaram. Um carteiro que passou por Colônia nos disse que, quando partiu, haviam estourado combates entre o povo e a guarda nacional, e que ele ouvira canhoneios pesados.62
Poucos dias depois, temos no jornal o artigo “Notícias de Paris”, escrito por Marx num tom de “animador de torcida” com vistas ao público local na Renânia:
Colônia, 26 de junho. As notícias que acabam de chegar de Paris demandam tanto espaço que somos obrigados a omitir todos os itens de comentários críticos […]. A última notícia recebida […] é […] Paris banhada em sangue; a insurreição se transformando na maior revolução que jamais existiu, numa revolução do proletariado contra a burguesia. Três dias que bastaram para a revolução de julho [de 1830] e para a revolução de fevereiro [em 1848] são insuficientes para os contornos gigantescos dessa revolução de junho, mas a vitória do povo é mais certa do que nunca.63
No dia 28, porém, Marx passara a enaltecer os mortos, ao mesmo tempo mantendo a revolução viva:
Os trabalhadores de Paris foram esmagados por forças superiores, mas não foram subjugados. Foram derrotados, mas seus inimigos foram vencidos […]. É direito e privilégio da imprensa democrática laurear suas […] frontes.64
O interessante é que isso faz parte do artigo tomado como excerto para mostrar uma exposição histórica e síntese exemplar, já em 1850, retirando assim Marx do calor do ativismo revolucionário e colocando-o na posição retórica de transformar a derrota em vitória. Foi então incluído numa tradução inglesa de 1851 no hebdomadário cartista Notes to the People, e por fim publicado em As lutas de classes na França, o fino volume editado por Engels em 1895.65
Não há nenhuma especial incoerência entre uma leitura da sequência das posições de Marx enquanto os acontecimentos estão em curso e uma leitura mais histórica de suas avaliações como post factum. Mas o posicionamento de Marx sempre comentando revoluções fracassadas realmente faz com que sua coerência pareça mais uma fórmula “aplicada” do que exploratória e engajada. Claro que havia muitas outras intervenções de outros escritores, de teor semelhante ou diferente, ocorrendo na época, em 1848, enquanto os acontecimentos se desenrolavam. Esses escritos talvez ainda estejam acessíveis em arquivos, disponíveis em acervos de colecionadores ou em circulação restrita, atraindo um interesse apenas limitado. A obra de Marx se beneficiou com a marca de seu nome, o que não ocorreu com outros escritores. Mas o preço disso é que os leitores são orientados para uma leitura com foco nas coerências do “pensamento”, e não nas atividades e no ativismo.
No último capítulo do presente livro, examinamos o conceito que, desde o final dos anos 1960, ocupou lugar de honra na apresentação do “pensamento” de Marx ao público acadêmico e ao público geral: a alienação. Todavia, nos termos do ativismo de Marx, esse conceito foi taticamente engolido por outro, a exploração, e assim os dois serão examinados em conjunto.