Então como ficamos em relação a Marx, e como Marx fica em relação a nós? Como este livro demonstrou, existem inúmeras maneiras de construir tal relação e — em vista da sólida reputação internacional e da enorme quantidade de materiais disponíveis — não há por que pensar que esse processo tenha terminado ou sequer esteja enfraquecendo, muito pelo contrário. Mas aí, com essa situação, surge a pergunta: por quê?
Este livro adotou um ângulo político do tema, qual seja, sustentando que existe uma identidade de conceitos e problemas entre nossa época e a época de Marx. O elemento de ligação é a “questão social”, concebida não como mera desigualdade entre indivíduos (e gerada por ações individuais), mas como algo mais complicado, enquanto “classe social” (uma estrutura durável com frequente efeito coercitivo sobre os indivíduos, devido ao “lugar” que ocupam dentro dela). Os indivíduos podem gostar ou não, aceitar ou não, e, no caso desses “não”, podem resistir e mudar suas circunstâncias individuais, ou — como era a ardorosa esperança de Marx — podem se rebelar coletivamente contra as estruturas de poder por meio das quais surgem as circunstâncias e oportunidades de vida dos indivíduos.
A política de Marx resistia à ideia de que o futuro há de ser necessariamente igual às presumidas certezas do presente, e sua concepção de classe era performativa — isto é, a classe não era algo que se identificava, mas algo que se fazia. E era analítica — surgia nas e pelas propriedades específicas da produção mercantilizada para troca, inclusive para a reprodução dos inputs do trabalho humano. Isso me parece presente em inúmeros movimentos, posições e debates políticos atuais, oferecendo-nos um “olhar” sobre diversos pontos de discussão, confrontos e até ações revolucionárias e levantes armados, quando eclodem. Mas, sem dúvida, essa orientação política em termos de classe não descreve todos os conflitos de todos os lugares, já que o cerne do ativismo de Marx era criar conflitos que “se afigurassem como tal”. E essa orientação política tampouco é um mero receituário para todo e qualquer conflito. Desse ponto de vista, o legado de Marx pode ser, talvez, uma inspiração, mais do que um fardo exegético. E, também desse ponto de vista, a luta de classes, a análise de classe e a teoria de classe armam o palco para vermos o que Marx tem a dizer sobre a história, o progresso, a democracia, o socialismo/comunismo, o capitalismo, a revolução, a exploração e a alienação — os temas que compõem a estrutura deste livro.
Por outro lado, nada impede que se leia Marx como filósofo, sociólogo, cientista político ou economista, e um cânone com mínimas variações nos textos “fundamentais” cai muito bem nos “manuais” para professores e alunos. Tal como no “olhar” político que adotamos, mas em contraste com ele, essa abordagem acadêmica gera diversas “versões de Marx” mais ou menos adequadas a suas finalidades, formando quebra-cabeças apropriadamente complicados e investigações acadêmicas capazes de infundir maior ou menor inspiração. Esse tipo de explicação começou a sério logo após a morte de Marx, com formulações sobre seu contato e, claro, sua crítica dos materialismos filosóficos, dos idealismos, da dialética hegeliana, de histórias específicas e coisas do gênero, geralmente extrapolando o que ele dizia de um prisma político sobre os materialistas, os idealistas, os hegelianos, os dialéticos e as transformações históricas. Grande parte disso também se aplica a construções um pouco posteriores de suas “teorias” sobre as classes, a política de classe, o Estado, a revolução e o comunismo, e também às complexidades de seu trabalho sobre o valor, a mais-valia, a força de trabalho, a moeda, o capital e os mercados e, por extensão, aos conceitos econômicos mais familiares de preço, renda, produtividade e crise. Marx é, sem dúvida, uma grande diversão, como qualquer autor pode ser quando o revivem suficientemente como mestre e colega (mesmo que tenha centenas de anos). Também não há dúvida de que suas análises argumentativas e suas críticas ad hominem, complexas e eruditas, são expostas num estilo retórico memorável.
Este livro foi bem seletivo ao “trazer” algumas das várias “versões de Marx”, a fim de oferecer ao leitor um panorama contemporâneo de seu legado (o testamento efetivo foi bastante simples, embora seu executor literário, Engels, tenha explorado os materiais remanescentes da maneira que descrevemos). Assim, leninistas, stalinistas e maoistas não aparecem nesse estudo introdutório, mas a construção de uma “teoria materialista da história” certamente aparece, pois persiste como artefato intelectual e político desde os dias de Engels até a hoje. Da mesma forma, outros conceitos canônicos como burguesia e proletariado, transformação revolucionária, ditadura do proletariado, valor, mais-valia e comunismo constam aqui (ainda que esquematicamente) como “elementos básicos”. A metáfora de “base e superestrutura”, agora onipresente, aparece enquanto tal apenas uma única vez nos escritos de Marx, e mesmo então só de passagem, a título de experiência; já aqui ela aparece nas discussões sobre a transformação histórica, na qual Marx situava essa imagem bastante tentadora. Do mesmo modo, Marx não recorria à “dialética” como fórmula em suas intervenções políticas, e até comentava irritado que não tinha nenhuma “chave mestra” para o desenvolvimento histórico e a transformação política, rejeitando qualquer “fórmula multiúso de uma teoria histórico-filosófica geral cuja virtude suprema consiste em ser supra-histórica”.1 Esta também se demonstrou uma ideia tentadora, extensamente desenvolvida por Engels, e tem sido seguida por alguns filósofos ilustres (e alguns nada ilustres).
É evidente, porém, que os ativismos de Marx não deixaram rastro em todos os nossos ativismos atuais, e disso se segue que ele talvez não tenha muito a nos dizer em alguns aspectos. Mas, em vista de seu estatuto como referência intelectual e política, está-se sempre tentando fazer com que ele fale a essas preocupações, embora muitas vezes essas tentativas “forcem a barra” (ou concluam que, na verdade, ele não está no lado certo das atuais questões, causas e movimentos “progressistas”). Marx não estava ativamente engajado na “questão da mulher”, que gerou disputas e controvérsias explícitas nos círculos socialistas no final dos anos 1870, e assim, como era previsível, depois disso construiu-se “um Marx” que falasse a essa questão e à hierarquia de gênero em relação com a hierarquia de classes, tal como ele a concebia. Esse tipo de construção, como descrevemos, consiste em “garimpar” os arquivos em busca de trechinhos e citações, pois as mulheres (embora não numa apresentação em termos de gênero) de vez em quando realmente aparecem em diversos contextos, ainda que apenas suplementando os assuntos em pauta.2
As políticas do nacionalismo, de raça/etnicidade e a perspectiva pós-colonial também têm se dedicado a situar o “pensamento” de Marx em relação a preocupações e projetos políticos em andamento, tanto práticos quanto intelectuais. O Manifesto sabidamente descarta os nacionalismos como movimentos políticos fortes e duradouros (“Os trabalhadores não têm nação própria”), embora a seção iv do texto trate dos partidos socialistas em cenários nacionais, necessariamente envolvidos numa política de alianças.3 O jornalismo de Marx, porém, não rejeita em absoluto as nações e os projetos nacionalistas, e trata explicitamente das conquistas imperiais, da construção nacional e da revolta nacionalista em termos econômicos e políticos. Marx geralmente defendia uma perspectiva internacionalista da luta de classes e da libertação da classe trabalhadora, como seria de se esperar — ainda que ele e, muitas vezes, nós mesmos não tenhamos análises prontas nem respostas fáceis.4 Embora propenso a usar na correspondência expressões informais que hoje são consideradas racistas, seus ativismos se alinhavam decididamente com os movimentos antiescravistas (ainda que fosse pouco receptivo a outros aspectos da hierarquia racial nas sociedades estruturadas em classes). Não é muito fácil construir “um Marx” que fale a essas questões, sobretudo quanto ao papel central (e não marginal) do colonialismo para o capitalismo e sua “lógica interna” — mas, de todo modo, os estudiosos atuais raramente consideram essas questões muito claras mesmo em termos conceituais.5
No entanto, Marx era diferente em muitos aspectos, e é por isso que este livro o enfocou como ativista engajado. Claro que nem todos os “grandes homens” da academia branca e ocidental estavam apartados de seu ambiente político ou se abstinham de ocasionais intervenções deliberadas, porém Marx tinha uma excepcional coerência como animal político, mesmo não sendo propriamente um político. Nenhum de seus contemporâneos teve sua perseverança, muitos caíram na obscuridade ou até renegaram seu radicalismo de juventude, e alguns, na verdade, ascenderam na política partidária de respeitáveis agremiações socialistas. No entanto, houve no século xx acontecimentos que tornaram Marx icônico, porém reduzido a fórmulas: Lênin, Stálin e Mao criaram cartilhas, cursos rápidos, paráfrases e reduções que se adequassem a suas finalidades políticas. Mas esses homens, à diferença de Marx, eram políticos e se tornaram líderes mundiais; apesar disso, das perspectivas atuais, nenhum desses ex-heróis (de diversos marxismos conflitantes) tem grande vulto no mundo dos estudos acadêmicos da “teoria social”. Em certo sentido, tiveram êxito em algo que Marx, pelo visto, nem tentou. Por outro lado, platônicos, aristotélicos, kantianos, hegelianos, ricardianos ou weberianos não têm essa presença no cenário mundial, e seus respectivos gurus não ganharam avatares tão altamente politizados, como foi o destino de Marx.
Assim, neste livro um “olhar” político sobre Marx — como ativista no “cotidiano” — não gera uma nova versão de nenhuma das várias “versões de Marx” ou de um “Marx” tamanho único, mas isso, defendo, é um ponto forte — não do autor que aqui lhes fala, e sim de seu objeto.