Abro a porta para essa criatura sorridente de óculos e cheia de espinhas – meu amigo Fred.
– Meu amigo – digo.
Uma longa pausa.
– Meu amigo rock ‘n’ roll – ele responde.
A gente se mata de rir. É tão bom vê-lo de novo!
Essa palhaçada é uma música do Go-Betweens que minha mãe colocava para tocar no carro quando ia nos buscar na escola. Só rola uma bateria por um tempão entre as duas falas, e esperar pela segunda frase sempre nos fazia cair na gargalhada quando éramos pequenos.
Então minha mãe começava a rir também e dizia:
– Olha o respeito. É uma das minhas bandas favoritas.
É até meio chocante lembrar como ela era feliz, tão diferente de agora, com um sorriso corajoso quando ela consegue sorrir e um olhar de amargura quando acha que eu não estou olhando.
Eu dou um passo para trás e deixo Fred entrar.
A nova dimensão do fedor finalmente o atinge.
– Cara, o que é isso? Eu achei que você estivesse exagerando.
– Os primeiros cinco minutos são os piores, depois você não sente mais nada.
A gente faz uma pausa no corredor, e vê minha mãe ao telefone.
– E o que vou dar de comer para esse menino? Ele está crescendo. E isso ainda custa dinheiro, Rob, não importa a qual escola ele vá.
Fred e eu nos olhamos. Solto um “rã-rã”. Se isso tivesse acontecido na frente de qualquer outra pessoa, eu ficaria morrendo de vergonha.
– Não será ruim assim para sempre – diz ele, baixinho. – Os primeiros meses são os piores.
Eu o levo até uma das salas de estar. Esse lugar é um museu. É como se o conteúdo de três casas enormes tivesse sido engolido por uma casona ainda maior.
Fazendo um gesto para a lareira, digo:
– Objetos de arte, Fred. Um banquete para os seus olhos.
– Ahã, valeu, porque para o nariz que não é.
Abro as cortinas desbotadas de veludo para jogar um pouco de luz na cena.
Fred olha ao redor.
– Caraca! Nunca vi tanta coisa assim!
Eu mostro alguns itens:
– Poltronas laqueadas no estilo regency com almofadas de pomba…
– Arqueadas? Mas não estou vendo arco nenhum.
– Laqueadas, com acabamento de laca. E almofadas…
– Essas almofadas estão cheias de quê?
– São só as penas da pomba. Não tem uma pomba morta dentro de cada almofada.
Fred me dá um soco de lado.
– Eu sei, ô vacilão.
Não tem nada mais legal que fazer coisas idiotas com um amigo. A não ser quando o negócio é ficar de olho em Estelle. É estranho como agora eu tenho esse lance com Estelle, do qual Fred nem faz ideia. Ainda não é hora de contar tudo a ele.
– Essa aqui é uma mesa inglesa Pembroke, com o contorno de buxo incrustado. E isso aqui é uma caixa para guardar chá de Boulle – continuo, lembrando das coisas que Posy me contou.
– Como assim, chá de bule? – Fred quer saber.
– É marchetaria Boulle[1], concha de tartaruga com bronze incrustado. É o nome do cara que inventou esse negócio.
– Tá.
– E olha só isso. – Levo Fred até a escrivaninha. – Estilo rococó, com ouropel, é tipo uma liga de cobre que imita ouro, e olha só debaixo dela.
Fred senta no chão e olha por debaixo da escrivaninha.
– O acabamento não é muito bom, parece que nem lixaram direito – diz ele.
– É um sinal de autenticidade. As reproduções têm a parte de baixo bem lisa.
– E vale quanto?
– Mais de 50 mil.
Vejo a mente do meu amigo ir longe.
– Então a gente pode roubar esse negócio, substituir a mesa por uma cópia, fazer um documento de identidade falso, comprar passagens de avião para Los Angeles, pegar umas carteiras de motorista falsas e dirigir pelos Estados Unidos até Nova York, passar os melhores dias das nossas vidas e ainda voltar a tempo para o primeiro ano do colégio. E aí?
– Tá, mas seu plano tem uma pequena falha: eu não sei dirigir, nem com carteira falsa.
– Mas a gente aprende naquelas estradas bem largonas.
– Quer ver o meu quarto?
– Claro.
Subimos. Howard vem trotando atrás da gente.
Meu quarto fica no último andar, na parte de trás da casa. Tem dois pares de janelas altas e dá para ver uma árvore lá fora. Enquanto Fred testa os truques que Howard sabe fazer, sentar e rolar, e começa a fazer amizade com ele, fico pensando que, se a gente estivesse num filme, eu poderia dar um pulo, me agarrar à árvore e descer. Mas isso aqui é a vida real, e eu não estou a fim de quebrar o pescoço, então uso a escada. Além disso, minha vida social não é tão intensa a ponto de eu ter de sair escondido. Minha mãe ficaria aliviada se me chamassem para ir a qualquer canto e me ajudaria a chegar lá. Ela está morrendo de culpa por eu ter sido obrigado a sair da minha escola por causa da nossa crise financeira. Porque eu sou inteligente e não sei mais o quê. Atividades extracurriculares, vestibular, você sabe como é.
Porém, nesse tempo todo que passei hibernando nessa cama barulhenta de ferro, enterrado sob pilhas de edredons de lã estampados e desbotados que absorveram minhas lágrimas, cheguei à conclusão de que esta é a minha grande chance de renovar minha antiga imagem e deixar esse lance de ser inteligente meio secreto. Eu sempre posso estudar sozinho mais a fundo, ou então desacelerar um pouco mesmo. Boiar, dar umas braçadas sem compromisso, tudo menos afundar…
Fred está estalando os dedos na minha cara.
– Volta, Dan. Você está com aquela cara de zumbi retardado – diz ele.
– Quê?
– Acabei de perguntar se você vai ficar bem amanhã.
– Estou um lixo.
Fred faz que sim com a cabeça.
– Foi mal eu ter viajado bem naquela época. Você já falou com o seu pai?
Faço que não com a cabeça.
– Não é porque ele é gay; é porque ele pisou na bola e deixou minha mãe nervosa…
Fred me entende.
– Eu sei que você não é um caipira homofóbico, Dan.
– Mas é tão estranho! É o meu pai.
– Eu sei.
– Meu pai é gay. – Ouço a incredulidade na minha própria voz. A ficha ainda não caiu, mas é um alívio dizer isso em voz alta.
– Fiz um pouco de pesquisa em Londres. É mais comum do que você pensa. Pai ou mãe aparentemente heterossexual, sabe?
Fred não tem vergonha de falar sobre nada. Ele é um cientista. Sempre pronto a aplicar clorofórmio e começar a dissecar. Mas esse assunto ainda está muito recente para mim, e acho que ele entende isso também. Ele está abrindo a porta, mas não entra com tudo.
– Vá lá em casa depois da aula, se estiver a fim. Eu não tenho aula até terça. A Plano B acha que eu preciso cortar o cabelo.
– Ela não sabe de nada – digo.
– Ah, trouxe uma coisa para você. Mas não é para ter um ataque, é só um lápis do British Museum.
Abro um sorriso, no entanto estou ficando até com enjoo por causa de amanhã. Depois que a vi de uniforme, me dei conta de que Estelle estuda na minha nova escola. E se eu estiver na turma dela? E se não estiver? O que é melhor: terror ou decepção?