Capítulo 10

Durante o café da manhã – cereal e quatro torradas com manteiga de amendoim e geleia –, tento avisar minha mãe de que talvez não seja uma boa ideia ficar tão amiga de Oliver, mas ela não está nem aí.

– Que bobagem. Ele é muito agradável.

– É assim que eles conseguem atrair as pessoas. Os melhores psicopatas são os mais razoáveis. Todo mundo sabe disso.

– Ele parece muito tranquilo: tem emprego, senso de humor e uma namorada também.

– Só acredito vendo.

– Ela mora em Londres.

– Em Londres ou no fundo do rio, alimentando os peixes? E como é que a gente sabe que ele não tem nada a ver com a morte de Adelaide?

– Dan, ela tinha 91 anos. Todo o dinheiro dela foi para a galeria. E Oliver nem estava aqui quando ela morreu. Ele estava em Nova York.

– Os mais espertos sempre têm álibis perfeitos.

Meu pai teria lidado melhor com isso. Não queria acabar falando de um assassinato misterioso. Só não quero que o cara vire o melhor amigo da minha mãe da noite para o dia.

– Só estou dizendo que a gente ainda não conhece direito esse cara.

– Adelaide praticamente cresceu com a avó dele e conhecia os pais dele; e agora ele faz parte da nossa vida, pelo menos enquanto estivermos aqui; então é sensato fazer um esforço para conhecê-lo melhor.

– Isso não quer dizer que você tenha de contar tudo para ele.

– Eu decido o que conto ou não para os outros. E você decide o que você quer contar para os outros.

Antigamente a gente não discutia o tempo todo, como agora.

O telefone toca. Minha mãe faz um gesto com a cabeça para que eu atenda. Mas agora ela teve essa ideia brilhante de que a gente tem de atender o telefone dizendo o nome do negócio dela, então faço que não com a cabeça, e dou mais uma mordida enorme na torrada, mastigando desafiadoramente. Ela cospe tudo o que estava mastigando na mão e atende o telefone com uma voz calma, disfarçando seu olhar assassino.

– “Eu Aceito” Bolos de Casamento. Pois não?

É engano. Ficamos ali olhando um para o outro.

A caminho da escola, fico pensando em por quanto tempo poderei me esquivar de atender o telefone. Decido que vou tentar evitar enquanto ela tiver esse negócio imbecil. E, como nossa sobrevivência depende do sucesso do negócio, pelo jeito nunca mais vou atender o telefone de novo. Ainda bem que ninguém liga para mim.

A primeira aula é de ciências. Eles – nós – estamos estudando biologia.

Estou olhando para o pratinho de vidro e tentando respirar fundo. Estamos examinando ovos crus. A professora, Srta. Peale, está superempolgada.

– Estão vendo essa substância esticada, que mais parece um cordão, entre a clara e a gema? Ela se chama calaza. – Ela escreve a palavra na lousa. – Cada ovo tem duas calazas: são elas que mantêm a gema no lugar. Alguns de vocês podem ter a sorte de ver umas manchas amarronzadas de proteína na gema; isso é matéria embrionária ainda não desenvolvida.

Estou sentindo aquela tontura familiar que rola antes de eu
desmaiar. Por favor, não deixe que isso aconteça na frente de Estelle. Por favor. Controle-se. Resista. Evite a humilhação pública. Respire.

A Srta. Peale continua.

– Toquem a clara com o dedo. Sintam a viscosidade lisa e albuminosa. E notem que a gema tem uma membrana externa mais resistente: é a membrana vitelina. Toquem. Sintam como o dedo não afunda por completo e como ela volta à posição original. Num ovo fecundado, essa gema suculenta alimentará o embrião em desenvolvimento.

Tento pensar em qualquer outra coisa a não ser nessa minipoça melequenta. Jayzo e os amigos dele ajudam. Eu me concentro no lado idiota deles, e a sensação de vertigem desaparece um pouco. Deixando de lado que o princípio mais importante ao fazer sexo quando ainda se é menor de idade é evitar a gravidez, eles estão se oferecendo para fertilizar os óvulos de Dannii e das meninas dos parênteses intercambiáveis. Até parece que sou um especialista, mas pelo menos sei o básico – em teoria.

Vejo Estelle olhando para eles e mal podendo acreditar. Tento cruzar o olhar com o dela para compartilhar um momento “eu não acredito”, mas o olhar dela passa longe do meu, como se eu não estivesse ali.

E então a Srta. Peale chama a minha atenção de novo.

– Aliás, a pele das ovelhas secreta uma substância oleosa muito parecida com a gema para manter a lã sempre macia.

Estou tentando me controlar quando vejo Deeks, um dos amigos de Jayzo, engolir um ovo cru inteiro, quase vomitar e depois sorrir com ar triunfante. Ele ganha uma nota de 10 dólares.

Desmaio.

O rosto preocupado da Srta. Peale é a primeira coisa que vejo ao abrir os olhos. Por um segundo assustador e muito estranho, eu não faço a menor ideia de onde estou. Parece que estou acordando num pesadelo. A Srta. Peale e uma menina chamada Lou estão me ajudando a sentar numa cadeira e a manter a cabeça abaixada.

Entre jogar ovo cru uns nos outros e me verem daquele jeito, essa provavelmente deve ter sido a melhor aula de ciências de todas para Jayzo e sua turma.

– Você é um idiota, Cereal – diz Jayzo.

– É Cereill – consigo responder.

– Cyril, na próxima vez que você sentir tontura, sente-se com a cabeça abaixada entre os joelhos ou vá lá para fora pegar um pouco de ar fresco, tá?

– Meu nome é Dan, não Cyril.

– Você já desmaiou antes, Dan?

– Já. Não é nada demais.

– Não é nada demais para Cereill ficar tendo piripaques como uma menininha – diz Jayzo, forçando a barra com a piadinha, mas fazendo seus amigos rolarem de rir mesmo assim.

– Você é mesmo uma criatura abominável, Jayzo. Mas talvez você não saiba o que essa palavra significa – diz Lou. Ela sorri para mim cheia de compaixão. Olho de relance para Jayzo para ver como ele lida com a resposta. Ele fica mudo.

– Não se preocupe – diz Lou para mim. – Ele não consegue contar nem soletrar.

Lou se separa um pouco de seus amigos-plasma para almoçar comigo. Ela me lembra Fred, e não só por causa dos óculos e das espinhas. Ela me passa a ficha de algumas pessoas sentadas perto da gente.

– É a primeira menina a ficar com alguém numa festa. Consegue as drogas com o irmão mais velho. Ficou com cinco meninas na véspera de Ano-Novo e todas ficaram doentes. Malvado, idiota e metido a atleta (Jayzo). Não são más, mas são intocáveis; ficam na delas (Estelle e suas amigas). Os pais são viciados em heroína. Toma medicação para TDA (Transtorno do Déficit de Atenção). Os pais são assessores políticos. É inteligente, mas se faz de boba. Não sai da coordenadoria da criança e do adolescente. Gente boa, mas não legal o bastante. Furou um moleque com um compasso no quinto ano. A irmã mais velha teve um caso com o professor de matemática, que foi demitido.

– E você? – pergunto a Lou.

– Inteligente, não malvada, não popular, problema de pele, vou emergir como uma borboleta do casulo um dia e fingir não reconhecer Jayzo e seus compadres imbecis enquanto eles carregam minhas compras de supermercado até meu carro esportivo europeu supereconômico. – Ela sorri. – Problemas: ainda sou lagarta, mas provavelmente vou conseguir dar um jeito nas espinhas.

– E eu?

– Ainda não sei… Não fala muito, desmaia, é novo…

– E já nada popular.

– Só porque Pittney abriu a boca sobre o seu histórico escolar e a sua escola particular. Razões mais que suficientes para você ser desprezado por eles. – Ela aponta com a cabeça para Jayzo. – Por que você mudou de escola?

– Expulso. Violência no intervalo. Uso excessivo de drogas.

Ela ri.

– Não, fala sério. Por quê?

– Estamos falidos – digo, e despedaçados também, penso.

– E esse lance de desmaiar por causa dos ovos?

– Às vezes, acontece com coisas gosmentas, cruas, ou nojentas. Acho que tenho um pouco de fobia. Começo a ficar com calor e com enjoo, e então… bom, você viu o que acontece.

– Eu não tenho nenhuma fobia, pessoalmente, mas minhas favoritas são a araquibutirofobia, que é…

– Medo de que a manteiga de amendoim grude para sempre no céu da boca.

– Muito bem. E gosto de triscaidecafobia também. Medo do número 13.

– A minha favorita é a luposlipafobia.

– O que é isso?

– Medo de ser perseguido por lobos cinzentos ao redor da mesa da cozinha, correndo de meia num chão recém-encerado.

Ela ri.

– Até parece.

– É, é uma charge do Far Side[2] – admito. – Mas mesmo assim é minha favorita.

Olhamos um para o outro com um alívio tímido. É o olhar que dois peixes fora d’água trocam ao se reconhecerem na natureza.