Capítulo 25

Geralmente, correr é uma boa maneira de se esquecer de tudo. Passar a toda a velocidade pelo mundo, empolgado, o barulho dos passos no chão e o borrão das imagens passando por mim – deixo minhas preocupações para trás como um lagarto trocando de pele. Quanto mais força, resistência e velocidade percebo que tenho, mais gosto de correr. Eu nem ligo para a dor. Forçar o meu limite, além da minha zona de conforto, faz me sentir mais forte. Não tem pensamento algum dentro de mim, só uma máquina. Geralmente. Mas hoje não. Hoje preciso lutar contra o quase beijo.

Eu sei, porque já vi as meninas falando disso, que esse é o tipo de “questão” que elas discutem por horas a fio. Durante a aula, em conferências urgentes na hora do almoço, e depois da aula, falando ao telefone, com certeza. O que cada olhar ou comentário minúsculo significa? A análise exaustiva do “por um lado, mas por outro lado” de 360 graus que não esquece nenhum detalhe pelo caminho.

Corri o caminho inteiro do Fitzroy até a pista que contorna o jardim botânico – estou de volta à cena do crime. Já está escuro, e o trânsito do horário de pico na cidade deixa o ar abafado. O Rio Yarra, que tem cor de lama durante o dia, está preto, brilhando à luz elétrica que vem dos prédios da cidade. Saio correndo, amassando a pista de areia comprimida no caminho, precisando como nunca de alguém para me ajudar a dissecar, especular, interpretar tudo isso. Com Fred não rola; ele simplesmente diria “pergunta para ela”. Lou diria a mesma coisa. A questão é: (a) você ia mesmo me beijar? E (b), se ia mesmo, o que isso quer dizer para você, para mim e para o cara que você convidou para o baile?

O rosto dela estava tão lindo quando a gente quase se beijou que quase não aguentei. Não sei como minhas retinas não queimaram. A expressão dela foi aberta, a sua mensagem, simples e completa: estou aqui e me mostro para você. O reino distante ficou perto o suficiente para ser alcançado, por meio segundo.

Ou talvez eu esteja viajando, e tudo não passou de uma miragem induzida pela umidade; 90% de desejo e 10% de condensação. E como vou saber quando a vir de novo? Fico cansado com esse lance de não baixar a guarda quando estamos juntos. Mesmo sem querer, estamos prontos para tirar sarro de tudo, servindo o dia com uma porção gigante de ironia, escárnio e cinismo. Até parece. Agora toma.

Quando chego em casa, quase sem ar, tirando meu cabelo molhado de suor dos olhos e secando o rosto na camiseta, Howard, meu outro problema urgente, está esperando por mim ao lado da porta da frente. Ele fica de pé com um pouco de dificuldade e balança o rabo. Eu o pego no colo e o levo para a cozinha. Ele é levinho.

– Que pena que você não pode mais correr comigo – falo para ele.

Talvez eu possa pedir para minha mãe uma parte do dinheiro que ela vai ganhar com o bolo para levar Howard ao veterinário.

Tem alguma coisa estranha acontecendo. Uma ausência do Radiohead. Minha mãe está ouvindo um blues meio antigo.

– Você gostou? – ela pergunta. – Ali me emprestou.

– Mudar faz bem.

Fico pensando num jeito diplomático para falar sobre dinheiro, mas não consigo dizer nada.

– O pai está mandando dinheiro para a gente?

Ela se senta e cai na risada. Começa como uma risadinha abafada, mas se transforma numa gargalhada de surpresa. Então acho que a resposta é “não”. Ela finalmente se acalma, respirando fundo.

– Você está precisando de alguma coisa em especial? É para o baile? Só posso sugerir a loja da instituição de caridade, querido.

– Não. Foi só curiosidade.

– Tenho certeza de que ele vai mandar alguma coisa quando puder. Mas ele não está trabalhando.

Então percebo que faz tempo que não evito falar ao telefone com ele.

– Cadê ele?

– Num tipo de spa em Byron Bay. Ficando mais centrado, ou com os pés no chão, ou alguma coisa assim.

– Por quanto tempo?

– Ele falou que vai ficar lá um mês.

Ela começa a rir de novo.

– Levando uma vida bem básica. Carregando água, cortando lenha, meditando. Dá para imaginar?

– E como é que ele está pagando por isso?

– Essa é a melhor parte dessa história. Ele fez um acordo: eles deixam seu pai ficar lá, e ele faz um planejamento do negócio deles.

Fico pensando se esse pessoal sabe que meu pai foi à falência. Por mais que eu tente, não consigo imaginar meu pai, sempre ligado na tomada, levando esse tipo de vida. Posso imaginá-lo chegando com tudo num jardim calminho com seu terno italiano e gravata de seda e atacando com uma piada nova. Mas meditando?

– Ele vai fazer o trabalho direitinho – ela diz.

Ela enxuga as lágrimas da gargalhada com as costas da mão.

– Tenho saudade dele, Dan. Isso é a cara dele. Ele vai acabar abrindo uma franquia desse negócio.

Ela me lança um olhar sério. Entrei de gaiato numa armadilha, sem a mínima noção.

– Ainda estou de mau humor por causa do negócio do seu pai, mas eu sabia que…

Ah não, ela vai falar de sexo.

– Ele era o meu melhor amigo e… quer dizer… acho que eu sabia… de umas coisas.

– Mãe, por favor. – Olha só essa situação e cale a boca.

– Nem sempre as coisas acontecem do jeito que a gente imagina…

Ela me olha como se estivesse tentando ler a minha mente, no entanto, minhas telas defletoras de pensamento estão sempre no lugar agora.

Será que ela não consegue dragar as profundezas lamacentas da sua própria adolescência e lembrar como é perturbador pensar nos próprios pais transando? E isso não tem nada a ver com a escolha dele. E então tenho uma ideia. Pais + sexo (heterossexual… gay… qualquer tipo) = zona proibida.

Crio um programa de autoajuda em nove passos sobre como eu lido com a sexualidade do meu pai:

• Ele é hétero, mas não quero saber mais que isso.

• A grande bomba da revelação gay.

• Choque.

• Incredulidade.

• Raiva.

• Vergonha.

• Ambivalência.

• Aceitação.

• Ele é gay, mas não quero saber mais que isso.

Em resumo, se eu nunca quis saber sobre isso antes, por que deveria me interessar agora?

Talvez eu possa escrever uma matéria sobre isso para uma revista e ganhar uma grana para a cirurgia do Howard.

Minha mãe está picando um pedaço de chocolate. Ela faz suas próprias gotas de chocolate. Elas diz que ficam “mais rústicas” que aquelas que a gente compra no mercado.

– Talvez eu devesse ter falado sobre isso com você, mas pedi para ele vir ficar com a gente por uma semana depois desse retiro no spa.

O quê?

– Não vou deixar vocês se afastarem desse jeito. E, com certeza, ele também não quer que isso aconteça.

– Foi ele quem saiu de casa.

– Ele vai ter de explicar por que as coisas aconteceram desse jeito. O que é outro bom motivo para ele vir passar um tempo aqui.

De repente, eu não tenho tanta certeza de que estou desenvolvendo um entendimento mais maduro da situação do meu pai, e bate aquela ansiedade. Não estou pronto para vê-lo. Isso envolveria ter de falar com ele. Para acabar com essa conversa, digo que tudo bem ele ter ido embora, que estou bem. Mas não consigo. Estou ricocheteando como uma bolinha de fliperama, da ambivalência à incredulidade e então à raiva, e quicando perto da vergonha de novo. Justo quando eu achava que as coisas estavam evoluindo. Até parece que eu sei alguma coisa.

Howard solta um chorinho de reclamação que se transforma num latido agudo. Ele está pensando na cirurgia.

– Acho que Howard quer jantar – minha mãe diz.

E em comida.

Faço um carinho em Howard como quem se desculpa e tento levar a discussão de volta para o assunto “dinheiro”.

– Então, que legal que a moça encomendou o bolo.

– E bem a tempo de a gente se safar das dívidas no banco.

– Então não vai sobrar nada.

– Nada. Só vai dar para pagar as contas. E por pouco. Se eu continuar fazendo umas encomendas para o Phrenology depois que Anne voltar, quem sabe a gente consegue sair do vermelho.

– Que ótimo.

– Quer saber? É ótimo mesmo. – Ela parece satisfeita de verdade.

Pittney nos encurrala dois dias depois para falar sobre o baile e dizer que estamos chegando ao final da “fase de planejamento”, e quer saber o que “finalizamos”.

Na verdade, tudo que finalizamos foi um plano arriscado para Estelle e Janie conseguirem ir ao baile – e que só dará certo se elas conseguirem que os pais deixem Janie dormir na casa de Estelle, mas eu duvido muito. Além disso, não tem nada decidido, a não ser o local da festa – o ginásio.

Quando estamos terminando de almoçar, eu cedo, e escalamos a Corpos Podres, a banda do 12º ano. As meninas dos parênteses intercambiáveis estão com frescura em relação aos comes e bebes, e então perguntamos se elas querem tomar conta disso – e elas respondem (aimeudeus) (tipo) (demais) (total) (urru). Assim, todo mundo fica feliz.

Nada de Radiohead de novo quando chego em casa. Salsa. Minha mãe está dançando pela cozinha enquanto prepara sei lá o quê. Pessoalmente, não curto ver pais dançando, não é natural. Mas posso ver que é um bom sinal. Tenho certeza de que tem a ver com ela saindo de casa e conhecendo outros seres humanos. Como Oliver disse, é bom para a saúde do cérebro.

– Eu aceitei ir com Ali à festa de 20 anos de formatura dele.

Faz 20 anos que o cara saiu da escola. Como será que é ser velho assim?

– Como você está sendo legal. – Vai entender.

– Mas, Dan, por causa do prazo do bolo de casamento da sobrinha da Sra. Da Silva…

– Hum? – Sinto que vem um favor por aí.

– Todas as camadas, e marinar as frutas… a última camada vai ter de ser assada na noite da festa.

– Não tem problema. Eu fico de olho.

– Você terá de ficar de olho mesmo, com atenção, ou tudo irá por água abaixo.

Tento não virar os olhos. É claro que entendo o que isso quer dizer. E eu já não passei pelo desenvolvimento dos produtos, os primeiros bolos, os testes mais avançados, a fase de aprimoramento, aperfeiçoamento, e até pelo espanto das clientes?

– Dan, preste atenção.

– Estou escutando. Eu consigo desligar o forno. Eu vou me lembrar. Quando é?

– Aí é que está o negócio. É na mesma noite do seu baile.

– Ah! Mas tudo bem.

– Mas já cronometrei tudo. Posso colocar o bolo no forno para ficar pronto à meia-noite. Então, contanto que você chegue em casa até a meia-noite, tudo dará certo.

– Sem problemas.

– Se der, também já estarei em casa a essa hora, mas depende do que acontecer.

– Eu entendo. – Mas, na verdade, não entendo não. É ela que está fazendo o grande favor para Ali, então não pode ir para casa quando for melhor para ela? Minha mãe me abraça. Howard abana o rabo, batendo-o com tudo no tapete. Geralmente ele pula e late quando rola um abraço. Minha mãe percebe.

– Está cansado, cachorrinho?

Bem que eu queria contar para ela o que está acontecendo com Howard, mas a última coisa de que ela precisa agora é de uma preocupação nova justo quando parece que o céu está se abrindo.

Faço um carinho na orelha de Howard enquanto minha mãe põe a comida na mesa. O jantar de hoje é um dos meus pratos favoritos: pilhas de legumes assados com molho pesto feito em casa. E tem torta de farofa com maçã de sobremesa.

Quando levo Howard lá para fora para fazer xixi antes de ir dormir, Oliver está chegando em casa – e não vem sozinho.

– E aí, cara? Essa é Em. Em, esse é Dan.

– Oi.

Em parece tão legal e antenada que fico até assustado. Ela se aproxima e pega um tufo do meu cabelo.

– Ahã! Sim, acho que a gente pode resolver essa situação.

Fico feliz ao perceber que Oliver deve ter falado com Em sobre mim.

– A casa ainda está de pé? Nenhum motim?

– Está tudo bem. Só uma amiga minha passou algumas horas ali antes de ir para Sydney.

– Tudo bem. Beleza, a gente se vê.

– Boa noite!

Eu me sento nos degraus no quintal esperando Howard escolher um local adequado para fazer xixi – é um ritual e tanto –, e então ouço a porta se abrindo na casa ao lado e Vivien dizendo um “não” muito decidido.

– Mas eu nem vou sair de casa – Estelle diz.

– Ih, pode economizar saliva. Janie não pode vir aqui, nem pensar. O castigo se aplica a todas as atividades sociais, aqui ou em qualquer outro lugar.

Se a raiva e o volume querem dizer alguma coisa, então elas estão discutindo já há algum tempo.

– A gente já vai perder o baile – Estelle tenta.

– Vocês terão outros bailes na escola.

– Mas e se eu morrer antes? Então eu nunca vou ter participado de um baile de verdade. Na minha vida inteira.

– Pode parar com o drama.

– Então eu vou ficar sozinha, sem ninguém para me confortar da perda trágica do único baile da minha vida. E você vai ficar feliz com isso.

– Perfeitamente. E seu pai estará aqui. Você não ficará sozinha.

– Então tá!

Ela bate a porta. Vivien dá um suspiro alto, que soa como se ela estivesse fumando.

– Filho ingrato é pior que mordida de serpente[4], ou alguma coisa assim – ela diz para a noite.

Não fico surpreso ao ouvir a porta do alçapão do sótão se abrir de leve pouco depois.

– Dim-dom! Você está ocupado?

Entro no armário.

– Não, pode descer.

Eu pensava que Estelle estaria nervosa, mas pelo jeito ela conhece sua mãe melhor que eu. Ela espera perder algumas batalhas, porém tudo faz parte da campanha para vencer a mãe pelo cansaço. Ela tem certeza de que a sua mãe e a de Janie cairão de exaustão até a noite do baile.

– Principalmente se eu tirar um A ou A+ em alguma coisa nos próximos dias, e encher a casa de Yo-Yo Ma.

– Rapper?

– Violoncelista.

Ela está linda, aninhada na minha cama ao lado de Howard, o cabelo molhado, usando pijama listrado. Ironicamente, ela seria a pessoa perfeita para falar sobre Estelle. Se eu tivesse coragem, falaria sobre o quase-beijo ou, melhor ainda, tentaria beijar a menina de novo, mas em vez disso começo a contar a ela tudo sobre o meu pai. A história inteira – a falência, a homossexualidade, Byron Bay. Ela escuta tudo, sem tirar aquele olhar sério do rosto.

Tudo bem que é pura falta de coragem, mas também um tipo de resposta: eu dizendo “estou aqui, e me mostro para você”.

– Interessante – diz ela. – É como se ele estivesse passando pela adolescência agora, em vez de ter feito essas coisas na época dele. Isso porque ele e sua mãe ficaram juntos ainda muito jovens, antes de ele saber quem acabaria sendo de verdade.

– É, acho que sim.

– Ele deve ter amado muito a sua mãe para ter se casado e então ter você, apesar de, lá no fundo, saber que talvez aquilo não fosse a coisa mais certa para ele.

– Por que será que ele demorou tanto?

Ela balança a cabeça.

– Imagina como seria difícil. Anos antes, você aterrissa no planeta homem-casado-com-filho. E então você tem de virar para o mundo todo e dizer, olha só, gente, na verdade, fiz uma curva errada no caminho, eu não queria ter vindo parar aqui, eu deveria ter ido para lá.

– Mas ele devia saber havia mais tempo.

– Talvez, mas vocês já eram uma família. E, pelo jeito, uma família feliz.

– Verdade.

É um alívio lembrar que isso ainda é verdade.

– Os anos foram passando, e ele provavelmente não queria magoar vocês. E então, quando tudo explodiu, talvez ele tenha pensado “pula, é agora ou nunca”. – Ela sabe tudo. Será que todas as meninas são psicólogas por natureza? Tudo o que ela diz deixa meu fardo mais leve.

Quando lhe conto sobre o presente de aniversário que ainda não abri, ela tem uma teoria até para isso. No começo, não abri porque estava com raiva. Foi simplesmente para não dar o gostinho a ele, para rejeitá-lo. Mas, quanto mais tempo deixo aquele presente embrulhado, mais ele simboliza. Então, embrulhada ali, com o que quer que exista lá dentro, está também a esperança de que magicamente – e muito improvável e impossivelmente – meu pai possa me dar algo que faça tudo voltar ao normal. Enquanto o presente estiver fechado, a esperança estará viva.

Não estou de brincadeira; ela poderia ganhar dinheiro com isso.