Capítulo 29

De zero a um zilhão, e então de volta a zero no espaço de tempo de um baile de escola. A situação não poderia ficar pior. Bom, era o que eu achava. Mas estava errado de novo. Como um pedaço de pizza com Lou e Fred, danço um pouco e tento não olhar para Estelle, que está, obviamente, me evitando. Então são onze horas, e tenho mais 40 minutos pela frente, e então terei de encontrar as meninas e levá-las para casa. Se é que elas virão comigo. É aí que Estelle volta ao meu campo de visão. Ela está dançando com um pedaço de pizza. Janie tenta se desculpar:

– Ela nunca bebe, não sei o que deu nela. A bebida subiu muito rápido.

– Quanto ela bebeu?

– Dois drinques de limão.

– São seis doses.

– A gente tentou pegar os refrigerantes sem vodca, mas estava tudo misturado.

– Mas você não está bêbada.

– Eu não bebi nada. Medo demais para arriscar. E ela também não ia beber nada, mas parece que alguém virou a chavinha de “imbecil” da minha amiga.

Fui eu.

Estelle se aproxima, conversando com a fatia de pizza.

– Idiota – digo, sentindo só carinho e culpa.

– Idiota é vocêêê. E vocêêê não é um cara legal – ela diz.

– Como a gente vai levar você para casa desse jeito? E se a sua mãe voltou mais cedo para casa e você tiver de subir pela árvore? Você já pensou nisso?

– Penseeeeeeei, penseeeeei. Para de se preocupaaaaaar!

– Mas quem é que vai se preocupar se não for eu? – É a história da minha vida.

Então, enquanto ela me pergunta qual é o problema e o que é que eu tenho a ver com isso, ou quem sou para dizer às pessoas o que elas devem fazer, ela cai para a frente.

– Você quer tomar um ar?

– Por quê?

– Porque você está bêbada.

– Tô… não! – diz ela. – Você é um mentiroooso e um espiããão, e eu odeio você.

– Vem – tento.

Ela me dá um empurrão no peito. Jayzo vê o que está acontecendo. É o convite que ele estava esperando. Ele vem até mim e me empurra também.

– Sai de perto dela – diz ele.

– Eu só estou tentando ajudar – digo.

– Não preciso de ninguém tomando conta de mim – protesta Estelle.

Alguém fala para irmos brigar lá fora. Eu não curto briga, mas esse lance com Jayzo foi se acumulando o ano inteiro, e não vou saltar fora. Primeiro vejo se Janie e Phyllis estão cuidando direito de Estelle e vou lá para fora, ouvindo Estelle dizer:

– Acaba com ele!

Não sei com qual de nós dois ela está falando, mas acho que é com Jayzo. E eu mereço mesmo.

Os seguranças do 12º ano seguram o pessoal que vem atrás da gente. E é isso, só nós dois, mano a mano, finalmente.

Por um segundo, espero que o ar frio da noite ajude Jayzo a ficar mais sóbrio, mas até parece. Quando me viro para falar com ele, ele vem com um soco na direção da minha cabeça. Eu me esquivo e o empurro para um banco.

– A gente não tem que brigar – digo.

Ele não concorda. Ele me dá uma cabeçada ao se levantar. Consigo evitar o impacto total, mas ele continua com um empurrão forte no meu peito, que arranca um “uuufff!” de mim, tipo naquelas brigas de histórias em quadrinhos, enquanto caio no chão com tudo.

Ele tenta me chutar no chão, mas só me pega de lado enquanto consigo sair rolando e seguro as pernas dele. Ele cai em cima de mim, e começa a dar soco para tudo que é lado bem de perto, enquanto dou um jeito de sair de debaixo dele. Ele dá um soco com tudo na boca do meu estômago. Eu contraio o músculo tarde demais para evitar uma onda de náusea. Sei que tenho de ficar de pé ou ele levantará e começará a chutar a minha cabeça em alguns segundos. Eu me levanto, quase vomitando, enquanto Jayzo esfrega o pulso.

Fico ali respirando fundo, com a energia da onda de uma mistura de empolgação e medo. Jayzo se levanta devagar, sem tirar os olhos de mim nem por um segundo.

– A gente já pode parar agora? Não quero brigar – digo com muito custo. Sair dessa antes que ele me mate me parece uma alternativa justa.

Ele responde vindo com toda a força para cima de mim, jogando todo o peso do corpo, e vamos para o chão de novo. Meu ombro sofre com o impacto, e uma dor aguda toma conta de mim enquanto me reposiciono para dar o soco mais poderoso que conseguir. Por milagre, o soco aterrissa bem no lugar certo: a mandíbula dele, com um barulho terrível de pele, ossos, vasos sanguíneos e tendões se quebrando rápido demais, e sob pressão demais. Se o rosto dele estiver doendo tanto quanto a minha mão, quase fico com pena do cara. Mas não por muito tempo.

Agora ele está com ódio. E eu estou morrendo de medo. Não sei brigar e sei que não precisaria acontecer muita coisa para eu acabar com um dano cerebral ou o pescoço quebrado.

Nós dois estamos penando para ficar de pé e ficamos cercando um ao outro. Tento me lembrar de qualquer coisa que meu pai tenha me contado na vida sobre brigas. Evite a qualquer custo. Tente conversar primeiro. Mas, se precisar brigar, então você soca assim…

Jayzo é um cara gigante, bem mais pesado que eu. Eu sou um corredor. A minha vantagem é que sou mais rápido e estou sóbrio. Estou cada vez mais convencido de que eu já estaria morto se ele não estivesse bêbado.

– Para que isso? – pergunto, desesperado para ganhar tempo. – Por que a gente está brigando?

– Porque você pediu, idiota – ele responde.

À medida que o diâmetro do nosso círculo aumenta, estou a mil, pronto para atacar, morrendo de vontade de atacar. Eu me posiciono em frente ao banco. Quando Jayzo parte para cima de mim de novo, pulo para o lado, e ele bate o joelho com tudo no banco. Agora ele está rugindo de fúria. Ele vem atrás de mim, tentando me socar na cabeça. Saio do caminho dele e consigo dar um soco bom na barriga dele. Mas isso não o faz parar nem por um segundo. O próximo soco dele me pega direto no lado esquerdo do rosto, que parece se abrir em dois. Ele comete o erro de fazer uma pausa para admirar seu trabalho, baixa a guarda por um momento, e então aproveito. Lanço o peso do meu corpo, e o meu ombro dolorido, e todas as repetições que fiz com os halteres naquele soco. Ele aterrissa com um barulho de osso se quebrando bem no nariz, que começa a verter sangue.

Ele senta no chão, resmungando. Estamos os dois sem ar e cobertos de suor.

– Você está bem? – pergunto.

Um som escapa por entre os lábios cobertos de sangue dele. Não pode ser, pode? É uma risadinha?

– Seu banana; você não pode perguntar para o cara em quem está dando porrada se ele está bem – diz ele. – Você não sabe nada mesmo, né?

– Não. Na verdade, não – respondo.

Tiro a camisa e a passo para ele. Ele faz uma bola com ela e a coloca sob o nariz.

– Eu poderia até continuar, mas estou sangrando muito – afirma ele.

– Tudo bem – respondo. Estou vivo, e isso parece um milagre.

– Você teve sorte de me dar aquele soco, seu loser nerd – diz ele. – Você não sabe nada de briga.

– Eu sei.

Ficamos sentados ali, sangrando e doloridos, e recuperamos o fôlego e conversamos enquanto a música bomba lá dentro e começa a chover de novo.

– Qual é o seu problema comigo? – falo de uma vez.

– Você é tão inteligente! Deve saber.

– Você não gosta do fato de eu ser inteligente?

– Você nem escuta nada. Na aula. Mas entende tudo. Acho até que melhor que Pittney. Eu só fico olhando até meu cérebro explodir.

– Você está falando da aula de matemática?

Ele resmunga um barulho afirmativo.

– Mas eu não sabia que você gostava de matemática.

– E não gosto, idiota, mas preciso. Carpintaria. Aprendizagem.

Conversamos enquanto a chuva cai sobre nós, levando embora o suor e o sangue. Ao final da conversa, não sei se ele prefere manteiga de amendoim ou Vegemite[5] com torrada, quantos irmãos ele tem ou o nome do cachorro dele. Afinal, não somos amigos, e não fico totalmente à vontade com a ideia de Jayzo lidando com ferramentas afiadas, mas é um cessar-fogo, e me ouço dizendo que posso ajudá-lo com as aulas de matemática. Se ele passar tanto tempo estudando quanto passa intimidando alunos e aterrorizando professores, já será um bom começo.

Eu me levanto. Dói. O corpo todo.

– Sinto muito pelo seu nariz – digo, vestindo meu paletó encharcado.

– Acontece – diz ele, dando um tapinha amigável no lugar onde seu soco acertou meu rosto.

Eu dou uma estremecida.

– Banana – diz ele, sorrindo para mim pela primeira vez. – Vê se amarra o seu cadarço.

De volta lá dentro, o pessoal já comeu pizza, bebeu água, dançou e, por incrível que pareça, tudo parece mais ou menos como um baile de escola bem organizado deveria ser. A galera está se divertindo. De verdade. Estelle me evita quando eu entro, mas fico aliviado ao ver que ela está bem o bastante para ficar de pé e dançar. Janie me dá uma virada de olhos como quem diz “coitadinho”, enquanto acho que Estelle ainda não me renegou publicamente. Mas haverá tempo de sobra para isso amanhã.

O som está incrível. Todo mundo está dançando. É impossível não dançar, e tudo graças a Em. Então eu danço um pouco, dolorido, cansado, molhado da chuva e sem camisa. Eu me deixo dissolver naquele mar de gente suando e gritando, pulando com a batida da música. E consigo o que queria: passar despercebido por um momento.

Em muda a batida e toca uma versão lenta de uma música que eu não conheço, mas que tem o efeito de formar casais e fazer o resto do pessoal se abraçar e dançar juntinho em pequenos grupos. Em olha nos meus olhos e faz um gesto com as mãos como quem diz “cadê ela?”. Eu dou de ombros, e ela faz um gesto de quem está chorando, cheia de compaixão. Sim, é basicamente isso.

Depois do que deve ser o relacionamento mais rápido da história dos recordes, tenho de encarar a dura realidade: pisei na bola com Estelle. Eu a traí. E ela sabe. Acabou. E agora, apesar de ela com certeza se opor fortemente, terei de levá-la para casa.