POSFÁCIO
Menocchio é um herói, ou mártir da palavra. No final do século
XVI
esse moleiro dos domínios de Veneza, no norte da Itália, lê; lê muito, para um homem relativamente simples; mas, sobretudo, pensa. Sua reflexão é bastante pessoal: embora deva algo aos estímulos que recebe (livros, opiniões de itinerantes), o mais importante é o que ele próprio concebe e imagina — uma experiência de pensamento que ninguém compartilha na sua aldeia de Montereale, nem os cultos (o conde, o padre), nem os camponeses, nem, sequer, a sua própria família. Muitos pensadores conhecidos sofreram por suas ideias; mas talvez Menocchio tenha sofrido mais: não só a repressão oficial; porém, antes dela, já a solidão. Não ter com quem dividir a dúvida: “Falaria tanto que iria surpreender... Se me fosse permitida a graça de falar diante do papa, de um rei ou príncipe que me ouvisse, diria muitas coisas e, se depois me matassem, não me incomodaria”. Um homem passou a vida construindo uma cosmologia, na qual entram queijo e vermes, pigmeus e muçulmanos; reparti-la é uma necessidade quase física, de sua mente, de sua boca — mas é também um modo de igualar-se aos poderosos. Poderão matá-lo depois, porém ele terá, falando, a sua glória. Essa paixão de pensar, essa paixão de falar é rara e preciosa; quem sabe não nos ensinará a prezar mais o que é refletir, o que é dizer.
A solidão de Menocchio é um dos pontos de partida de Carlo Ginzburg. Afirma já de início que o seu moleiro é personagem singular, não representativo. Com isso descarta uma possível abordagem, a que consistiria em contextualizar, em integrar o singular (fazendo-o, pois, perder a singularidade) num conjunto mais amplo. Não; o pensamento de Menocchio apresenta uma série de elementos irredutíveis a qualquer influência. Haverá pontos de convergência entre ele e os humanistas refinados,
especialmente os de Pádua, e os protestantes, em particular os anabatistas (termo que na época tinha peso análogo ao de comunista na Guerra Fria, e com uma certa razão: porque os mártires de Münster também queriam pôr os bens em comum), e os lavradores, e os demais moleiros. Nada disso, porém, é mais que ocasião, ensejo, oportunidade. O importante não é o que Menocchio leu ou recebeu — é como leu, é o que fez de suas experiências; o que diminui a distância que se costuma propor entre leitura e escrita, entre uma postura passiva e outra ativa diante do conhecimento.
A recusa a enquadrar Menocchio num contexto já delineado significa que Ginzburg respeita a diferença e originalidade desse pensador mais ou menos popular (mais ou menos, porque o moleiro não se integra bem na sociedade camponesa: sua profissão seria, talvez, de classe média). Mas esse respeito à diferença é, em
O queijo e os vermes
, simples procedimento metodológico, não é afirmação de uma diferença irredutível e que por isso mesmo (é essa a crítica de Ginzburg ao Foucault autor de
Pierre Rivière
) culminaria numa decisão de nada dizer.
a
Por isso um dos recursos principais de Ginzburg será o de comparar, cotejar. O que Menocchio afirma recorda teses da Reforma? Confrontemos, notemos as diferenças. E, nestas, vejamos sim o que é irredutível a uma influência. Menocchio leu, quem sabe, o Alcorão? Mas o importante não é tê-lo lido, é como o leu — é decifrar essa sua estranha maneira de adulterar e alterar o que lê, de recriar. Técnica, esta de Ginzburg, em suma razoavelmente simples — poderíamos até dizer que não passa da aplicação da honestidade à leitura — e no entanto extraordinariamente eficaz, valiosa como poucas. É a mesma de Panofsky, por exemplo, num de seus mais belos ensaios, “Et in Arcadia ego”,
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no qual constrói uma análise esclarecedora da mentalidade artística nos séculos
XVII
e
XVIII
partindo da leitura errada (e que, nos quadros mentais analisados por ele,
não podia ser certa
) de uma expressão latina. A comparação, que salienta o que é divergência e mesmo erro, assim permite entender o erro como ruído; e o ruído, sabemos ouvindo a música mais recente, pode ser também música. O que Menocchio compreende mal é, na verdade, o que ele compreende de outro modo.
Assim vai Ginzburg triando o que é comum, o que é invenção de Menocchio. Em parte a invenção permite, ainda, apontar para um fundo de cultura camponesa que se manteve pagão. Os pagãos continuam, na Europa da Renascença, a ter crenças antigas e pouco cristãs; o mesmo que Ginzburg nos conta da Itália setentrional, no século
XVI
sabemos da Inglaterra do norte e do País de Gales, no
XVII
; são os revolucionários de 1640 que tentam evangelizar os “recantos mais obscuros do país”, conforme observa Christopher Hill.
c
E com isso o que temos? Alguns anos atrás, num livro que serve de referência tanto a Ginzburg como a Hill, Keith Thomas mostrou como os progressos da religião após a Reforma Protestante estão articulados com o declínio da magia.
d
Esta, a partir do século
XVI
, vai se perdendo. É também por isso que a caça às feiticeiras (como mostrou outro historiador inglês, Hugh Trevor-Roper
e
) é fenômeno mais moderno do que se pensa. A Idade Média persegue-as menos do que os séculos
XVI
e
XVII
. Persegui-las talvez não resulte tanto da intolerância que alguns associam às “trevas”, e sim da intolerância de uma religião que se leva mais a sério. Se assim for, entenderemos por que os evangelizadores protestantes foram tão implacáveis. Na Inquisição católica, na evangelização protestante, está presente o intuito de eliminar o
Outro
(lembremos que em português esse é um dos termos para designar... o diabo), para isso sendo necessário devassar os seus caminhos. Nós vivemos num tempo em que a tolerância
religiosa
já se implantou tanto que parece absurdo haver perseguição a hereges; creio que se poderia traçar um paralelo entre a hostilidade dos religiosos de choque aos hereges, no começo da modernidade, e as práticas, atuais, de controle hospitalar das infecções. Tal como é preferível esterilizar um ambiente hospitalar demais do que de menos, também aparecia como preferível combater o diabólico em excesso, e não em falta. Por isso não teria sentido a doutrina jurídica moderna, que presume a inocência do réu até se provar a culpa; como não teria no controle da infecção hospitalar. Já o percebemos quando a Inquisição prende os suspeitos de heresia cátara: “Queimemo-los todos, Deus reconhecerá quem é seu”. No
Manual dos inquisidores
, de Nicolau Emérico e Francisco Peña, isso está explícito — na preocupação em punir os hereges e
sobretudo os piores dentre estes, que são os que melhor se disfarçam de inocentes, e ainda no que os dois inquisidores dizem do louco que blasfema: “Não podemos entregar um louco à morte, mas tampouco podemos deixá-lo impune”. E junto com esse temor ao diabo, que rege a mente inquisitorial, temos uma prática que mal deixa saída a quem nela é apanhado: os interrogatórios, como os que Menocchio sofre. Como escapar deles? Como um “simples” (é verdade que ele é um tanto mais culto) poderá discutir se Cristo é ou não da mesma natureza que Deus Pai? Nessa questão se fundamenta boa parte da teologia e do poder cristão, mas dela o que entende a esmagadora maioria dos fiéis? O interrogatório é a pior das armadilhas. Tanto que a Inquisição deve o nome, justamente, ao seu procedimento de inquirição.
Mas, nessa armadilha, Menocchio quer se meter. Pelo menos quando é preso pela primeira vez. Que vontade tinha de falar esse homem. “Se me fosse permitida a graça de falar diante do papa [...] se depois me matassem, não me incomodaria.” Como devia ser triste, para ele, só ter para conversar alguns campônios desinformados e, pior, de pouca curiosidade. Porque em Menocchio importa menos o conhecimento que acaso tivesse, e mais a sede de conhecimento, a curiosidade — essa paixão que a Igreja e os poderes reprimiam, e que os renascentistas valorizavam. Tudo Menocchio tenta entender, questionar. A Reforma e a Renascença podem tê-lo atingido de forma somente indireta, à distância, mas vemos Menocchio agindo com base numa inspiração que retoma o que de melhor havia nas duas: o espírito de curiosidade na Renascença (recordemos Pico della Mirandola, que sabia todas as coisas “e outras mais”), e na Reforma o critério de livre exame, pelo indivíduo, das coisas da fé. Menocchio apaixona-se pelas viagens, pelo que é mais distante do seu mundo; e assim chega a uma fascinante tolerância (toda religião é boa), a uma visão do mundo nova e, pelo que ela implica, revolucionária: com base nela por que haverá clero, Igreja, dominação espiritual? Mas o que ele mais deseja é falar. Sem ter a quem falar, o único modo de expressar tudo o que sente e pensa será cair nas malhas da Inquisição. A experiência é dura; os anos de cadeia o alquebram; ainda assim, solto, não consegue manter a promessa
de calar suas indagações. Fala, menos, mas fala, mesmo sabendo que poderá voltar à Inquisição, e sofrer destino pior. Falar é mais forte. Podemos imaginar Menocchio: antes de sua primeira prisão, triste, solitário na sua fala que ninguém compartilha em sua aldeia, querendo interlocução, querendo um público; depois dela, desiludido já da experiência de falar “diante do papa, de um rei ou príncipe”, e entristecendo-se mais à medida que perde os que realmente lhe querem bem, a mulher, o filho mais velho, e sente apertar-se o cerco, apertar-se o coração: filhos que não o amam, fronteiras que não pode atravessar, a marca infamante da Inquisição que lhe atrapalha a vida e que não pode dissimular. Suas palavras são um protesto, são a recusa desse horror. Sua curiosidade, opiniões e destino fazem dele um desses homens para quem dizer o que pensam é tão importante que, por isso, arriscam a própria vida. Nem toda confissão é uma vitória da tortura; porque às vezes a pior tortura é ter a voz silenciada.
Renato Janine Ribeiro
a
O que, por sinal, não vale para a maior parte das obras de Foucault. Devemos, talvez, distinguir o autor de
Pierre Rivière
, que pela mesma época se empenhava em difundir (sem nenhum comentário que significasse a apropriação intelectual do discurso popular) protestos de presos comuns e de loucos, e o autor de outras obras, nas quais o respeito à diferença não o dispensou de investigar que lógicas sustentam discursos e práticas dos mais variados. É claro que esse tipo de leitura tem o risco de quem a faz pretender saber mais do que os práticos ou discursadores que ele está analisando. Desse risco vem, certamente, a cautela e
Pierre Rivière
re. Mas não haverá, aí, uma certa confusão? O conhecimento de cada época, ou mesmo cada conhecimento, pode ser irredutível a outro. Hoje lemos diferentemente de outros tempos; sob certos aspectos, melhor, até. Em compensação, há muitos ângulos que perdemos. O nosso conhecimento do passado, ou do outro, pode melhorar e piorar, à medida que ganha e perde perspectivas; e ganha-as e perde-as ao mesmo tempo.
b
Erwin Panofsky
, O significado nas artes visuais
, São Paulo, Perspectiva, 1976, cap. 7.
c
O mundo de ponta-cabeça
, São Paulo, Companhia das Letras, 1987, cap. 5.
d
Religião e declínio da m
agia, São Paulo, Companhia das Letras, 1991.
e
“A obsessão das bruxas na Europa dos séculos
XVI
e
XVII
”,
in Religião, Reforma e transformação
, Lisboa, Presença, s.d.