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A aula a que Scott e eu assistimos juntos é chamada de Fora da Caixa. Parece ser divertida. Uma aula realmente divertida seria uma experiência inteiramente nova para mim. Aparentemente, a aula é uma combinação entre lógica, pensamento criativo e alguma coisa que o Sr. Peterson chama de “limpeza do cérebro”. Alguém perguntou o que era “limpeza do cérebro” e o Sr. Peterson respondeu algo como: “Quando acontecer, você saberá”. Ele parece bem legal para um professor de 50 e poucos anos. Ele tem um jeito relaxado, como se tivesse sido um beatnik[3] no passado.

Não havia nada parecido com isso na minha escola antiga. Eu nem sabia que era permitido ter aulas assim. Se existissem mais aulas interessantes, talvez o sistema escolar não fosse uma decepção tão profunda.

Mas é só uma aula.

A qual faz parte da escola.

O que é ruim.

O único motivo para não me incomodar de sentar na primeira fileira é porque assim fico perto de Scott Abrams. Normalmente, evito a primeira fileira. Sentar na frente torna você um alvo: os professores o chamam mais e é mais difícil evitar contato visual com eles quando se está exposto desse jeito. E eles supõem que você esteja interessado em participar, já que você decidiu se sentar ali, o que, no meu caso, não estaria muito longe da verdade.

Sentar perto de Scott significa conseguir ver como ele escreve. Ele pressiona a caneta com força, riscando rapidamente pequenas letras. Quando vira a página do caderno, dá para ver as marcas das palavras da página anterior. Está sempre mexendo com a caneta: ele a gira e, rapidamente, a vira em sua mão. Se eu tentasse fazer isso, minha caneta provavelmente voaria para o outro lado da sala e espetaria o olho de alguém. Scott senta com um dos pés apoiados no degrau da cadeira porque é um pouco alto para a carteira. Ele tem um jeito de folhear o livro como se estivesse tentando arrancar as páginas ou algo parecido: vira-as bruscamente, de propósito. Eu nunca tinha sentado perto o suficiente para reparar nisso antes. O mais perto do Scott que já estive foi no ano passado, quando sentei duas filas atrás dele na aula de inglês.

Isso é muito melhor.

Quando o sinal toca, todos se movem rapidamente. É nossa última aula do dia. Seria fácil conversar com Scott agora, mas, quem sabe, ele não fala comigo primeiro? Guardo minhas coisas com calma. Não tinha notado o quanto este lápis pode ser fascinante.

— Ei! — diz Scott.

— Ei!

— Você consegue acreditar numa aula assim?

— Eu sei...

— Seria praticamente ilegal ter uma aula parecida como essa lá em Jersey.

— É verdade! — Eu me mudei para cá por sua causa. Nós pertencemos um ao outro.

— Então — continua ele —, te vejo na segunda-feira?

— Se não antes.

— Certo, no bairro. Isso me lembra... você vai ao River Flicks?

— O que é isso?

— Você não sabe nada sobre o River Flicks?

— Acabei de chegar aqui, lembra?

— Desculpe. — Scott dá um sorriso rápido, que faz que, do outro lado da sala, as garotas olhem para ele. — Eu tive o verão inteiro para investigar. É aquela coisa lá no Hudson River Park...

— Fui lá ontem à noite.

— Ah, legal! Eles passam filmes ao ar livre o verão todo e hoje à noite é o último.

— Qual é?

— Excelente pergunta... Esqueci, mas é dos bons. Eu vou.

— É mesmo?

— Você deveria ir para conferir.

— Talvez eu vá.

O que significa isso exatamente? Você deveria ir para conferir. Será que está dizendo que eu deveria ir só porque vou gostar? Ou será que foi um jeito discreto de me convidar para sair?

A tela do cinema é enorme. Ainda bem longe, na rua, já é possível ver o filme começando. Eu não queria chegar cedo aqui. Não queria parecer tão desesperada quanto estou.

Foi um erro.

O píer 54 está lotado. Em frente à tela, tem uma área com cadeiras dobráveis e, atrás delas, um espaço para sentar na grama. Todas as cadeiras estão ocupadas. A grama está abarrotada de pessoas. Eu não conseguiria passar de jeito nenhum. Continuo procurando um local vago longe da multidão.

Não vejo Scott em lugar nenhum. Ele já deveria estar aqui. Talvez esteja me esperando, quem sabe guardando um lugar para mim.

Este seria o lugar perfeito para contar a ele. Um filme ao ar livre. O luar sobre o rio. A luz das ruas de nossa cidade natal brilhando suavemente ao longe no horizonte.

Passo cuidadosamente por cima de uma perna, segurando firme no corrimão, ao longo da beira do píer. Vou chegando mais perto da tela, tentando não atrapalhar a visão de ninguém.

Então o vejo. Eu conhecia muito bem a parte de trás da cabeça de Scott, depois de haver passado tanto tempo olhando para ela na aula de inglês, no ano passado, por isso o reconheço prontamente. Ele está sentado na quarta fileira. Seria impossível sair daqui, no píer, e chegar lá, mas do outro lado tem um pouco mais de espaço.

Abaixada, corto caminho atrás da área das cadeiras. Agora posso ver que Scott não reservou um lugar para mim. Talvez tenha tentado, mas, assim que o filme começa, fica difícil guardar o lugar se a pessoa que você espera ainda não chegou. Espero que ele não pense que não vim.

Algumas cadeiras dobráveis estão apoiadas umas nas outras, em um carrinho. Não sei se é permitido pegar uma. Eu deveria ir em frente. Se eu levasse uma cadeira até a fileira do Scott, ele poderia trocar de lugar com a pessoa da ponta. Nós ainda poderíamos sentar juntos.

Puxo uma cadeira do carrinho. Antes de perceber o que está acontecendo, todas as outras cadeiras caem e fazem aquele barulho enorme de cadeiras de metal batendo no concreto.

Todos olham para trás.

Todos olham para mim.

Inclusive Scott.

E a garota que está sentada perto dele. Que está tocando seu ombro.

Ele está com ela. Eles estão juntos.

Ele está aqui com outra garota.

Isso vai diretamente para o arquivo “É Claro”, porque “é claro que Scott Abrams está aqui com outra garota. É claro que ele não me convidava para sair”.

Eu poderia ser mais marginalizada?

Depois de me encaminhar para trás da multidão novamente, começo a correr. A três quadras de distância, percebo que ainda carrego a cadeira.

— Uuuhhh! — é tudo que consigo dizer quando April atende.

— Brooke?

— Oi.

— Você está com uma voz estranha.

— É, geralmente fico com a voz estranha depois de ser humilhada na frente do mundo inteiro.

— O que aconteceu?

Eu conto a ela.

— Você tem certeza que Scott estava com ela? — pergunta April.

— Tenho. Ela estava com a mão no ombro dele.

— Isso podia ser...

— Ele estava com ela.

— Droga!

— Achei que ele queria sair comigo!

— Quem é ela?

— Como poderia saber? Acabei de chegar aqui.

— Você a viu na escola?

— Não.

— Talvez ela não esteja na sua escola.

— Talvez seja a namorada do Scott.

— Pode ser apenas uma amiga.

— Acho que não.

— Como você sabe?

— Dava para ver.

Não era tão forte quanto “O Saber”, mas, quando os vi juntos, imediatamente tive uma sensação desagradável em meu estômago, como se eles estivessem saindo juntos durante todo o verão e eu fosse uma completa idiota de pensar que, algum dia, teria uma chance com ele.

— Eu não poderia ter feito um papel mais ridículo. Scott viu tudo. Ah, e roubei uma cadeira!

— O quê?

— Nada. Não acredito que eu esperava que isso pudesse dar certo!

— Você nem sabe o que ele está pensando. Provavelmente está achando engraçado.

— Você acha que é engraçado?

— Hum... talvez um pouco engraçado...

— Isso não é engraçado!

— Eu sei — diz April.

Gostaria tanto que April estivesse aqui. Não estou acostumada a ficar sozinha à noite e estou me sentindo solitária. Papai precisou trabalhar até mais tarde. Hoje de manhã encontrei dinheiro e um bilhete, no balcão da cozinha, dizendo que eu deveria ligar e pedir o que quisesse para jantar. Papai já tinha saído quando acordei. Ele disse que, provavelmente, teria de trabalhar até mais tarde por mais algumas noites, mas era apenas uma “loucura temporária”. Algum cliente importante precisa de sua atenção ou algo do gênero. Mas como ele podia trabalhar até mais tarde e nem mesmo vir para casa jantar se acabei de chegar aqui?

Não deveria ter vindo morar com ele. Foi um erro enorme. Estou totalmente sozinha. Não sei onde é nada. Sou uma estranha na escola. Não conheço ninguém (Scott não conta, ele nem me reconheceu no começo). Obviamente penso muito mais nele do que ele em mim. E não acho que isso vá mudar logo. Afinal, como convencer um garoto de que vocês pertencem um ao outro se ele está saindo com outra pessoa?