Um pequeno pedaço de papel cor-de-rosa vem parar na minha carteira pouco antes de a aula de cálculo começar. Está dobrado uma vez, com uma carinha sorridente em tinta cintilante roxa.
Não estou surpresa que tenha vindo de Sadie.
— O que é isso? — pergunto para ela. Algo me diz que não é apenas um bilhete normal.
— Abra e veja! — responde Sadie, toda animada.
Então abro. Com uma letra original e arredondada, está escrito:
Brooke,
Precisamos de seu grande cérebro! Por favor, reconsidere!
Abraços e beijos,
Sadie
— É um warm fuzzy[4] — me informa Sadie.
— Um o quê?
— Nunca ouviu falar de warm fuzzies?
— Não, mas tenho certeza de que você vai me esclarecer.
— O objetivo de um warm fuzzy é espalhar amor. Se alguém precisar de incentivo ou se você apenas quiser desejar um dia feliz para alguém, um warm fuzzy é perfeito. Warm fuzzies têm regras: devem ser bonitinhos e não podem ser escritos com caneta comum, tampouco em um pedaço de papel normal.
Warm fuzzies parecem meio pretensiosos, com suas regras e aspirações.
— E eles são considerados atos aleatórios de gentileza — continua ela.
— Atos aleatórios de gentileza?
— É. Você sabe, fazer coisas para outras pessoas com o objetivo de ajudá-las, porque você deseja que a vida delas fique melhor.
Isso soa altamente suspeito para mim. Não acredito que as pessoas façam qualquer coisa por razões puramente altruístas. Os atos das pessoas são motivados pelos próprios desejos. Cada uma que me desapontou é prova de que não se pode confiar em ninguém.
Dobro novamente o warm fuzzy.
— Você pelo menos vai pensar sobre as aulas de monitoria? — suplica Sadie.
Aí o sinal toca e, com a pontualidade militar habitual, a senhora Jacobs começa a aula.
Quando Scott chega à Caixa, ele diz: “Oi!” e até sorri para mim. Fico superaliviada pela estranheza entre nós ter acabado. Talvez ele seja uma dessas pessoas que ficam automaticamente animadas porque é sexta-feira. Sem dúvida, também gosto das sextas-feiras, tanto quanto qualquer outra pessoa, só não fico tentando deixar todo mundo em polvorosa por causa disso.
Scott senta ao meu lado e pega um caderno. Não é seu caderno habitual da Caixa (como todos estão chamando esta aula), um caderno espiral em péssimas condições, com mais ou menos dez páginas restantes. Este caderno é novo em folha. Tem uma capa preta em que está escrito: DUNDER MIFFLIN, INC[5].
— Fã de Office? — pergunto.
Eu sei que a capa está relacionada de alguma forma ao programa porque acabei de ver um anúncio de The Office na lateral de um ônibus. Os personagens estavam parados sob uma placa grande em que se podia ler: “Dunder Mifflin”.
Scott não ouviu bem:
— O quê?
Aponto para seu caderno.
— Ah, sei. Você também?
— Totalmente.
Por que estou sendo tão mentirosa? Só assisti a dois episódios de The Office e nem cheguei ao final. Só algumas partes.
Seu rosto se ilumina.
— Que legal! Não conheço mais ninguém que goste.
É impressionante como um dia pode mudar tão rápido. Até os exercícios ficam divertidos. Estamos resolvendo problemas de lógica que mais parecem um descanso do que, na verdade, um trabalho que vale nota.
Alguém grita:
— Posso beber água?
— O bebedouro está quebrado — responde o senhor Peterson.
— Posso usar o outro?
— Vai demorar muito. Só temos mais 15 minutos e preciso de vocês aqui até o final.
O Garoto Sedento olha para a pia no canto da sala, resquício da antiga enfermaria, que antes era aqui. Aparentemente, ele não está com tanta sede assim para se curvar sob a torneira.
— Posso fazer um copo para você — digo eu.
Pego um pedaço de papel do meu caderno e faço um copo de origami.
— Aqui está. — Estendo o copo para o Garoto Sedento.
— Funciona?
— Sim. Só não demore muito para beber.
Ele enche o copo na pia e bebe a água rapidamente.
— Legal! — diz ele.
— É impressionante! — uma garota do fundo declara. Estou levando uma eternidade para memorizar o nome de todo mundo. Não sei como os professores conseguem fazer isso todos os anos.
Sorrio para meu caderno.
O senhor Peterson está em todos os lugares.
— Que excelente exemplo de pensamento fora da caixa! — anuncia ele. — Foi um jeito sensacional de chegar a uma solução criativa. Muito obrigada à sempre brilhante Brooke!
— A queridinha do professor? — sussurra Scott.
— Não — sussurro de volta.
Foi um dia cheio de acontecimentos na Caixa. Mais cedo, descobrimos o que era limpeza do cérebro quando estávamos fazendo um trabalho de lógica sobre astronomia.
Uma garota falou:
— Pensei que nosso sistema solar tivesse milhões de estrelas.
E o senhor Peterson:
— Nosso sistema solar contém só uma estrela! Limpeza do cérebro em ação!
Ele afirma que há um monte de informações errôneas presas em nossos cérebros porque aprendemos coisas incorretas ou porque lembramos delas de um jeito errado.
— Escute com atenção, turma! — diz o senhor Peterson. — Tenho um divertido presente de sexta-feira para vocês: perguntas sobre lógica.
Reclamações ecoam pela classe.
Scott se inclina para frente para falar comigo.
— Cerveja a minha força — resmunga ele.
Eu não tenho ideia do que ele está dizendo.
— Lembra? — pergunta ele. — Jim e Andy?
Uma das poucas coisas que entendi durante os períodos extremamente breves que assisti a The Office foi que o bonitinho se chama Jim. Balanço a cabeça e sorrio de volta.
Agora temos um problema. Tenho a impressão de que Scott vai ficar citando coisas do Office para me testar. Não posso fingir que sei do que ele está falando para sempre. Mas isso pode ser legal. Se compartilhássemos a mesma paixão por alguma coisa, seria uma forma de estar mais na vida dele, e preciso disso desesperadamente. Só que não gosto daquele programa. Os personagens falam para a câmera. Acho aquilo muito irritante.
Por isso, não estou exatamente empolgada, mas, depois da aula, compro as primeiras três temporadas. É estranho o que o amor nos leva a fazer. Você faz coisas loucas sem perceber. Não começaria a assistir ao programa favorito de alguém, de jeito nenhum, se não fosse por ele. O papai me deu um cartão de crédito para roupas e afins, e vai verificar a fatura todo mês. Posso justificar minha compra dizendo que estão fazendo uma promoção: se comprar três temporadas, ganha uma camiseta. Não que eu queira uma camiseta do Office, mas não é preciso que papai saiba disso. Tem um coração na camiseta que diz “JAM”, entre Jim e uma garota. Não sei o que quer dizer “Jam”. Acho que estou prestes a saber.
Meu plano era descobrir, no fim de semana, onde Scott mora. Pensei em perguntar para ele o endereço exato, mas ia parecer perseguição. Então decidi continuar procurando pela sua rua até encontrá-lo, a menos que chovesse durante dois dias sem parar. Não gosto muito de caminhar na chuva. Acabei ficando em casa o fim de semana todo, fazendo maratona de Office.
E agora? Simplesmente adoro The Office.
Verdade! Só comecei a assistir à série por causa de Scott, mas, ah, meu Deus, esse programa é tão bom! Aquela coisa da conversa com a câmera é, na verdade, engraçada. Agora que entendi. E a dinâmica do Jim e da Pam? É tudo muito bom. Estou viciada.
Na segunda-feira, visto a camiseta do programa para ir à escola. Estou nervosa, procurando Scott em todos os lugares o dia todo. Eu o vejo de relance no corredor, antes da quinta aula, virando para o outro lado. Meu coração bate mais rápido. Mal posso esperar para que ele veja minha camiseta. A sétima aula leva uma eternidade para terminar.
Scott já está em sua carteira quando chego à classe. Eu ando sem pressa. Ele repara na camiseta e abre um largo sorriso.
Eu falo:
— Só eu estou sentindo ou está um cheiro de updog[6] aqui?
— Legal! — Scott fica muito atraente quando está empolgado. A única vez que o vi assim foi quando seu time de lacrosse ganhou o campeonato estadual no ano passado. — Adorei essa!
Conversamos sobre nossos episódios favoritos até a aula começar, fazendo várias citações. É obvio que conquistei totalmente sua simpatia com a camiseta. Eu gosto deste Scott: está interessado no que estou dizendo e é fácil conversar com ele. Não que vamos conversar apenas sobre The Office daqui por diante. Apenas gosto de não ter de me preocupar muito com o que vou dizer. Sempre teremos este assunto e, quando houver outras coisas para conversarmos, ficaremos bem mais ligados.
Os momentos de diversão continuam. Hoje vamos trabalhar em duplas, o que significa que posso conversar com Scott durante toda a aula. Estou eufórica. Continuamos conversando até depois da aula e caminhamos juntos para a saída. E aí volto para a Terra.
Leslie está esperando Scott do outro lado da rua.
Ele parece feliz quando a vê.
De repente, parece que nem estou ali.
É triste como um dia pode se deteriorar tão rapidamente!
— Até amanhã! — diz Scott.
— OK.
Fingindo que estou esperando alguém, observo enquanto Scott vai ao encontro de Leslie. Sua roupa é incrível. Ela está vestindo uma jaqueta curta, que parece ter custado caro, sobre uma blusa de seda com alças, tipo camisola, que eu queria comprar desesperadamente. Por que ela tem de ser uma dessas garotas que parecem ter saído da Vogue? Não quero nem imaginar quanto custou seus jeans!
Espere! Desde quando me importo com essas coisas? Nunca fui insegura quanto ao meu estilo. Na minha escola antiga, os colegas elogiavam minhas roupas e acessórios o tempo todo. Mas aqui as coisas são muito diferentes. Tudo que eu achava que sabia sobre moda na minha cidade não é nada comparado ao que alguns desses jovens usam todos os dias. É surreal. À exceção de algumas poucas peças, estou fascinada.
De repente, me sinto ridícula, parada na calçada e vestindo minha camiseta do programa. E ela nem me serve direito. Como Scott não prestaria mais atenção em Leslie? Ela se destaca, enquanto eu passo despercebida.
Assim que a vida começa a ficar boa, alguma coisa tem que aparecer e estragar tudo.