9

Sadie não parava de me incomodar para que me tornasse monitora. Não importava que eu não estivesse interessada. A garota não estava nem me ouvindo.

Então aqui estou. Em minha primeira sessão de monitoria. Uma monitora muito esquisita.

Ontem, na aula de cálculo, a senhora Jacobs me pediu para ajudar uma aluna com um dos problemas. Eu não sabia que Sadie estava me observando o tempo todo. Mais tarde, ela chamou minha atenção para o fato de que a garota estava empacada em alguma coisa que era simples demais para mim. Será que eu não conseguia entender o quanto podia ajudar as pessoas?

Acho que Sadie tinha razão. Ela estava tão determinada a me convencer! Enfim, seja o que Deus quiser... Pode ser que explicar coisas não seja tão ruim assim, se isso facilitar a vida de alguém. Conheço bem a sensação de que, talvez, não se sobreviva depois da segunda aula.

O senhor Peterson é o consultor para aulas de monitoria. Antes de começar, precisei fazer um teste de aptidão para ver em qual matéria me destacava. Qualquer que seja ela, será a matéria que darei nas aulas. O teste de aptidão lembrou um pouco aquele teste de QI que fizemos no oitavo ano.

Será que estes resultados serão tão importantes quanto aqueles?

Embora o ano tenha acabado de começar, o centro de monitoria está lotado. Eu, na verdade, gosto daqui. Tem espaço na mesa para todas minhas coisas e as cadeiras são muito confortáveis. O espaço é arejado e, claro, tem grandes claraboias. Encontrar uma sala na escola onde você consiga respirar não é fácil. E, como bônus, cupcakes. Sadie trouxe de um lugar chamado Crumbs. Aparentemente, ela é viciada em cupcakes.

O senhor Peterson volta com meu teste de aptidão.

— Huh — diz.

Ele fica ali, parado, olhando fixamente para o teste, sem explicar o “huh”.

Eu não vou perguntar. Não quero parecer interessada demais. Quando os professores acham que você está interessada em qualquer parte do processo padronizado e massificado de testar /classificar pessoas, eles acreditam que já têm você nas mãos.

O senhor Peterson se senta à minha frente.

— Geralmente — começa ele — os monitores se especializam em uma área. Este teste é muito bom para identificar qual será essa área.

— Você não pode simplesmente nos perguntar que matéria queremos?

— Posso, mas preciso ter certeza de que você sabe a matéria. Às vezes, os professores recomendam certos alunos para determinadas áreas, mas, como você é nova, queria investigar as opções. — Ele olha para o teste novamente. — Esta é a primeira vez que vejo resultados como os seus. Você parece se destacar em... todas as áreas. E muito.

Esta é a parte em que tenho de ficar surpresa? Porque eu já ouvi tudo isso antes. E ainda não me importo.

— Então posso apenas escolher a matéria que quero ensinar?

— Para dizer a verdade, gostaria que você aceitasse ser monitora de todas as matérias. Seria ótimo ter alguém que pudesse ajudar em tudo! Você seria a primeira a fazer isso aqui.

Ainda não entendi o senhor Peterson. Sua aula é ótima, sem violar nenhuma lei federal, mas, mesmo dando uma aula tão diferente, ele ainda faz parte do sistema. A última coisa que quero é me tornar uma rodinha na engrenagem deles. O fato de me oferecer para ensinar não significa que esteja do lado deles. Ainda posso fazer as coisas do meu jeito.

— OK — digo eu.

— Você já ajudou alguém com dificuldade de aprendizado?

— Nunca ajudei ninguém na escola antes.

— Isso está prestes a mudar.

Depois de rever algumas normas de procedimento comigo, o senhor Peterson diz:

— Nós temos alguns alunos com necessidades especiais que precisam de ajuda em todas as matérias. Acho que deveríamos colocá-la para ajudar um deles. Tudo bem?

— Claro.

— Que maravilha! Vou encaminhar John a você. Ele está no terceiro ano também.

Observo o senhor Peterson se aproximar de um garoto que deve ser John. Ele está encostado à parede, usando fones de ouvido e tocando bateria no ar. Ele tira os fones e conversa com o senhor Peterson por um minuto.

John olha para mim. Em seguida, vem correndo.

— Uau! — exclama ele. — Você é minha monitora?

— Você é o John?

— Afirmativo. — Ele estende a mão como se fosse um encontro de negócios. — John Dalton, à sua disposição.

— Desculpe?

— Entendeu? Porque...

— A-ham. Você quer sentar?

John bate na cadeira chique que está na minha frente, desliga o som e pega rapidamente diversos livros e cadernos, tudo com um único movimento frenético. Em sua camiseta, está escrito: BIG GAY ICE CREAM TRUCK[7].

Tenho a impressão de que os jovens de Nova York são muito mais condescendentes que os da minha cidade. Viver aqui deve ser mais fácil para os gays. Esta cidade tem tanta diversidade! Os jovens estão expostos a pessoas e culturas diferentes, o que provavelmente faz com que eles fiquem mais tolerantes. Ninguém se atreveria a usar uma camiseta como a de John na minha escola antiga, mas nesta escola ninguém está nem olhando para John.

— O que é “Big Gay Ice Cream Truck”? — pergunto.

— Você nunca foi ao “Big Gay”? — pergunta, incrédulo.

— Acho que perdi isso.

— Ele é o cara! O sujeito usa ingredientes malucos, como bacon, abóbora e picles e até faz os próprios recheios. Muito legal! Geralmente fica na Union Square. Você nunca...

— Acabei de me mudar para cá.

— Ah! Bem, vou levar você, nós vamos, você vai adorar.

— A propósito, sou Brooke.

— Gostei de você, Brooke.

— Obrigada!

— Você deve estar se perguntando por que estou aqui.

— Hum...

— Tenho disgrafia. Já ouviu falar?

Sim, já ouvi falar. Mais precisamente, li sobre o assunto e é por isso que ainda lembro o que é. Muitas coisas que leio ficam em meu cérebro, independentemente da minha vontade.

— Mais ou menos.

— Basicamente, tenho problemas para expressar meus pensamentos com palavras em um papel. É uma pena não podermos simplesmente entregar nossos cérebros em vez da tarefa. Ah, essa é boa!

— Então, acho que podemos...

— ... trabalhar com minhas coisas, sei, sei. Desculpe, falei demais. Não tem desculpa, eu faço isso mesmo. Se você me pedir para calar a boca, não ficarei ofendido.

John é engraçado. Irritante, mas engraçado. Parece que já estamos nos entrosando, contando piadas juntos, do mesmo lado desta guerra acadêmica. Porém, depois de alguns minutos de trabalho, seu senso de humor desaparece.

— Por que pensei que este ano seria diferente? — reclama ele. — Claro que é exatamente como todos os outros. As coisas não ficam melhores só porque você quer que elas fiquem.

— Geralmente, quando você está querendo muito que as coisas mudem, algo acontece para atrapalhar.

— Exatamente! Por que será?

— Quem sabe? Eu apenas coloco no arquivo “É Claro” e fecho a gaveta com força.

— O arquivo... o quê?

Explico.

— Legal — disse John.

Não que eu seja convencida (acredite, não estou me gabando), mas observar John com tanta dificuldade para fazer coisas tão simples é uma revelação. Ajudei pessoas com cálculo, mas aqueles problemas são ridículos. Isso é diferente. É realmente muito difícil para John explicar o que pensa, mesmo em questões fáceis. Nunca tinha visto uma caligrafia igual à dele: sobram uns espaços ao acaso entre as palavras. Sua ortografia precisa ser muito trabalhada e, às vezes, ele mistura letras minúsculas e maiúsculas sem nenhum motivo. O senhor Peterson disse que John trabalha com um especialista na escola, que enfoca seus problemas de escrita. Ele também tem um monitor particular, que trata a disgrafia. Meu trabalho é ajudá-lo a entender sua lição e estudar para as provas.

— Sabe quando eles destroem a máquina de fax no Office Space? — pergunta John.

— Nunca assisti ao Office Space.

O que é essa fixação dos garotos com séries sobre escritórios?

— Você nunca assistiu ao Office Space?! — John diz isso como se estivesse perguntando: “Existe alguma outra série no mundo?”.

— Não.

— Como é possível?

Encolho os ombros.

— OK, tem uma cena (que você tem que ver imediatamente) em que o fax está atormentando todo mundo e, então, os caras o arrastam para um campo e batem nele. Eles quebram a máquina com um taco de beisebol, batem nela com força e pedaços voam para todos os lados. Cara, sei exatamente como é isso! Toda essa raiva e frustração é o que sinto todos os dias neste lugar.

É oficial: John é impressionante!

— Como este teste que acabaram de me entregar.

Ele pega um teste com um “32” em vermelho, no alto. Eu nem sabia que eles davam notas tão baixas. Quero dizer, já tirei zero quando não entreguei algum trabalho, mas, mesmo quando faço metade de um trabalho, ainda consigo nota suficiente para passar.

— Quero destruí-lo. Não daria para fazer como fizeram com o fax, porque é apenas um pedaço de papel. Um pedaço de papel do mal. Eu queria ver pedaços de papel de teste quebrados voando, depois de acertá-lo com um taco de beisebol.

— Seria impossível.

— Eu sei, né? Vamos ter de nos conformar em rasgá-lo com estilo.

John rasga seu teste ao meio, dramaticamente.

— Espere! Nós temos que revê-lo.

— Quem disse?

— O senhor Peterson.

— Regra número um da monitoria: jogue fora todas as regras anteriores. Sinceramente, se seguirmos tudo à risca, não conseguiremos terminar nada. Entende o que quero dizer?

Entendo, porque John fala a minha língua.

Pode ser que esta coisa de monitoria não seja tão ruim.

É óbvio que April sabe tudo sobre minha nova conexão com Office e Scott, como conquistei sua simpatia, ontem, com minha camiseta, como Leslie estava esperando por ele depois das aulas e como ele pareceu muito feliz quando a viu.

— Será que ele gosta dela? — pergunta April. — As coisas podem mudar.

— Eu gostaria que alguma coisa estivesse realmente acontecendo entre nós.

— Está acontecendo! Vocês têm mais coisas em comum agora. Vocês têm assuntos para conversar.

Desde que me mudei para cá, todas as noites April e eu temos longas conversas. Gosto de fazer outras coisas enquanto falo ao telefone. Neste momento, estou fazendo um unicórnio de origami com o cardápio de entrega que veio com meu jantar. O papai está trabalhando até mais tarde. De novo.

— Se Scott falasse tanto quanto John, tudo estaria resolvido.

— Quem é John?

— Estou dando monitoria para ele.

Explico para April como Sadie ficou me incomodando para eu fazer monitoria e que, por isso, cedi. Conto para ela sobre John. Omito a parte do meu teste de aptidão.

— Interessante — comenta April.

— O quê?

— Nada. É que... nunca pensei que você faria algo assim. É legal!

— Verdade?

— Totalmente! É óbvio que você quer ajudar John. E parece que ele realmente precisa de ajuda.

— Eu nunca teria começado se não fosse Sadie.

April não diz nada.

— E aí... quais as novidades? — digo.

— Adivinha quem me convidou para sair hoje?

— Ah, meu Deus, quem?

— Adivinha!

— Não diga que foi o Chad.

— Não. Robby Miller.

Robby Miller?

— Eu sei! Como isso aconteceu assim, do nada, né?

Robby Miller é o garoto que estava no clube do livro com April no ano passado. Realmente não sei nada sobre ele. Ele é tão quieto, que passa despercebido! Pelo que sei, nunca falou com April antes.

— Você gosta mesmo de Robby Miller? — pergunto.

— Nunca pensei nele antes. É bonitinho... Eu acho.

— Acho que deve ir em frente. Você está sempre dizendo que quer um namorado antes de se formar. Pode ser sua única chance.

— Obrigada!

— Não por sua causa, mas você está rodeada de babacas. Nenhum deles é digno.

— Exceto Robby Miller?

— Possivelmente. Com certeza, vale a pena investigar.

— Vou mantê-la informada.

— Ei, ainda não tive notícias de Candice. O que está acontecendo?

April fica quieta. Ao fundo, consigo ouvir pessoas gritando e um carro buzinando.

— Onde você está? — pergunto.

— Do lado de fora do Bean There.

— Ah, encontrei uma cafeteria incrível no meu bairro. Chama-se Joe the Art of Coffee. O café deles é outro nível. É muito melhor que o do Bean There. Temos de ir lá quando você vier me visitar.

— Não vou me esquecer disso.

— Candice está bem?

— Você mesma pode perguntar para ela. Ela acabou de chegar.

Escuto vagamente Candice perguntando quem está ao telefone. April diz que sou eu.

— Olá — diz Candice.

— Finalmente! — grito. — Eu estava morrendo de vontade de falar com você. Você não recebeu meus recados?

— E suas mensagens de texto e e-mails, sim.

— Então por que não me ligou?

— Sinceramente?

A voz de Candice soa gelada.

Ouvir sua voz assim faz com que o pressentimento ruim volte, mas ainda me agarro à esperança de que não seja por causa de Scott.

— Qual é o problema? — digo.

— Qual é o problema? Como pode não saber?

— Hum...

— Você sabia que eu gostava de Scott. Você não só tentou ficar com ele como também foi atrás dele em Nova York!

Droga! O pressentimento ruim estava certo.

Veja bem, eu não entendo: como Candice pode ficar brava assim comigo só porque gosto de Scott? Quando ela gostava dele, há dois anos, era transparente. Não que quisesse demonstrar, mas seus hormônios a deixaram fora de controle. Todo mundo notava que ela gostava dele. Todas as vezes que ela o via, ficava vermelha, olhando fixamente para ele e seu jeito de conversar e agir mudava sempre que Scott estava por perto. Todos os sinais clássicos de paixonite estavam ali, e todos sabiam.

A questão é: Scott não gostava de Candice. Alguém acabou contando para Scott que ela gostava dele e, depois disso, ele a evitava completamente. Obviamente, ele tentava desapontá-la aos poucos.

Eu não podia simplesmente me mudar para Nova York sem dizer o motivo para Candice, sobretudo porque ela também sabia que Scott estava se mudando para cá. Então disse a ela que comecei a gostar dele antes dela, mas me contive porque sabia que Candice gostava dele também. Ela não pareceu nem um pouco brava com isso. Até me ajudou a fazer as malas.

— Mas você gostava dele dois anos atrás! — eu a lembro.

— E daí? — Candice se irrita. — Você sabia que eu gostava dele. Quem corre atrás de um garoto de quem sua amiga gosta?

— Não sabia que você estava brava com isso. Por que você não disse nada quando contei por que estava me mudando?

— Porque eu estava tentando ser uma boa amiga! Mas aí você partiu, e era verdade, e agora vocês dois... Por que você se mudou? Você realmente achou que, de repente, Scott iria reparar em você depois de todo esse tempo?

Ouvir Candice falar comigo assim faz a culpa que eu sentia desaparecer imediatamente. Ela obviamente não entende o quanto Scott é importante para mim. E, sinceramente, duvido que possa fazê-la entender.

— Fale sobre lógica distorcida — resmunga ela.

— Eu não achei que isso era um problema — explico. — Você gostou dele há muito tempo. Ele não gostava de você. Fim da história.

— Só tem uma coisa: o mundo é complicado e cheio de incertezas. Você deveria tentar ter mais compaixão de vez em quando.

— E você deveria tentar apoiar os amigos. Deixei de fazer o terceiro ano com vocês porque isso significa muito para mim. Por que você não consegue entender isso?

— Ah, desculpe! Tenho dificuldade para apoiar amigos que mentem para mim.

— Quando eu menti?

— Você não me disse que gostava de Scott. É a mesma coisa que mentir.

— Eu lhe contei antes de me mudar.

— Isso não adianta. Você gosta de Scott há bastante tempo e nunca me contou!

— Porque eu sabia que você gostava dele!

— Então, como acha que me sinto sabendo que você foi atrás dele em Nova York?

— Não... desculpe, não posso proteger seus sentimentos para sempre. Tenho que viver minha vida.

— Vá vivê-la então — diz Candice.

E desliga.