Eu gosto daqui, do jardim zen. Não tem nenhuma placa ou algo parecido dizendo que é um jardim zen. É só a impressão que dá. Gosto da grama alta, dos bancos minimalistas de madeira, das pedras para atravessar o riacho. Gosto da forma como o jardim fica isolado, no meio de tudo, enquanto a vida se apressa nas ruas, por todos os lados. Sentada aqui, no silêncio, penso em todos da minha cidade.
Depois que Candice desligou o telefone, ontem à noite, me senti sozinha. Mais tarde, April mandou uma mensagem de texto para dizer que não preciso me preocupar e que Candice vai se recuperar. Não estou convencida, ela nunca ficou brava assim antes. Eu realmente espero que April esteja certa, porque elas são as únicas amigas que tenho. Acho que posso contar Sadie como uma nova amiga, mas não é a mesma coisa. Nós não compartilhamos uma história. Eu não tinha ideia do quanto isso era importante até o dia que deixei tudo para trás.
Tudo é tão diferente aqui! Você não consegue acreditar no tanto de lojas que existe em uma quadra. Logo que cheguei, fiquei parada na rua Bleecker, assombrada com a abundância. Você pode comprar o que quiser a apenas algumas quadras da sua casa. É demais! E ninguém vai de carro para lugar nenhum. Os nova-iorquinos pegam metrô ou andam de ônibus. Eles caminham muito. Desde que cheguei aqui, basicamente ando para todos os lugares, o que é uma mudança radical. Se você caminhasse na minha cidade, as pessoas perguntariam o que tinha acontecido com seu carro, mas aqui é normal. Nas ruas, as pessoas passam por você caminhando extraordinariamente rápido, geralmente sem nem notá-lo, o que, para mim, é ótimo. Aprecio o anonimato. É muito bom poder ser qualquer pessoa, não precisar ser eu mesma quando estou cansada de mim.
Mas, ao mesmo tempo, é meio solitário. Papai raramente está em casa, e não conheço ninguém na escola. As coisas com Scott não estão do jeito que eu esperava. Sinto falta de minha mãe. Desde que parti, conversamos algumas vezes, mas não é a mesma coisa. Apesar de não nos relacionarmos muito bem, tê-la em casa todos os dias era importante. Ver meus amigos todos os dias era importante. Sinto muita falta de April e Candice, sinto falta das coisas que costumávamos fazer.
Acabaram-se os passeios no carro novo de April, cantando mais alto que a música.
Acabaram-se os encontros com as amigas no Bean There, depois da aula, e as risadas por qualquer coisa.
Acabaram-se as brincadeiras com os garotos, na praia, durante todo o verão.
Pego meu celular e ligo para April.
— Você se lembra daquele garoto da praia que sempre colocava protetor solar azul no nariz?
— Quem?
— O garoto de nariz azul. Qual era o nome dele mesmo?
— Eu nem sei de quem você está falando.
— Você sabe, sim! Ele derrubou bolo na sua toalha.
— Ah! — a voz de April some lentamente, como se estivesse afastando o telefone. — Estou me lembrando.
— Você está ocupada? Posso ligar mais tarde.
— Não, tenho tarefas demais. Mais tarde não é uma boa opção.
Então fica um silêncio constrangedor. Aqui no jardim zen, a grama alta estala com a brisa. O que será que está acontecendo ao redor de April? Eu gostaria de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Tenho de deixar minha vida antiga para trás completamente só porque me mudei?
— E aí, como foi com Robby Miller? — pergunto.
— Nada, por enquanto. Ainda estou decidindo o que direi.
— Mas você quer sair com ele, certo?
April suspira. Reconheço esse suspiro. É assim que ela faz quando se sente arrasada.
— Não sei — responde.
— Você está bem?
— Sim. Só estou... cansada.
Há algo de errado. April e eu sempre conseguimos conversar, mesmo quando, na verdade, não temos nada para falar. Eu estava esperando uma de nossas sessões divertidas de fofocas para melhorar meu humor, mas parece que April não quer conversar sobre qualquer coisa divertida. Aliás, parece que ela não quer conversar sobre nada.
Candice já mudou. Será que April vai fazer a mesma coisa?
— Preciso desligar — diz April. — Me liga amanhã?
— Você quer que eu ligue?
— Claro! Continuamos juntas, é que... desculpe, estou sendo antissocial. É só cansaço...
— OK. Converso com você amanhã.
Não tenho certeza se acredito no cansaço de April. Seja lá o que for que esteja acontecendo com ela, uma coisa está clara: os dias de compartilhar minha vida com os únicos bons amigos que conheço acabaram. Está na hora de criar uma nova vida sozinha.
A garota que antes estava aqui desenhando está de volta. Ela olha para cima, sentada no mesmo banco que eu estava da última vez. Tento descobrir o que ela está olhando. A lua está enorme
e brilhante.
Algumas pessoas correm na pista entre nós. Foi nela que eu e papai caminhamos juntos, no primeiro domingo em que passei aqui. Ele disse que precisava voltar a correr e, como também gosto de correr, vamos correr juntos todos os domingos. Vai ser algo só nosso. É legal que, em apenas duas semanas, já temos uma coisa só da gente, mas, no domingo passado, não conseguimos correr por causa da chuva.
— Ei, Brooke! — uma garota grita, correndo na pista.
Eu a reconheço da escola, porém não lembro seu nome. Aceno para ela.
A garota do banco olha. Sinto uma espécie de choque interno quando fazemos contato visual. Nas ruas daqui são muitas as pessoas que passam com pressa, olhando para qualquer lugar, exceto para você! Pessoas correndo enquanto passeiam com seus cachorros ou seguram suas xícaras de café ou, ainda, enquanto falam em línguas diferentes, pelos celulares, com os amigos. Não sei por que estão todos tão apressados. Quando alguém olha para mim de relance, geralmente vira para o outro lado se nossos olhos se encontram. É quase como se houvesse uma regra que dissesse que não é permitido ter contato visual com ninguém por mais de dois segundos.
Olhar para alguém e realmente receber um olhar de volta causa impacto. Ao contrário dos outros nova-iorquinos que encontrei, esta garota não olha imediatamente para o outro lado. Ela sorri com olhos amigáveis e, depois, volta a desenhar.
Talvez seja porque estou solitária ou tenha alguma coisa nessa garota com a qual eu já esteja me relacionando em um nível subconsciente. Qualquer que seja o motivo, quero conversar com ela. Vou até lá e sento no banco perto do dela.
— Ei! — diz ela. — Você estuda no Eames?
— Não.
— Ah, pensei que tinha reconhecido você! Sou Rhiannon, mas todos me chamam de Ree.
— Sou Brooke.
— Sei. É o nome da minha irmã.
Agora que estou mais perto, posso ver a lua cinza-escura sendo feita em seu bloco de desenhos. A lua de Ree tem todas as crateras detalhadas que não consigo ver nem quando olho para a lua verdadeira.
— Você é muito boa — digo eu.
— Obrigada! Isso me ajuda a relaxar.
— O origami faz o mesmo por mim.
Nunca conversei tanto assim com alguém que não conheço. Posso sentir um tipo de magia acontecendo. É como se a energia da cidade pudesse tornar qualquer coisa possível.
— Você mora por aqui? — pergunta Ree.
— Sim, na Perry Street.
— Ah, legal. Eu moro na West 11th.
Ela mora na rua de Scott. Esta vai para o arquivo “É Claro”. Talvez ela o tenha visto por ali, pode ser que até saiba onde ele mora. Mas não seria esquisito perguntar sobre um garoto, quando acabamos de nos conhecer?
— Acabei de me mudar para cá — conto eu.
— De onde?
— New Jersey.
A linha do horizonte da cidade de Jersey brilha à noite. Adoro seu reflexo cintilante na água. Tento olhar exatamente na direção de minha cidade, em algum lugar atrás dessa linha de luz que brilha suavemente, mas não consigo indicar ao certo onde ela está.
Sinto uma pontinha de inveja de Ree, com suas calorosas habilidades sociais e seu jeito de Garota dos Luminosos da Cidade. Ela teve todos esses anos para absorver esta energia que desejo profundamente. Estar aqui é um hábito para ela. Talvez nem dê valor a isso. Ou será que aprecia estar aqui tanto quanto eu?
— E o que você está achando até agora? — ela quis saber.
— É bom. Sempre quis morar aqui. Moro com meu pai.
— Deve ser legal tê-lo por perto.
— Não sei. Ele nunca está em casa.
Aconteceu novamente hoje à noite. Papai não ligou nem deixou um bilhete dessa vez. Esta coisa de trabalhar até tarde é obviamente uma condição permanente. Ele tentou ficar mais por aqui quando cheguei, mas depois rapidamente retomou sua rotina. Isto faz que me sinta como se nem estivesse aqui, como se ele não estivesse tentando me incluir em sua vida, como disse querer.
— Meu pai faz a mesma coisa — diz Ree. — Seu pai trabalha em um banco de investimentos?
— Como você sabe?
— Eles são todos iguais!
Acho que sua vida não é tão animada quanto pensei. Nossos pais nos ignoram, mas espero que seu pai não tenha feito as coisas horríveis que o meu fez.
Quando chego em casa, papai mal tira os olhos do laptop.
— E aí, filhota? — diz ele, como se estivesse tudo certo. — Como estava a escola?
— Tudo bem.
— Que bom.
E só. Ele simplesmente volta a olhar para o laptop. Nenhum pedido de desculpa por não ter me avisado que ia trabalhar até tarde novamente.
É realmente irritante como ele pode mudar meu humor, de calma para furiosa, em dois segundos.
Passo por ele rapidamente a caminho do banheiro. Jogo as roupas na cesta e visto meu robe. Tento manter a raiva sob controle enquanto tiro as lentes de contato. Uma delas quase parte ao meio. Depois lavo o rosto. Tento me lembrar da tranquilidade do jardim zen e ter pensamentos relaxantes. Estou cheia de fúria. Talvez seja melhor dormir cedo e esquecer.
Não consigo. Como saí muito cedo, sem comer nada, agora estou com muita fome. E me deparo com um problema na cozinha: estou com muita vontade de comer cereal, mas não tem leite. O que estou com mais vontade ainda é de uma comida caseira. Sentir saudade da comida da mamãe é a última coisa que esperava, mas aconteceu. Pedir comida foi divertido por um tempo, agora é meio triste.
Estou louca por uma tigela de Froot Loops[8]. Se eu não for correndo até a delicatessen comprar leite, meu desejo vai aumentar ainda mais. Por isso, coloco os óculos, faço um rabo de cavalo nos cabelos e visto minha calça de moletom velha, com a camiseta do programa Late Night with David Letterman. Nem me preocupo em passar maquiagem.
Toda noite saio pelo bairro esperando encontrar Scott. Já andei para cima e para baixo na rua onde mora tantas vezes que conheço os prédios melhor do que eu conhecia os da minha antiga rua. Mas nunca saio para procurar Scott sem me preparar. Antes de sair, geralmente experimento pelo menos cinco roupas diferentes. Olho no espelho um monte de vezes. A possibilidade de encontrá-lo é sempre tão emocionante! Depois de sentar ao lado de Scott na aula, esta é a melhor parte do dia.
Mas, esta noite, tudo o que quero fazer é comprar leite e voltar para casa, comer cereal e dormir. Não penso sobre o que estou vestindo nem sobre a minha aparência.
Então, é claro que encontro Scott.
Estou acabando de sair da delicatessen quando acontece. É meio difícil não vê-lo, já que esbarro nele.
— Ei! — diz ele.
Consigo segurar a sacola um segundo antes de o leite cair. Não olho para cima. Não posso ver Scott agora. Mais precisamente, Scott não pode me ver agora. Eu não poderia estar mais mal-arrumada.
— Hum... — focalizo a calçada. — Ei! — eu digo para um carro que está passando.
— Indo para casa?
— É, só vim... correndo buscar uma coisa.
— Legal.
— E você?
— Acabei de chegar do boliche. Eu sei, parece difícil de acreditar. É que não tem nenhum time de lacrosse aqui, então precisei ser criativo.
— Isso faz com que você tenha saudade de lá?
— Não exatamente. — Scott olha para minha sacola da delicatessen. — Está com fome? Vou comprar um sanduíche, encontrei um lugar fenomenal.
— Não sabia que sanduíches podiam ser fenomenais.
— Está brincando? Sanduíche é a melhor coisa do mundo!
Mesmo que eu esteja parecendo alguma coisa que veio rastejando pela sarjeta, Scott não parece enojado.
— E aí — pergunta ele —, você está dentro?
— Depende. Você se incomoda se eu passar em casa bem rápido? Eu não estou... — aponto em direção aos meus óculos e à calça de moletom — exatamente apresentável.
— Para mim, você está bem — diz Scott. Ele olha direto para mim quando fala isso.
Isto.
Está.
Acontecendo.
Nós caminhamos até meu apartamento. Tento não ficar emocionada com o fato de Scott Abrams estar caminhando comigo nesta cidade totalmente nova para onde eu vim atrás dele. Corro para o andar de cima e começo o trabalho de reconstrução mais rápido que nunca. Não sei se posso ficar muito melhor em apenas cinco minutos, mas ao menos estou suficientemente apresentável para um sanduíche fenomenal.
Quando estou saindo, papai olha para mim e pergunta:
— Saindo de novo?
— Não vou demorar. Encontrei um amigo da escola por acaso.
— Aonde vocês vão?
— Descendo a rua. Vamos comer um sanduíche.
Papai já se voltou para o laptop.
— Divirtam-se! Não até muito tarde, hein?
— OK — concordo, mesmo sem saber o que é “muito tarde”.
Pulamos essa parte das regras do nosso acordo quando me mudei para cá. Aparentemente, quando tantas outras coisas não estão sendo ditas, muitas informações básicas são deixadas de lado.
— Pronta? — pergunta Scott, quando saio.
— Morrendo de fome.
Ele está certo sobre a lanchonete. Meu sanduíche de bacon, tomate e alface, com bacon extra, é delicioso. O clube-sanduíche do Scott é enorme. É tão grande que não sei como não se desfaz.
— Este deve ser o maior sanduíche do mundo! — exclamo. — Existe alguma coisa que não tenha dentro dele?
— Batata chips.
— Ah!
— E cereal.
Claro que ele disse “cereal”!
— Você ficou sabendo sobre aquele cara que deslocou a mandíbula ao morder um sanduíche enorme? — pergunto.
— Não.
— É, na Georgia. Eles até fizeram uma homenagem a ele, dando seu nome ao sanduíche.
— Aposto que os sanduíches daqui são ainda maiores.
— Este lugar é impressionante.
— Eu sei. Não é bom ter mais opções que a loja de conveniência Gas’n’Sip?
É verdade. Na minha cidade, nunca tinha nada para fazer. Todos os lugares fechavam cedo. Aqui as possibilidades são intermináveis. Gosto de saber que não sou a única que fica impressionada com o fato de uma lanchonete estar aberta até tarde. Saber que posso ver um filme à meia-noite, filme independente, mas de qualidade, me deixa muito satisfeita. Ou ver as ruas cheias às duas da manhã (não que eu esteja na rua até tão tarde). Deixo minha janela aberta para poder ouvir as pessoas do lado de fora. Adoro barulho de rua. Os sons do tráfego me tranquilizam para dormir.
— E aí, você já se adaptou ao West Village Community? — pergunta Scott, tentando ser engraçadinho.
— Um pouco.
— Você não está dando monitoria?
— Como você sabe?
— Leslie me contou. Ela é amiga de uma garota que também está participando desse programa e que conhece Sadie.
— Ah! — Não sei o que é mais perturbador: Leslie saber sobre meus assuntos pessoais ou o fato de ter contado para Scott. Quero perguntar se ele está saindo com ela, mas é óbvio que sim.
— Ela me contou que vocês se encontraram por acaso em uma cafeteria...
OK, isso é estranho. Por que ela está contando tudo isso para ele?
— É — digo eu —, mais ou menos.
— Legal dar monitoria. Pelo menos você tem objetivos. Eu não tenho ideia para onde minha vida está indo.
— Nem eu.
— Verdade?
— Por quê? Parece que eu sei?
Scott faz que sim com a cabeça.
— Você age como se estivesse tudo planejado.
— É — falo eu, expressando raiva. — Eu gostaria muito de saber o que quero ser. É tão irritante como as pessoas me perguntam isso toda hora!
— Exatamente! Como se fôssemos automaticamente obrigados a saber o que vamos fazer durante o resto das nossas vidas. Acho que perdi o memorando a respeito disso.
Scott termina a primeira metade do sanduíche. Olho para seus braços. As mangas estão dobradas até o cotovelo. Seus braços ainda estão bronzeados do verão, tonificados e com pelos clareados pelo sol. Eu não sei o que é, mas fico meio hipnotizada com algumas partes do seu corpo.
Recado para si mesma: pare de ficar olhando para os braços de Scott.
— Estou feliz por você estar aqui — diz ele.
Será que ele quer dizer aqui na lanchonete? Ou aqui em Nova York?
— Eu também — falo, ruborizando. Nunca fico vermelha. Esse é o poder que ele tem sobre mim.
— Ser transferido para uma nova escola no terceiro ano é horrível! Por que meu pai não esperou até que eu começasse a faculdade?
— Pensei que você tivesse dito que ele precisou mudar por causa do trabalho.
— É, mas acho que tinha a opção de escolher quando ia fazer isso. Ele achou que agora seria melhor para todo mundo.
— Exceto para você.
— Exatamente.
Será que deveria contar para ele? É a primeira vez que ficamos a sós assim. Pode ser que eu não tenha outra chance. Leslie poderia cravar suas garras mais profundamente ainda e aí será impossível. Mas e se ele ficar totalmente furioso porque me mudei para cá por ele? Quero dizer, quem faz isso? Seria muito arriscado. Parece que estamos ficando mais próximos. Se o afugentar, posso arruinar minhas chances para sempre.
Conversamos noite adentro. Eu sonhei estar assim com Scott tantas vezes, escrevendo bilhetes sobre ele para a minha caixa de desejos, inventando maneiras de fazê-lo reparar em mim! Agora esta noite chegou. É real. E estou com um pressentimento que é apenas o começo.