Esses casais que comemoram coisas ridículas como aniversários de um mês costumavam me irritar: um mês... é mesmo? Estar junto há um mês merece mesmo uma comemoração? Profunda conquista, não é?
Mas agora que sou parte de um casal, as coisas são diferentes. Não acho nem um pouco ridículo comemorar nosso aniversário de um mês. Não que eu tenha contado para Scott que é isso que estamos fazendo hoje. Eu tinha esperança que ele mencionasse o assunto. Como não falou nada, decidi guardar a comemoração só para mim. Não sei muito bem por que não contei a ele. Talvez estivesse com medo que ele achasse besteira.
Meados de novembro normalmente não é o melhor período para atividades ao ar livre. No entanto, hoje está inesperadamente agradável. Scott e eu exploramos uma nova região toda semana. Hoje é o Union Square. Nós caminhamos durante meia hora por aqui e já comprovamos que é um território altamente explorável. Toda aquela esquisitice de quando Scott não me beijava, nem ficava de mãos dadas comigo, passou. Só consigo pensar em transar com ele. Tudo que mais desejo é a próxima oportunidade de transarmos. Os momentos do dia em que não estou beijando Scott são insuportáveis.
— Vamos ali dentro — propõe Scott.
— Onde? No playground?
— Como se você nunca tivesse vontade de balançar.
— O tempo todo. Como você sabe?
Scott me aperta delicadamente de encontro à cerca.
— Eu conheço você — responde.
Ele me abraça forte e me beija.
Uma mãe, passando com duas crianças, olha feio para nós.
— Acho que deveríamos esperar — digo eu.
— Detesto esperar.
— Eu sei.
Na entrada para o playground tem uma placa em que está escrito que é proibido entrar, exceto se estiver acompanhando uma criança. Como ninguém nos vê, entramos rapidamente.
— Nossa! — Scott corre na frente.
Eu o sigo:
— Alto-falantes!
— Ah, eu adoro isso!
Não brinco com alto-falantes há uma eternidade. Todas as vezes que fazíamos uma viagem de campo para o museu de Ciências, eu os monopolizava. Como é legal que, em Nova York, tenha esses brinquedos em playgrounds!
Assumimos o controle dos alto-falantes. Conto a Scott que eu costumava monopolizá-los. Ele me fala o que vai fazer comigo quando voltarmos ao seu quarto.
Se nós pudéssemos ficar em seu quarto para sempre, não teria absolutamente nenhum problema para mim.
Bem, talvez tivesse. Passamos quase o tempo todo no seu quarto ou no meu. Meu quarto é melhor porque meu pai sempre trabalha até tarde, mas adoro ficar no de Scott. Só que temos de inventar desculpas mais criativas para estarmos ali. Não tenho tanta certeza que sua mãe acredita que passamos todo o tempo fazendo tarefa.
Quando eu pensava em como seria namorar Scott, imaginava as coisas muito diferentes: nós teríamos muito em comum, nunca ficaríamos sem assunto para conversar, sairíamos bastante e faríamos aqueles animados passeios noturnos pela cidade com os quais eu costumava sonhar. Mas não está acontecendo desse jeito. Nós raramente vamos a qualquer lugar e às vezes ficamos sem ter o que dizer (e isso é incrivelmente constrangedor). Não parece que nosso relacionamento esteja indo para frente. Será que posso chamar isso de relacionamento se é, principalmente, uma coisa física?
Quero dizer a Scott como estou me sentindo, mas não quero que ele fique bravo. A parte “ir embora” vem depois da parte “ficar bravo”.
Ninguém está no gira-gira. Sento nele, enquanto Scott o segura e corre para fazê-lo rodar.
— Nós deveríamos sair mais — sugiro eu.
Scott discorda:
— Nós saímos.
— Sim, mas...
— Nós fomos ao cinema.
Sim, uma vez. Não faz sentido. Duas pessoas, como nós, que gostam tanto de morar aqui não deveriam sair mais? Adoro quando ficamos sozinhos, mas, às vezes, parece que Scott só quer estar comigo fisicamente. Não temos uma boa relação emocional, não conversamos sobre assuntos que eu acreditava que conversaríamos. Acho que é porque não temos tanta coisa assim em comum. As pessoas sempre dizem que isso é muito importante, mas não acho que seja um problema. Nós temos química. Não é esta a parte mais essencial de um relacionamento? Sem química, somos apenas amigos. Nós, sem dúvida, produzimos faíscas. E a parte da transa é a que eu mais aguardo, então por que tenho de me incomodar se não fazemos mais coisas juntos? E daí se as coisas não são da forma como imaginei que seriam? E alguma vez são?
Talvez seja melhor me concentrar no que tenho em vez de me preocupar com o que não tenho. Por exemplo, o fato de irmos para o apartamento de Scott e que não haverá ninguém lá durante duas horas.
Assim que ele abre a porta do prédio, começamos a nos beijar. Subo as escadas de costas, com Scott me beijando o tempo inteiro. Quando chegamos à porta, Scott vasculha a mochila para pegar as chaves ainda me beijando. Escuto as chaves caírem no chão.
— Pode ser que eu precise parar de te beijar para pegar as chaves — sussurra Scott, com os lábios ainda nos meus.
— Você tem três segundos.
Ele se abaixa para pegar as chaves e recomeça a me beijar imediatamente.
O quarto de Scott tem um poderoso efeito sobre mim. Só de entrar aqui uma irresistível expectativa é desencadeada. Não consigo acreditar que finalmente estou aqui, dentro da casa dele.
Adoro todas as fotos que Scott tem de sua família. Em uma delas, ele está com aproximadamente 4 anos de idade, abraçando seu cachorro, Snuffleupagus. Sempre fico com vontade de chorar quando a vejo. Há fotos de Scott fazendo rafting numa corrente de águas cristalinas e escorregando de snowboard. Ele tem um pôster de PJ Harvey[11] e canhotos de um ingresso para o show do Demetri Martin[12]. Scott insiste em dizer que Demetri Martin é o comediante mais engraçado do mundo. Assisti ao seu show no Town Hall na internet e concordo. Ele faz uns esquetes muito engraçados, toca uns instrumentos esquisitos e entende as coisas do jeito que eu entendo. Do jeito que nós entendemos.
Agora, nós somos nós.
Assim que chegamos ao quarto de Scott, ele tranca a porta. Eu me recosto nela.
— Que sorriso é esse? — pergunta Scott.
— Que sorriso?
— Como se você tivesse um segredo ou algo assim.
— Ah, não é um segredo! É totalmente óbvio.
Scott me abraça apertado e começa a me beijar novamente. Adoro o fato de ele sempre me abraçar apertado. Acho extremamente excitante.
— Que música quer ouvir? — pergunta ele.
— A que você quiser.
Muitas vezes, quando estamos transando, nem noto o que está tocando. É como se meu corpo só tolerasse a entrada de uma determinada quantidade de informações, por isso, ele bloqueia a música. Assim, evita sobrecarga sensorial.
Enquanto Scott vai ligar o som, eu vou para sua cama. Deitar nela e olhar através da janela parece algo tão familiar! O edredom azul marinho, as pesadas cortinas nas duas janelas, o suave brilho da luz do abajur no canto... É quase como se eu conhecesse o quarto antes mesmo de entrar aqui.
A vista é linda. O prédio do outro lado da rua tem um apartamento de cobertura com um pátio enorme. Uma fileira de luzes roxas contorna a parede do pátio. Fico olhando para a fileira roxa, pensando sobre o novo projeto que o senhor Peterson passou: temos de descobrir nossas carreiras ideais pesquisando assuntos pelos quais somos mais apaixonados. Isso está fazendo que eu perceba que a paixão que tenho por Nova York pode ser a chave para descobrir o que quero fazer da vida. E se puder canalizar meu amor por Nova York para uma carreira, por exemplo, fazendo alguma coisa para transformar a cidade em um lugar melhor e preservar todas as coisas de que mais gosto nela? Deve existir algum tipo de trabalho que conserve o que define a natureza desta cidade e crie novas maneiras de conectar seu ambiente aos seus moradores.
— Você começou aquele novo projeto? — pergunto.
— Para a Caixa?
— É.
— Ih, não! Estou adiando o máximo possível.
— Por quê? Parece divertido.
— Divertido? — Scott ainda pesquisa as listas de música de seu computador. — O que há de divertido num projeto que nos força a decidir o que queremos fazer?
— Pode dar certo para você. Já estou tendo algumas boas ideias.
— Eu passo. Tem muito tempo para descobrir tudo isso. Realmente não preciso da pressão. Pensei que você também se sentisse assim.
— Eu me sentia, mas... não acho que seja uma coisa ruim começar a descobrir o que quero fazer da vida.
Scott faz que não com a cabeça.
— Seja lá o que for — diz ele ao computador.
Não acredito que ele não esteja feliz por mim. Ele nem me perguntou o que eu gostaria de fazer! Mas entendo Scott. Somos praticamente as duas únicas pessoas na classe que não sabem qual faculdade ou curso desejam fazer. Estamos unidos pela indecisão. No entanto, me sinto aliviada porque, finalmente, tenho uma ideia sobre o que eu quero ser, apesar de ainda não saber exatamente o que é. Ao nosso redor, todos giram num redemoinho de atividades, enquanto nós estamos juntos, empacados no mesmo lugar. Há algumas semanas, todos eles se transformaram nessas aberrações acadêmicas da natureza, nervosos com as dissertações para requerimentos e preocupados porque, talvez, não consigam a primeira opção de faculdade. À certa altura, parei de sentir pena deles e comecei a invejá-los.
Como todas as outras pessoas podem saber exatamente para onde suas vidas estão indo? Será que todas tiveram uma epifania e somente Scott e eu perdemos? John escolheu um programa especial de trabalho social em uma faculdade que não avalia através de notas. Sadie quer ser professora de ensino fundamental, e ela será muito boa nisso. Ela consegue entrar onde quiser.
Pode ser que esta seja a resposta que procuro. Esperar minha vida real começar não é desculpa para desperdiçar a vida que tenho no momento. Só estou com Scott porque assumi o controle da minha vida e a modifiquei para conseguir realizar as coisas que quero. Eu mesma criei essa mudança. Por que não posso fazer a mesma coisa para descobrir qual carreira seguir?
Quando Scott se aproxima e deita em cima de mim, paro de pensar.
Nosso relacionamento pode não ser tudo o que quero, mas, quando estamos juntos assim, tudo é perfeito. Aqui e agora — só isso que importa.